Sobre pessoas que matam formigas – Por Roberto H. Amorim de Medeiros

Há pessoas que matam formigas.

Não me refiro àquelas que incineram ou dedetizam formigueiros enormes que infestam suas cozinhas ou que comprometem os alicerces de suas residências. Refiro-me àquelas que ao avistarem uma formiga passando perto de seu pé a pisam, sem muito motivo a não ser o ato incontinenti da pisada.

Por que o fazem, já pensaram? Seria pelo mesmo traço de ansiedade que nos faz estourar bolhas de plástico compulsivamente em presença delas? Ou seria pelo prazer da crocância que o ato de fazer pressão no corpo da formiga contra chão proporciona?

Ambas seriam puras denegações de um propósito que, se pudesse ser imediatamente confirmado pela conscientização de quem costuma praticar a matança de formigas, precisaria muito energia psíquica para considerá-lo apenas prosaico.

Minha melhor hipótese recai sobre aquilo que alguns autores e autoras, como Butler, classificam de “vidas que podem ser matadas”. Os banidos, os sujeitos de vida nua, como nos ensina Agamben. Trata-se dos indesejáveis de uma sociedade, como por exemplo, aqueles que não trabalham, não produzem (na verdade, o que está em jogo aí é que não consomem tanto quanto se desejaria, para azeitar a máquina do mercado).

A formiga seria uma vida que pode ser matada, que não fará diferença. Então, quem se importa? Você mata uma e logo outra aparece, para seguir o jogo. Quem se importa por uma formiga? Quem vai preso se matar uma delas? Aliás, quem se interessa por uma formiga?

Porém, o caso da formiga como vida “matável” traz um paradoxo. A formiga simboliza em nossa cultura o trabalhador, o trabalho, a previdência, a força de vontade. A parábola da cigarra e da formiga é exemplar para a moral que organiza a sociedade pós-revolução industrial. Inclusive o campo científico da biologia reforça a metáfora que organiza a sociedade contemporânea no capitalismo tardio, pois o formigueiro é uma perfeita empresa com hierarquização e racionalização do processo de trabalho. Até a referência imperial, para quem gosta, encontramos nesta sociedade quase perfeita que se chama formigueiro.

Sendo assim, o discurso que organiza a sociedade capitalista deveria produzir um respeito inestimável pelo simbólico que representa a formiga. Trabalhadora, produtora, obediente à hierarquia social, higiênica, incansável, previdente (sempre pensando e se preparando para os percalços do futuro), não propensa a reivindicações, nem exigente de leis trabalhistas. Possuidora de todos os valores que o mercado de trabalho necessita para subsistir e a sociedade valorizar.

Por que pessoas matam formigas? Por que é uma vida matável, se representa tudo que o discurso social aparenta valorizar sob o conceito de meritocracia? Por que a formiga, afinal? Por que não uma barata, improdutiva e parasita?

Aí, nos damos conta de que o elogio sobre a pessoa que trabalha, se esforça, sustenta o sistema, é apenas um discurso vazio. Não organiza valores de um laço social verdadeiro. O valor está naqueles pouquíssimos (Eleitos? Escolhidos?) que usurpam e acumulam o que o trabalho de muitos produz. Estas são as vidas valorizadas pela moral contemporânea. O trabalhador é uma massa disforme e anônima de formigas. Mata-se um, vem outro. É uma vida matável. A outra, não. Sua vida é regida por todos os direitos e a maioria dos privilégios garantidos, inclusive, pela lei que não está escrita, mas todos conhecem: a do $.

A formiga é pobre. Esforçada, mas para sempre pobre.

Quem mata formigas o faz pelo mesmo motivo que assume – nem sempre de modo consciente embora às vezes ingênuo – e dá materialidade ao fato de que nem todas as vidas valem o mesmo. Algumas se pode matar.

No fim das contas, uma conclusão possível: quem mata formigas não tem muito apreço pela vida humana…

(… em tempo: quem mata formigas, quase sempre tem medo de matar baratas).

Formigas. Foto: reprodução.

 

Roberto H Amorim de Medeiros: psicanalista, professor do PPG Psicanálise: Clínica e Cultura, da UFRGS.