Uma artista Afegã pela democracia. Por Luís Henrique Ramalho Pereira e Vanessa Solis Pereira

“ Onde os grafites gritam

Não dá pra descrever”.

(Criolo)

A fotografia impressa no jornal apresenta homens com barbas cerradas cercados por armas. Estão compondo uma imagem de unidade em torno do representante político, que estava prestes a anunciar mais uma versão do poder do talibã. A imagem ameaçadora é mais uma entre tantas que estamos testemunhando. A retirada das forças americanas abriu as portas para um desfile de poder já demonstrado pelo Talibã ao longo dos últimos anos, um poder de destruição, horror e catástrofe. A declaração impactante de um dos líderes chocou a comunidade internacional ao dizer “Não haverá democracia, a lei é a sharia e é isso”. A declaração partiu de Waheedullah Hashimi, um dos principais comandantes do Talibã. A Sharia é o sistema jurídico do Islã. “Não haverá nada como um sistema democrático porque isso não tem nenhuma base no nosso país, nós não vamos discutir qual será o tipo de sistema político que vamos aplicar no Afeganistão porque isso é claro: a lei é sharia, e é isso”, disse Hashimi. O relato foi publicado pelo portal G1.

Segundo El Sawy (2002, p. 10), “o profeta Mohammed – S.A.AW.S – aplicou pela primeira vez a Shari´ah Al Islam e promoveu a extinção de “maus hábitos”, assegurando a proteção da lei na administração pública e a elevação urbana do povo nômade”.

Tal declaração disparou inúmeras implicações entre especialistas dos direitos civis e principalmente sobre a condição das mulheres afegãs sobre o regime talibã. Entre essa declaração e as inúmeras manifestações que se espalharam em Cabul foi se instalando o verdadeiro caos na cidade. Tiros em praça pública, pessoas nas ruas, mulheres afugentadas pela radicalidade, feridos e mortos. No meio de tal colapso a comunidade internacional passa a pensar nos possíveis desfechos, direitos civis sonegados, vidas destruídas, mulheres afugentadas, crianças órfãs, infâncias interrompidas.

Aqui a arte enfrenta a vida, dá um passo na direção da democracia e traça um panorama do que já se ensaiava no cotidiano nefasto do povo afegão. Neste ponto revisitamos o engajamento de Malala em defesa da paz, a morte de Alan Kurdi por esperança de uma nova vida, a luta de Marjane Satrapi em Persépolis por liberdade e de tantos anônimos que batalham diariamente para viver.

Tais declarações dispararam um sinal de alerta para o povo afegão, para a região e para as sinalizações ameaçadoras de teocracias espalhadas pelo mundo, as quais se mascaram de democracias participativas, mas que efetivamente o objetivo central é implementar processos cada vez mais fascistas, violentos e opressivos. O território de reivindicação e mobilização da população, as cidades, palco das mais importantes manifestações genuinamente populares, tem se tornado cada vez mais hostil para tais operações políticas. Assistimos restrições cada vez mais poderosas no que diz respeito aos artistas que encontram na cidade sua tela, espaço fundamental para sua arte e para a sua mobilização política. Tais restrições encontram apoio naqueles que investem fortemente contra a democracia, e sobre aqueles que se envolvem no território fronteiriço da política/arte vemos ações jurídicas e de controle cada vez mais notáveis.

O Talibã apresenta a soberania da Sharia conjugado com a ilimitada decisão suprema de quem vive ou morre neste sistema, ou seja, morrer ou deixar viver está situada sobre o crivo do dedo indicador no gatilho. O soberano é Deus, capaz de decidir sobre a mortalidade, seu domínio e suas fronteiras (humilhação pública, tortura). Como nos interroga Mbembe (2018, p.7): “que lugar é dado à vida, à morte e ao corpo humano (em especial o corpo ferido ou massacrado)?”.

O território cada vez mais esmagado e cada vez mais restrito, o da cidade, foi palco de uma série de intervenções pela artista plástica afegã Shamsia Hassani.

 

Obras da Coleção Dreaming Graffiti. https://www.shamsiahassani.net/dreaming-graffiti

 

Esses fatos recentes nos forçam a olhar para a expressão poderosa e radical da artista plástica e professora da Universidade de Cabul Ommolbahni Hassani, mais conhecida como Shamsia Hassani, primeira grafiteira do país. Artista influente, com uma posição política notável, vem realizando, através da sua arte, poderosas intervenções públicas nas ruas e prédios da cidade nos permitindo olhar para o universo do Afeganistão através de seu compromisso com o feminino. Nos oferece um olhar cru da posição de sua comunidade através dos seus grafites . Hassani enfrenta com sua arte a poderosa opressão do Talibã, resiste ao apagamento do feminino em uma sociedade que humilha e espanca jovens em espaços públicos por estarem calçando sandálias.

 

Obra da Coleção Desenhos a Lápis.https://www.shamsiahassani.net/pencil-works

 

Todas as cenas que estamos testemunhando no aeroporto de Cabul nos indicam o que é o ato mais radical da devastação da possibilidade de uma democracia: quando a luta por sobreviver expressa seu ato definitivo, como uma única saída, ou melhor, uma desesperada saída, muitas vezes suicida que leva centenas ou milhares de pessoas a se submeterem ao risco de pisoteamento e a se colocarem na mira dos assassinos.

A tomada de Cabul pelo Talibã fez emergir todo o medo e horror à radicalidade imposta pelo grupo extremista, mas nos faz lembrar a todo o momento que vivemos sob ameaça constante e eterna, como nos fez lembrar Umberto Eco (2018): precisamos resistir, pois o fascismos, como uma ditadura, está sempre à espreita, impondo novas roupagens, exercendo pressão nos grandes grupos em seu capitalismo migratório. “O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas, um alveário de contradições” (p. 32).

Tal ideário prevê um verdadeiro culto à imobilidade da tradição, uma retomada sempre frequente das heranças mais valiosamente perdidas na modernidade. A consequência direta deste primeiro ponto se articula através de outros dois ainda mais evidentes, a combinação da intolerância com a inexistência de avanços de uma cultura, ou mais precisamente, um comportamento ultraconservador e radical que devasta rapidamente posições duramente alcançadas ao longo da história e que decreta a grupos lugares de alienação escravocratas. A recusa vigorosa à modernidade é a garantia mais nefasta de toda a manutenção, ou seja, a implantação da ação pela ação (irracionalismo), sem a necessidade de instauração da reflexão-crítica, portanto, qualquer sinal de diversidade é penalizado de forma definitiva. Aqui as mulheres pagam um preço altíssimo, o ato de controle revestido de tradição fere a liberdade, viola a posição ética e estética do sujeito em sua vida, ao mesmo tempo que impõe um monocromatismo radical. As mulheres precisaram se esgueirar pela cidade, se revestirem de mantos e véus, impedirem-se, silenciarem-se.

Na semana que testemunhamos tal virada, algumas delas, em um ato extremo de coragem, ainda saíram às ruas clamando, e não temendo, ao novo sistema. São expulsas pela forte violência armada dos defensores da Sharia e ainda assim não desistem de serem quem são.

 

Obra de Shamsia Hassani (foto: reprodução/Instagram).

Na obra de Shamsia vimos emergir da viela à escadaria uma mulher multicromática de véu esvoaçante do velho prédio, uma mulher de um novo porvir, uma mulher hoje interditada.

 

Obras da Coleção Murais. Cabul. Afeganistão. https://www.shamsiahassani.net/murals

Na foto acima, do outro lado da margem, uma mulher e uma criança, ambos localizados no topo dos prédios a se equilibrar. Ambos estudam a melhor forma de seguir em frente, olham atentamente para o abismo que se abre sobre seus pés. Como seguir? Provavelmente uma das perguntas mais importantes acerca do feminino em Cabul. E como seguir juntos? Uma operação de estratégia muito particular, a de um equilibrista sobre um fio invisível. Como se manter a salvo? O traço fino do grafite na calçada da velha cidade faz parecer que ambos sobrevoam a fissura aberta na rua, uma ação de escrever imagens para impor presença no espaço público. A arte aqui encara o horror de interdição na cidade, de manifestação restritiva em que o grafite alinha uma maneira de produzir memória, produz uma forma de suportar e imprimir na cidade à beira do caos uma responsabilidade de movimento.

“o ato criador não é executado pelo artista sozinho; o público estabelece o contato entre a obra de arte e o mundo exterior, decifrando e interpretando suas qualidades intrínsecas e desta forma, acrescenta sua contribuição ao ato criador. Isto se torna ainda mais óbvio quando a posteridade dá o seu veredito final e, às vezes, reabilita artistas esquecidos” (DUCHAMP, 1977, p. 74)

Como fazer circular a palavra? O grafite passa então a reservar alguns lugares possíveis de se dizer livre, de produção de fala e de brincar. O grafite produzido por Shamsia faz penetrar na cidade uma outra verdade, uma espécie de rasgo no público, permitindo aparecer uma outra pele, uma outra textura, uma forma de expor a carne. Surgem prédios grandiosos do subsolo, territórios imaginários, verdadeiras fendas iluminadas.

 

 

https://www.shamsiahassani.net/buy-print          Obra da Coleção Prestígio

O olhar, que fica obstruído nas mulheres retratadas por Shamsia, toma potência no ponto de vista do espectador, é como se a artista “nos abrisse os olhos”: o enigma de Cabul se abre aos olhos de todos como cortes profundos na carne da cidade, vai lentamente imprimindo no mapa verdadeiras rotas de fuga, rotas possíveis a serem preservadas para a mostração da fala pública. Pois a fala singular do feminino está vedada, amordaçada, como muito bem Shamsia denuncia em suas mulheres sem bocas.

Espaços passíveis de mergulhos, saltos arriscados que são acompanhados de uma fronteira tênue do limite. Se arrisca aquele que olha para as profundezas azuladas e procura por mais ar. Sim, é preciso respirar fundo para mergulhar no grafite de Shamsia, uma vez que ela nos provoca a olhar para os abismos.

Obra da Coleção Exposição Online 2020.

O grafite interpela, convoca-nos a parar, estacionar nas margens dessa obra que parece vazar narrativas a serem registradas por uma cartografia frágil. O fluxo é demarcado em uma cor outra, que demonstra que o mapa está repleto de interdições. Escandaliza como se a cidade presenciasse a exposição de uma ferida.

Com a potência da sua arte Shamsia não apenas empresta sua coragem para fazer falar os sonhos, os desejos, a esperança de todas as mulheres afegãs que foram obrigadas a calar e a buscar fugir do horror dessa tirania que se impõe de maneira devastadora repetidas vezes ao longo da história do seu povo, como faz furo no que resta dessa cultura de guerras, de ruínas e abandono, colocando formas e cor nos prédios abandonados, nas paredes que não se sabe como permanecem ainda em pé, resistindo a deporem-se, sustentadas ainda pelas memórias; são traços que dão vida ao que já está morto de antemão e já há muito tempo. Assim como dedica a Coleção Birds of No Nation a todos os afegãos que migram como refugiados para outros países, em busca de segurança e paz. Ela diz: “Os afegãos não querem mais levar sua nacionalidade, eles deixam seu país e viajam para outros países, a maioria deles morrem no caminho, perdem suas famílias, ninguém acolhe para o seu país, e as pessoas olham para eles com pena, isso realmente me incomoda”.

Estamos diante de uma obra de testemunho. A obra de Shamsia se edifica nas ruínas, nos destroços da sua cidade, do seu país, de sua cultura, do nosso mundo. A ferida, que antes ficava reduzida aos diretamente afetados por essa desgraça, à medida que se torna pública, escancarada pelas ruas da cidade, se torna também nossa, de todos nós, tanto dos que sabem do que se passa neste contexto, neste território, quanto dos que nada sabem. E, ao se tornar nossa, se torna uma ferida coletiva. Quando se trata de humanidades, ou de traumas coletivos, não há fronteira que resista, que suporte o individual de cada tragédia. Talvez justamente por isso haja essa necessidade insistente e forçada em levantar muros e divisas infinitas para termos a ilusão de que isso que acontece do “outro lado” não nos diz respeito. Artistas como Shamsia vêm para nos lembrar de que não há concretude (ou concretos) no mundo que apague os rastros das memórias enquanto houver narradores/artistas para compartilhar seus testemunhos e transmitir suas experiências traumáticas.

 

Obra da Coleção Murais. Cabul. Afeganistão https://www.shamsiahassani.net/murals

Shamsia elege a máscara à burca. Inscreve no concreto o que está inscrito no seu corpo, e através da sua experiência de subversão permite que outras mulheres se reinscrevam também na história e sobrevivam ao caos da opressão. A arte do grafite tatua nas muralhas do mundo o indizível de uma guerra. Faz marca, registro, rasura. Mapeia o inominável dos atos de aniquilação da dignidade humana.

Seu curso abre fendas que possibilitam entrelaçar as experiências de quem é diretamente afetado pelos atos de violência e aqueles que estão no lugar, de também afetados em outra medida, mas reservados em outros contextos.

 

 

https://www.shamsiahassani.net/buy-print

O símbolo/marca dessa artista é a flor dente de leão, que despedaçada ao vento, voa longe e se dispersa suavemente, contando sempre com um sopro a mais de ar para continuar circulando livremente.

“Liberdade e libertação são uma tarefa que não acaba nunca. Que seja este o nosso mote: “Não esqueçam” (ECO, 2018, p. 61).

Obra da coleção Dreaming Graffitia

 

Gil e Caetano na música “Haiti” nos lembram: “Pense no Haiti, reze pelo Haiti, o Haiti é aqui. O Haiti não é aqui” https://www.youtube.com/watch?v=kn8ebHAbu5g. Pense no Afeganistão…

 

Referência Bibliográfica:

DUCHAMP, Marcel. Ingénieur du temps perdu: Entretiens avec Pierre Cabanne. Paris, Belfond, 1977.

ECO, Umberto. O fascismo eterno. Rio de Janeiro: Record, 2018.

EL SAWY, Maria Izabel Sales de França. A Shari´ah Al Islamia : Contextualização histórica, política e atualidade. Centro de Ciências Jurídicas UFPE- Tese de Doutorado, 2002.

MBEMBE, Achille. Necropolítica: Biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: n-1 edições, 2018.

https://www.shamsiahassani.net/