“Até Pitbull tem medo da morte”, Por Jaquelina Maria Imbrizi

“Até Pitbull tem medo da morte “

Jaquelina Maria Imbrizi –

professora adjunta da universidade federal de São Paulo – Campus Baixada Santista

 

A narrativa que durante muito tempo floresceu no meio artesão – no campo, no mar e na cidade –, é ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação. Ela não está interessada em transmitir o “puro em si” como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso. (Walter Benjamin)

Qual é a droga que produz vergonha, medo, angústia e culpa no sujeito que a usa? Nenhuma, não é? Buscamos as drogas justamente para que o efeito delas em nossos corpos e mentes seja o de obliterar esses sentimentos, afetos e emoções. E do que temos mais medo nesta vida? Segundo Sigmund Freud (2010a), é o medo de perder as pessoas que são referências de apoio para nós: a morte dos entes queridos. Nós temos medo também é de perder a nossa própria vida, para o psicanalista um acontecimento traumático está sempre relacionado com o terror, que se diferencia do medo e da angustia, pois, a sua característica é enfatizar o fator de surpresa que se refere aos riscos de vida para o sujeito (FREUD, 2010c). Ou seja, o terror está relacionado ao susto decorrente de se estar sob ameaça de perder a própria vida. O medo se refere a um objeto bem delimitado e a angústia diz respeito à certa proteção do organismo frente situações de perigo que não estão muito claras, mas que, mesmo assim, nos preparamos para elas como se disparássemos uma angústia sinal que pudesse nos proteger do perigo. Assim, o título de nossa narrativa “até Pitbull tem medo da morte” diz respeito ao fato de que como todos os mortais temos medo, seja da finitude de nossa própria vida, seja de perder entes queridos que estabeleceram conosco laços afetivos que puderam produzir o sentimento de pertencimento e acolhimento em um determinado laço social e/ou grupo.

Pois é, se você teve um dia a coragem de se perguntar como inicia a história de alguém que “escolhe” viver na rua, é esta história que eu vou te contar… O apelido Pitbull foi atribuído ao nosso narrador por colegas e amigos que conviveram com ele nas vias do Canal 4 da cidade de Santos, o dinheiro para a barrigudinha (a pinga que custa um real) e para o cigarro é conquistado em troca do suor que exala e respinga nos serviços braçais que esses sujeitos oferecem aos donos dos comércios ambulantes que sobrevivem de vender produtos alimentícios na praia: empurrar o carrinho com os materiais, montar e desmontar a barraca e até ganhar o almoço do dia… assim, o apelido Pitbull vai adquirindo forma por causa da destreza e rapidez do nosso narrador em carregar objetos pesados e empurrar os carrinhos de mão das vias do Canal até a praia e em ajudar na montagem das barracas. Sim, é um homem de quarenta e poucos anos, parrudo (como diz lá nas Minhas Gerais), pele morena (já queimado pelo sol santista) e a cor dos olhos se aproximam de um verde amendoado (que traz orgulho para o corpo que os carrega). Sim, sua história começa assim, pelo hoje, uma quinta-feira do mês de novembro do ano de 2017. Ele também é chamado de Treme pelos colegas que compartilham a vida na rua com ele… só porque, segundo os comparsas, ele não dá a devida atenção para a moça que trabalha na função de guarda municipal que até já propôs a possibilidade de casa, comida e roupa lavada para ele. A jovem já disse até que ser morador de rua é algo provisório na vida de uma pessoa, se quisesse mudar de rota e olhar para ela… que nada, ganhou mesmo foi mais um apelido, porque não se interessa por casamento ou por belas moças que circulam pela cidade e que se atentam para a beleza dos olhos dele. Mas para esta narrativa de história de vida que contarei aqui para supostos leitores, ele será o Pitbull e não o treme.

American pit bull terrier – que é o nome científico para a raça de cães, que inspirou seu apelido para os parceiros de vida na rua – “escolheu” estar nesta situação há mais de dez anos e veio de ônibus diretamente para a região da Baixada Santista, a princípio queria encontrar um emprego como açougueiro. Porquê? Como? São questões de difícil resposta que se transformam em enigma ao olhar e escuta da professora do Eixo Comum Trabalho em Saúde, da Universidade Federal de São Paulo – Campus Baixada Santista. Aqui transformada em narradora da história de vida de Pitbull… no decorrer falarei sobre o fato de tornar-me escrevinhadora… A morte é um enigma para todos nós, e não há como registrar essa experiência, no nosso inconsciente… cada um reage as perdas dos seus entes queridos a seu modo, com os recursos subjetivos, afetivos, familiares, institucionais e sociais que têm no momento do ocorrido, alguns dizem que a elaboração de um luto pode durar 18 meses, seria o prazo viável antes que este afeto seja considerado, e se transforme, em melancolia e aí uma vida inteira é pouco para o processo de elaboração e superação da dor quando uma pessoa perde um ente querido. O que perdemos? Não só o objeto ao qual direcionávamos o nosso amor, mas também o lugar que ocupávamos no laço de carinho, pertencimento e afeto que construímos com a pessoa que morreu. Parece ser este o elo supostamente perdido do nosso narrador: não suportou conviver com a ideia da morte e tudo aquilo que a pessoa que desapareceu significava em sua própria vida.

Quem morreu na vida de Pitbull foi seu pai, quando soube do falecimento deste ente querido, entrou no primeiro bar que viu na sua frente e pediu doses de pinga uma atrás da outra e não parou mais… A profissão de nosso narrador era a de açougueiro e segundo conta, tinha uma situação financeira estável antes do falecimento do pai… era casado, e estava em uma união tranquila e sem muitas turbulências com uma moça que conheceu na adolescência e nesta época começaram a namorar. O casal teve seis filhos, Robert, Willian, Ricardo, Roger, Pedro e Henrique, o mais velho tem 31 anos e todos já estão casados. Pergunto para o nosso narrador se ele sente saudades de seus familiares, ele diz que não… faço a questão assaz capciosa sobre se tem vontade de conhecer seus netos e rever seus filhos e a resposta vem peremptoriamente, diz que não… balançando a cabeça negativamente. Ao que tudo indica, e segundo os sentidos que ele atribui aos acontecimentos, a morte do seu pai e a descoberta de que os filhos estavam se envolvendo com drogas, de bebida alcoólica até crack, e a condescendência de sua mulher no trato com este tipo de deslize na vida dos adolescentes, fez com que ele também se entregasse à bebida para obliterar sua angústia face à finitude da vida e a raiva frente a fragilidade de seus filhos que se deixaram seduzir pelas diversas substancias psicoativas que entraram em suas vidas. A única reação possível, do bravo Pitbull, foi virar as costas para tudo e ir embora, o açougue, os amigos, o trabalho, a mulher e os filhos… agora os netos… ele descreve a expressão de assombro de sua esposa e sua irmã frente ao seu desatino diante da injúria que pode significar nos deparar com a finitude da vida de um ente querido. O que ele perdeu? Pode ter sido a relação de carinho e companheirismo que tinha com seu pai, pode ter sido certa idealização na relação com os filhos e suas expectativas de realização pessoal projetada na vida dos filhos e de seu imaginário do que seria um futuro promissor para eles. Porém, a inusitada e plausível solução que ele encontra para resolver estes impasses é a de beber compulsivamente e colocar a própria vida em risco; abandonar territórios geográficos e afetivos, portos aparentemente seguros para se lançar na cidade portuária da região da Baixada Santista. Pergunto como era a relação dele com o pai, cujo impacto da perda o fez jogar tudo para o alto? Foram estas as circunstancias que os levaram a se tornar um morador de rua? Com olhos um pouco marejados de lágrimas ele responde… a relação era boa sim… simples assim, sem mais detalhes para minha curiosidade que foi aflorada e instigava agora exercitando a minha veia de escrevinhadora de narrativas. Na primeira noite que chegou a região da Baixada Santista dormiu em São Vicente e por estar bêbado, não se recordava de muita coisa, e acordou na praia nu e sem seus documentos de identificação. Condições propícias para se tornar uma pessoa em situação de rua…

Nosso segundo encontro para que Pitbull continuasse a contar sua trajetória de vida foi na quinta-feira, do dia 16 de novembro de 2017, eu estava no refeitório de uma instituição que acolhe pessoas em situação de rua vinculada à prefeitura da cidade de Santos acompanhando os meus estudantes na lida com os encontros e produções de narrativas, ele veio até mim, com seu andador, pois anda não disse ao meu caro leitor, mas nosso narrador tem dificuldades de locomoção devido a um problema nos joelhos que o impede de circular livremente. Chega de banho tomado, perfumado, barba feita e cabelo cortado… olhos atentos e vivos e preparado para retomar o fio da meada de sua história que hoje tem ouvidos atentos para os significados e sentidos que ele atribui para a sua existência. Ele se sentou na minha frente, na mesa da sala do refeitório, estendeu a mão para um cumprimento formal de aperto de mãos e sorriu… dentes claros, todos lá e intactos. Nesse dia, contou-me de outra morte, agora de seu amigo e parceiro, senhor Antônio, dez anos mais velho que ele, e que foi seu fiel companheiro da vida na rua, durante cinco anos. O que mais gostava nas atitudes e na relação que construiu com seu amigo, a zoeira, era animado e tirava sarro de tudo, gostava de forró e ficar com raparigas, uma delas embolsava todo o dinheiro de sua aposentadoria em apenas uma noite. Ele era aposentado da Estiva do Porto de Santos onde trabalhou durante muito tempo. O que fazia com seus rendimentos, além de pagar as raparigas, era gastá-lo com cigarros e bebida. Pitbull diz que seu amigo fumava em excesso, já tinha os dois pulmões estourados e morreu em decorrência de complicações em sua saúde decorrentes de uma pneumonia… conta em detalhes, quase todo o tempo de nossa conversa de mais de duas horas, com descrições minuciosas o que aconteceu nos últimos dias e horas antes do falecimento do seu fiel companheiro… foi o único que acompanhou o enterro e quando perguntado se ele queria ficar com o dinheiro da aposentadoria do amigo, já que este não tinha família e nosso narrador foi seu tutor nos últimos anos de vida deste, reponde que não… o que quer é que ele fique em paz. O que fez depois? Cortou relações com todos os companheiros do Canal 4 e com os donos das barracas… já não tinha mais seu amigo, já não se interessava por ninguém que o conhecia ou que tivesse alguma lembrança sobre a relação de afeto e companheirismo entre os dois. Repete a mesma reação que teve com a morte do pai, corta os vínculos com todos a sua volta, no caso em questão não chegou a mudar de cidade, mas o território do Canal 4 nunca mais foi frequentado por ele. Ocupa agora a região central, depois da linha do trem, região que delimita a cidade de Santos entre o mais distante e mais próximo a área da orla, e como tem dificuldades de mobilidade, está sempre com seu andador e dentro do equipamento da Assistência Social.

Projetos para o futuro? Gostaria de comprar um lugar para morar e até tem um dinheiro que está na poupança e que poderia usar para tal negociação, de vez em quando algum conhecido da rua pergunta se é verdade que ele tem família e filhos e ele diz que sim… e a prosa acaba por aí. Parece que o filho mais velho virá visitá-lo por estes dias aqui em Santos, mas não conta com emoções a flor da pele e sabe que não quer voltar a viver com sua família, mesmo após anos da morte de seu pai e de ter conhecimento de que os seus filhos cessaram o envolvimento com as drogas.

O que a trajetória de Pitbull nos transmite? Algo que importantes autores da Psicologia Social e da Psicanálise têm nos alertado, penso aqui em Henrique Pichón-Rivière, como construir um projeto de vida que inclua a nossa finitude: o nosso caminho irreversível para a morte? Como continuar a tocar a nossa lida cotidiana, sem a culpa do sobrevivente, quando perdemos os nossos entes mais queridos? Aqueles justamente que nos ensinaram a amar a vida e bem ou mal aprendemos a nos deixar ser amados por eles? Como não perder – junto com o lugar que ocupava a pessoa que amávamos e ainda amamos, nos amou e morreu – o nosso sentimento de autoconfiança e de amor próprio? (KEHL, 2012) A professora narradora não tem a resposta, mas ainda não perdeu a coragem de se perguntar frente a frente com esta nova amizade que se prenuncia: o laço afetivo com Pitbull.

Fui convocada a escrever esta narrativa por um acaso, ao acompanhar os meus estudantes que têm como objetivo produzir narrativas de história de vida com os acolhidos em um abrigo para pessoas que vivem em situação de rua, da prefeitura da cidade de Santos. Lá, eu e meus onze estudantes nos deparamos com o fato de que havia mais pessoas que precisavam falar sobre sua trajetória de vida do que estudantes para desenvolver a escuta. Ao contrário de um silencio mortífero (ROSA, 2002) próprio aos sujeitos que viveram acontecimentos traumáticos, deparamo-nos com sujeitos ansiosos para soltar o verbo no encontro com estudantes universitários que vinham de lugares sociais tão desiguais aos seus. Uma fala que busca por uma escuta atenta e diversa daquela oferecida por pessoas vinculadas às ditas ações sociais, assistenciais e religiosas.

Pois, então, a professora que acompanharia, apoiaria e supervisionaria seus estudantes para produzir narrativas de histórias de vida é incitada a também colocar seu corpo, afeto e emoções à serviço da escuta e da escrita. De minha parte, eu penso que desci do pedestal confortável da docente que estava ali para apoiar e supervisionar as atividades desenvolvidas por seus onze estudantes e fui à direção do chão e do barro que o exercício de produzir narrativas ajuda a moldar.

 

Referências Bibliográficas

FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). In: SOUZA, P. C. de (Org.). Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010a. v. 18, p. 13-122. [ Links ]

FREUD, S. Luto e melancolia (1917). In: SOUZA, P. C. de (Org.). Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010b. v. 12, p. 170-194.. [ Links ]

FREUD, S. Além do Princípio do Prazer (1920). In: SOUZA, P. C. de (Org.). Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010c. v. 12, p. 161-239. [ Links ]

KEHL, M. R. Melancolia e Criação. In FREUD, S. Luto e Melancolia. Tradução: CARONE, M. São Paulo: Cosac Naif, 2012.

ROSA, M. D. (2002) Uma escuta psicanalítica das vidas secas. Revista texturas. São Paulo, ano 2, n.2, p.42-47.