“Relato Manifestação dos 100 mil” Por Paulo Endo

Relato Manifestação dos 100 mil -04/09/2016

Autor: Paulo Cesar Endo

 

No último domingo, mais de cem mil se reuniram em São Paulo para exigir a deposição do presidente indireto Michel Temer.

Foi uma manifestação bonita, pacífica e organizada, que caminhou do MASP, na Avenida Paulista, até o Largo da Batata, no bairro dos Pinheiros.

No caminho, um aparato enorme de policiais armados de lança bombas e de espingardas de bala de borracha ladeavam a avenida Rebouças acompanhando todo o trajeto.

Logo se veria poucos transeuntes ofendendo os manifestantes, insuflando conflitos, provocando gratuitamente. Eles se posicionavam ao lado dos policiais militares sem que fossem repreendidos. Pareciam, na verdade, protegidos para fazer o que faziam. Em alguns momentos a multidão quase se incendeia, mas recusou todas as provocações e seguiu adiante seu trajeto, magnânima.

O contrário ocorria quando os policiais se deparavam com manifestantes contra o governo Temer. Nesse caso eles achacavam, ameaçavam, apontavam as armas até que os manifestantes recuassem ou se movessem.

A organização foi impecável. Seguranças da CUT abordaram suspeitos de agir com violência e os acompanharam até o fim do ato. Nada aconteceu.

Quando os manifestantes chegaram ao Largo da Batata, parecia uma grande confraternização democrática: familiares se abraçando, amigos se encontrando, namorados namorando para celebrar o final de uma festa excepcional pela democracia. Eles estavam celebrando também a realização de uma manifestação sem feridos. O contrário do que acontecera em todos os dias da semana anteriores.

Mas, nesse instante, a tropa de choque já se posicionava nos fundos do Largo da Batata, no sentido da Av. Pedroso de Moraes, enquanto um aparato enorme de veículos e soldados da PM se plantava do lado esquerdo, próximo à rua Cardeal Arcoverde. O helicóptero da PM sobrevoava a multidão, que sequer suspeitava do que estava para ocorrer.

Ninguém, ou muito poucos, viram nos voos rasantes do helicóptero uma ordem para dispersar.

Mal chegavam os últimos manifestantes vindos da Av. Paulista quando tem início o tiroteio de bombas. Os policiais atiram a esmo sem qualquer preocupação com os usuários do metrô ou com transeuntes ou com crianças de colo sob o risco de inalar o gás das bombas.

Os jornalistas livres captaram as imagens de uma mãe desesperada no metrô Faria Lima (link), tentando afastar seu filho de colo da fumaça liberada pelas bombas. O descalabro da força bruta e ditatorial que o governo Alckmin dispara contra civis nesse momento é sem precedentes.

Mas a articulação policial e governamental é maior, mais ampla. Enquanto isso, 27 pessoas eram detidas e conduzidas ao DEIC, dentre as quais estão 4 menores que militam no movimento secundarista, hoje um alvo privilegiado das forças de repressão. Advogados ativistas e outros foram imediatamente até lá para liberá-los, mas foram impedidos de entrar para prestar assistência jurídica aos seus clientes. Um dos advogados no DEIC comenta que, desde que exerce advocacia, há mais de 30 anos, nunca viu um defensor ou advogado da pessoa detida ser proibida de entrar na delegacia.

Polícias civis e militares articuladas, portanto, contra o Estado de direito. Mais tarde os jovens seriam liberados, mas sem que se soubesse se seriam processados logo mais.

Os jornais Folha de São Paulo, Estado de São Paulo e O Globo fazem o coro, insistindo na caracterização de um movimento gigantesco e pacífico como uma prática e iniciativa de poucos vândalos, ignorando os grupos e movimentos sociais históricos que organizavam a manifestação. Sugerem mais repressão e se colocam ao lado de práticas abusivas conhecidas nos anos de exceção, mas também repetidas em massacres como os do Carandiru, Candelária, Barueri, Massacre do Centro, etc. – jamais apurados, jamais punidos.

Voltam à cena os mesmo personagens que apoiam práticas violentas, resolutos e determinados à preservar e aprofundar o modelo ditatorial sob os auspícios de um suposto Estado democrático de direito. Fizeram isso no impeachment e farão isso para legitimar a violência contra ativistas e manifestantes pela democracia ofendida.

Enquanto se articula o sufocamento total do Partido dos Trabalhadores, a investigação dos “esquerdistas radicais” segundo a ABIN (Agência Nacional de Informações) e o recrudescimento da violência contra os jovens que eram imensa maioria na manifestação, estratégias precisam ser propostas e inventadas com inteligência e rapidez.

A forma PSDB de governar abre suas asas no país. Se a direita articulou-se para derrubar um presidente eleito nas urnas, porque não se articularia para manter o ilegítimo Temer no poder, bode expiatório de uma reforma ampla e profunda que pretende retroagir até antes de 1988?

Eram muitos na Paulista no domingo. Serão muitos semana que vem pelo Brasil. Serão atacados. As forças repressoras, em qualquer tempo e lugar, sempre visam a impor a solidão ao ativista que vive e age articulado coletivamente. Querem encarcerá-lo, processá-lo, torturá-lo, abordá-lo, sozinho, no caminho para as manifestações, acusá-lo de agir em nome próprio.

A mais eloquente sinalização dos mais velhos tem de ser: “Vocês não estão sozinhos”.

Se marcharmos ao lado deles serão muitos mais que um nas avenidas do país. Pais acompanhando filhos, professores acompanhando alunos, parlamentares acompanhando eleitores, artistas acompanhando fãs para enfrentar o cenário de guerra que se arma em cada uma das manifestações.

Hoje, não há outra alternativa.