Oxímoros no poder. Por Rosana de Souza Coelho.

“O desejo do líder é a lei suprema”. Esta fórmula comparecia, nos idos de 1939, em todas as normas oficiais que regulavam as condutas dos membros do Partido Nazista (1). Guindada pelas vicissitudes da História, como um letreiro em verde neon ela cintila, e serve de legenda para imagens indigestas do atual cenário político brasileiro. Caberia bem na imagem do Messias discursando, tendo ao fundo ministros-fantoches completamente imóveis (2). A morte do desejo próprio é ilustrada, ali, pelo temor mudo diante da figura de um presidente que sem qualquer inibição entronizou o Eu em rede nacional. Recurso corriqueiro a uma ameaça qualquer – seja ela real ou imaginária -, o reforço do laço entre o Eu e a Lei foi usado à exaustão, denotando o modo megalomaníaco de afirmar a crença fanática no poder do “si mesmo”.

Ao se deparar com questionamentos e conflitos decorrentes do monopólio do saber, Hitler explicou: “Como fator máximo, devo, com toda a modéstia, declarar-me insubstituível. O destino do Reich depende exclusivamente de mim” (3). Em nossas terras, uma versão ainda mais grotesca, e à moda do Rei Luis XIV também teve lugar: “A Constituição sou eu” (4), disse o presidente da república. Sim,  a falta de criatividade de ditadores é deveras ridícula. O conteúdo desses ditos espanta, desconcerta, revolta, mas ao olharmos mais de perto, o seu sentido “grita”: é só estando literalmente no centro do governo, que o líder totalitário pode agir como se estivesse acima dele (5). Por isso, a tentação de considerarmos essas falas somente como falta de capacidade intelectual, de preparo para o cargo ou fruto de uma moral conservadora, pode desprezar o tanto de oportunismo de que se serve a estupidez quando ela ocupa o trono.

Em sua biografia, Hitler escreve que “é melhor ter um programa antiquado do que permitir uma discussão de programa, pois o programa virá por si mesmo quando houver a tomada de governo” (6). Tal dogma populista parece revelar, pelo avesso, que na aparente falta de preparo para o cargo não há falta de saber como conduzir-se no exercício do poder, mas um modo de usar o saber que precisa deslizar ao sabor das circunstâncias, fazendo com que os mais desavisados – leia-se, os mais alienados – acreditem que o líder possui o saber preciso e adequado a cada momento. Sem uma diretriz definida e construída de forma plural, tal saber pode emanar única e exclusivamente do desejo do líder, cai na categoria de verdade absoluta, assim perpetuando a sua aura mágica e mítica.

Como a experiência não cessa de nos mostrar, verdades absolutas são inimigas ferozes do pensamento reflexivo. É por aí que ressoa uma espécie de comunicação supostamente imediata com o povo, uma “comunicação de Ego a Ego” com seguidores, sem a mediação de qualquer outro recurso que faça um papel de terceiro, que possa esburacar dogmas e esgarçar a certeza especular, ou seja, que iniba opiniões e pontos de vista massificados, meros simulacros uns dos outros (7). A Arte e a Ciência são notáveis exemplos de produtos que não são e não pertencem a um único sujeito, mas são “frutos” da Cultura, podendo, portanto, fazer esse papel de mediação na tensão entre saberes. Bingo! para aqueles que vislumbraram aqui um dos motivos da antipatia raivosa com a qual tanto a Arte quanto a Ciência estão sendo tratadas pelo atual governo. No cerne dessa antipatia há uma dimensão ética ineludível.

Toda e qualquer política tem como suporte determinados parâmetros éticos, e me ocorre propor que uma “política de Ego a Ego” é aquela que se serve de uma “ética narcísica”, ética que rechaça qualquer reconhecimento do que ou de quem não espelha os contornos do Eu do líder. Utilizando uma espécie de licença poética, ouso propor que o termo “ética narcísica” poderia ser pensado como um oxímoro, palavra que vem do grego OXIMOROS e quer dizer “acentuadamente tolo”, composição de OXUS,“intenso, agudo, penetrante”, e MOROS, “tolo, estúpido”.

Oxímoro designa uma expressão composta por palavras de sentido contraditório, isto é, uma contradição entre termos, como, por exemplo, “silêncio ensurdecedor” ou “mentiras sinceras” (8). A expressão “ética narcísica” poderia funcionar como um oxímoro, porque o termo éticaimplica, obrigatoriamente, o encontro e/ou o embate entre o Eu e o outro. Sozinha, eu posso alta, magra, feia ou bonita, mas só posso ser ética na relação com o outro. Logo, é nessa relação que aparecem os parâmetros éticos que guiam as minhas ações e nas quais, obviamente, o meu desejo é explicitado. Uma “ética narcísica” é aquela onde o desconhecimento do valor e do desejo do outro que não comunga dos mesmos dogmas é levado às últimas consequências e tratado pelo Eu com o mais radical desprezo, uma ética que, estupidamente, pretende se estabelecer sem o reconhecimento da alteridade. Por aí temos uma boa pista do que move a perseguição àquele ou àquela que não frequenta a mesma paróquia que os Messias.

Uma cena do belo e sensível filme “Jojo Rabbit” ilustra, com inteligente humor, o desconhecimento paranoico que o Ego tem de tudo que é “não Ego” (9). Depois de ouvir de seus superiores que judeus são pessoas diabólicas, com direito a chifres, rabos pontudos e vidas promíscuas, Jojo, um menino de dez anos que tem Adolf Hitler como seu amigo imaginário e é membro da Hitlerjugend (Juventude Hitlerista), pede à jovem judia Elsa que ela desenhe como são os judeus e onde eles vivem. Enquanto conversam, Elsa desenha o rosto de Jojo de forma caricatural e embaixo escreve a palavra Dummkopf (tolo, em alemão). Ao receber o desenho, Jojo, muito aborrecido, diz que pediu para desenhar onde os judeus vivem, mas ela fez apenas uma imagem estúpida da cabeça dele. Elsa responde: “Sim, Jojo Rabbit, é aí que nós vivemos”. No filme, o anseio de Jojo por tornar-se um membro do Partido Nazista é abalado pela sua recusa em matar um coelho durante um treinamento. Ele deixa o coelho fugir e é ridicularizado pelos colegas que o apelidam de Jojo Rabbit (coelho, em inglês). Incorporada ao seu nome, tal alcunha passa a significar uma falha bem vinda, o leva a questionar sua adesão ao nazismo e abre o caminho para que ele experimente “borboletas no estômago”, signos de sua paixão pela jovem judia. Abertura para reflexões em direção a novos mundos, inspiração que relança novos pensares, tanto a linguagem quanto a ficção comparecem como férteis companhias ao árduo trabalho político de agir e resistir, com palavras e atos, a desejos acentuadamente estúpidos de M(Eu)ssias e R(Eu)ginas, que pensam poder nos reduzir à fumaça que desaparece no ar depois que eles soltam seus pestilentos puns.