Da privação à privatização da vida e da morte. Por Flademir Roberto Williges

“Se correndo com os pedestres você se cansa, como poderá competir com os cavalos?” (Jeremias, 12, 5).

No Texto “Imagens, Sensações e simbolização da Morte em Tempos do Novo Coronavírus”, Especial ao Psicanalistas pela Democracia, no dia 10 de maio de 2020 (https://psicanalisedemocracia.com.br/2020/05/imagens-sensacoes-e-simbolizacao-da-morte-em-tempos-do-novo-coronavirus-por-flademir-roberto-williges/), falei sobre a espetacularização da morte e sobre o uso das máscaras. Quis destacar dois movimentos no jogo de vida e morte da Covid-19: 1º) a apreensão fictícia da realidade encenada (filmada) e, 2º) o caráter das construções narrativas da mídia social (suas edições “mascaradas”). Nestes dois movimentos ocorre uma apropriação fragmentada e, em consequência, desapropriadora de conteúdos significativos dos sentidos humanos. Eles acabam por achatar a própria compreensão do sentido da busca de uma unicidade do corpo humano. O corpo, enquanto ente humano, não carece só de necessidades básicas de sobrevivência. Ele carece de sentido. Por isso, ele sente e é afetado tanto pelo visível como pelo invisível. Formulei também a hipótese de que a emoção da morte, ou seja, “nossos sentimentos”, uma vez visualizados de forma aparente e mediados por imagens em telas planas, poderão ser aceitos mais facilmente. Os aparelhos não sentem. Por um lado, e sempre dentro de um contexto de expectativas sociais, são projetados como instrumentos ou ferramentas utilitárias – que nos poupam principalmente o tempo e a angústia da espera. Mas um meio de comunicação nunca é apenas um meio. É um filtro. Nesta direção, necessariamente, algo vital, subjetivo, tem que ser abstraído em sua programação. Esta, por sua vez, tem que ser pautada por uma forma de uso da razão que garanta a eficiência e o êxito. O “conforto” não vem meramente dos resultados, mas de um saber prévio que funda a própria techné. Seu imperativo não é categórico, mas hipotético: se queres alcançar determinado fim, os meios devem ser coordenados com vistas a este fim. Este esquema de base, como domínio abstrato e fragmentado da natureza do ente, serve tanto para governar organismos humanos quanto máquinas. O nome desta abstração se chama racionalidade técnica. Sua objetividade vem junto com sua frieza. A prova de sua não-neutralidade é que seus produtos resultam de um processo de conhecimento humano feito por humanos. E o interesse deste tipo de aplicação da razão é que ela implica a humanização desde seus inícios, ou seja, ela respondeu e continua respondendo a interesses subjetivos. A história da externalização de suas conquistas em produtos cada vez mais sofisticados – desde a modulação do som para formar palavras até a captura de pensamentos através do monitoramento por imagens – compõe uma arena cujo objeto de disputa não se dá mais sobre este ou aquele objeto, mas sobre a própria percepção humana. Por fim, o texto acima referido lança outra hipótese. Fala de uma tendência global: o deslocamento da instância repressiva e dos juízos morais rumo a uma instância de apreciação em termos de juízos estéticos, cujo principal avatar é o costume causado pela impressão fixada desde fora pela imagem técnica no interior dos organismos.

Gostaria de retomar estes temas tecendo alguns comentários que os aprofundem:

1°. Sobre as possíveis mudanças na simbolização da morte;

Ao tratar das mudanças na simbolização da morte destaquei elementos trazidos pela Covid-19 que modificam o próprio ritual de passagem. Ao mesmo tempo falei da realidade tanática que antecede em nosso país a morte pela Covid-19 – e que abate milhares de brasileiros antes mesmo que suas expectativas de realização social sejam cumpridas. Falei de idosos uberizados que têm que trabalhar precariamente para poder sobreviver; dos que contraem o vírus nas filas do auxílio emergencial; de jovens, principalmente negros, que vivem em comunidades desassistidas pelo Estado, que somente mostra sua face sob a forma de cassetetes ou balas de fuzis. A nossa relação com a morte fatual, ou melhor, antes mesmo, já no âmbito de uma experiência reflexiva, é ambígua. O pensamento fracassa e não alcança contorná-la. A morte evidencia o quanto somos sujeitos e objeto. Logo, abre-se aqui uma lacuna a ser preenchida: por que essas mortes fáticas não são objeto de igual visibilidade e mobilização civil como esta que vivemos hoje sob o isolamento social? Porque é de se perguntar como – tal como podemos deduzir da leitura de A República das Milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro (MANSO, 2020), obra resultado de anos de pesquisa do jornalista carioca Bruno Paes Manso, que narra anos recentes da vida nacional brasileira – boa parte da população brasileira, em nome da “segurança”, naturalizou a morte violenta, o assassinato, a justiça “pelas próprias mãos”, e materializou na imagem gestual dos dedos da mão fazendo arminha uma nova miragem da moralidade? No momento em que escrevo, segundo a contagem do Consórcio dos Veículos de Imprensa, são mais de 224 mil mortos no Brasil. Isso causa sensação. Porém, a racionalidade matemática não dá conta da individualidade do trauma, do choro contido, da dor de um luto que sequer teve o tempo de ser sentido.

Por conta de nossa incerteza existencial quanto a quais seriam as melhores formas de satisfação fomos acostumados a não querer mais o que queremos. Hesitamos. Nosso pretérito é imperfeito. Fomos desacostumados a pensar sobre o fato de que a melhor forma de satisfazer a vida possa residir na repetição de formas antigas: isto se chama cultura. Em função de um mandado de estar sempre up to date, vivemos hoje em constante crise de realização, de atualização. Sentimo-nos atrasados frente às demandas editadas pelo mercado. Esse discurso circula de forma tão branda e tão rápida a ponto de endurecer-se numa ilegibilidade que nega as conquistas da crítica moderna, ou seja, nos vicia em velocidade constante, sem limites. Vivenciamos a imposição de uma constante ruptura. A maioria de nós fica presa nessa imediatez e em suas ambiguidades. Não alcançamos acalmar nosso ser. E, para muitos, a finitude se apresenta como uma desgraça.

Num sobrevoo na história do pensamento antigo encontramos a opinião do grego Epicuro que diz que a morte não pode nos fazer mal. Aterrizando na contemporaneidade, o filósofo Rowlands desloca essa argumentação. Segundo ele, o problema seria que “a morte nos faz mal pelo que nos priva”. (ROWLANDS, 2010, p. 172). A isso os filósofos chamam de “mal da privação”. Rowlands contesta a posição epicurista e ataráxica de que a morte nos priva de uma coisa que já não possuímos e, portanto, não nos faria mal, e busca explorar porque ela pode nos fazer mal. Sua resposta é que nos faz mal porque negaria as nossas possibilidades, ponderando, porém, que “apenas algumas de nossas possibilidades são relevantes para a privação provocada pela morte: são aquelas que desejamos que se realizem. A cada uma dessas possibilidades corresponde um desejo: o desejo de que a possibilidade se realize” (idem, p. 173).

Então, vamos tentar tirar algumas implicações materiais desta narrativa filosófica. Como coloquei acima, há aspectos de uma privação anterior à Covid-19 a serem considerados. A política da imagem, seu poder de sugestão, pela mera forma como apresenta a realidade da vida e da morte, nos rouba conteúdos significativos. Em outras palavras: trata-se de pensar sobre o modo como o filtro midiático apresenta a realidade da vida e da morte e sobre o modo como mediatiza, valora, ou reconhece a realização ou não de metas, desejos, projetos, objetivos e sonhos das pessoas. A alienação ou a hipoteca do futuro priva a pessoa, antes mesmo de morrer, da possiblidade de antecipar imaginativamente um futuro que não seja um “no future”.

Por outro lado, a alienação da interação virtual não nos priva de um futuro pura e simplesmente. Por sua necessidade de apresentar/transformar todo conteúdo empírico sob a forma estética, ela burocratiza o hoje, o ontem e o amanhã. É por isso que a eterna notícia televisionada ou emitida sobre números de mortes, sobre sua geração e corrupção, correção ou incorreção, é tão fáustica quanto enfadonha. Se um assassino político nos priva de um amanhã, desrespeitando-o em função de preservar sua própria imagem viva no presente, o sentido de privação envolvido também toca àqueles que vieram ontem. Apelar ao etarismo é sinônimo de uma recusa social que se resigna em aceitar que os idosos também têm direito a um lugar no mundo. O que se observa hoje é o predomínio do discurso da obsolescência programada. Os idosos são tratados ao modo-mercadoria, como se tivessem prazo de validade. Todavia, de forma surpreendente, amplos segmentos de mercado estão lucrando com o espólio, com o “de cujus” deixado sob a forma de memória materializada fora do corpo. Estes modos de privação sistêmicos da vida e da morte – quer seja por parte do Estado ou do Mercado – são muito diferentes daqueles que existem quando a idade nos priva da energia da juventude, ou quando alguém nos rouba algum bem. No Canadá um estudante descobriu que estava tento aulas com um professor de artes que havia falecido no ano anterior à pandemia.

Diferentemente de outros animais não-humanos, nós gastamos muito tempo de nossas vidas orientando de forma ideal nosso comportamento em direção à realização de metas futuras. O serviço da persecução de ideais é ofício de diferentes formas de valorar moralmente. Uma vez que moral é ritualização de um costume social, uma espécie de natureza segunda, nos tornamos serviçais a certos ideais, ou seja, acostumamo-nos a avaliar os fatos futuros a partir de nosso presente, como promessas. Por causa dessa determinação moral, “investimos” em futuros contingentes na esperança de não perdermos tanto na hora de nossa morte.

Questionar as mudanças na significação da morte implica pensar nas relações que estabelecemos com nossa finitude. A forma da morte pela Covid-19 é uma entre as inescapáveis formas que existem de deixar de viver. Deixar de viver, de forma trágica ou venturosa, envolve todo o ser do ente vivo; por isso, ao considerá-lo em sua totalidade, estamos no terreno de um estudo ontológico. A tentativa filosófica de compreender um ente em sua totalidade esbarra nas mesmas limitações da ciência. Damo-nos conta que da natureza do vírus pouco sabemos. Contudo, desde sua criação, como parte da filosofia grega antiga, a ontologia inteira até hoje pode ser lida como uma forma de resposta ao susto causado pelas mudanças abruptas e inauditas da natureza, ou seja, como necessidade de traduzir seus abalos em pensamentos que dessem apoio e orientação à falta de permanência, de repouso, de silêncio ou de quietude. Contudo, desde os primeiros filósofos pré-socráticos, os chamados físicos, a longa busca filosófica secular tomou o partido de Parmênides contra Heráclito, e a busca por fixar uma base não susceptível à corrosão da passagem do tempo, levou à redução da totalidade das manifestações da natureza confinando-as em espaços e tempos pré-fixados, ou seja, criou-se a ficção de um princípio universal pensado lógica e ontologicamente. Por outro lado, esta busca e seus diferentes marcos de fixação também não eliminaram o sentimento de carência de uma instância superior sobrenatural como lugar de “fuga” dos abalos da natureza, a criação de um espaço de sentido e de orientação transcendente para nossa finitude. Ainda hoje, ao lado da filosofia e das ciências, proliferam as tentativas de explicações espiritualistas e religiosas.

2°. O tempo medido do representante político e o tempo sentido pelo cidadão

Ao tentar compreender e avaliar a morte em sua totalidade, a vemos incorporada em diferentes concepções de tempo. Como prova desta subordinação da percepção da morte a diferentes concepções de tempo, temos o exemplo de que lamentamos muito mais a morte de uma criança do que a de um idoso. Tanto no sentido etário quanto cronológico, se subordinarmos a significação do sentido do tempo à medida usualmente utilizada pela contagem estabelecida pelo gestor de políticas públicas ou privadas de saúde, torna-se indeterminado o número de mortes que antecederam à Covid-19 e a própria contagem das mortes atuais. A representação do tempo para o político ou gestor em exercício, e os atos que são executados em seu mandato, não são representados e nem contados da mesma forma que o tempo do cidadão comum. Quando acaba o gás para fazer o almoço, este tem que dar um jeito de o conseguir. Se ele não tiver outro meio de cozinhar seu alimento, este problema envolve todo o seu ser. Já o político, instalado em seu gabinete executivo, conta o tempo segundo um calendário cuja mudança realmente significativa se dá de 4 em 4 anos. O próprio sentido de “falta” é vivenciado de forma diferente. Assistimos esta lógica se instalar na carne dos menos favorecidos na crise de abastecimento de tubos de oxigênio no Estado do Amazonas. Na área da saúde pública podemos perceber esta correlação direta acima referida entre tempo e morte, porque o Sistema Único de Saúde, seus equipamentos de acesso à população e a contratação de pessoal, entre outros processos, dependem de licitações ou trâmites administrativos que “levam” tempo. Contrastando a representação do tempo da forma burocrática estatal frente ao tempo representado pela forma de vida cotidiana do cidadão comum percebemos que o tempo do político ou gestor é vivido sob a modalidade de um tempo “amortecido” quanto a impactos imediatos de crises. A confirmação dos votos vencedores a cada quatro anos busca renovar a promessa de uma coesão do futuro da comunidade; porém, a vontade política inovadora é pensada e seus atos são subordinados à sua sobrevivência futura. Autoconservação é tudo o que se quer. Por isso, as constantes pesquisas acerca do grau de satisfação dos cidadãos com seus representantes. No rumo da trajetória descrita pelas possibilidades de realizações disparada pela flecha burocrática, eu diria que, na falta de uma imagem mais sensível, ela se volta sobre si mesma e contra as gentes, ou seja, a promessa dirigida à transformação da vida futura dos cidadãos comuns retorna a seu ponto de origem, a saber, à perpetuação do partido no poder. Enquanto houver representação, esse teatro perdurará. As origens do drama político brasileiro, seu desenvolvimento e fechamento sempre favorável às elites, está eivado de morte. A imobilidade do cadáver dá a dimensão do dinamismo da modernização.

Para concluir este ponto: a epidemia é um problema de fato. Em seu início, ao sair de casa caminhando à rua, ocorria-me, com as lentes dos óculos embasadas pelo ar comprimido da máscara, uma dúvida sobre o que realmente estávamos vivenciando. Demorava um tempo para que a realidade reparasse a ilusão. E daí pensava que muitos companheiros transeuntes estavam de ressaca. Na ressaca, demora-se um tempo para que a ilusão saia de si mesma e repare a realidade. Da mesma forma que, ao escrever, a realidade exterior me cobra não fazer eufemismos. Por isso, aponto aqui a necessidade de separar e não confundir a gramática que a mídia expressa em um conjunto de termos técnicos e eufemismos, e a gramática cujas expressões são adequadas ao assunto – tal como ela é vivenciado pelo cidadão ou cidadã comum. Como forma de apresentação midiática da realidade do novo coronavírus, efetivamente, no mundo inteiro, nenhuma interpretação que use de um linguajar rebuscado sobre intenções boas ou más dos agentes de saúde substituirá a necessidade de aparelhos, testes, remédios e a vacina para contornar o mal causado. Portanto, a constatação de que nenhum governo de país algum estava preparado para esta pandemia não deve ser aceita como explicação ou resposta ao que está acontecendo. Isso que está acontecendo: como foi possível deixar isso acontecer? Isso é o que deve ser explicado. Meios para se evitar tal hecatombe existiam. O que deve ser explicado é porque não foram colocados objetivamente nos lugares adequados.

  1. Sobre a falta de equipamentos e de profissionais de saúde: a privação

A falta de algo que pode resultar na maior privação da vida, a saber, a morte, deve ser tomada como causa verdadeira sob diferentes aspectos. A fala, mesmo que verdadeira, sobre a falta de um equipamento técnico, não deve ser tomada como causa final ou conclusiva de uma morte. O meio pode ter sido mal utilizado ou sua adoção ter contribuído para a morte. Por isso, num sentido lógico e teórico, sua presença ou ausência deve ser tomada como uma premissa, não como uma conclusão. A falácia de falsa causa ou de conclusão irrelevante pode ser aprendida num diálogo jocoso no qual um locutor parte da premissa de que tomou Ivermectina® desde o início da pandemia e, conclui que não contraiu o vírus. Por sua vez, o interlocutor fala que comeu pudim desde o início e, portanto… A presença pode operar como um falso objeto na explicação conclusiva sobre as causas da evitação de uma morte e vice-versa, pois sua nomeação não está apenas na dependência de quem tem capacidade de falar. O poder de dizer ou de determinar o que deveria estar presente ou ausente na realidade depende do conhecimento, e não de opiniões ou crenças. Um objeto pode estar faltando na realidade mesmo que ele não seja simbolicamente determinado como devendo estar presente. Não se tem palavras para nomear todas as coisas e nem aparelhos para corrigir todas as imperfeições da realidade. Antes de ser simbolizada, a morte é real. Uma coisa são os discursos; outra a realidade.

E é aqui que se abre o espaço para a alucinação religiosa, porque ela habita o limite teórico e prático deixado aberto pelo falibilismo da ciência, da interpretação psicanalítica e da hermenêutica filosófica. Não é verdade que na realidade de nosso sistema de saúde falta tudo e nada funciona. A realidade de nosso sistema de saúde é a que é? Não! A realidade do nosso sistema de saúde é a que foi produzida enquanto ausência, privação ou “desapropriação” do devido ao próprio sistema de saúde. Não se trata só de “desvios”, mas de não-envio ou de “sublocação”. Mesmo que a maioria dos municípios brasileiros invistam em saúde o previsto em lei, o problema permanece. Assim – mais para lamentar do que para festejar – topamos com uma região do cuidado do ser humano em que parece que se previu a ausência real e não apenas simbólica de certos objetos humanos e não humanos. Atribuir a cura ou a “salvação” a um imaginário “graças a Deus” é computar a raridade de casos de cura ditos “milagrosos” pelos próprios médicos e ocultar à comunidade os casos de mortes por falta de recursos mínimos. Por isso, não adianta frente à dor de uma perda consolar apenas dizendo que a morte é simbólica e que é o simbólico que determina a realidade. Além de ser um consolo falso, é politicamente conformista, uma vez que corrobora a continuidade da existência de um discurso que pretende determinar naturalmente a hora e o lugar ao qual os entes humanos seriam destinados, ou seja, a morte como fatalidade nua e crua e não como um processo ou resultado de uma vivência. Dizer que vamos todos morrer pode ser uma forma de não reconhecermos o fato de que somos mortais, ou seja, por um lado, constata-se o fato, mas, por outro lado, ao mesmo tempo, nega-se e oculta-se que, conforme disse o filósofo Heidegger, ainda não aprendemos que somos mortais. Freud também andava nesse caminho ao afirmar que, inconscientemente, não há representação da morte. O primado, como diz o filósofo Adorno, é do objeto. Do ponto de vista pragmático, e não ético, o imaginário atual dos agentes públicos – sua necessidade de sobreviver numa imagem positivada como persona é retirada da ideologia neoliberal que não concebe nenhuma atividade estatal sem fins lucrativos. A ideia reguladora é que o funcionário público do futuro seja e aja de forma tão desregulamentada quanto um empreendedor de mercado. Isso faz com que a atenção e o investimento no prioritário seja deslocado. Legal e moralmente eles deveriam ser responsabilizados. A ilusão religiosa vem eclipsar este fato, pois ela opera com a ideia de que o lugar ocupado pelo representante político seria a de um indivíduo “maior” ou a de um “pai” forte que iria proteger os filhos “menores” de toda a nação do mau humor do vírus. Isso obscurece a realidade de que os representantes políticos, amiúde, ocupam a função e lugar de uma “mamãezinha”, ou seja, eles não se desviarão de seu clã, nunca sairão do entorno de suas casas para conhecer verdadeiramente o estranho, mas sim para encontrar espelhos coletivos que reflitam seu narcisismo individual ou grupal. Se o seu desejo próprio é não passar pela mediação do outro, ou encontrar apenas aqueles que refletem suas crenças, então se sentirão onipotentes e envoltos em uma couraça blindada que impedirá que sintam que alguma “privação” foi e é necessária à continuidade da civilização. Haverá a privatização, ou seja, o cuidado como um negócio.

3°. A privação do sentido vital pelos meios que apressam o fim: a impaciência

Por outro lado, em outro sentido, a “falta” também pode ser sentida como privação de sentido vital que a filtragem medial da comunicação técnica corta diante do homem. A irritabilidade e o estresse causado pelo distanciamento social, a ânsia pelo contato direto com o semelhante, o esgotamento físico e mental, são intensificados pela demanda excessiva de atenção às telas – tanto no tempo de trabalho quanto no tempo livre. Por um lado, o trabalho digital, home office, pode estar sendo vivenciado por muitos como uma libertação da opressão do espaço presencial. Por outro lado, não consegue ocultar e nem de deixar à mostra, em meio à apologia das novas formas de comunicação, o caráter secundário ou substitutivo dos meios técnicos. Por isso, nas atuais condições de isolamento social motivadas pela presença do novo coronavírus, na ausência do contato direto com as pessoas que eram de nosso convívio cotidiano, de familiares ou colegas de trabalho, a utilização destes meios se apresenta como substitutivos eficazes para a resolução de diversos problemas de comunicação. Todavia, isso ocorre num âmbito restrito. A não problematização da forma de resolução de problemas que não caem sob a perspectiva de um olhar objetivo e pragmático tende à aplicação de uma fórmula que neutraliza aspectos destes mesmos problemas. Assim, soluções substitutivas podem ser midiaticamente oferecidas como saídas de emergência para problemas reais mediante o aprofundamento, a não- resolução de velhos sintomas e a criação de novos. A exacerbação da oferta na rede de lives pode ser um exemplo, porque comunicação não é a mesma coisa que informação e nem expressão. A comunicação tecnologicamente mediada, para ser bem sucedida, deve comportar um espaço e um tempo que abrigue a possibilidade ao emissor para expressar algo da privação que está na sua própria origem, ou seja, a razão que o fez tomá-la como meio de comunhão com o outro. Em primeiro lugar, nem no nível primário da socialização, ou seja, das relações sociais presenciais ou face a face é verdadeira a sentença de que conversando a gente se entende. Por isso, numa interação tecnicamente mediada, quando não conseguimos expressar algo da privação que anteriormente já poderia comparecer como resistência à continuidade da relação, é comum colocarmos a culpa na inadequação tecnológica. Uma vez que a circunscrição do termo “comunicação” com os outros seres vivos não se completa e nem cabe pensá-la plausível apenas por meios técnicos, a mera colocação desta num lugar de primazia na coordenação das relações humanas já configura o quanto o isolamento conectivo pode ser uma forma de tortura. Nenhum discente das séries iniciais pode ser acostumado de forma suportável aos rigores da educação cívica a não ser pela proximidade física contínua aos pais, educadores, e à comunidade.

4°. A virtualização como expropriação e a substituição da dimensão político-moral pela dimensão sensorial-estética

Ao lado desta privação material de equipamentos e de pessoas e da privação que a mídia tenta esconder, podemos constatar também um sentido latente na virtualização: a expropriação. A dimensão é de um novo tipo de expropriação, a saber, a sensorial-estética, promovida pela excitação dos sentidos pela mídia – principalmente quando seu sistema de entretenimento é buscado como lenitivo à miséria cotidiana -, dificilmente é percebido numa análise que se limita à superfície das imagens. Em simples dialética, ele é latente, porque não se deixa perceber empiricamente ou em casos particulares. O sentido do termo “estético” aqui usado não se refere às belas artes. Subcutânea e intercutaneamente, como o engodo não é apenas dos produtores, mas também dos usuários ou consumidores, o que se intenciona com as racionalizações à chegada de uma nova era é mascará-la. Todavia, como já é sabido que é máscara, então o que se busca é mascarar a própria máscara, ou seja, disfarçar a horrível verdade de que consumimos essas imagens clichês porque não temos a coragem de encarar as reais imagens que nos motivam profundamente, pois levantá-las causaria dor. Por causa dessa dificuldade, nos refugiamos em imagens superficiais ou em pseudo-debates oferecidos e mediados muitas vezes por apresentadores pegajosos, pois sem o rebaixamento das exigências de atenção seriam de difícil digestão. O que é de fácil digestão é facilmente vendável e facilmente consumível. Mas, em se tratando dos sentidos humanos, como não podem ser substituídos por mercadorias, a complacência com este estado de coisas pode ser o início de sua “liquidação”. Há tempos paira no ar a ideia de que quem renuncia a um prazer sensível possível e imediato é um otário ou um idiota. Esse imperativo, além de promover o anti-intelectualismo, é sintoma manifesto de falta ou do declínio da nossa cultura. Ele é opressivo, porque há muito tempo – desde o surgimento do cinema, do rádio e, culminando na internet – ele agita e excita os sentidos mais elementares, mas na hora de sua realização ele os interdita. Por um lado, existe uma virtualidade, uma potência não atualizada em cada sentido humano. Isso é uma coisa. Porém, entre outras coisas, e por outro lado, a virtualização tecnológica dos sentidos humanos, isto é, o fato de que os dispositivos técnicos “agarram” mãos e olhos dos sujeitos, revela, não apenas no sentido subjetivo, mas também objetivamente que está expropriando o sensório humano ao rebaixá-lo e separá-lo de sua dimensão de conhecimento – no sentido da aisthesisaristotélica, na qual os sentidos teriam uma capacidade noética, ou seja, não perceberiam passivamente de fora as imagens.

A expropriação dos sentidos não é uma exploração pura e simples. Trata-se de uma especiação da exploração humana, ou seja, uma nova forma de submeter e explorar os outros. Ela se desloca da apropriação de bens exteriores visíveis rumo à apoderação dos sentidos interiores. Ao lhes atribuir um poder de seleção superior, que pode suplantar o trabalho do conceito, ela não apenas os cultua, estimula ou ensina a tirar deles prazeres novos, prazeres baratos, mas também, por sua exigência de extrema atenção, os arrasa por meio de uma inundação vinda de fora. Isso tudo não exclui que o sujeito goze. Todavia, tal gozo só consegue ser exitoso ao encobrir a própria expropriação. Esse engodo pode ser resumido numa fórmula simples, retirado da cobertura jornalística: “Eu vejo o noticiário da televisão para saber o que está acontecendo no resto do mundo”. Em outros termos: eu me esclareço e gozo com a mitologia da comunicação social. Deveria estar claro que noticiários não são a melhor forma de saber. Muito menos, quando o jornalismo passa a ocupar o lugar da filosofia e da ciência.

Resumindo: o engodo das massas atualizado pela expansão da Indústria Cultural na era microeletrônica não tem apenas uma dimensão político-moral, comumente chamada de “ideologia”, mas também uma dimensão sensorial-estética, inclusive fisiológica. A hegemonia da visão de mundo burguesa não teria vingado se deixassem de fora aquilo que toca a todos de forma imediata. Neste sentido, a estética é mais ideológica do que a moral e a política, porque a ideologia cola em nossas cabeças quando estamos mais desprevenidos. Só porque não temos mais que lidar com as máquinas ruidosas do começo da revolução industrial, não quer dizer que nossos nervos e músculos não sejam sensivelmente afetados pela aparente suavidade da microeletrônica. A perda progressiva do vernáculo e a quase incapacidade das jovens gerações em ler um texto escrito sem figurinhas obrigou o sistema educacional a utilizar novos designs.Discursos não motivam tanto as pessoas a reagir automaticamente quanto emotions. Aparentemente a questão flerta com ares hedonistas: o que causa mais prazer? Porque a composição interna das percepções do cidadão comum, das massas, e do seu próprio pensamento não corresponde aos clichês produzidos pela indústria cultural, podemos concluir que as massas não somente se deixam enganar, como também enganam a si mesmas. Esta constatação é da metade do século passado, feita por Adorno e Horkheimer, no exílio, sob a perseguição nazista. Mais de 70 anos depois, a aparição de “fenômenos” como um Trump, um Bolsonaro, entre outros, não pode ser entendida meramente tomando o carisma pessoal como o elemento causal de uma completa lavagem cerebral em seus eleitores. A atenção despertada por eles à escuta de seus chamados, mediante apelo à violência midiática, já é uma manifestação contra o desgaste da sensibilidade política discursiva tradicional. Por um lado, o martelo midiático da propaganda bate sem cessar com velhas fórmulas que se mostraram bem sucedidas ao longo do tempo. Por outro, ele precisa renovar as disposições de seu público. E para isso ele precisa criar novos expedientes. Hoje sabemos que – e sem que esse saber seja grande frente àquilo que não sabemos do universo tecnológico -, toda uma equipe de profissionais da Cambridge Analiticatuou na surdina para modificar o comportamento dos eleitores no sentido de capturar sua atenção mediante estímulos mentirosos que provocaram o ódio aos partidos ou aos candidatos/as oponentes. Por isso hoje, quem abre a boca para falar em democracia e Estado de direito, livre-arbítrio, autodeterminação dos povos ou emancipação popular, se quiser que estes conceitos sejam consequentes, deve somá-los e pensa-los a partir dos condicionamentos que a globalização microeletrônica trouxe. Por mais que o ambiente tecnológico pareça um laboratório científico, limpo e silencioso, os maiores experimentos que nele são feitos são com pessoas. Algumas igrejas também são limpas e silenciosas. Isso tudo não evita que remontem um cenário ruidoso. Tal como a igreja na Idade Média utilizava imagens de pessoas queimando no fogo do Inferno para fazer propaganda do céu, os atuais “modificadores de comportamento” político eleitoral, para excitar seus eleitores, criam uma atmosfera de caos. Com isso, os conectam aos sentimentos primitivos mais pregnantes, mais bárbaros, pois sem retornar aos fundamentos que deram origem ao sensório especificamente humano, a atenção hoje nem mais poderia ser mobilizada. Por isso, a propagação do susto, do medo, do terror, do ódio, da morte.

É possível pensar que a dimensão sensorial-estética, pelo seu caráter de marca pregnante e imediata, substituiu a dimensão política? Esta é uma das visões de alguns teóricos críticos do capitalismo atual que veem as inovações tecnológicas como um meio e não como um fim em si mesmas. Toda uma aposta política foi feita no último quarto do século XX por filósofos e cientistas políticos que enfatiza o discurso. Durante a guerra fria se gestou um pensamento revisionista da história mundial que retirou dela as contradições e pregou o fim da luta de classes. Após a queda do muro de Berlim, os “bem-pensantes” afirmavam que o lugar de reconciliação dos litígios e de uma retomada do contrato social passaria pelo discurso, sob as bases de uma comunicação orientada ao entendimento humano e livre de violência. A história nos mostra que eles estavam redondamente enganados e, inclusive, não devem ser lidos sem precauções pela sua falta de uma visão mais crítica. Destino semelhante ocorreu com a recepção culturalista da psicanálise em solo norte-americano. Os descobrimentos mais revolucionários de Freud acerca da constituição do material inconsciente foram mitigados em nome de uma psicologia do ego cujo objetivo seria a adaptação social dos indivíduos à cultura dominante.

Lutar contra defeitos teóricos ou contra sintomas sociais não pode ser uma luta que se resolva em reforçar os próprios defeitos ou se acomodar ao sintoma. À transmissão cultural não existe a possibilidade de educar sem indulgência, mimesis e acolhimento. Justamente por isso, a transmissão cultural, que tem na educação um espaço privilegiado, não pode esquecer que comporta momentos de antipatia e de irritação frente os costumes formatados por uma visão e escuta rotinizada pela produção das mercadorias da indústria da cultura – cujo único objetivo é animar para a venda e lucrar. Tal como num percurso de análise pessoal, o que está em pauta permanentemente é, sempre que possível, em lugar de um consumo irrefletido e de render-se ao “serviço dos bens” (Lacan), desenvolver o costume da reflexão e da autorreflexão irrestrita, ou seja, sempre que possível, utilizar os meios deste sistema opressor e voltá-los contra ele mesmo. À questão: como fazer frente e combater o fascismo atual e práticas deliberadas que, em nome da manutenção de um sistema capitalista selvagem, exigem sacrifícios humanos e exposição à morte não há receita fácil. Mesmo com todos os cuidados, o caminho que tomamos não é fácil. Muito pior é o caminho que nos é oferecido pelo canto das sereis midiáticas. Podemos escolher entre ir às ruas e correr risco de vida, ficar em casa assistindo pela televisão a violência policial que mata nossos companheiros, ou naufragar nas redes sociais porque ali o risco de morte não ocorre. Não há uma resposta única, e nem está em nosso poder de caminhante profetizar um futuro como destino. Tudo depende da radicalidade de nosso desejo, porque ao sair às ruas e combater o fascismo podemos nos deparar com indivíduos cujo sentido da vida não comporta pensar nenhum futuro, ou seja, seu desejo de horizonte é indiferente à morte. Por não suportar sua condição de miséria psíquica, pois nunca tiveram oportunidade de conquistar um espaço interior singular para se pensarem enquanto seres desejantes, investem seu recalque contra semelhantes que não partilham de suas crenças. Como a ignorância é contagiosa, se não conseguem perceber a quem servem, ou se são deliberadamente maus, enfrentando-os poderemos nos deixar fazer de idiotas pelo seu poder e pela nossa própria ignorância.

A música de Belchior, Como nossos pais, primeiro grita: “(…) Eles venceram, e o sinal está fechado prá nós, que somos jovens (…)”. Na mesma toada, vem a inversão: “(…) mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem (…)”.Coincidentemente, os autodenominados “novos”, os “vitoriosos” do momento em nosso país, se apropriaram dos sinais verde e amarelo. Ficamos com o sinal fechado. Todavia, como cada vida é única, irrepetível, lançamos nossa flecha vermelha incandescente em direção ao futuro para penetrar em suas trevas e, na obscuridade do momento, iluminá-lo para nós. A vida importa em sua totalidade única. Números não dão conta disso. Mesmo o número um, não o conseguimos vivenciar senão a partir do zero. A velocidade da máquina, seu automatismo, seus esquemas de funcionamento programados tecnicamente desde fora, nos oferecem um estado de coisas onde a percepção humana poucas chances tem de se recuperar. A apreensão midiática dos conteúdos não é a única responsável por este estado de coisas. Contudo, pela sua constante oferta, ela contribuiu significativamente para que não haja intermitência do desejo. Desta forma, pelo seu excesso, ela contribui ao esvaziamento de nossa concretude ao cimentá-la com mais abstração e nos torna mais pobres. Se a uma criança são oferecidos três doces diferentes, ela pode, sem muito desgaste nervoso, escolher um. Agora, se lhe são ofertados cem, ela se angustia. Um dos problemas de nosso tempo é que não conseguimos vivenciar nem o um, porque não conseguimos senão vivenciar um depois do outro. Com milhões de mortes ofertadas dia e noite em nossas telas televisivas a própria angústia se torna indiferente. Desgraça matemática: a perda da eternidade do momento único de uma vida. As existências mais se assemelham a seriados de televisão. Angústia e espera pela próxima temporada.

BIBLIOGRAFIA

MANSO, Bruno Paes. A República das Milícias:dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. São Paulo : Todavia, 2020.

ROWLANDS, Mark. O filósofo e o lobo: lições da natureza sobre amor, morte e felicidade. Trad. de Paulo Afonso. Rio de Janeiro : Objetiva, 2010.