LULALÁ. Breves e despretensiosas associações em torno da desconstrução de uma liderança política. Eduardo Leal Cunha

Greve de metalúrgicos do ABC paulista em 1979. Milton Soares. 25 mar 1979.

Em fevereiro de 2015, pouco após a posse de Dilma Roussef na presidência, enquanto Aécio Neves e um bom número de políticos já anunciavam a disposição de impedi-la de governar e grandes veículos de imprensa destacavam em seus noticiários uma impressionante agenda negativa vinculada ao Partido dos Trabalhadores, eu conversava numa cidade do interior do Maranhão, com um grupo de moradores, pequenos comerciantes e trabalhadores da região.

Naquele momento, Luís Inácio Lula da Silva era uma espécie de herói acima de qualquer suspeita e mesmo Dilma uma presidenta por quem valeria a pena lutar: “se não deixarem a mulher governar, o povo vai pra rua, o povo vai pra rua com Lula”, foi o que ouvi.

Dilma foi deposta em um processo ridiculamente breve e suspeito e, sinceramente, não creio que nenhuma daquelas pessoas tenha chegado a ir até a esquina defender o seu mandato, enquanto os protestos contra a gestão petista eram apresentados na televisão como expressão unânime da vontade de um povo.

Hoje, pouco mais de três anos depois, aquele que, segundo aquelas pessoas era o homem que tinha mudado o país e nos dado coragem e “orgulho de ser o que a gente é” está numa cela de prisão. E para grande parte da população, tudo isso faz sentido.

Dias atrás, um pouco antes da prisão de Lula, eu conversava no mercado central de Aracaju, numa banca de peixe, enquanto os jornais anunciavam a ordem de Moro e a espera pelo seu cumprimento na sede do sindicato dos metalúrgicos, onde Luís Inácio começou sua carreira política. Mas a conversa agora já era outra.

Lula é hoje apenas mais um político igual a todos os outros que merece ir para a cadeia, junto com filhos e amigos que se aproveitaram do dinheiro do povo, como sempre se fez nesse país.

Desta vez, o que mais me chamou a atenção na conversa foi como a frase tão famosa (e ironizada pela direita), “nunca antes nesse país”, acabou sendo sufocada pelo “como sempre”.

Como se nada pudesse mudar, como se nada de novo tivesse efetivamente se produzido nos anos em que a esquerda bem ou mal conseguiu governar o país.

Como psicanalista, costumamos testemunhar o quanto faz sofrer uma narrativa que não se consegue mudar, uma sentença que se repete, um destino que se reitera, uma desesperança que se torna a marca da vida comum e do seu dia-a-dia.

No caso de Lula, me assusta sobretudo o modo como essa narrativa que se repete acabou por transformar radicalmente o que se fala sobre o Lula nos mercados e nos botequins. Como essa repetição pôde sabotar de modo tão insidioso o vínculo de tantas pessoas com uma figura política tão fundamental para a nossa história política recente.

Mas talvez tenha se dado exatamente o inverso e a desconstrução de Lula tenha sido a condição necessária para que certa narrativa de nossa incapacidade como povo, da nossa desqualificação como projeto nacional, se reiterasse.

Foi assim que comecei a me indagar sobre o modo como esse vínculo entre Lula e a população mais pobre do país foi desfeito e como nesse processo, reinstalou-se em nosso espírito a certeza de nosso fracasso como nação, minando a esperança de que algo de efetivamente novo possa ter surgido ou venha a surgir em algum momento.

Lembrei-me então do incômodo sentido naquele já distante ano de 2002 ao ver a reportagem do Fantástico, da Rede Globo, no dia da eleição de Lula, reportagem que tinha a pretensão de apresentar ao país, evidentemente, seu novo governante, reportagem que desse modo oferecia um sentido ao que havia acontecido naquele dia, um sentido supostamente político, referido aos nossos modos de vivermos juntos, à maneira como imaginamos nosso país e nosso destino. Uma narrativa em cujo centro certamente estaria a eleição de um operário para a presidência.

 

 

Mas ao rever na internet os cerca de vinte minutos do fantástico dedicados a anunciar a vitória do líder sindical na corrida para a presidência, me dou conta logo de início que Lula já era naquele momento descrito como um ex-operário.

Assim discretamente, uma brevíssima e banal sentença, o separa já naquele momento da classe trabalhadora. Talvez porque em nosso país, um operário não possa governar, e assim, para aceder ao poder, é preciso antes de qualquer outra coisa, deixar de ser um trabalhador. E é desse modo que na reportagem Lula se distancia da figura do operário para ser um retirante que deu certo, um self made man.

Da mesma forma, nesses vinte minutos, é mínimo o espaço dado ao significado político e social da vitória do operário e sindicalista e ao percurso que conduziu o PT àquela vitória, aos embates que enfrentou ou às concessões que precisou fazer. Nada disso parece importar, e assim, é a vida pessoal, ou mesmo íntima, de Lula que aparece sempre em primeiro plano. A figura política é assim discretamente reduzida ao homem comum. São os seus afetos, desejos, virtudes e fraquezas individuais que dão substância ao rosto do presidente e não um projeto político.

Já naquele momento, me parece, Lula deixa de ser, ao menos na onipresente televisão, uma ideia, ele começa a se tornar apenas um indivíduo com um desejo antigo de ser presidente e as virtudes – depois nos dirão, também os defeitos – que o permitiriam galgar aquele posto e, como deseja todo migrante pobre, subir na vida e ser aceito nos salões da sociedade.

A sensação deixada naquela reportagem, na qual me parece, se delineia uma linha de ação que acabará por construir um mito, no sentido barthesiano do termo, de uma fala que se naturaliza e torna-se evidente, inquestionável, uma verdade banal, é que Lula não é um líder operário a representar uma causa e um segmento da população, ele é sim apenas mais um homem comum lutando por sucesso, poder e, quem sabe, fortuna, pelos seus próprios méritos,  graças à sua personalidade.

Lula é então descrito como o menino pobre da periferia do Brasil que, deslocando-se para um centro hostil, superou todas as dificuldades e venceu com seu talento individual a batalha por um lugar ao sol. Percorrendo esse inesperado caminho que o trouxe do interior de Pernambuco à presidência da república, com pouca educação formal e sem amigos importantes, Lula converte-se rapidamente em filho exemplar do Brasil. Uma espécie de tipo ideal que paradoxalmente ganha ainda mais consistência no momento de sua condenação. Pois não é este o destino natural dos brasileiros pobres, cedo ou tarde, de um modo ou de outro, a prisão!?

Um elemento decisivo nessa história é que o tom humano, emocional, dado à construção da figura midiática e que parece aproximar Lula do seu eleitor pobre, ignorante, sofrido, na verdade, embora até o faça num primeiro momento, é a condição para a enorme distância que se construirá em seguida. Pois ele agora frequentará o ambiente corrompido de Brasília e ficará assim cada vez mais parecido com os políticos do MDB e mais distante daquelas pessoas pobres do boteco de Barreirinhas que lhe eram tão gratas pelo que fez na presidência.

Mais, evidentemente, Lula, não é tampouco exatamente um político como os outros, nem pode se encaixar tão perfeitamente nos salões de Brasília. Apesar de tudo, ele é ainda e será sempre um retirante nordestino, um homem sem educação a quem falta um dedo.

Se para os pobres Lula é agora mais um homem rico, talvez o verdadeiro dono da Friboi, para os ricos – e grande parte da nossa classe média – ele continua sendo apenas mais um pobre. Daqueles que, como nos ensinam Gil e Caetano, são quase pretos e afinal – é o que escutamos nos elegantes salões da nossa boa sociedade – preto quando não caga na entrada caga na saída.

O que significa que em Lula duas imagens passam a se sobrepor. De um lado, o pobre que tentou subir na vida e acabou incorrendo em atos ilícitos, tentando se aproveitar das oportunidades que surgiram em seu caminho, como os garçons que precisam mostrar os bolsos vazios depois de passar a noite servindo os amigos de madame. De outro, o político corrupto, o amigo dos empreiteiros, alguém que abandonou os seus e se deixou embriagar pelo poder.

Greve de metalúrgicos do ABC paulista em 1979. Milton Soares. 25 mar 1979.
Foto: AFP, Reuters, Agência Brasil, Reprodução / BBC News Brasil

 

 

São essas duas figuras sobrepostas que ilustram o mito nacional de que o pobre, o migrante, o negro, o nordestino nunca dará realmente certo, como talvez nunca dê certo esse nosso país, com esse povinho tão miserável.

A redução da figura política do ex-presidente à sua figura humana, enquanto indivíduo, definido exclusivamente pelos seus afetos e ambições mais íntimas, naquele distante Fantástico de 2002, me parece ter sido o primeiro passo para que gradualmente se apagasse a dimensão propriamente social da experiência do líder sindical e, nesse caso, da própria vida política de Lula, ao mesmo tempo que o deixou vulnerável a essa operação de desconstrução na qual se reafirma a desqualificação do nosso povo, dos nossos operários e mesmo dos nossos ex-operários.

Naquela eleição, Lulalá foi um símbolo de esperança, sua mensagem era de que era possível chegar lá, que o poder podia ser conquistado, que lá haveria lugar possível para um representante da classe operária.

Lulalá, hoje, significando Lula na cadeia, como desejo realizado de grande parte da autoproclamada alta classe média e gente esclarecida desse país, é a simples reafirmação de que o lá continua um local separado, a marcar a existência de dois povos em um país dividido entre aqueles que podem chegar lá e aqueles que não podem, não devem e não irão chegar lá. Os ricos não vão pra cadeia, os pobre não sobem ao poder.

Desse modo, para além da destruição da figura política do indivíduo Lula, está a desconstrução da ideia política que ele representa e da esperança que essa ideia pretendia carregar.

 

 

 

 

Referências audiovisuais (por Psicanalistas pela Democracia)

Foto: AFP, Reuters, Agência Brasil, Reprodução / BBC News Brasil. Disponível em https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/lava-jato/quem-sao-os-colegas-de-prisao-de-lula-em-curitiba,a0f6e5921991bb9e0ba0047f249ad1ebzq14squu.html . Recuperado em julho de 2018. 

Greve de metalúrgicos no ABC paulista em 1979. Foto: Milton Soares. 25 de mar 1979. folhaexpress. Disponível em https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/nova/1586789998094633-greve-de-metalurgicos-no-abc-paulista-em-1979. Recuperado em julho de 2018. 

Lula presidente – Fantástico de 27/10/2002 (parte 1). Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=xWwpH4YoP_c 

Lula presidente – Fantástico de 27/10/2002 (parte 2). Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=v6Oi4XexhAE

 

Eduardo Leal Cunha é psicólogo e psicanalista. Doutor em Saúde Coletiva (IMS/UERJ). Professor do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Sergipe. Pesquisador Associado do Centre de Recherches Psychanalyse Médicine et Société da Universidade de Paris VII – Diderot.