Espectro: vejo uma porta vermelha e a quero pintada de preto

Publicado originalmente em Revista Lacuna


[ Spectre: I see a red door and I want it painted black ]*

por Ian Parker

Tradução | Rodrigo Alencar

As tentativas de escapar do pesadelo do stalinismo provocam falsas e fantasiosas alternativas de participação democrática sem expressão ou de liberdade individual. A NSK trabalha através de elementos da revolução traída e, nesse processo, instila angústia sobre o que é real e o que deve ser deixado para trás.

SPECTRE, o novo álbum de Laibach, foi lançado recentemente. Esse evento levanta, mais uma vez, questões sobre as intervenções políticas da banda e do grupo político-cultural do qual fizeram parte por muitos anos, o Neue Slowenische Kunst[1] (NSK).

Ambos buscam produzir angústia, forçando o público a elaborar por si mesmo; e eles conceitualizam seu trabalho utilizando a teoria psicanalítica. Mas agora há uma contradição entre a sensibilidade ostensivamente pós-política de muitos fãs da NSK e a conexão explícita que o Laibach faz, hoje, com a política.

Primeiro nós veremos as intervenções políticas feitas pela NSK e focaremos na maneira com que o seu projeto de cravar a resistência no coração do poder incide em diferentes contextos culturais. Há uma questão, aqui, sobre as reais intervenções no tempo em que a Iugoslávia ocupou um lugar ambíguo e contestado no imaginário da esquerda; e, então, a questão dos efeitos retroativos daquelas intervenções em um tempo em que o capitalismo neoliberal estava em plena ascensão e toda alternativa socialista era motivo de sarro por parte da direita.

Revolução

As intervenções político-culturais feitas há aproximadamente mais de quarenta anos pelo Neue Slowenische Kunst (NSK) realmente deveriam ser entendidas mais como levantamento de questões do que uma oferta de respostas.

Essas questões possuem um duplo aspecto que pode ser apreendido pela visualização de intervenções que operam como as que são próprias à psicanálise, com certa angústia provocada no público, assim como aquela produzida na transferência.

De algum modo, isso não é surpresa, dada a popularidade do psicanalista Jacques Lacan — junto de outros teóricos franceses — entre a oposição na Eslovênia da década de oitenta. Uma das características diferenciadoras do movimento radical esloveno daqueles anos foi o uso do que é comumente chamado de “teoria pós-estruturalista”. Outra, a influência punk.

A imagética utilizada pelo Laibach precisa ser compreendida nesse contexto. A estratégia do uso da transferência como arma política foi elucidada por Slavoj Žižek no artigo “Why are Laibach and NSK not Fascists?”[Por que o Laibach e a NSK não são fascistas?][2]. Esse foi um posicionamento que foi repetido por ele, inúmeras vezes, em defesa da banda.

A problematização de Žižek é boa. E até eu encontrei acidentalmente um dos seus ávidos apoiadores no espaço autônomo chamado Metelkova, em Liubliana, dez anos atrás — quando eu mesmo pensava que o Laibach era fascista. O apoiador era Alexei Monroe, autor de um grande livro sobre a NSK chamado Interrogation machine.

O duplo aspecto que o questionamento da NSK provoca é, primeiro, levantar uma questão no público: “O que vocês querem?”; “Não, sério! Por trás das tímidas demandas socialmente aceitáveis que vocês fazem, o que é que vocês realmente estão querendo?”. Sempre surpreende o quão baixo é o nível das expectativas daquilo que as pessoas dirão que elas querem quando são interrogadas, em programas de TV, sobre a reforma que gostariam de fazer em suas casas. É curioso o quão pouco elas pedem. Isso contrasta com um paciente em uma análise, por exemplo: mesmo que você jamais possa atender por completo o que está sendo pedido, o que está articulada é uma voraz e ilimitada demanda, ou seja: desejo.

O segundo aspecto do questionamento diz respeito ao que é provocado no público, e como isso volta para o analista, artista ou performer, ao indagá-los: “O que você quer?”; “Quem é você? O que você quer de mim? O que você está fazendo? Por que você está fazendo isso?”. Em psicanálise, essa ampla gama de impossíveis perguntas paranoicas é condensada, segundo Lacan, em uma relação a um “sujeito suposto saber” — e, então, em um quebra-cabeça sobre como as relações com essa figura replicam as relações com outras figuras importantes na vida do paciente.

Em que plano mais amplo poderíamos elevar esse tipo de questões que não o da revolução? Você pode ver, no coração da revolução da NSK — “revolução” como uma dialética intrincando questões —, o que você quer e o que o poder quer de você, assim como perguntas sobre essas questões. Para chegar ao centro da NSK, temos de voltar um século, para o ano de 1915, quando Kazemir Malevich fundou o “Suprematismo” como um movimento artístico na Rússia; e para 1917, quando os bolcheviques se utilizaram do Suprematismo para o processo criativo da vanguarda revolucionária disparado durante a revolução.

A cruz negra (e o quadrado negro) de Malevich é crucial para a NSK, e eles deliberadamente extraíram uma estética suprematista de uma situação revolucionária na Rússia, em 1917, para jogar isso na cara de um regime que era uma paródia despedaçada do socialismo na Iugoslávia dos anos 1980.

Essa imagética, designada para ser o núcleo da arte Eslovena, é tomada de fora da Eslovênia. Ela não é “eslovena”, e também não é o que parece. Todos nós descobrimos, depois de uma rápida busca na Internet, que Malevich não era nada bolchevique: quando ele via uma porta vermelha, a queria pintada de preto. Malevich foi usado pelo regime revolucionário de uma forma tão cínica quanto ele próprio usou o regime; e ele sequer era russo, como uma rápida pesquisa em websites nacionalistas ucranianos pode revelar.

Agora nós podemos ser um pouco mais específicos a respeito dessas questões sobre revolução na NSK: elas dizem respeito a uma revolução traída. Os bolcheviques eram revolucionários; o fermento criativo após a revolução era autenticamente revolucionário; mas, com a guerra civil, as intervenções dos 21 exércitos dos 14 países capitalistas, a destruição em massa da infraestrutura econômica e a fome em massa, a ascensão de uma burocracia e o triunfo de Stálin, nós tivemos uma traição, a traição se institucionalizou.

No lugar da revolução como uma revolução internacional, há o ressurgimento do nacionalismo. No lugar da intenção de desmantelamento do Estado, ou mesmo de deixa-lo definhar, há uma cristalização do Estado como aparato. No lugar da libertação das mulheres e da liberdade sexual, há um reforço da família enquanto instituição. Essas traições pintam de preto o que era vermelho, elas borram o socialismo com autoritarismo.

Assim, as tentativas de escapar desse pesadelo do stalinismo provocam falsas fantasias de alternativas — quer de participação democrática, quer de liberdade individual vazias. A NSK elabora esses três elementos da revolução traída; e, nesse processo, injeta angústia sobre o que é real e sobre o que deve ser deixado para trás.

Nação

Agora avancemos da Rússia de 1920 e 1930 para a Iugoslávia dos anos 1980. Esse é um momento no qual o internacionalismo é substituído pela retórica do socialismo autogerido, sustentado pelo Estado Iugoslavo; este, sob o comando de Tito até 1980, diferenciava-se do Bloco Soviético.

Assim a República Socialista Federativa da Iugoslávia é, em si, internamente estruturada de modo que posiciona, um contra o outro, cada um dos componentes nacionais. Há uma competição sobre as metas de produção e o controle linguístico. No caso da Eslovênia, ao noroeste da república, por exemplo, as forças armadas são requisitadas a falar servo-croata. Na verdade, a Eslovênia — que é historicamente a parte rica da república, com grandes áreas industriais e plantas de mineração em lugares como Trbovlje, lugar de origem da banda — é um tanto beneficiada: as férias de Tito ali e a área rural permanecem relativamente intactas.

O projeto da Neue Slowenische Kunst já é resposta sarcástica adequada a um regime que se reivindica aberto e socialista enquanto resultado da luta antifascista. Eles nomeiam isso em alemão, chamando a atenção para o investimento do regime em uma versão nacionalista distorcida do “antifascismo”. Assim, a banda dá a si mesma o nome pelo qual os alemães chamavam a capital dos eslovenos, Lubliania; mas que é, na verdade, o velho nome original da cidade: Laibach.

A arquitetura simbólica do regime era um cínico verniz utilizado para justificar o equilíbrio pragmático entre a necessidade dos eslovenos e seus mestres em Belgrado, e para encobrir a crescente propaganda das relações sociais.

Ser contra tudo o que é, digamos, “antiantifascista”: esse é precisamente o jogo que a NSK joga em suas estratégias de superidentificação. Superidentificação é uma estratégia de mimetizar o poder, aproximando-se dele mais do que aqueles que estão dentro do aparato podem suportar, causando-lhes angústia. Essa estratégia de mimetizar o poder causa angústia no público fazendo com que ele próprio tenha de perlaborar, ao invés de acatar, o que se deve pensar ou sentir.

Nós vemos essa estratégia da superidentificação operando muito claramente quando a NSK entusiasticamente abraça a ideologia declarada do regime, em 1987, no caso do “escândalo dos cartazes”, quando um cartaz inscrito pelo integrante da NSK que fazia parte do Novi Kolectivism[3] ganha a competição do dia da juventude, sendo elogiado pelos jurados como algo que comportava o autêntico espírito da juventude socialista — para então ser revelado, pelo grupo, como tendo sido baseado em um pôster nazista de 1936.

A mensagem da NSK é: “Você diz querer socialismo, mas quando te dizemos aquilo que você quer que nós te digamos, é assim que fica. Isso é a traição da revolução e seu nome secreto é nação.”

Soberania

O projeto de construir uma autêntica arte eslovena, de jogar com a imagética nacionalista e suas fantasias de comunidade, corroeu o Estado Iugoslavo nos anos 1980. Mas isso também levanta questões sobre qual será a natureza do governo esloveno enquanto um Estado de seus próprios cidadãos.

Essas perguntas parecem encontrar resposta em 1991, com a declaração de independência na nova República da Eslovênia. “Identidade” é uma das respostas mais perigosas para a questão do ser, quando isso se fecha em si mesmo para proteger o que parece ser um conteúdo harmonioso e homogêneo do conflito no lado de fora.

Se o Estado é, em última análise, “um corpo de homens armados”, então a identidade do Estado é destinada a ser um corpo armado que finge proteger a si mesmo; mas que vai, então, investir a maior parte da sua energia em se proteger de si mesmo, suprimindo o conflito interno — tratando o conflito interno como a ação de sabotadores trabalhando para interesses alheios.

A formação do NSK State in Time, em 1991, responde a esse problema da nova República com novas perguntas. O State in Time [Estado no Tempo] — como um Estado global que emite passaportes independentemente da geografia — não é, cumpre notar, democrático. Ele não pretende oferecer aos seus cidadãos um espaço ideal, uma vez que é precisamente destinado a operar como um Estado. O seu passaporte te oferece cidadania, mas você rapidamente descobre que isso não faz de você um membro da NSK (e, aliás, nem sequer o meu próprio “passaporte diplomático” faz isso). Esse Estado levanta a questão sobre o que significa ser incluído; e o que você vai pagar para ser incluído é algo que é ostensivamente aberto a qualquer um, mas que sempre mantém um pé atrás[4].

Este caráter de “Estado” da NSK como “Estado no Tempo” destaca uma série de contradições sobre o que pode ser “participação”, e quais são os limites dessa participação. Essas contradições também atravessam o primeiro “Congresso dos Cidadãos” da NSK, de outubro de 2010, que foi sediado em Berlim. Eu fui convidado a comparecer para promover um dos grupos de trabalho. Aquilo com que os “cidadãos” tinham de lutar era o seu desejo de guiar o Estado — essa era a proposta incitada nos convites enviados um ano antes — e eles tiveram de lutar com as suas dependências servis ao Estado-mestre, do qual obtinham reconhecimento simbólico à medida que realizavam obedientemente o seu trabalho.

Sexo

O marxismo se volta contra ele mesmo no projeto da NSK, simultaneamente traído, porque ele próprio — esse marxismo stalinizado na Iugoslávia — já traiu o impulso revolucionário e cristalizou o marxismo em uma ideologia de Estado. A questão é se a traição da traição retorna para nós algo que resgata o marxismo como verdade.

A primeira onda feminista da revolução russa também se volta contra a ideologia familiar e o Estado-Nação; e se reduplica (e assim por diante) com uma série de intervenções, dentro e em torno da NSK, que combinam elementos da segunda onda e, até mesmo, da terceira onda feministas. Dizer que essas intervenções são “feministas” é alargar a definição; assim como dizer que a NSK é, em si, realmente marxista. No entanto as questões que eles trazem podem realmente eletrizar, assim como enraivecer, marxistas e feministas.

Por exemplo: o quadrado negro de Malevich foi empregado na prática da arte contemporânea em intervenções feministas na Bienal de Veneza de 2001. Tanja Ostojić ficava no centro de uma peça de arte performática destinada a colocar em questão as relações de poder e os sistemas de patronagem em eventos de arte como esse.

Sua performance se chamava “I’ll be your angel” [Eu serei o seu anjo], na qual ela seguiu um abastado curador e historiador da arte, sendo fotografada sorrindo graciosamente para ele, animando-o e desempenhando o papel da boa artista dependente. Como parte dessa performance — que, por fim, fez o curador denunciá-la, irritado, quando ele se deu conta —, Ostojić raspou seus pelos pubianos na forma de um quadrado negro, numa superidentificação com o establishment artístico, que joga a favor e contra a objetificação da forma feminina.

Marina Gržnić nos dá um saldo disso no seu livro Situated contemporary art practices: art, theory and activism from (the east of) Europe [Práticas artísticas contemporâneas situadas: arte, teoria e ativismo (do leste) da Europa], que é uma poderosa descrição feminista e uma defesa do projeto da NSK: “(…) entre as pernas de Ostojić, a matriz real/impossível da máquina capitalista de potência artística recebeu a única aparência radical e crítica possível que é uma aparência em carne e sangue”. Gržnić, uma apoiadora de longa data, também contribui com algumas ligações interessantes entre as questões desse “Estado”, requerentes de asilo político e refugiados nos dias de hoje.

Outro projeto de Tanja Ostojić, de 2001-2005, se chamava “Looking for a husband with an EU passport”[Procurando por um marido com passaporte europeu], no qual envolveu postar imagens dela mesma em websites como uma obra performática online. Esse trabalho chamou a atenção para o Estado-Nação como um aparato patriarcal que converte mulheres pobres desesperadas, querendo cruzar fronteiras, ao status de prostitutas. Mais de 500 cartas foram trocadas com homens, e a performance continuou depois que um casamento foi arranjado e ela conseguiu um visto de reagrupamento familiar na Alemanha. Ela se separou do seu marido em uma performance online em 2005.

O pôster “EU panties” [Calcinha da União Europeia], uma colagem da “A origem do mundo”, de Courbet (uma pintura que já pertenceu a Jacques Lacan, acredito que não coincidentemente), foi selecionada para promover a presidência austríaca do conselho da União Europeia, em 2005 — e, então, condenada por levar a imagem da Áustria à lama e por ser uma “pornografia estatal”.

Intervenção política e ESPECTRO

A NSK funciona como uma intervenção política no nível da política de Estado —o que é comumente imaginado como sendo a esfera da política —, assim como uma política como intervenção no nível da subjetividade, o que é comumente imaginado como sendo a esfera “individual”.

Essas duas intervenções também se inserem na questão entre política e subjetividade.

A nação, o Estado e o sexo são mobilizados para nos fazerem questionar o que queremos, e para nos recusarmos a aceitar quaisquer respostas ideológicas fechadas —sejam elas em nome do fascismo, do marxismo ou do feminismo.

Mas o perpétuo questionamento aberto que a NSK provoca é, afinal, algo que corrói o pequeno fascista que o capitalismo neoliberal incita dentro de cada indivíduo, e força a conexão entre políticas marxistas e feministas, de modo que o impulso revolucionário que está na origem histórica do projeto NSK possa, uma vez mais, ser reavivado.

Agora a banda Laibach possui um álbum novo, e o seu título, “SPECTRE”— que evoca o “espectro do comunismo” rondando a Europa, referido por Marx e Engels no Manifesto Comunista —, convoca uma questão: “ESPECTRO do quê?”

O álbum vem com um livro-do-membro do Partido ESPECTRO, com um link para registrar, no qual você será alertado: “Você não pode deixar o partido. Mas o partido pode deixar você”.

O livreto repete a proclamação do Laibach de 1982: “Toda arte está sujeita a manipulação política, exceto aquela que fala a língua dessa mesma manipulação”.

No Congresso dos Cidadãos, de 2010, em Berlim, os membros do Laibach comentaram, na sessão final, que se sentiram “órfãos”, tanto tempo sem fazer parte de nenhum Estado. Havia um senso de exaustão por parte dos membros fundadores da NSK, que mantiveram a forma da incerteza sobre política com o intuito de manter queimando a angústia que funcionou como combustível desde o início da década de 1980, sob o stalinismo, até o neoliberalismo dos dias atuais. Há uma mensagem sobre algo que é tudo menos uma ruptura com a NSK no lançamento do novo “Partido” internacional.

A maior surpresa, quase um desapontamento, não é tanto o fato de esse álbum conter o mais do mesmo de antes; mas o fato de que aquilo que é diferente é peculiarmente explícito, legível e até aceitável para a esquerda. Assim, há empréstimos e reversões da cultura popular, como na faixa “Resistance is futile” [A resistência é inútil], que declara: “We are Laibach / And you will be assimilated” [Nós somos o Laibach / E você será assimilado]— que reprisa os temas cibernéticos da trilha sonora que fizeram para o filme, realizado com financiamento coletivo, intitulado “Iron Sky”.

E daí há alguns sentimentos razoavelmente clichês presentes em propagandas agitadoras em “Americana”, de que “Se quer mudar o sistema / vai pra rua já. Pois se não for, outra batida vai soar” [tradução livre de: If you wanna change the system / get out on the street. Cos’ if you don’t – you’ll hear a different beat]. Žižek já abandonou o barco, e passou a apontar Rammstein como um exemplo melhor de produção de angústia e redução de significantes ao não senso — um movimento que também abandona de maneira mais vasta o projeto político da NSK sobre o qual já comentei em outro lugar. Numa certa altura, em “No history” [Sem história], podem ser reconhecidas as palavras de ordem da NSK/Laibach, como na injunção para “usar a linguagem para mal entendidos / Disfarce” [use the language of misunderstanding / Disguise it]. E, noutra, continuando no mesmo verso, há uma convocatória mais reconfortante para o “Occupy Wall Street”.

A primeira faixa, “The whistleblowers” [Os dedos-duros / Os assobiadores], é uma celebração bastante clara da transparência na política, mesmo que isso esteja temperado em uma linha com uma referência para os aficionados pela “máquina da cruz negra”. A faixa deve ser ouvida no Youtube enquanto se assiste ao maravilhoso vídeo gravado na Letônia com seus jovens atletas. Nesse vídeo estão inclusos os versos: “From north and south / We come from east and west / Breathing as one / Living in fame / Or dying in flame / We laugh / Our mission is blessed” [Em tradução livre: De norte e sul / vimos de leste e oeste / Respirando em um / Vivendo em fama / Morrendo na flama/ Sorrimos / Oh, missão celeste]. O afeto, eu diria, não é angústia. Há um fechamento. A porta preta foi fechada, finalmente repintada de vermelho.


** Ian Parker é psicanalista, coordenador do laboratório Discourse Unity e do coletivo Psychonalytical Matrix.

*** Rodrigo Alencar é psicanalista, doutorando em psicologia clínica pela USP, membro do Laboratório Psicanálise e Política, professor na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.



* O texto original está publicado em: <www.opendemocracy.net/ian-parker/spectre-i-see-red-door-and-i-want-it-painted-black>. (N. do E.)

[1] Nova Arte Eslovena. (N. do T.)

[2] O texto na íntegra, datado de 2013, pode ser lido no seguinte link: <http://xenopraxis.net/readings/zizek_laibach.pdf>. (N. do T.)

[3] Cf. HEISE, Diana. “Can I be Slovene too?”. In: JEFFERY, Celina; MINISSALE, Gregory (Org.) Global and local art histories. Newcastle upon Tyne: Cambridge Scholars Publishing, 2007, p. 275. (N. do E.)

[4] O Estado NSK foi uma intervenção que perdurou até a década de 2000. Nele, qualquer um poderia se inscrever como membro, portando um passaporte que o faria integrante de uma nação que transpõe os limites geográficos e temporais — uma espécie de paródia de pertencimento a uma totalidade, presente na ideia de “identidade nacional”. (N. do T.)