Lápide. Por Ana Laura Prates.

Cuide, quando pensar em morrer

Para que não haja sepultura revelando onde jaz

Com uma clara inscrição a lhe denunciar

E o ano de sua morte a lhe entregar

Mais uma vez:

Apague as pegadas! (Brecht)

 

Foi a leitura do texto “Palavras para um memorial”, de Edson Sousa que me trouxe de volta a memória desse escrito de 2018. Nesse momento tão difícil de nossa história, no qual além de enfrentarmos a Pandemia da COVID-19, no Brasil também temos que lidar com um governo indiferente à vida e promovedor da morte anônima, é preciso recuperar com urgência a função da lápide.

Escrevi esse texto sob o impacto do espetáculo VALA COMUM, realizado pelo IMPULSO COLETIVO, sob direção de Ivan Sugahara e dramaturgia de Carolina Lavigne. O espetáculo se passa em um casarão antigo na Tijuca, no Rio de Janeiro, em cujos pequenos cômodos os 15 espectadores são confinados e convidados a acompanhar as sucessivas cenas, participando com o corpo. A palavra confinamento não é aleatória. O texto do espetáculo é construído como se se tratasse da indústria da carne, desde o nascimento do bezerro, a criação e o abatimento para o consumo, bem como as especulações dos leilões de gado. Dessa forma, o espetáculo nos põe em contato, simultaneamente, com várias camadas de nossa violência cotidiana, já que os bezerros e bois prontos para o abate somos nós. Durante uma hora e meia somos nós a população/boiada pronta para o abate.

Não se consente com um golpe impunemente, sobretudo quando ele se dá sob a égide da misoginia mais vil. A cena do então deputado Jair Bolsonaro dedicando seu voto a favor do impeachment da Presidenta Dilma Roussef ao seu torturador sádico e cruel, o Coronel Brilhante Ustra; e o fato ainda mais vil de que, sob a vista de todos e embaixo do nariz do STF, esse senhor não tenha saído preso do plenário, e nem sequer tenha sofrido um processo no comitê de ética do congresso nacional; essa cena foi o prenúncio tenebroso do que viria depois.

Aprendemos com a psicanálise que não se rompe o pacto social e tampouco se consente com tamanha indecência sem que haja consequências. O simbólico rejeitado sempre cobrará sua libra de carne retornando da pior forma. Isso é estrutural. O que não prevíamos, entretanto, é que o pior viria a galope de forma inédita. Não é fácil analisar essa versão nova do pior. Mesmo durante a Ditadura, havia, ainda, um resto de pudor. Nosso semblante fundamental, batizado por Sérgio Buarque de Holanda de “cordialidade” – lê-se: clientelismo, nepotismo, coronelismo, catolicismo cínico, etc. – impedia que se declarassem abertamente os crimes que ocorriam nos porões do DOPS e do DOI-CODI. Era preciso negar sistematicamente que houvesse tortura no Brasil, e os cadáveres precisavam ser ocultados em valas comuns ou jogados ao mar em nome da manutenção do discurso oficial que sustentava uma falsa normalidade institucional. A figura maior da ditadura brasileira era o silêncio. Dizia-se que as paredes tinham ouvidos, então era preciso se calar. E, como reza o dito popular: quem cala consente.

Em 2018, quase 20 anos após a descoberta da vala clandestina de Perus, em São Paulo, foi identificado, dentre milhares de ossadas, o desaparecido político Dimas Antônio Casemiro.  Esse reconhecimento só pode ocorrer graças à Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos e à existência da Comissão Nacional da Verdade.

Trata-se, entretanto, de uma exceção. O Brasil é um país que não passou a limpo sua história e até hoje não pode oferecer uma lápide a muitos de seus mortos. Como diz Bernardo Kucinski no livro K, sobre a luta de seu pai pelo corpo da irmã desaparecida, até mesmo os judeus mortos nos campos de concentração tinham nomes e registro. Aqui, não. O genocídio de nossos índios talvez seja o caso mais extremo. Ao visitarmos museus dedicados às nações indígenas na região norte do Brasil, entramos em contato com centenas de nações indígenas que foram exterminadas. As pessoas que formavam essas nações, entretanto, não têm nome. Sua existência foi apagada. O genocídio dos jovens das periferias ou comunidades das grandes cidades também é alarmante. No Brasil, dados oficiais mostram que a cada dia, cinco pessoas são assassinadas pelas polícias brasileiras, sendo que 66% dos civis assassinados são pardos ou negros. Muitas dessas vítimas são menores de 18 anos. Na vala de Perus além de vítimas do regime militar, é também onde são desovados os corpos de pessoas “eliminadas” por grupos de extermínio, muitas vezes ligados à PM.

Somos o país da vala comum e, infelizmente, não nos posicionamos eticamente como Antígona, já que, salvo raras exceções, nunca reivindicamos um enterro digno aos nossos mortos, e achamos que isso seria sem consequências. Antígona pagou com a própria vida sua intransigência em exigir o direito aos funerais para o irmão morto. Os funerais, a inscrição do nome na lápide. Nossa transformação em corpos, o cadáver, o corpo simbólico, é a prova final de nossa humanidade. Tal como no poema de João Cabral de Melo Neto, musicado por Chico Buarque: “É a parte que te cabe deste latifúndio. É a terra que querias ver dividia”. Nós, seguimos chorando com Marias e Clarices no solo do Brasil. Porque são as mulheres que reivindicam enterrar seus mortos?

A máscara do homem cordial, nosso semblante maior, caiu. Agora, o que assistimos atônitos, é um discurso explícito de incitação à eliminação do “inimigo”, quase sempre identificado a uma figuração do feminino (a mulher, o negro, o índio, o migrante, os homossexuais, o deficiente, o louco). O que acontecerá no Brasil, que se constituiu como um país, sob a égide do apagamento sistemático da memória, e que tem na arte popular sua maior fonte de resistência? Anuncia-se a tomada oficial do Estado por um governo que terá como política oficial o apagamento de nossos arquivos, como se fosse o incêndio perpetuado do Museu nacional. O Brasil resetado. A memória que nos constitui, nesse sentido, não ameaça apensas nosso passado, mas nosso futuro. Do que não queremos lembrar? Porque estamos sempre dispostos a fazer vistas grossas para cenas escabrosas como a de Olga sendo deportada grávida para a Alemanha nazista?

A sociedade brasileira – e digo isso a partir de minha escuta – está com as vísceras abertas. O que aparece desvelado quando cai esse semblante é o ódio mais abjeto, o ódio, talvez, do que nunca quisemos enxergar em nossos espelhos. Estamos naquele momento crucias das tragédias quando a verdade vem à tona e se desvela o real. Estamos naquele momento em que Édipo descobre o que já tinha que ter sabido antes. Porque é justamente aquilo que a gente não queria ver: o nosso estupro fundamental, que torna incontornável nossa miscigenação estrutural. Onde está isso? Nas nossas famílias. Identificamo-nos com o homem branco heterossexual “de bem” para não encararmos quem realmente somos, e a dívida que temos com nossos irmãos.

Dentro desse panorama mais geral, há algo que me intrigou: por que os psicanalistas viraram alvo de ataque da extrema direita? Porque fomos identificados e nomeados como inimigos? Porque nosso discurso é inconciliável com qualquer forma de totalitarismo – com Freud – e faz obstáculo ao discurso do capitalista– com Lacan. A questão é: Vamos ou não estar à altura dessa convocação que a história está nos impondo agora. O que penso sobre isso é que não há como recuar. Mas como fazê-lo? Uma das coisas que precisamos pensar é qual a especificidade da resposta do psicanalista, a partir do que nós aprendemos com a Psicanálise.

Lacan dizia que o dizer não é a voz, ele é um ato. Essa proposta é muito forte e está na hora de extrairmos as consequências políticas disso. O dizer é um ato de nomeação que funda certo laço que é incompatível com a totalização e, portanto, com o totalitarismo. Não é possível sustentar um universal total a partir desse ato de nomeação. Porque ele implica sempre numa relação de equívoco e de não sobreposição, no sentido de que sempre há algo da linguagem que não alcança, e justamente porque não alcança, não consegue recobrir a experiência de todo. E é isso que precisa ser sustentado no que diz respeito à direção do tratamento: os furos e a contradição, pois é a partir disso que vamos dirigir as análises, mas acho que podemos pensar numa certa transposição disso para pensar a lógica do coletivo. Uma lógica do coletivo que não tenda à totalização e, portanto, seja avessa a qualquer totalitarismo, porque sustente uma relação muito própria com a linguagem. A consequência de podermos sustentar a partir dessa noção, uma política do bem dizer.  Mas, para isso, precisamos, antes, revelar nossa verdade, sepultar nossos mortos. Escrever nossa lápide.

INCÊNCIOS (Wajdi Mouawad)

Onde começa a história de vocês?

No nascimento de vocês?

Então começa no horror

No nascimento do pai de vocês?

Então é uma grande história de amor

Mas voltando ainda mais longe

Talvez se descubra que essa história de amor

Tem sua origem no sangue, no estupro,

E que por sua vez,

O sanguinário e o estuprador

Têm sua origem no amor

Então,

Quando perguntarem a história de vocês

Digam que a história de vocês, sua origem,

Volta até o dia em que uma moça

Voltou para sua aldeia natal para gravar o nome de sua avó Nazira sobre seu túmulo

Ali começa a história

(Há verdades que só podem ser reveladas se forem descobertas)

Gravem o meu nome sobre a pedra

E coloquem a pedra sobre meu túmulo

Sua mãe

( Fotografia de Luis Fernando Laranjeira)