“Chaim Katz, Correntezas” Por Psicanalistas que falam

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“O outro em mim, esse outro que me incomoda, me interessa muito. Por isso me tornei psicanalista. Quando vem alguém me procurar, procuro atender também esse outro, que até hoje é irrequieto, não ficou velho, não sossegou.”

CHAIM KATZ, CORRENTEZAS é o segundo episódio da série PSICANALISTAS QUE FALAM.

“Economia política da psicanálise” é como Chaim Samuel Katz chama a necessidade de se refletir sobre o acesso a esse campo, sobre a politização desse saber. Mineiro de nascimento e criação, na juventude radicou-se no Rio de Janeiro, onde fundou a Formação Freudiana junto a um grupo de psicanalistas – e onde vive até hoje. Katz se autodenomina nômade: desliza pela vida, pelo pensamento. A vivência intensa na esquerda não partidária, a participação ativa no combate à ditadura, a relação com outros saberes e com intelectuais como Foucault, suas experimentações no campo da psicanálise – como a Mobilização Clínica, em que a supervisão acontece coletivamente com a participação de todo o grupo – expressam uma trajetória em que “psicanalisar é também experimentar modificar a vida, e não apenas pensar discursos e articular estruturas psíquicas”.

[temas abordados e disparadores de diálogos*]
* os parágrafos destacados entre aspas são trechos do episódio CHAIM KATZ, CORRENTEZAS

Correntezas militantes

Politizar a psicanálise. Esta talvez seja uma chave para se pensar a trajetória de Chaim Samuel Katz. Mineiro de nascimento e criação, radicou-se no Rio de Janeiro, onde fundou a Formação Freudiana junto a um grupo de psicanalistas.

Viveu em Belo Horizonte até meados de 1964, era comerciante, professor de filosofia e ativista político. Pertenceu à direção das Ligas Camponesas de Minas Gerais e, simultaneamente, à Polop (Organização Revolucionária Marxista Política Operária).

Já no Rio, na década de 1970, criou com um grupo a ideia dos “Encontros Psicodinâmicos”, que foram a base para a Clínica Social da Psicanálise. Essas sessões coletivas funcionavam com contribuições acessíveis para todos, e aconteciam na favela do Pavãozinho e na Faculdade Cândido Mendes. Reuniam mais de 100 pessoas, e mais adiante deram origem à técnica Mobilização Clínica, criada por Katz, em que a supervisão acontece coletivamente, com a partilha de questões e participação de todos os integrantes do grupo.

Também na década de 1970, em plena vigência do AI5, Katz colaborava assiduamente no semanário Opinião, junto a outros pensadores que combatiam a repressão militar. Katz era uma das poucas vozes da psicanálise a se manifestar política e publicamente. Nessa época também foi editor da revista Tempo Brasileiro, onde publicou a primeira resenha brasileira sobre os Écrits de Lacan.

Katz se considera um nômade. Como ele mesmo diz, desliza pela vida e pelo pensamento: escreve sobre sociologia, filosofia, e claro, psicanálise. Deu aula em faculdade de medicina, estudou lógica matemática.

A vivência intensa na esquerda não partidária, a participação ativa no combate à ditadura, a relação com outros saberes e com intelectuais como Foucault, suas experimentações no campo da psicanálise expressam uma trajetória em que “psicanalisar é também experimentar modificar a vida, e não apenas pensar discursos e articular estruturas psíquicas”, como declarou em entrevista à Revista Percurso, publicada no site da Formação Freudiana [ver Bibliografia].

No segundo episódio de Psicanalistas Que Falam, Katz evidencia a subjetividade militante em tempos de crise de construção e desconstrução política, expressa sua relação com utopias e distopias que permearam e ainda permeiam sua vida, e traz à tona memórias afetivas ligadas a acontecimentos que o marcaram.

Judaísmo, preconceito, socialismo, e pertencimento

Katz nasceu em Belo Horizonte. Aos 17 anos, resolveu ir para São Paulo, lembra de ter dormido em uma mesa de ping pong durante meses. De lá, foi para um kibutz em Jundiaí, e em seguida para o Rio. Ficou doente, e acabou voltando para Belo Horizonte. Anos depois, já em meados dos anos 1960, mudou-se definitivamente para o Rio.

[“Rapidamente me voltei para ideia de que o mundo deveria ser socialista. Podia investir em algo assim porque sendo judeu, tinha movimentos judeus que pensavam igual. A colônia era importante para mim, eu me sentia e me sinto até hoje pertencente ao judaísmo.”]

[“Problema judeu é muito complicado na medida em que quando nasci não existia Israel.
Fui estudar em escola judaica. Meu ambiente era muito antissemita. Eu leio no jornal sobre homossexualidade e fico impactado, não acredito que tantas pessoas sejam homofóbicas. Assim também era o movimento antissemita.”]

[“Em uma manifestação, encontrei uma amiga que estava com outra mulher. Confesso que na época fiquei meio perturbado. Era 1965. Eu conhecia, lia sobre isso, mas ver duas mulheres juntas, intelectuais, duas professoras de universidade… Uma largou o casamento e os filhos para ficar com a outra. Na época foi uma surpresa pra mim. O psicólogo surpreso! Encontrando essas pessoas, eu encontrei um outro modo de ser esquerda.”]

Militância: Ligas Camponesas e Polop

[“O que me levou para a esquerda foi um movimento afetivo que tem a ver com a minha mãe, mas nunca pude pensar isso direito. Sem minha mãe, não teria ido. Ela não me apoiava. Mas quando tive dificuldades, foi ela que foi comigo na imobiliária para me desfazer da sala [de reunião de militância] que eu alugava, uns 3 ou 4 dias depois do golpe [de 1964].”]

[“Em 1960 me uni à Polop, de tendência um pouco stalinista e trotskista. Não gostava de nenhum dos dois, mas era mais trotskista porque me dava mais o direito de querer comer a Frida Khalo. Do Stalin não sabia nada nesse sentido.”]

[“Logo me dei conta que se fizesse parte de grupos maiores, seria mais amplo meu trabalho.”]

[“A Polop exigia muito. Estudei muito. Comecei a dar aula na universidade sem mesmo terminar o 2o grau.”]

[“A gente pegou uma menina de Três Marias que não me lembro o nome, era a irmã do presidente das Ligas Camponesas de Minas Gerais. Levamos a garota para Belo Horizonte e demos um banho de cultura nela. Ela foi a museus, bibliotecas, casas de pintores, demos aulas. Tudo para ela voltar e transmitir para os camponeses.”]

[“Acontece que ela se apaixonou por um dos nossos colegas. E ficamos numa indecisão. O que fazer com essa paixão? Devolver essa moça para Três Marias era devolvê-la para um lugar que vocês não tem noção do que era. (…) Ficamos impregnados pela ambivalência dela, porque não só teve essa paixão, mas também nós compramos roupas, coisas que já não remetiam à origem de Três Marias. Isso mexeu mal comigo, porque eu pensava: se ganharmos, como vai ser com essas pessoas? Como eles vão ficar? O que vão vestir, comer, fazer? Ficou uma confusão pra mim.”]

Ditadura

[“Fui casado com uma miss, locutora da rádio de havana. O marido dela foi morto no Rio, numa armadilha. Eu e ela vivíamos nas brigas, como todo bom casal; um dia ela me fala assim: ‘Vou ter que fazer um encontro’. Isso foi muito depois, 1968, não estávamos mais juntos. Ela era editora de uma revista de cultura importante, no Rio. E ela disse: ‘Estou com medo’. Eu falei: ‘Deixa que eu vou’. E fui, encontrar com um cara que andava de jaqueta de couro e uma arma. A arma era evidente. Fiz as ligações telefônicas previstas no encontro. Mas ele entregou todo mundo, era uma emboscada. As pessoas foram mortas, e eu fui preso. Ela também, primeiro, e eu depois. Ela uns 15 dias, e eu uns 30. Conhecer isso de dentro é muito ruim. E saber que fez uma ligação dessas é muito ruim, é terrível.”]

[“A gente atendia pessoas que estavam na clandestinidade e piravam. Isso ninguém conta porque não é bonito contar. O cara era clandestino? Herói? Nao tem herói. A gente se borra nas calças. Dá um medo danado saber que pode ser torturado.”]

Foucault, inimigo da psicanálise

[“A vinda do Foucault foi impressionante (refere-se à 2a vez no Brasil, no RJ). A mim me fez ter vontade de, pela primeira vez, me juntar a colegas que pensavam como eu. Por que ficar sozinho e ser uma espécie de anarquista? Aí comecei a me juntar em torno da psicanálise, que é o que me interessava.”].

[“E conto uma coisa, que foi publicada mas vocês não sabem; olha só. O Foucault tentou 3 vezes fazer análise. Isso foi publicado na Revista Versus, que é daqui de São Paulo. Ele me contou isso, e não deu o nome dos analistas. Contou porque largou a psicanálise. Ele tinha lançado o livro História e Loucura. Foi um livro que rompeu com tudo o que se pensava sobre loucura, luta de classes, e deu

origem a um movimento que hoje não tem tamanho. Aí ele ia na análise para falar de questões dele. E o analista em vez de prestar atenção na questão dele, falava assim: ‘Mas na página tal da História da Loucura, você escreveu isso, mas isso está errado’. Aí ele foi embora. Foi embora do segundo pelo mesmo motivo. E embora do terceiro. Daí ele foi embora da psicanálise. E um dia se tornou inimigo da psicanálise.”]

Mobilização Clínica

[“Depois da minha prisão, resolvemos fazer um grupo que pudesse atender mais barato. Um grupo de psicanálise. Eu também tinha interesse profissional. Tinha me formado em filosofia, dava aula, mas não comia do meu trabalho. Aí me aproximei da psicanálise. Fazia análise com a Ann Katrin (ou Dona Catarina). Fui pra sociedade que ela tinha fundado.”]

[“Inventei o nome do grupo: encontros psicodinâmicos. Percebemos que o nome afastava a psicanálise. Psico, qualquer um é psico. Mas psicanálise não é qualquer um, então fizemos um grupo só em torno da psicanálise. Sociedade de Psicanálise Social. Esse nome trouxe problema com a IPA, queriam que a gente tirasse psicanálise do nome. Depois, fomos fazer a tal de clínica social da psicanálise, que primeiro teve esse nome de encontros psicodinâmicos. Começou em 1972, 1973. Tínhamos dois tipos de atendimento: na favela,= do Pavãozinho, e o outro na faculdade Cândido Mendes, que era uma igreja.”]

[“Mas depois de atender um tempo, não me lembro que dia da semana era, talvez segunda, com um amigo – que é um gênio, engenheiro lógico, conhecia muito a filosofia – resolvemos contar quantas pessoas tinham nesses encontros. Eram 118 pessoas. Tivemos que criar uma tecnica analítica pra isso. Eu próprio criei uma técnica que uso até hoje para grupos, que eu chamo de mobilização clínica.”]

Nomadismos, utopias e distopias

[“Sou meio Nômade. Tanto que deslizo muito no meu pensamento, escrevo sobre sociologia, filosofia, psicanálise nem se diz. Fiz um curso de lógica de matemática.”]

[“Hoje estou muito decepcionado. Falta de solidariedade. (..) Observando a situação brasileira me vem uma decepção.”]

[“O acúmulo de dinheiro no Estado me lembra a nomenclatura da União Soviética.”]

[“A minha geração fracassou porque eles se corromperam. Fizeram coisas que não estavam no programa. É difícil pra mim porque sou parte deles, gosto deles. Os que ficaram fora como eu também fracassaram. A gente não tem com o que sonhar. Acabaram os sonhos. Porra.”]

Bibliografia

KATZ, Chaim Samuel. Ética. Graal, 1984.
________________. Psicanálise e Nazismo. Taurus, 1985 ________________. Freud e as Psicoses. Xenon 1994. ____________(org.). Psicanálise e Sociedade. Interlivros, 1977.

____________(org.).Temporalidade e Psicanálise. Vozes, 1995.
Entrevistas:
Formação Freudiana: Psicanálise em positivo http://www.freudiana.com.br/destaques-home/psicanalise-em-positivo-entrevista-chaim-katz.html Formação Freudiana: “Não nos curaremos somente com palavras” http://www.freudiana.com.br/destaques-home/chaim-samuel-katz-nao-nos-curaremos-somente-pala vras.html