“As pautas do retrocesso: americanos elegem Trump mas o mundo ainda não acabou”

Editorial Psicanalistas pela Democracia

pormaispontesemenosmuros
#pormaispontesdoquemuros. Frase de Isaac Newton. Imagem em circulação na internet no dia de hoje.

Se as pautas totalitárias, exclusivistas, fóbicas ganham fôlego no mundo inteiro isso se deve, em parte, ao fracasso dos sistemas de representação, da suposta sabedoria do voto, da crença nas eleições livres como ponto de chegada e prova da existência de democracias consolidadas. A democracia representativa, hoje sabemos, jamais poderia ser ponto de chegada do dinamismo que as democracias, para sobreviverem, deveriam exigir.

Ela tem o dever de avançar para o seu sucedâneo lógico: a democracia direta. Isso porque os sistemas representativos estão viciados em todo o mundo. Formaram cartéis de interesses escusos, balcões de negócio, meio de consolidar a pilantragem organizada em nome de interesses particularistas e negociar apoios, interferências e reorganizações do sistema jurisdicional a peso de ouro.

O termo político profissional, aquele que ambiciona e se apronta para o poder, quer apenas dizer, retomando Jacques Rancière, aqueles que são os mais inaptos ao poder, justamente porque o pleiteiam para atingir benefícios próprios. Essa ambição tem sucessivamente, direta e indiretamente, comprovado nas urnas sua flagrante verdade numa escalada sem precedentes.

Trata-se do discurso tirânico que erige totens por toda a parte: ‘Farei por mim, porque sou e penso assim. Me sigam e serão beneficiados. Se coloquem contra mim e sofrerão as consequências.’

Assim é eleito o novo presidente americano, com uma anti-plataforma que dinamita o sentido público de um cargo político.

Há muito se previa que, num determinado momento histórico, o aprofundamento escandaloso das desigualdades iria implodir o planeta. Esse momento chegou e está acontecendo em todos os lugares. Os pobres passaram e passarão a invadir fronteiras entre cidades, entre países porque entre a morte e a possibilidade de sobreviver a escolha é óbvia: corre-se o risco.

A desigualdade colapsou o mundo e a resposta dos eleitores tem sido desgraçar  países conduzindo pelas urnas a propostas totalitárias, discursos pantomímicos, aprofundamento das desigualdades e proteção aos que jamais estiveram nos escalões onde se morre todos os dias por inanição, homicídio, tortura, sede, tristeza e dor.

Voltamos à estaca zero  num ambiente onde as violências não apenas passam a ser autorizadas, mas explicitamente convocadas para controlar as multidões de insatisfeitos, cujos sofrimentos se agravam e se aprofundam sob formas nunca vistas.

Para os pobres das periferias das cidades, para  os ameaçados em seus próprios países vale qualquer sacrifício, qualquer humilhação, qualquer ousadia simplesmente porque querem sobreviver e querem que as pessoas que amam também sobrevivam.

Essa vontade extraordinária e desesperada de continuar vivo nenhum totalitarismo poderá derrubar. Haverá sempre milhões tentando invadir as fronteiras em direção a lugares onde a vida parece possível e melhor.

Construir muros, barreiras e abater a tiros os que tentam atravessá-las é a retomada de estratégias de feudalização medievais, coloniais, escravocratas que, psiquicamente jamais ultrapassamos, e os votos dedicados ao Brexit, a Trump, a Marie Le Pen, Andrzej Duda, Viktor Oban, Macri  e o recrudescimento hoje do golpismo latino americano de ontem não deixam dúvidas sobre isso.

Freud já comentara em seu conhecido texto, no contexto da primeira guerra, que a civilização jamais caiu tanto, porque jamais havia se erguido tanto quanto imaginávamos ou como gostaríamos. Há séculos giramos em torno do eixo incluir-excluir; integrar-eliminar; amigos-inimigos; guerra-paz e esse simulacro categórico que mata o pensamento, mata também pessoas.

Bauman sinalizou que as dicotomias são a morte do pensamento porque instruem ações reativas(reacionárias) diante de problemas que exigem inteligência e ética mínima compartilhada. As dicotomias estão sendo convocadas e perfiladas como um exército de verdades prontas, infensas à crítica e ao pensamento. Basta colocá-las no bolso e sair por aí atacando pessoas. É o pensamento, a crítica o argumento que estão sendo ridicularizados e substituídos pela reação.

Em seu comentário no Washington Post Dan Bals comenta sobre a vitória eleitoral de Trump e o futuro dos EUA¹:

“Na melhor das hipóteses, isso pode produzir uma conversa em que diferentes lados colocam atitudes sinceras sobre o que torna a América a grande nação que era, é e será. No pior dos casos, pode dar voz ao racismo e à misoginia, ao anti-semitismo e ao fanatismo religioso “.

Na melhor das hipóteses os americanos poderão dialogar sobre os destinos do seu país, na pior, uma onda destrutiva ameaça invadir a América protagonizada pelos próprios americanos. Proporcionalmente o pior é muito mais destrutivo do que o melhor, construtivo.

As eleições americanas consagram a certeza de uma jornada tensa, difícil em que os restos do traumático reencontram em discursos fascistas caminhos para seu retorno enfático. Não há planos, projetos, perspectivas apenas desejos que podem ser convertidos em ações imediatamente. O traumático retorna ao discurso não como linguagem, mas como coisa morta, putrefata que o discurso político se propõe a armazenar e usar. Letter convertida em litter, como sugere Lacan.

Prevendo um futuro de medo o  editorial do The Guardian destaca²:

“O medo final, no entanto, é para o mundo. A vitória de Trump significa incerteza sobre a estratégia futura da América em um mundo que há muito confia nos Estados Unidos para a sua estabilidade. Mas a capacidade de desestabilização do Sr. Trump é quase ilimitada. Suas políticas militares, diplomáticas, de segurança, ambientais e comerciais têm a capacidade de mudar o mundo para pior. Os americanos fizeram uma coisa muito perigosa esta semana. Por causa do que fizeram, todos enfrentamos tempos sombrios, incertos e temerosos.”

Se metade das promessas de Trump durante toda a campanha for convertido em ação e estratégia de governo, pilares inteiros da democracia americana virão abaixo. Como nos lembra o editorial de hoje do Washington Post³:  

“Não podemos fingir otimismo de que o Sr. Trump irá, de repente, dar respostas mais racionais a esses problemas do que ele ofereceu na campanha, nem que ele irá descobrir alguma disciplina ou sabedoria que ele ainda teria para mostrar. Ao longo de sua campanha, o Sr. Trump falou sobre o encarceramento de Hilary Clinton, sobre processar mulheres que o acusavam de investidas sexuais não consentidas, sobre neutralizar o presidente da Câmara e revogar as liberdades da imprensa. Num artigo do Times, ele mencionou a criação de um super PAC dedicado à vingança política. Ele prometeu deportar milhões, arrancar acordos comerciais, aplicar testes religiosos e sabotar os esforços internacionais para combater as mudanças climáticas, cada um dos quais prejudicaria muitas pessoas.”

Podem ser promessas inexequíveis-as instituições democráticas americanas dirão- mas pode ser um indesejável exemplo de que são justamente as democracias que considerávamos consolidadas, que hoje converteram-se em alvos privilegiados para aqueles que prometem se vingar dos que, um dia, ousaram atacar o império dos privilégios. Império conquistado exterminando e controlando à força os não privilegiados.

Por outro lado se os números das eleições dizem alguma coisa em termos prospectivos, é evidente também que há milhões no mundo que resistiram a esses retrocessos nas urnas, em muitos e diferentes países. São muitos, mas foram derrotados. A partir de agora eles terão de fazer isso nas ruas, nas instituições e em seu cotidiano onde pessoas e direitos são e serão diuturna e concretamente ameaçados por planos e políticas que beneficiarão a poucos, mas atingirão a todos.

Não há mais dúvida sobre a urgência de um imenso mutirão no qual pensamentos, estratégias e ações criticamente instruídas sobre as lutas do passado precisam ser avaliadas para que sejam colocadas à prova agora, diante da urgência em iluminar o pensamento e a ação, quanto às lutas do presente e do futuro. Precisamos nos lembrar de quem acreditamos que somos, de quem acreditávamos que seríamos, para habitarmos os sonhos que, intimamente guardados, não podem ser destruídos pelos que se dedicam a soterrá-los. Para os sonhos o tempo é sempre o do desejo e a utopia ainda é o remédio para a distopia, como lembra Eliane Brum.⁴

[1] https://www.washingtonpost.com/politics/a-rancorous-campaign-begets-huge-problems-for-the-winner/2016/11/08/0fcea580-a20d-11e6-8d63-3e0a660f1f04_story.html?hpid=hp_hp-bignews3_take-1135pm%3Ahomepage%2Fstory.

[2] https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/nov/09/the-guardian-view-on-president-elect-donald-trump-a-dark-day-for-the-world

[3] https://www.washingtonpost.com/opinions/president-trump/2016/11/09/037114be-a530-11e6-8fc0-7be8f848c492_story.html?hpid=hp_no-name_opinion-card-d%3Ahomepage%2Fstory

[4] http://brasil.elpais.com/brasil/2016/11/07/opinion/1478525620_328691.html