Máscaras. Por Edson Luiz André de Sousa.

INDIGNAÇÃO !  A IMAGEM DE ANTEONTEM QUE ME TOCOU FUNDO foi ver, de minha janela, em uma rua completamente vazia, em pleno final de tarde um homem carregando um grande saco lixo preto com a coleta do dia. Uma sinfonia da tarde, pois o silêncio me permitia ouvir do alto,  o som dos objetos em atrito. Ele também preto, um pouco curvado com o peso de  seu trabalho. O detalhe é que estava com uma máscara branca no rosto. Um gesto comovente de cuidado consigo e com os outros. Certamente ele desconhece que esta máscara  não o protegerá de nada, mas ele a usa de forma verdadeira, autêntica. A máscara aponta para uma esperança de que será protegido. Não é uma fantasia de carnaval. O que me emocionou também é que só pude ver esta cena, pois minha filha me chamou para ver. Eu estava, portanto, vendo o olhar dela e isto me reconfortou, pois é esta nova geração que vai fazer algo melhor do que fizemos. Pensei imediatamente na máscara de mentira, na máscara fake do capitão reformado em um pronunciamento junto com os ministros alguns dias antes daquele fatídico 15 de março em que, contrariando as determinações de ficar em quarentena e não expor seus simpatizantes ao contágio, saiu para abraçá-los bradando de forma insana “Se eu me contaminar o problema é meu”. E se contaminar os outros??? Naquele pronunciamento sua máscara ficou várias vezes pendurada na orelha, no nariz. Uma máscara de mentira, para pousar para foto, ridícula! Cena patética que dificilmente vou esquecer, pois mostra o lado sórdido do poder que de forma escancarada menospreza todos nós com esta encenação revoltante.  O coletor conquista seu pequeno sustento com dignidade. Ele ainda tem força. Ele sabe  ler com as mãos ao tocar o lixo para dali retirar o que, para ele tem valor.

Lembrei de Estamira, uma mulher exemplar, que viveu praticamente toda sua vida no aterro sanitário do Jardim  Gramacho, no Rio de Janeiro. Ela mostra o Brasil profundo, o Brasil que acredito, pois ali de dentro do lixão, de dentro de sua loucura, de dentro de sua vida de sofrimento põe o dedo na ferida e denuncia os “espertos ao contrário”  e tira a máscara de muitos . Ela é o exemplo da INDIGNAÇÃO e a mostra de forma contundente no documentário de Marcos Prado. Para mim uma obra prima que nunca canso de rever.

A máscara mais uma vez caiu. Depois do pronunciamento deste 24 de março temos que acordar enquanto é tempo, pois é nossa vida que está em causa. A vida está neste homem sozinho cruzando a cidade deserta. Não está neste  palco de horrores que zomba de nossas vidas. Não precisamos de atletas imunes. (“Se o vírus me pegar, com meu histórico de atleta, nada vai acontecer comigo. Talvez uma gripezinha, um resfriadinho! (sic.)) Que desprezo pelos milhares de mortos e angustia de milhões de pessoas neste momento!!! Ele se acredita imune. Ele desdenha a OMS ( Organização Mundial da Saúde) e praticamente todos os países do mundo cujos presidentes são categóricos  no pedido para que mantenhamos a quarentena, adotando politicas de preservação da vida.  Ele se pensa que está acima de tudo e acima de todos. Se ainda tem alguém que não vê isto, terá uma última chance de tirar sua máscara dos olhos antes que seja tarde.

Para quem quiser ter uma lição de cidadania, solidariedade vejam esta obra de arte, este hino à vida que é o documentário de Estamira. Vou rever novamente hoje, para acalmar  a alma e me reconectar com o que efetivamente tem valor.

Segue o filme completo: https://www.youtube.com/watch?v=ibuo079DGF8

#fiqueemcasa ,  mas pense nos que não tem casa e seja solidário. Vamos precisar nos ajudar, como nunca,  neste momento.