Ontem atendi um paciente. Por Carolina Mousquer Lima.

Ontem atendi um paciente.

Ele ligou e pediu um atendimento presencial. Respondi que, em razão da pandemia mundial, eu estava atendendo exclusivamente online. Ele insistiu, dizendo que o corona não era tão perigoso como a mídia estava divulgando. Eu me recusei. Ele cedeu.

Chamou atenção seu jeito agressivo de falar: longe de ser gentil ou diplomático. Exaltava-se com facilidade. Demonstrava ter baixa tolerância à frustração. E, principalmente, parecia não ter vergonha de dizer tudo que lhe ocorria.  A vergonha, esse importante sentimento neurótico que anda tão esquecido… Ele era como uma associação livre ambulante. E isso foi só o primeiro telefonema. Ficou claro, desde o início, que era um sujeito um tanto primitivo. Cheguei a ter medo.

Quando vi sua imagem no vídeo, no primeiro atendimento, pensei que era um homem triste. Associei com a imagem de um ventríloquo. Um boneco de posto, talvez. Funciona bem para chamar nossa atenção.

Apresentou-se como sendo uma pessoa importante. Disse que ocupava o maior lugar de representação da República. No entanto, todo o contexto do atendimento me dizia que isso era um delírio. Um delírio muito bem armado. E sabemos, pela clínica, que é inútil e perigoso confrontar os delírios com a realidade compartilhada. Especialmente os delírios que estão bem armados.

Ele falava tanto e escutava tão pouco ou nada. Essa verborragia parecia causar um efeito de paralisia. Das ruins. Eu ia me sentindo incapaz de intervir. E era tão desagradável escutá-lo que, por vezes, eu me perdia na escuta flutuante. E eu flutuava para pensamentos estranhos. Em minha cabeça chegavam imagens de outras pessoas. Pessoas com as quais nunca simpatizei, mas que, naquele momento, me causavam uma sensação agradável. Ainda não sei explicar por que me ocorria essa sensação.

Mas, lá pelas tantas, falando da pandemia, ele disse a seguinte frase: “Vão morrer uns. Fazer o quê? É a vida”. Achei que era o momento de intervir.

(Em razão da necessidade de resguardar o sigilo, vou chamá-lo de B.)

“Vão morrer uns”. Quantos são uns para ti, B.? Porque eu ouvi que serão muitos. E, vale lembrar: cada um desses uns são importantes para muitos alguns.

“Fazer o quê?” Tu me diz que ocupa o cargo de maior representante de uma nação. E não pode haver desamparo maior para um cidadão que ouvir de uma autoridade tão importante que não há o que fazer. Tu já te sentiste desamparado alguma vez?

Silêncio.

Vamos pegar tuas palavras pelos chifres. Se tu perguntas “fazer o quê?” é porque tu não sabes o que fazer. Se soubesses, não estaria perguntando. Ao mesmo tempo em que perguntas o que fazer, a entonação é de que não há o que fazer. Então vamos reunir as duas coisas e pensar que tu te pergunta sobre o que fazer e também sobre o que não fazer. E eu diria que é preciso fazer o que tu estás fazendo agora. Pedindo intervenção a um analista. E não aos militares.

“É a vida”. Sim. Morrer faz parte da vida. Inclusive ontem eu li um texto escrito por um pai sobre a morte do seu filho com paralisia cerebral. As palavras dele me tocaram profundamente, por razões pessoais. Fiquei pensando que essas pessoas, que sofrem de paralisia cerebral grave, nos convocam ao cuidado. Elas produzem o que há de mais humano naqueles que estão ao redor: a capacidade de cuidarmos uns dos outros.  Com seu corpo-intervenção, nos dão uma aula magna sobre o valor de uma vida. E é curioso que na matemática dos “uns vão morrer” elas sejam vidas dispensáveis. Vidas que não valem o investimento, diriam os especialistas. Mas nem só de investimento econômico se faz uma vida. Aliás, de todos os investimentos, esse é o menos complexo. E pensando no que essas crianças – que sequer conseguem segurar a própria cabeça – produzem, eu diria que, na minha matemática particular, a vida delas vale muito mais que a tua.

Ele parecia furioso.

E eu disse: Fazer o que? é a vida. Te pergunto: o que não é a vida?

Encerramos. Acabou, B.