“O mal-estar na cultura” Por Abrão Slavutzky

Fernand-Anne Piestre: Caïn – Museu d’Orsay

É um espanto a beleza da natureza, das artes, das invenções científicas, convivendo com a violência e a crueldade. Somos chamados de homo sapiens, na Bíblia está escrito que fomos feitos à imagem e semelhança divina. Entretanto, somos também o homo demens, em que a loucura da sociedade é desconcertante. Portanto, é difícil explicar como o homem é sábio e louco.

Será que o livro O mal-estar na cultura – escrito por Sigmund Freud – poderia ainda hoje nos clarificar sobre o que ocorre com nossa pobre humanidade? Com pouco mais de sessenta páginas, é seu livro mais lido, traduzido e sinistro, segundo Elizabeth Roudinesco em seu recente livro Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo. Nessa biografia, consta que o títul o inicial seria A felicidade e a cultura, depois o primeiro psicanalista da História pensou em Infelicidade na cultura. Finalmente, optou pelo título enigmático O mal-estar na cultura.

Ao concluir sua obra, escreveu à sua amiga Lou Andreas-Salomé que havia escrito sobre a civilização, o sentimento de culpa e a felicidade. Como se verá em seguida, não destacou na carta a poderosa pulsão de morte. Não estava satisfeito com seu ensaio, pois parecia estar sendo repetitivo com conceitos já desenvolvidos em obras anteriores. Confessa que escreveu porque se sentia entediado nas férias e não podia passar o dia fumando, jogando cartas ou lendo. Sua pergunta ao longo do livro é para onde vai essa cultura da qual o homem está orgulhoso. Em 1931, acrescenta ao livro uma pergunta final: mas quem pode prever o desenlace? Desenlace entre o desenvolvimento cultural por um lado e, pelo outro, a pulsão de agressão e autoaniquilamento. Escreve que poderá haver um extermínio de uns contra outros até o último homem. Talvez o velho Freud estivesse pessimista, mas a pergunta final foi incluída após a crise capitalista de 1929 e o início da ascensão do nazismo. Freud estava sombrio numa Europa sombria.

O livro O mal-estar na cultura segue vigente quase noventa anos após ser escrito? Vejamos, brevemente, seus temas básicos. No primeiro capítulo, Freud dialoga com seu amigo escritor Romain Roland sobre o sentimento oceânico e critica a religião e suas ilusões. Depois constrói uma metáfora de como é o inconsciente a partir da geografia e da história da cidade de Roma. É um capítulo que obriga o leitor a ter uma certa paciência com os conceitos de Psicanálise que ele utiliza. Retoma então seu livro O futuro de uma ilusão no qual Interpreta as necessidades religiosas como derivando do desamparo infantil. Quando somos crianças, somos amparados pelos pais, quando esses nos parecem poderosos, fortes, porque são idealizados. Depois crescemos e precisamos de amparos para substituí-los, e a religião brinda o Todo-poderoso que ampara. O desamparo, como se verá, será um dos motivos principais de O mal-estar na cultura.

As raízes de nossos sofrimentos são três: 1) o corpo, que é vulnerável, destinado ao final a sua dissolução; 2) as fúrias do mundo exterior que podem se abater sobre nós; e 3) os vínculos com outros seres humanos. Precisamos para sobreviver da vida em sociedade que nos gera mal-estar, pois somos ambivalentes, amor e ódio convivem em cada um de nós. Faz referência às drogas que aliviam os sofrimentos, gerando intoxicação. Destaca os caminhos criativos de evitar os sofrimentos, como a sublimação das pulsões atravé ;s das artes. A felicidade que se sente diante da beleza das formas e dos gestos humanos, dos objetos naturais como as paisagens, criações artísticas e científicas. Freud chega a dar conselhos de autoajuda: assim como o comerciante precavido evita investir todo seu capital num só lugar, poderia ser dito que a sabedoria da vida aconselha a não esperar toda a satisfação de uma aspiração única, pois o êxito nunca é seguro. Ou seja: idealizar alguém ou algo gera decepções. Indaga sobre a felicidade que seria evitar os sofrimentos, mas a sociedade é insuficiente. São insuficientes as normas que regulam os vínculos recíprocos entre os homens na família e no Estado. Então, define o que é cultura: “é a soma de operações e normas que distanciam nossa vida de nossos antepassados animais e que servem a dois fins: a proteção do ser humano frente à natureza e a regulação dos vínculos recíprocos entre os homens”. A substituição do poder do indivíduo pelo da comunidade é o passo cultural decisivo.

Questiona a famosa frase que manda o homem amar o próximo como a si mesmo. Então, assegura que “o ser humano não é um ser manso, amável”, mas sim é dotado de um poder pulsional agressivo. O próximo é uma tentação para explorar sua força de trabalho, usá-lo sexualmente, roubar-lhe seu patrimônio, humilhá-lo, martirizá-lo e assassiná-lo. Frases assustadoras, mas que ocorreram ao longo de toda a história humana, como recorda Freud ao escrever sobre as invasões bárbaras, Gengis Khan, as cruzadas e os horrores da Guerra Mundial. Depois da morte de Freud se desenvolveria a Segunda Guerra Mundial, com os campos de extermínio, onde suas irmãs seriam mortas. E nesses tempos não se conheciam ainda os milhões de mortos durante o trágico estalinismo. Depois da morte de Freud, como se sabe, viriam as guerras imperialistas e as ditaduras militares com torturas e assassinatos. E nessa linha acrescentaria as violências de gênero, as violências cotidianas que crescem a cada ano.

A seguir, no ponto V do livro, Freud se refere aos comunistas que acreditavam, na época, terem achado o caminho para a redenção do mal. Pensavam um ser humano bom, e a propriedade privada era a origem de todo mal. Se a propriedade privada for cancelada, pode ser bom escreve Freud, mas a agressão não foi criada por ela. Esclarece que as crianças são agressivas e os homens não perdem seus desejos de poder e de hostilização. Poucos anos após, Freud volta ao tema em “Uma concepção do Universo” nas Novas Conferências de Psicoanálise, e novamente faz essa crítica ao comunismo. Na primeira leitura que fiz discordei de sua opinião política, mas algo do que ele escreveu é verdadeiro.  Acrescentaria a vaidade e a excitação de usar e abusar do poder. Somos humanos, demasiadamente humanos. Entretanto, creio que Freud negou demais o mal do nazismo, sua indiferença à política fez mal a ele e à História da Psicanálise. Felizmente, uma porcentagem de psicanalistas, há muito tempo, percebeu que ao sermos humanos devemos defender os valores da democracia, da liberdade e da justiça social. Manter, enfim, a rebeldia de pensamento que norteou tanto Freud como muitos de seus seguidores.

O mal-estar na Cultura tem sua origem na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) que mudou a história do mundo e a forma de pensar de Freud. Já em 1920 escreve Mais além do princípio do prazer, que introduz a poderosa Pulsão de Morte. Destaca ainda a compulsão a repetição e o caráter conservador da vida pulsional. Expõe que as manifestações das Pulsões de Vida, que chama Eros, são mais evidentes e chamativas, mas as Pulsões de Morte – Tanatos – são mudas dentro do ser vivo. Assegura então que a inclinação agressiva é uma disposição pulsional autônoma, originária, do ser humano. E conclui que a cultura encontra aí seu obstáculo mais poderoso. Parêntesis para girar a câmera em direção ao último capítulo do melhor livro de Edgar Morin, que é Meus Demônios. Escreve o quase centenário francês sobre a crueldade do mundo ao final do livro. Em quatro páginas expõe como a crueldade é constitutiva do universo e que o ser humano tem um movimento ruidoso de monstros que ele libera em ocasiões favoráveis. O ódio arrebenta por nada, e, como o egoísmo, o desprezo, a indiferença, a desatenção sucede em toda parte. Lembra ainda das voracidades impiedosas e conclui que a pior crueldade do mundo e o melhor da bondade do mundo estão no homem. E poderia citar outros como Walter Benjamin, Jacques Derrida, todos se referindo à tendência destrutiva da nossa pobre condição humana.

No ponto VII de O mal-estar na cultura, Freud se refere à perda do amor do outro de quem se depende, e como é gerado o sentimento de desproteção, isso é o desamparo. Nada mais assustador que perder o amor do outro e enfrentar a solidão total. O sofrimento devido ao sentimento de culpa que volta como questão no final do livro. No inconsciente não há sentimentos, por isso Freud substitui essa expressão por necessidade de castigo. Sim, somos masoquistas, quantas vezes buscamos o sofrimento como fo rma de ser punido. Aí se unem tanto o erotismo da pulsão de vida como a pulsão de morte junto ao poderoso Supereu que nos maltrata por pecar ou desobedecer. Ser castigado é melhor que se sentir desamparado.  Em outras palavras: a arte de viver é uma arte difícil, alguns conseguem viver bem, apesar das tensões sociais, conquistam a liberdade. Aliás, no segundo capítulo do livro há uma referência explícita à arte de viver na qual o amor, amar, ser amado seria o ponto central dessa arte. Junto ao amor o gozo da beleza que gera um efeito embriagador. Talvez Freud tenha escrito O mal-estar na cultura para que sejamos menos ingênuos e também nos contar um pouco de como viver melhor. Recordo que pensou na felicidade como título inicial do seu livro. E escr eveu para aliviar as suas angústias e as nossas ao buscar entender, mais uma vez, a difícil condição humana.

Já escrevi que a última pergunta do livro feita por Freud foi: quem pode prever o desenlace? Boa pergunta para começar uma longa conversa entre nós todos. A verdade é que não vivemos em tempos de luzes, mas sim em tempos sombrios. Vivemos tempos de crise europeia, a fome na África, guerras no Oriente Médio, autoritarismo nos Estados Unidos.

Freud escreveu a seu amigo escritor Arnold Zweig que estamos caminhando para tempos ruins. Assegura que devia ignorar com sua apatia da velhice, “mas não posso deixar de ter pena de meus sete netos”. Freud sabia que sua vida estava no fim, não idealizava mais o ser humano a quem dedicou sua vida. Mapeou como ninguém a alma, que em grego é psique. Daí a palavra Psicanálise, onde análise é a decomposição das formações do inconsciente, que expressam os desejos inconscientes.

No Mal-estar na Cultura se expressa o masoquismo que perpassa a psicopatologia. Já em 1924 no seu Problema econômico do masoquismo, destaca que a tendência ao sofrimento constitui o ser humano. O masoquismo é também uma dependência de outro que goza nossa dor e assim nos afastamos da solidão do desamparo.

Tudo que podemos fazer diante da crueldade é suportar o desamparo junto aos demais. Resistir através das palavras, das danças, das artes, das amizades, das piadas. Precisamos, diante do mal-estar na cultura, fortalecer nossos laços amorosos para juntos resistirmos. Bons desafios temos pela frente. Vamos à luta, a esperança existe se for construída. Lembremos, finalmente, a rebeldia de Wally Salomão: criar é não se adaptar à vida como ela é.