Cortejo fúnebre em marcha à ré. Por Edson Luiz André de Sousa

PARA ONDE ESTAMOS INDO? PARA ONDE QUEREMOS IR?

Chegamos em cem mil mortos e quase 3 milhões de pessoas infectadas pelo COVID-19 no Brasil. Um país as avessas, vidas ao avesso, um país em marcha à ré. Na terça-feira dia, 4 de agosto, três grandes artistas se uniram em São Paulo para uma performance que nomearam “Cortejo fúnebre em marcha à ré”. Antônio Araújo, fundador da Companhia de Teatro Vertigem, Nuno Ramos, artista plástico e Eryk Rocha, cineasta e filho de Glauber Rocha desenharam um ato artístico/político e que será apresentado como filme na Bienal de Berlim em setembro deste ano: 120 carros na Avenida Paulista lentamente fizeram o trecho do prédio da Fiesp até a entrada principal do cemitério da Consolação em marcha à ré.

Em cada extremidade do cortejo carros fúnebres davam o tom deste grito esticado na avenida ao som de respiradores mecânicos e de monitores cardíacos. Ao chegarem ao portão principal do cemitério, um trompetista tocou o hino nacional de trás para frente diante de uma imagem ampliada de um desenho de Flávio de Carvalho, no qual o artista registra o momento da morte de sua mãe. Certamente Flávio de Carvalho deve ter sido uma inspiração para este cortejo, quando em 1931 realizou sua célebre performance, caminhando no contra-fluxo de uma procissão de corpus christi em São Paulo.

O cortejo fúnebre em marcha à ré exige uma pausa, um tempo para o luto, interroga cada um sobre a direção a tomar, e produz um avesso do movimento das carreatas que ignoram a pandemia e os desastres da condução política de nosso país. Nuno Ramos diz se tratar “da nacionalidade do pesadelo, com tudo andando de marcha à ré”, Eryk Rocha pensa esta performance como o “retrato da distopia de um país em ruínas”.

Quando conseguiremos mudar de direção? Cortejo em marcha à ré abre um espaço e um compromisso com a memória no Brasil, um dos maiores desafios que teremos pela frente se ainda sonhamos com um país onde a vida seja um valor inegociável.