Num momento da nossa história nacional em que a dita elite politica deve estar –  como me diz um amigo – preocupada em não haver uma grife elegante para tornozeleiras eletrônicas, talvez seja interessante poder ao menos associar livremente sobre o que entendemos como elite.

Dito isso, meu primeiro pensamento é que a nossa compreensão do que seja elite parece, ao menos para a maioria das pessoas, estar atrelada à imagem de área vip, tome ela a forma do camarote de um show ou casa noturna ou simplesmente a de um bloco do carnaval da Bahia, no qual uma corda e um cordão humano mal remunerado separam algumas pessoas de determinadas outras. Todas estas, figuras imaginárias de um outro sintagma que procura dar conta do que entendemos como elite:gente diferenciada.

Para ZigmuntBauman, os pobres e os excluídos tendem a ser percebidos como viscosos, como capazes de nos arrastar para o lodo da exclusão social, nos transformando em perdedores[1]. Nossa concepção de elite parece se apoiar quase inteiramente na construção de barreiras que nos protejam desse visco. Barreiras que nos legitimam como seres diferenciados, imunes à pobreza, mas também à lei.

Ser da elite não parece significar a posse de nenhum atributo especial – como aqueles que antes poderíamos associar a valores aristocráticos– e assim o pertencimento à elite nada implica além da distinção em relação aos que a ela jamaisterão acesso, sobretudo os pobres e os pretos ou os quase brancos quase pretos de tão pobres, como cantam Gil e Caetano nos lembrando do Haiti. Por isso, o esforço permanente em erguer e manter as barreiras que nos separam e mantém a distinção, a ferro e fogo.

Ser de elite é estar à margem da maioria, o que confere uma espécie de legitimidade ao nosso dito jeitinho brasileiro, pois quando temos acessoao camarote e nos separamos da plebe ignara (como se dizia antigamente) o jeitinho deixa de ser sinal de esculhambação e passa a ser signo de autoridade ou de reconhecimento, o que nos dá o direito de pressionar um colega ministro pela liberação do imóvel irregular onde adquirimos um apartamento incompatível com a nossa renda ou de receber na calada da noite um empresário com o qual tenho uma consistente relação de troca de favores.  Aliás, como todos sabemos, um dos charmes maiores da área vip é poder convidar um pobre mortal a compartilhar conosco nossos privilégios enquanto a massa se espreme em filas ou contra o cordão de isolamento.

Ter o privilégio de ser da elite é assim ocupar determinados lugares inacessíveis à maioria, e é por isso que essa geografia do privilégio me leva à geografia da cidade do Rio de janeiro – onde morei grande parte da minha vida, contemplando de longe tanto as favelas nos morros quanto as coberturas da Vieira Souto – e me perguntar sobre Copacabana.

 

Por que em Copacabana se diz bom dia aos vizinhos? Por que, ao contrário, durante os cinco anos em que morei na fatia mais nobre da cidade maravilhosa, no coração de Ipanema, deparei tantas vezes com pessoas incapazes de trocar duas palavras simpáticas, de falar sobre o temponum rápido passeio de elevador? Por que, ainda nesse dito bairro nobre, um velho ator insistia em não agradecer sempre que segurávamos a porta para que ele passasse, ou por que outro ilustre vizinho, financista bem-sucedido, jamais segurava a porta para que qualquer outro alguém passasse?

Para não falar das lixeiras do prédio elegante, aquelas que precisamos abrir e despejar nossos sacos de lixo para que desabem sobre uma grande lixeira comum nos subterrâneos do edifício, mas que a maioria dos moradores, gente diferenciada, se recusava a abrir, talvez para não se contaminar com odores quaisquer, talvez para que nem mesmo seus dejetos se misturassem indevidamente. Enfim, deixavam lá seus sacos no corredor, junto à portinha da lixeira, para que o porteiro, gente comum, terminasse o serviço.

Por que em Copacabana é diferente e a chamada classe média decadente e empobrecida daqueles prédios cheios de vizinhos ainda tem uma boa noção do que seja civilidade? Por que lá um garoto de 10 anos, embora ainda não tenha aprendido a limpar os pés da areia da praia antes de entrar no elevador, já sabe, no entanto, que deve segurar a porta e esperar quem está cruzando a entrada do prédio, a 15 metros de distância?

Por que os nossos nobres jogam latas vazias pelas janelas dos seus automóveis enquanto aqueles que vivem dessas latas jogadas nas ruas, tantas vezes nos pedem licença ou agradecem quando se abaixam e se metem entre nossas pernas elegantes e bem vestidas para catá-las? Que sentido damos a nobreza? O que seriam e a quem pertenceriam no Brasil de hoje os gestos nobres?

Entender isso talvez nos permita entender um pouco mais sobre o que chamamos de elite. Até mesmo para não nos enganemos acreditando que no Brasil só conservadores e gente de direita são vítimas dessa ilusão do distinguir-se ou solitários culpados das barreiras cotidianamente erguidas para que ela se mantenha, ou ainda beneficiários exclusivos das trapaças que nela se legitimam.

Lembro do lançamento do livro de uma amiga, conhecida militante de esquerda, quando um jovem e brilhante advogado, colega da mesma militância, talvez por ser tão jovem, brilhante, e até generoso por ser de esquerda e lutar pelas classes populares, se achou no direito de furar a fila enquanto quase uma centena de pessoas se espremiam entre os corredores. Somos todos iguais, mas talvez nós, que, podendo nos achar melhores pela nossa classe, formação ou posição politica, abrimos mão desse direito para nos admitir iguais a todos os outros, bem, talveznós sejamos no fundo um pouco melhores.

Temos pessoas da elite, afinal, ocupando diversos setores do espectro político,indivíduos que parecem ver como essência da distinção social o direito a desrespeitar o outro, numa espécie de narcisismo sem dor, sem risco e sem culpa. Uma dispersa legião de vencedores que acredita que venceu, e só isso importa, pois como nos lembra Richard Sennett, no capitalismo dito avançado, o vencedor leva tudo[2].

A tudo isso, prefiro definitivamente Copacabana, onde a velha elite já aprendeu, em geral com a idade, que a ruína é destino inevitável dos seres humanos,  e que aos oitenta anos nos tornamos todos iguais perante um degrau alto demais, a rua sem calçada ou a fila do banco. Onde os jovens, que talvez já nem sonhem em fazer parte da elite, acham simplesmente que é melhor e mais prático tratar os outros como iguais. Ali, tudo é meio junto e misturado, e os narcisismos das pequenas e grandes diferenças, ou as ilusões de distinção, são postos diariamente à prova pelo convívio inevitável com o outro  e com os limites da nossa tolerância e dos nossos preconceitos.

Entender a elite como os portadores de pulseirinhascoloridas exibidas orgulhosamente a seguranças talvez nos ajude ainda a entender o porque desse sentimento tão compartilhado aqui e ali, explícita, discreta ou implicitamente, de que precisamos castigar o Partido dos Trabalhadores, essa raça  da qual precisamos nos livrar de uma vez por todas (termo e expressão do ilustre Senador Jorge Bornhausen), bando de penetras em festa de bacana, gente que não tem nem o bom gosto necessário para gastar os frutos da corrupção, que talvez não tenha sequerum sítio em Atibaia, mas certamente tem alma de pobre, como lembrou entusiasmadamente ao próprio Lula,numa dessas famosas interceptações telefônicas,o também ilustre Prefeito Eduardo Paes, gente que não vai a Ipanema ou ao Leblon das novelas da Globo, gente com ambições de suburbano que talvez mereça, no máximo, um lugar na praia de Copacabana, de preferência naquele pedacinho onde o sol já não bate por conta da sombra dos edifícios de onde os Neves, os Collor de Mello ou os Marinho eventualmente saúdam o ano novo.

Por fim, última associação, lembro do clássico Viva o povo brasileiro[3], de João Ubaldo Ribeiro (imortal da Academia de Letras e, segundo ele mesmo, também da Academia da Cachaça), no qual a ficção nos demonstra poética e didaticamente como a construção da nossa elite se deu desde o princípio na contramão da formação do nosso povo e da nossa nação, o que talvez nos explique porque tantas vezes temos a impressão de que seus movimentos parecem desejar simplesmente destruir esse povo e essa nação, como destruíram ao menos grande parte do encanto de uma tarde em Copacabana retirando-lhe tão somente o brilho do Sol.

Eduardo Leal Cunha é psicólogo e psicanalista. Doutor em Saúde Coletiva (IMS/UERJ). Professor do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Sergipe. Pesquisador Associado do Centre de Recherches Psychanalyse Médecine et Sociétéda Universidade de Paris VII – Diderot.

[1]Bauman, ZigmuntMal-estarnapós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1999

[2]Sennett, Richard. A corrosão do caráter. Rio de Janeiro: Record, 2004.

[3]Ribeiro, JoãoUbaldoViva o povobrasileiro. São Paulo: AlfaguaraBrasil, 2008.