Pena de pato não encharca (ou sobre como Bolsonaro não se importa). Por Nathália Meneghine dos S. Rodrigues

O Governo Federal ficou duas semanas sem pagar o auxílio emergencial, provocando importante atraso no pagamento da segunda parcela. Também entram nessa conta da desassistência cerca de 19 milhões de pedidos que não receberam nem a primeira parcela. E, ainda, os trabalhadores de mais de 50 categorias que ficaram de fora da possibilidade de pedir o auxílio, entre eles, os pescadores artesanais, os catadores cooperados de materiais recicláveis, agricultores familiares, taxistas e motoristas de aplicativos.

A renda emergencial básica foi implementada justamente para possibilitar o isolamento físico das pessoas, que é a medida eficaz contra o aumento acelerado de contágio pelo COVID19. Portanto, é sabido que, sem ela, não haverá o isolamento físico necessário.

Assim, com essa estratégia, o Governo Bolsonaro empurra as pessoas para ruas, já que as classes populares não têm reserva financeira para esperar pelo auxílio. Logo, as classes populares precisam sair e irão adoecer.  Não há hospitais suficientes, nem respiradores, nem profissionais da saúde para dar conta do crescimento exponencial dos infectados. Sistema de saúde nenhum do mundo pode dar conta disso. Consequência disso: morte em massa de brasileiros e brasileiras.

O método do Governo Bolsonaro é, claramente, o de uma política de extermínio, higienista. É a necropolítica que escolhe quais vidas importam.

Necropolítica, conceito relacional formulado pelo filósofo camaronês Achille MBembe, diz respeito a forma de subjugar a vida ao poder da morte. O necropoder se exerce decidindo quem vive e quem morre, como vive (criando populações inteiras de mortos-vivos). Seus adeptos exercem sua soberania ditando quem é importante e quem não é.

As condutas perversas do Governo Bolsonaro são bem evidentes, basta escutarmos seus discursos no “cercadinho” ou acompanhar suas medidas provisórias (leram a MP 936 ou a MP 966 ou, ainda, a MP 910?).

Para ser bem recente, o que dizer do pedido feito pelo Departamento Nacional Penitenciário de colocar pessoas em contêineres? Ou do incentivo ao uso indiscriminado de uma medicação que não tem comprovação científica de redução da mortalidade e ainda, substanciais danos colaterais? [1]

Estes dias me lembraram que as penas do pato não ficam encharcadas. Achei uma metáfora incrível para dizer do funcionamento desse (des)Governo Federal: permanecem ilesos. Não recolhem nenhuma consequência a altura de seus atos cruéis. Não exercem nenhuma empatia. Não transparecem nenhuma angústia frente ao sofrimento do povo brasileiro. Não fazem cerimônia frente ao genocídio, não manifestam nenhuma vergonha. Apenas consideram o poder do capital privado.

Diante desse horror, precisamos nos posicionar e defender visceralmente políticas de preservação de todas as vidas. Não sejamos nós também, nem as instituições as quais pertencemos, incólumes, quando estamos no meio de tanta irresponsabilidade e perversidade, que forçam o mergulho do Brasil em sangue e lágrimas. Precisamos colocar corpo e voz nessa luta.

Com um banho de detergente, de “deter essa gente”, o pato afoga!

[1]Para quem se interessar: Dois estudos sobre uso da Cloroquina: JAMA- Journal of the American Medical e The New England Journal of Medical, ambos concluíram que não há redução da mortalidade.