Uma breve reflexão sobre memória e legado. Por Cristiane Nakagawa.

Cristiane Nakagawa: especial para psicanalistas pela Democracia no dia em que se rememora o lançamento da bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima

Quando eu tinha uns 13 ou 14  anos tive uma breve, mas profunda conversa com meu pai. O assunto começou porque ele estava nitidamente triste, e tristeza de pai ou mãe é sentimento insuportável para os filhos. Claro, é sinal de humanidade, mas é também a confirmação de que a dor e a tristeza nunca passam, não importa a idade. Cheguei perto dele e lhe perguntei meio temorosa da resposta se ele estava bem. Para minha surpresa ele me lançou um olhar que me inquietou, e respondeu com uma única palavra, sem gritar ou alterar o tom de voz, mas cujo impacto foi angustiante. Disse apenas um “sim”, seco e pensativo. Percebi que estava segurando a respiração e sentia o meu coração bater no ouvido. Sem condições de ponderar muito senti as palavras escapando da minha boca: “foi algo que eu fiz?”.

Apesar de tomada pelo sangue que esquentava todas as extremidades do meu corpo, senti que as palavras que escaparam de mim adocicaram o olhar dele. Ainda no mesmo tom de voz ele respondeu, “não … mas é difícil pensar que a vida está longe de ser boa, que precisamos dar duro 99% do tempo para tentar ter apenas 1% de prazer ou mesmo de paz. E é decepcionante quando mesmo esse 1% não vem …”. Terminou a frase em um silêncio ensurdecedor. Esperei por mais, mas não havia mais nada a ser acrescentado por ele.

Hoje penso que as palavras entraram em mim literalmente, mas desconectadas de um sentido mais amplo e, justamente por isso, permaneceram latejando, me fazendo visitar e revisitar a cena daquela breve conversa. O sentimento de estranheza me fez pensar e refletir inquietantemente, porque tinha algo que não me estava acessível ali. Entendi o que ele disse, mas o que me atormentava era o que estava por debaixo daquela mensagem pessimista – e que hoje noto ser assustadoramente realista. Percebi que quando eu repetia a cena na minha memória o que vinha, para além das palavras, era a expressão que ele carregava, o ar que ele emitia, os sons que o silêncio reverberava sob o tom de sua voz: o vestígio de dor que devorava sua alma, e que ele me confidenciou sem perceber.

Recordo que passei alguns dias tentando digerir no estômago aquela cena, mas era outro o órgão que de fato trabalhava, e ainda outro que sentia a dor. Meu pai, com toda sua sensibilidade percebeu o que sua comunicação fizera comigo. Chegou perto na primeira oportunidade e disse: “tem horas que falamos coisas que podem não fazer sentido para quem ouve, mas fazem algum sentido para quem fala”. Ficamos em silêncio. Após alguns instantes, sentido o efeito das palavras no espaço entre nós, deixando o ambiente menos nebuloso, ele acrescentou: “Bom, te falei algo que estava me perturbando e acho justo te falar, agora, como eu me resolvi: faz muito tempo que decidi que sempre que eu precisar fazer uma escolha importante, não importa qual, eu vou escolher o caminho que me permita viver e manter as relações humanas importantes para mim. Se você investir nas pessoas, na relação que tem com elas, não tem como errar. Pode machucar, mas não vai doer porque você errou. Vai doer porque um dos maiores desafios  do ser humano é fazer e manter suas relações. É muito bonito ver como somos todos muito diferentes, queremos coisas diferentes, somos tocados por coisas diferentes, pensamos diferente, amamos e odiamos diferentemente. Isso é o mais bonito, mas ao mesmo tempo, pode ser muito dolorido. O desafio aqui é manter essas diferenças sem desaparecer ou apagar o outro. Vai doer também, porque é um jogo de forças que pede muitos acordos, e você vai precisar se manter firme sem desistir, acreditando que certas relações podem ser duradouras”. Dito isso ele me deu um abraço que está marcado no meu corpo até hoje. Essa memória é viva e acho que foi uma das primeira grandes lições que aprendi com ele. Suas palavras reverberam em mim o tempo todo, e é assim que ele se mantêm vivo todos os dias, apesar de ter partido há mais de 9 anos.

Conto isso, porque duas situações me tocaram profundamente justamente por sua comunhão com essa memória: a primeira foi em 2018, quando eu estava em Hiroshima entrevistando sobreviventes da bomba atômica no contexto da minha pesquisa de doutorado. Takashi Teramoto tinha apenas 10 anos em 6 de agosto de 1945. Em um momento de sua narrativa ele diz que guarda uma lembrança em segredo dentro do seu coração, e que até então nunca havia contado para ninguém. Sua memória coincidentemente diz respeito ao seu pai. Teramoto conta que após o bombardeio ele adoeceu devido aos efeitos da radiação proveniente da bomba atômica, diagnóstico esse que soube muitos anos depois, uma vez que naquele momento não tinham conhecimento do que consistiam as armas nucleares. Preocupado seu pai o colocou em suas costas e o levou ao médico na cidade vizinha. O médico não sabia como tratar, apenas alertou que poderia ser contagioso e letal, já que muitas pessoas estavam apresentando sintomas semelhantes e morrendo em decorrência deles. Teramoto recorda que  saiu da consulta médica sonolento, mas despertou completamente quando ouviu  a voz do seu pai lhe pedindo perdão. Percebeu que estavam parados à beira de um abismo onde havia uma ponte desabada, e ouviu o pai dizendo que iria pular. Naquele momento, Teramoto fez o máximo para não se mexer e não mostrar que estava acordado e escutando, permanecendo imóvel e em silêncio aguardando a decisão de seu pai. Diz emocionado que não tinha certeza se o pai tinha real intenção de pular, mas agradece o fato dele ter desistido da ideia. Compreende que seu pai, naquele momento, estava desolado e não sentia que possuía condições para continuar vivendo: perdera a esposa, familiares, os amigos e absolutamente todos os bens materiais (casa, documentos, dinheiro, fotografias, roupas, entre outros). Tudo fora destruído na explosão.

Me parece que o pai de Teramoto fora inundado pelos enigmas humanos: como ter forças para continuar vivendo após o horror de Hiroshima? Como, por que e para quem deveria sobrevier? Talvez a violência, a frieza, a indiferença, dos homens tenha desolado, entristecido o pai de Teramoto, mas após um longo tempo, ele recuou da beira do abismo, caminhou para longe da ponte desabada, mostrando que a bomba havia ganhado a guerra e derrotado o Japão, mas não derrotou a humanidade dos sobreviventes. Contei para Teramoto aquela memória da conversa com o meu pai, e ainda disse-lhe que talvez o pai dele não tivesse pulado justamente porque a resposta para os enigmas que o tomaram era justamente o menino que ele carregava nas costas. A bomba não destruiu os laços, e enquanto tivesse Teramoto, seria possível reconstruir a vida. Ele ficou em silêncio e pediu licença para sair da sala onde fazíamos a entrevista, nitidamente emocionado. Retornou e disse que sim, que acha que foi isso mesmo o que havia acontecido. Desde então a memória do meu pai foi unida à memória de Teramoto e de seu pai.

A segunda situação aconteceu nessa última semana após ler algumas matérias jornalísticas sobre o Covid-19 no Brasil e no mundo, e após reuniões com diversos grupos que estão atuando na linha de frente, no combate da pandemia. Refleti sobre como o povo indígena está lutando para enfrentar a pandemia; depoimentos de agentes da saúde ao redor do Brasil trabalhando dia e noite em prol das vidas daqueles que foram contaminados, muitas vezes eles próprios impedidos de voltarem para suas casas justamente para não colocarem suas próprias famílias em risco e, ao mesmo tempo, sentindo-se desrespeitados por aqueles que poderiam estar em casa, trabalhando remotamente, mas ao contrário circulam nas ruas sem máscaras, vão aos shopping centers, visitam parentes e amigos e, assintomáticos, continuam proliferando o vírus,contaminando outros tantos; pensei naqueles que não podem ficar em quarentena, porque se não trabalharem não terão o que comer e nem como dar de comer para suas famílias; aqueles que não estão em quarentena porque suas moradias não permitem o isolamento social; entre outros tantos casos que temos observado diariamente.

A pandemia exacerbou as desigualdades sociais e econômicas. Exacerbou ainda os dois extremos do ser humano: grupos que encenam irresponsabilidade, egoísmo, desprezo pelos outros, cujo olhar estreito apenas lhes permite ver o bem estar de seus pequenos núcleos familiares, que comportam-se agressivamente como dominadores, e covardemente escondem-se.

Portanto, essa é uma breve reflexão que vem apelar por um pouco mais de humanidade. Compaixão e solidariedade não são sentimentos que podem ser ensinados. Precisamos evocar nossas próprias experiências de dor para que, através delas, possamos ver e ouvir os outros, deixar que os seus sofrimentos se comuniquem com os nossos, permitir que imprimam na nossa alma justamente o elemento não verbal e, através dele, fazer brotar compaixão e solidariedade. Como meu pai me ensinou, sempre que preciso escolher, escolho as pessoas, não importa se conhecidas ou desconhecidas e, até hoje, essas escolhas se mostraram cheias de sentido e afeto. E você?  Em um momento como esse, de pandemia e isolamento, de que lado você está?

Cristiane Izumi Nakagawa

Psicóloga Social e Psicanalista

Mestre e Doutora pelo IP-USP