Um povoado assolado por uma praga. Jovens patriotas se alistam para se dedicar à causa da caça às “baratas”, invasores monstruosos que espalham medo e desordem. Essas são as cenas iniciais do episódio “Engenharia Reversa” do impactante seriado Black Mirror do Netflix. Os elementos presentes nessa primeira parte do roteiro são os mesmos que podem ser encontrados ao longo da história em todas as cruzadas, guerras, genocídios: o mal encarnado no estrangeiro justifica o extermínio.

Atualmente, no Brasil, terra do “Homem Cordial” de Sergio Buarque de Holanda, sentimos o gosto amargo desse discurso da segregação. Certamente esse fenômeno não é exclusividade da política brasileira. Ele esteve presente ao longo da história sob diversos regimes, sejam eles de direita ou de esquerda. Mas existe uma peculiaridade no que estamos vivendo que chama a atenção. Algo que vou chamar de uma “patologização da esquerda”, pautado em um ódio por toda proposta que se proponha a mobilizar a rígida estratificação de classes que historicamente tem marcado nosso país: bolsa família, cotas para negros, mais médicos, inclusão de disciplinas humanistas no ensino médio. Paulo Freire virou um demônio, o PT virou comunista e Cuba virou palavrão. Fidel Castro, que se despediu de nós esses dias, foi manchete em todos os jornais do mundo como estadista, enquanto que na folha de São Paulo lia-se na primeira capa: “Morre ditador Cubano”. Podemos argumentar que nos núcleos mais duros da esquerda também grassa o ódio pelos coxinhas, pela burguesia, pelo explorador. O discurso da segregação não é privilégio de nenhuma corrente política e o que vou argumentar aqui poderia facilmente ser aplicado da esquerda para a direita. Mas se tomo aqui como viés argumentativo o ódio pelas políticas distributivas é por me posicionar, eticamente, do lado das classes minoritárias (do índio, do operário, do sem terra).

Atualmente assusta, sobremaneira, a dificuldade que é tentar conversar minimamente com quem defende uma política de direita, ficando comprovado que não se trata de falta de esclarecimento, de acesso a informação. Tampouco estamos diante de uma discussão do “bem” contra o “mal.” Os argumentos que demonizam o diferente saem das bocas mais bem intencionadas e afinadas com o amor ao próximo.

Há um real rondando a cena política brasileira na atualidade. O real, como aquilo que ex-siste ao simbólico, não conseguimos nomeá-lo, senão miticamente. Na ultima jornada do Campo Lacaniano em Fortaleza demos um nome mítico a essa cena: “tempos do cólera”. A referência é clara à obra de Gabriel Garcia Marques, para quem, o amor e o cólera, tinham os mesmos sintomas. A cólera é uma peste, aquilo que é epidêmico e contrário ao movimento unificador de Eros. Foi à ela, segundo reza a lenda, que Freud comprou a chegada da psicanálise nos Estados Unidos da América. A cólera também é um afeto, marcado especialmente por explosões violentas de raiva. É essa ultima que temos visto despontar no nosso cenário político, culminando com a impossibilidade de continuar reconhecendo a humanidade do outro que é reduzido a uma “barata”.

Desde Freud podemos argumentar que, para além da questão de classe, essa cólera se ancora em uma defesa contra o “estranho gozo do próximo”. Para ele também, o amor e a cólera tem, senão os mesmos sintomas, pelo menos a mesma ordem estrutural. Em Psicologia das massas e análise do Eu (1921) Freud argumenta que a identificação do grupo se dá em torno do líder, o traço em comum com o líder, mas que, em ultima instância, se ampara também na segregação do outro como diferente: àquele que não faz parte do grupo é recusado meu amor. Amar o próximo como a si mesmo, eis o mandamento diante do qual Freud recua, apontando o impossível.

Lacan permite-nos ir um pouco mais longe, ali onde o Pai da Psicanálise esbarrou no impossível, apontando que não é o diferente que nos custa amar, mas aquilo que está, de outro modo, próximo demais. No Seminário VII (Lacan, [1959-1960] 1997) ele nos fala da “virada ética da qual somos responsáveis, nós, os herdeiros de Freud”. É que se no campo do desejo a identificação ao traço do pai é o que permite ao filho constituir-se na sua linhagem hereditária, há algo que escapa ao traço e que nasce ao mesmo tempo em que o pai e o filho. Na trindade lacaniana esse elemento não se chama “espírito santo”, mas sim, o gozo. O gozo é assunto de corpo e a identificação simbólica ao traço tem como correlato sua extração.

É o elemento “isolado originalmente pelo sujeito em sua experiência do Nebemensch como sendo por sua natureza, estranho” (Lacan, [1959-1960] 1997, p.69) e destinado a ser um “primeiro exterior” em relação àquilo que adquire consistência graças a identificação. É em torno disso que se orienta todo o encaminhamento do sujeito em relação ao mundo de seus desejos, diz-nos Lacan.

“É sem dúvida alguma um encaminhamento de controle, de referência, em relação a que? Ao mundo de seus desejos. Ele faz a prova de que alguma coisa afinal encontra-se justamente ai, que até um certo ponto pode servir. Servir a quê? A nada mais do que referenciar em relação a esse mundo de anseios e de espera (…) é claro que o que se trata de encontrar não pode ser reencontrado. Alguma coisa está ai esperando algo melhor, ou esperando algo pior, mas esperando”. (Lacan, [1959-1960] 1997, p.69)

Esse algo que referencia o mundo de nossos anseios não o faz somente por atração (como conviria ao princípio do prazer), mas especialmente como aquilo que causa repulsa. É assim que o gozo condensado em sua forma de mais-de-gozar entra na economia libidinal de cada sujeito como aquilo que eu localizo no outro, como algo ameaçador, ou como algo de que eu deveria gozar, mas é ele quem goza. “No descaminho de nosso gozo só há o Outro para situá-lo, mas é na medida em que dele estamos separados, diz Lacan em Televisão (1973-2003, p.533).

No ódio associado às pautas político-sociais da esquerda há toda uma gama de valores morais que são tidos como ameaçadores: a legalização do aborto, a defesa da homoafetividade, a legalização da maconha, o empoderamento da mulher, do negro, etc. Nordestino, bicha, maconheiro, vadia são nomes de um outro que é estranho, estrangeiro, que goza algo de que eu me privo e por isso me ameaça.

Para Zizek, em La permanência en lo negativo (1993), o racismo moderno nada mais é que ódio do gozo do outro. Ele cita Miller:

“esta seria a fórmula mais geral do racismo moderno que estamos presenciando na atualidade: ódio pela maneira particular com que o outro goza (…) a questão da tolerância ou da intolerância nada tem que ver com o sujeito da ciência e seus direitos humanos. Se encontra no nível da tolerância ou intolerância em relação ao gozo do Outro, sendo o Outro quem essencialmente rouba meu próprio gozo (…) É precisamente esse roubo do gozo que escrevemos como menos phi, o matema da castração. Aparentemente o problema é irresolúvel porque o Outro e Outro em meu interior. Por isso, a origem do racismo é o ódio do meu próprio gozo. Não existe outro gozo além do meu próprio.” (como não lembrar dos discursos inflamados contra a corrupção… do outro)

Acontece que, o aparente mente. Exatamente porque a aparência pertence ao registro do imaginário. É o falo imaginário que se marca como faltando, como menos phi. O falo que falta à mãe, ou seja, aquele que comparece na realidade do sujeito exatamente por faltar ali onde era esperado. Estaríamos, como parece afirmar Miller nessa citação, diante de um beco sem saída?

Em termos de movimento histórico, Lacan foi bem pessimista e previu que ainda não conhecemos todos os horrores do campo de concentração. Mas, ainda assim, no plano do um a um, ele disse que a psicanálise ainda é o que de melhor encontramos para fazer face a esse horror. Mas isso só pode se dar a um justo preço. Não o do capitalismo com sua promessa de satisfação garantida ou seu dinheiro de volta. Mas o preço de que querer se deparar com seu próprio horror.

A virada ética de Lacan consiste em sustentar que a extrusão do gozo é correlativa não a um Outro que me castra, mas à intrusão do significante na carne é que, portanto, como ele diz em A Lógica da Fantasia ([1966-67] 2003),

“o Outro não deve ser buscado em parte alguma, senão no corpo, que ele não é intersubjetividade, mas cicatrizes tegumentares no corpo, pedúnculos a se enganchar em seus orifícios, para neles exercer o ofício de ganchos, artifícios ancestrais e técnicos que o corroem” (p. 327).

É assim que, a Édipo, conviria muito mais saber ler as marcas que carrega em seus pés, do que ficar bradando “achem o culpado”, quando a peste se abate sobre Tebas.

A proposta da psicanálise vai ser a oferta de um espaço onde se possa falar dessa estranheza que é o Outro para, desmontando a sua engrenagem, chegar ao corpo como origem do gozo. É essa a “engenharia reversa” da psicanálise. Ali onde eu suponho que o outro quer gozar de mim, é com o horror de meu próprio gozo que me deparo. Mas isso ainda não é suficiente. Resta, ao final, saber fazer para si uma conduta. Trata-se de uma posição ética correlativa a um salto, diz Izcovich (2012) em Wunsch 13, entre o que se passou no tratamento e aquela que será a nova posição desse sujeito no mundo. Só assim será possívelDeixar a esse Outro seu modo de gozo”, não impondo o nosso, “e não o considerando como um subdesenvolvido” (Lacan, 1973 [2003], p.533).

Trata-se do imperativo freudiano “onde isso era, eu devo advir”, ou, nas palavras de Bituca:

Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim.


Lia Silveira é Psicanalista, membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Fórum Fortaleza



Referências

FREUD, S. Psicologia das massas e análise do eu (1921). In: ______. Sigmund Freud, Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, v. XV, p. 13-113.

Izcovich (2012). Boletim Internacional da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano. Disponível em www.champlacanien.net/public/docu/4/wunsch13.pdf

Lacan, J. (1959-1960/1997). O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1966-67/2003). A Lógica da Fantasia. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1973/2003). Televisão. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Zizek, S. (1993) La Permanencia en lo Negativo. EPub. Titivillu. Disponível em espapdf.com