“O boato exequível, plausível e com gosto amargo antecipa e prepara o direita volver e convoca o esquerda prá valer” Por Paulo Endo

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, em entrevista coletiva | Marcelo Camargo/Agência Brasil

Publicado originalmente em Jornalistas Livres

A notícia do último dia 05/05 de que a câmara dos deputados preparava a conclusão do golpe postergando as eleições para 2020, depois esclarecida pelo deputado petista Vicente Candido, assustou muitos e correu as redes sociais. Não são poucos os que se lembraram das eleições que nunca ocorreram prometidas para 1966, dois anos após o golpe de 64. Muitos também se lembram do início do processo de impeachment que tem início imediatamente após a segunda vitória de Dilma, mas que, na ocasião, poucos levaram a sério.

Em 1964 vimos dois anos se transformarem em 20 e o governo ditatorial ganhar volume e forma cujas consequências desastrosas ainda pairam sobre o sistema político, o corpo e a alma dos brasileiros.

Estamos hoje imersos nos efeitos imediatos de um golpe não ultrapassado e o bom funcionamento de seus mecanismos recém azeitados se atualizam todos os dias no novo golpe do presente. Hoje vivemos no seio de outro golpe que anseia novamente por se consolidar indefinidamente. Seus autores não o reconhecem como golpe, portanto, seus protagonistas não reconhecem a necessidade de seu término. O golpe hoje é indefinido, sem tempo para acabar. Sua conclusão não ocorrerá após ‘uma destruição total dos direitos dos trabalhadores’ porque não há limites para alcançar essa totalidade.

Estabilidade, direitos trabalhistas, previdência social não é tudo o que pode ser retirado dos trabalhadores. Ainda muitos podem ser empurrados para a pobreza através de mecanismos de hiperconcentração de renda sem limites, promovidos ou tolerados pelo Estado; sistemas como saúde e educação podem ser reduzidos a pó; escolas sem partido podem se tornar uma prática; o sistema judiciário pode ser completamente aparelhado pela ultradireita; milhões de pessoas comuns podem ser criminalizadas, perseguidas, etc. Ainda há muito por fazer. O poço não tem fundo.

O passo decisivo para o início do sem fim do golpe, após a deposição de Dilma, seria a subsequente prisão de Lula. Contudo esse passo ainda não pôde ser dado, já está atrasado e logo pode se tornar inviável. Portanto, e justamente por isso, nada indica que não se tentará fazê-lo a todo custo a partir de agora.

O momento é, contudo, de extremo risco porque a cada dia se torna mais difícil dar esse passo sem a possibilidade de gerar uma reação violentíssima e sem precedentes daqueles que, não apenas avaliam a gestão do ex-presidente como a melhor de toda a história brasileira, como o dos que observam e aguardam cada passo dado pelo juiz Sergio Moro para denunciar seus novos arbítrios.

Hoje o juiz Moro não representa apenas aquele que comanda a operação Lava-Jato, ainda um herói para alguns, mas é também aquele que pode sepultar a democracia ao inviabilizar a candidatura à reeleição do presidente mais bem avaliado do Brasil e, ao mesmo tempo, deixar ilesos outros delatados sob sua jurisdição: Aécio Neves, Geraldo Alckmin, José Serra hoje descansam em berço esplêndido nas suas barbas, a despeito das inúmeras delações premiadas citando seus respectivos nomes associados à dezenas de milhões de reais em propinas por eles, supostamente, recebidas.

Pouco a pouco as pessoas passam a enxergar a figura do Juiz como um efeito de luzes e sombras preservados pela rede globo e grupos que não tem plataforma política para o conjunto da nação a não ser o Fora Dilma! E o prende o Lula!

A retórica vazia de grupos como mbl e vem prá Rua, se esgoela como nunca e se torna cada vez mais verborrágica e violenta pela prisão do ex-presidente porque é a única plataforma que lhes resta.

Como um dos Brothers do reality show da emissora, o Juiz Moro, deve toda a sua fama e visibilidade à veiculação de seu nome e imagem pelos veículos de comunicação comandados pela rede globo. Sem ela, seria apenas um juiz de 1a instância como qualquer outro dos milhares que existem no país: desconhecidos e anônimos como qualquer trabalhador.

Justiceiro, figurando nas pesquisas de intenção de votos para 2018 e rei dos pedidos de selfie, o juiz atua para se manter no centro do holofotes globais.

O golpe jurídico-midiático-parlamentar alimenta fantasias instruídas pela pulsão de morte e praticas de pendor totalitário, portanto nunca será uma incoerência e nem um absurdo encontrarmos entre seus apoiadores devotos da volta à ditadura. Mas isso significa apenas: queremos os milicos trabalhando para nós, fazendo nossa segurança, salvaguardando nosso patrimônio e torrando o dinheiro público para fazer a guarda pretoriana dos muito ricos e dos privilegiados. É claro que isso precisaria ser combinado com a bola antes do jogo, ou seja, com os militares.

O discurso que apregoa dicotomizações é tolo e perigoso por princípio. Trabalha para simplificar questões muito complexas que exigem paciência e trabalho de pensamento. Trata-se de propagar o fim de algo, alguém, algum grupo, etnia ou categoria construído sobre os ideais da mesmidade. Proclama-se: um dia seremos um só, iguais, indiscerníveis e contentes. Um mundo de mesmidade, onde apenas os iguais subsistiriam se embebendo em sua própria semelhança. É essa fantasia secreta que alimenta muitas práticas violentas e discricionárias no Brasil e que se manifesta em inúmeras práticas corriqueiras travestidas de civilização, depuração, higienização e ordem.

Essa é a ofensa que ninguém mais do que os mais brasileiros dos brasileiros, os indígenas e suas comunidades indígenas representam no Brasil. São os mais próximos e os mais distantes. São os estranhos em nós e por isso são vítimas dos maiores ataques e atrocidades, e negligenciados em sua semelhança e diferença por todos os governos até hoje. São os brasileiros, do Brasil profundo, que não se pode ver, conviver e deixar viver. (http://www.ocafezinho.com/2017/05/05/presidente-exonerado-da-funai-solta-o-verbo-povo-brasileiro-precisa-acordar-golpistas-querem-instalar-uma-ditadura/)

Com essa estratégia eliminacionista os grupos que hoje apoiam e compõem o governo conseguiram empurrar muitos ao cataclisma, instruindo e conclamando muitos a começar do zero, acabar com a raça dos petistas (não conseguem sequer analisar o espectro imenso dos movimentos de esquerda no país), dos comunistas, dos índios, dos vândalos, dos terroristas, dos vagabundos que fazem greve e que não acordam cedo. Porém, eliminar, matar, decepar, acabar são façanhas que só podem ser cometidas com um instrumento bem conhecido: a violência. Então, claro, são os aparatos de promoção e autorização das violências como o sistema de justiça, o sistema penitenciário, o sistema de segurança e as forças armadas que são, direta ou indiretamente, convocados para a realização da façanha. Desse modo trata-se de usar boa parte do estado brasileiro para realizar essa tarefa.

Hoje milhões em dinheiro público estão sendo gastos para acusar alguns, perseguir alguns e caçar a cidadania de alguns; milhões gastos na prática de injustiças e perseguições espetaculosas para violentar índios e movimentos sociais e para cometer graves violações de direitos sem a devida apuração.

Malversação do dinheiro público não é apanágio dos que recebem propinas, mas dos que utilizam cargos e salários públicos para agir em interesse próprio, corporativo ou de classe.

Nesse sistema e convocação aberta capturaram no conjunto da população os que passam as vidas procurando quem atacar e de quem se defender. São muitos, então a oferta de atacar os odiados construídos sob medida funcionou em sua primeira fase.

Mas, a segunda fase do golpe encontra seu primeiro atoleiro. A despeito dos ataques vindos de todas as formas e todos os lugares, principalmente contra membros do partido dos trabalhadores, as pessoas estão comparando a virulência desses ataques com suas razões.

Não entendem porque são tão atacados aqueles que realizaram conquistas incontestes para a população pobre e miserável, num contexto em que os muito ricos também ganharam. E não entendem porque conquistas inegáveis dos governos passados, claramente constatadas no cotidiano das pessoas mais pobres, são hoje tão atacadas por um governo que é flagrantemente poupado pelas mídias nacionais. O resultado disso é que pesquisas recentes indicam que uma eventual candidatura de Lula, alavancaria 6 vezes mais eleitores do que os que teriam o atual presidente não eleito do país, o rejeitado Michel Temer que não teria qualquer chance de chegar a um eventual segundo turno.

Nesse último anos nem Lula, nem o PT e nem a esquerda foram destruídos. Ao contrário, muitos grupos e movimentos se fortaleceram, continuam nas ruas e outros foram criados. Exemplo disso é que meses após a conclusão da primeira fase do golpe seria impossível pensar numa greve geral com a adesão de 35 milhões de pessoas, porém no último dia 28 ela foi realizada com êxito.

Começaram a falhar os artifícios do golpe e seus artífices são empurrados para acentuar seus ataques aos instrumentos de preservação da democracia. Diante disso, certamente, preparam o segundo tempo do golpe que só virá a tona mais próximos das eleições, caso a prisão de Lula não seja realizada a fórceps. Nesse caso os desdobramentos sociais e políticos serão imprevisíveis.

Inúmeras novas forças de esquerda surgem no país e as já existentes se fortalecem, mais cientes do que houve no país e da premência em assegurar, num futuro breve, a democracia que perdemos.

Mesmo parte significativa da população que atendeu os chamados da globo, bateu panelas e apoiou o impeachment percebe hoje a parcialidade flagrante do juiz Sergio Moro quando, a despeito das dezenas de delações sobre Aécio Neves, José Serra, Michel Temer e seus ministros tudo é feito com grande discrição, sem alarde, quase no silêncio, enquanto qualquer fato envolvendo Lula e membros do PT se transforma em espetáculo. Pois bem o exagero desse espetáculo começa a gerar o efeito contrário. Como um bolo predileto enfiado goela abaixo começa a gerar náuseas.

Esses ex-batedores de panelas não esperam que membros do partido dos trabalhadores sejam poupados, mas esperariam tratamento igualitário para todos os delatados, sem o que tudo ganha a feição de quadrilha, grupo e facção que se auto protege sob as asas do mais novo caçador de marajás: Sergio Moro

Já é possível entrever e suspeitar das intenções da operação lava jato e do juiz e, se tudo segue como está, logo mais se poderá se chegar à seguinte conclusão: afinal não se tratava de combater a corrupção, mas deixar a corrupção apenas para os parceiros, amigos, comparsas. Não havia embate ideológico e concepção de país, mas pressa em proteger apaniguados e neutralizar inimigos.

Aécio Neves, José Serra até ontem arautos da decência e da honestidade, hoje não tem moral para subir na tribuna do senado para acusar ninguém. Não há coerência, não há lógica e não há como justificar isso a não ser como fábula, brincadeira de mau gosto e delírio.

Os governistas e golpistas ultrapassaram, não apenas os limites da decência, mas da lógica, da compreensão e do entendimento. Quem, em sã consciência, acreditaria que a retirada avassaladora de direitos do trabalhador é para o bem do trabalhador?

Quem acreditaria que as medidas de ataque aos direitos humanos dos indígenas, dos trabalhadores e da população que depende de seus salários é para o bem dos brasileiros?

A quem os governistas estão se dirigindo supondo que são completos imbecis? Ao conjunto da população brasileira?

O rebote Lula, que o coloca nas alturas nas pesquisas de intenção de votos em 2018, está ocorrendo também porque há uma carência de discursos fiáveis, inteligíveis e inteligentes, porque a prática e os discursos burros, violentos, dicotômicos já exauriram a muitos e todos precisam da volta à alguma sanidade, a alguma palavra e ação pautada por uma ética compartilhável e plausível.

Lula na cadeia, fora Dilma…o que mais? Tais bravatas não comunicam mais e juram de morte o devir da palavra e da própria linguagem no debate público.

As pessoas voltam a buscar a palavra fiável e acreditam nas palavras de Lula, a partir daquilo que cumpriu do que prometeu no passado. Nem se lembram do que prometeu e não cumpriu, tamanha a carência de algo e alguém em quem acreditar.

Todos sabemos que estamos diante de um presidente ilegítimo que age antes como um usurpador de diretos da população pobre e vulnerável na calada da noite, e que agravará severamente o momento frágil e delicado pelo qual o país atravessa. Presidir para destruir.

O atual presidente sem votos vai à televisão anunciar que vai abandonar a vida política em 2018. Não é verdade, como nada do que diz é fidedigno. A verdade de sua entrevista estará em outra frase: “Só espero que as reformas deem certo e que não haja necessidade de pedirem para eu continuar“. As intenções se encontram do lado oposto onde a grande imprensa jogou o foco e a luz. Podemos assim traduzir: “Fico até concluir minha tarefa porque há forças capazes de me manter no poder até lá.”

Essa forças estão entre os 2% que hoje o apoiam. Prepara-se um conflito de 2% contra 98%.

Por outro lado, na hipótese de Lula chegar ao poder uma vez mais, não haverá mais concessões ao Partido dos Trabalhadores. Ele terá de cumprir as promessas ainda não realizadas em seus dois mandatos anteriores e no tempo de
Dilma, cujo não cumprimento colocou a democracia sob ataque, vulnerável e em risco; terá de trabalhar para devolver o que foi retirado dos trabalhadores; terá de se cercar de grupos e pessoas que hoje estão nas ruas construindo uma nova esquerda; terá de abrir o PT à sua transformação radical ouvindo os que, verdadeiramente, lutam pela democracia dentro e fora de seu partido; terá de lutar com unhas e dentes contra os oligopólios da grande mídia que massacram a democracia possível todos os dias. Ninguém pode mais se dar ao luxo da ingenuidade, após ter vivido a história recente do país, muito menos Lula.

Quanto ao juiz Sergio Moro, hoje parece que ele já se arrisca a ser lembrado no anais da história menos ao lado de um Giovanni Falcone e mais ao lado de um Lalau.