NOITES DE TERROR EMBALAM SONHOS DE MILHÕES. Iza Maria de Oliveira

Povo no poder. Imagem reprodução.

Neste momento da história brasileira, mais do que em qualquer outro, se faz necessário percorrer testemunhos do tempo da chamada “ditadura”. No Brasil foi nomeado assim, enquanto em outros países foi dado à devida nomeação: “Crimes de Estado”. Filmes e livros não nos deixam mentir sobre aquela barbárie que volta a nos assombrar. “Pra Frente Brasil (Dir. Roberto Farias, Brasil, 1982) é uma das obras máximas em que mostra que todos pagam o preço da barbárie, e tantos morreram para termos voz que, hoje, milhões gritam para sufocá-las. A tese de Vladimir Safatle é eficaz acerca de razões pelas quais o fascismo toma conta de nossa ‘terra brasilis’: há um retorno do recalcado do período ditatorial brasileiro (https://apublica.org/…/quando-voce-nao-acerta-suas-contas-c…). Não fizemos a devida crítica. Não mostramos com radicalidade às barbáries em nosso solo. Minha filha me perguntou o que eu estudava em Moral e Cívica, não lembrava. A Comissão Nacional da Verdade acabou chegando quase três décadas após a Constituição Brasileira. E muitos ficaram impunes aos seus crimes, como os do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, falecido em 2015.
Este gaúcho de Santa Maria escreveu “A verdade Sufocada” (
https://drive.google.com/…/0B4JmN3hNgh0QRjRoRHM2UnlIR…/view…
). É o livro de cabeceira de um dos candidatos à presidente da República, cujo autor fora enaltecido no seu voto a favor do impeachment da Presidente Dilma Roussef.
Talvez aquelas 600 páginas deveriam ter sido leitura obrigatória para todos nós. Até agora, nas páginas que tenho percorrido, fica evidente o quanto ele sabia sobre a esquerda, talvez mais do que muitos da própria esquerda sabem hoje. Mostra o quanto estavam inteirados, liam sobre a esquerda, ele cita, por exemplo, sua leitura do livro “Combate nas Trevas”, do historiador Jacob Gorender (p. 111). O golpe de 1964 foi uma tomada de poder apoiada pelas massas e pela imprensa, reitera Ustra, e não cessa em trazer recortes de jornais da época que evidenciam isso.
Acompanhar uma leitura do horror, concebo somente ser possível pelos anos de divã, enfrentando pesadelos e sonhos que me acordaram; assim, fui constituindo recursos para tanto, não sem registros do conforto materno como um chá de macela, sempre alcançado por minha mãe para ajudar na digestão. Uma formulação de divã, ressoa: não poder saber, não querer saber, não conseguir saber são condições para um prato cheio ao retorno daquilo que é necessário saber: a capacidade do humano, por vezes, de ser cruel, demasiadamente desumano.
Ustra era um homem de fala mansa, quase tímido, de riso retraído. Exímio estudante. Vinha de uma ‘família normal’. A decisão de entrar no exército também se deveu ao fato de vingar a morte de seu tio, morto na Coluna Prestes. Esse homem foi capaz de praticar atrocidades como torturar uma mulher diante de seus filhos pequenos, quando comandou o DOI/CODI/ II de 1970 a 1973.
“A verdade sufocada”. Não por acaso essa palavra “sufocada” está colocada no título. Entendiam e entendem muito de sufocação, asfixiação. Páginas que testemunham o porquê tantos brasileiros escolheram e escolhem essa verdade embalando seus sonhos em noites de terror.

Iza Maria de Oliveira. Psicanalista, Cronista, Doutora em Psicologia (PUC-SP)

 

Referência de imagem:

Abaixo a ditadura. Imagem reprodução. Disponível em https://www.revistaforum.com.br/a-passeata-dos-cem-mil-e-seus-herois-nas-fotos-de-evandro-e-em-um-poema-de-drummond/ Acesso em 23/10/18.