A democracia exige coragem: notas sobre a importância de resistir ao fascínio pela obediência servil – Por Norton Cezar Dal Follo da Rosa Jr

O livro da filósofa e psicanalista Cynthia Fleury, intitulado La fin du courage1, parece-me pertinente para a atualidade. Nesse ensaio, além de sustentar a tese de não haver coragem política sem coragem moral, a autora demonstra como a filosofia permite fundar uma articulação entre o individual e o coletivo, a partir de uma ampla reflexão sobre os sérios desafios que as democracias enfrentam.

Para Fleury, cada época terá o seu limiar melancólico em algum momento de sua história. Da mesma forma, cada indivíduo experimentará essa fase de cansaço e erosão de um esboço qualquer de esperança. Como se os sujeitos, seja pelos regimes totalitários, seja pela voracidade neoliberal implacável, fossem defrontados com uma espécie de instrumentalização e desaparecimento da coragem. Trata-se de um estado limite.

A escrita nos provoca à reflexâo sobre os modos de converter o desânimo em reivindicar o futuro, pois as democracias e, consequentemente, os cidadãos não podem sucumbir nesse desamparo. Ou seja, se, de um lado, todos são afetados por essa degradação moral e política, de outro, trata-se de transpor o caos e encontrar formas de se opor à entropia democrática a partir da ética da coragem como virtude para a manutenção da democracia, a proteção do sujeito e a transformação.

Coragem, inclusive, para desobedecer, pois, ao se seguir um outro de forma servil, alienada e suicida, quais serão os efeitos disso para a democracia? Quais são as consequências quando as pessoas seguem alguém cujo mandamento em plena pandemia é o de não usar máscaras, tampouco tomar vacinas, e sim se aglomerar, fingir nada estar ocorrendo, colocando a vida de milhares em risco, sendo que já estamos com quase DUZENTOS E SETENTA E UM MIL MORTOS? Como sustentar um Estado democrático se muitos parecem flertar com uma forma de gozo suicida? O que leva alguém a obedecer a esse convite à morte?

A leitura de Fleury, ou melhor, a própria autora, remete o leitor ao conceito ético-político, extremamente importante, de Hannah Arendt conhecido como a banalidade do mal2. Os motivos dessa incursão são vários, de modo que destaco apenas dois: a incapacidade de pensar e o gozo da obediência servil.

Arendt interroga-se sobre como a servidão absoluta pode levar o sujeito a uma incapacidade de pensar dialeticamente. Isso engendraria uma verdadeira impossibilidade de se colocar no lugar do outro. Essa obediência servil e burocrática de se fazer instrumento de uma engrenagem leva-o à degradação moral de não se responsabilizar pelos seus atos.

As construções de Arendt se deram a partir de sua participação como correspondente do jornal New Yorker no célebre julgamento do carrasco nazista Adolf Eichmann (1906-1962). Além de acompanhar esse fato histórico, ela se ocupou da leitura do processo policial do depoimento do réu.

Capturado na Argentina por um comando israelense no final da década de 60 e levado para julgamento em Israel, o carrasco era reconhecido tanto por sua crueldade quanto por ter sido o responsável pela sessão IV B4, conhecida entre os nazistas como a máquina burocrática de todo o mapeamento de como funcionavam as ferrovias para transportar trigo, gado e seres humanos. Sua indiferença era tamanha que chegava a afirmar publicamente não fazer diferença o que estava sendo transportado: cabia apenas cumprir o seu dever e fazer os “objetos” chegarem ao seu destino na hora certa.

O que parece ter surpreendido a filósofa, levando-a a inaugurar um conceito absolutamente original, era o fato de estar defrontada com um sujeito medíocre, comum, mas determinado de forma incondicional a servir um Outro absoluto. Sendo incapaz de refletir sobre seus atos, suas frases eram verdadeiros clichês. Para além do estereotipo de monstro, a autora propõe interrogar as consequências de quando alguém se julga um funcionário exemplar que apenas executa seu macabro dever de cumprir ordens. Aprendemos com Arendt que, ao se negar a condição humana, pode-se, ao mesmo tempo, ser a própria vítima da incapacidade de pensar e o agente de terríveis atrocidades.

Sabe-se o quanto a filósofa pagou um preço muito caro por não tomar os nazistas como apenas monstros sociopatas. Para além de criticá-la, prefiro ficar com a sua advertência: por que algumas pessoas participariam de uma engrenagem macabra, submetendo-se a uma atrocidade dessa natureza? O que levaria o cidadão comum a seguir o enunciado de Eichmann, esse kantiano pervertido, que inclusive chegou a dizer: haja de tal forma que o Führer, ao saber da sua ação, aprove. Ou ainda, o que faz um ser humano desumanizar outro?

Ao se obedecer de forma incondicional, além de se abrir mão da liberdade para pensar, engendra-se um fracasso ético e moral face à submissão a um Outro totalitário. Por isso, quando alguém recusa a humanidade no outro, nega a sua própria condição humana.

Certa feita, um psicólogo social, norte-americano, judeu, tocado pelas questões do pós-guerra, bastante conhecido entre as décadas de 60 e 80, Stanley Milgram (1933-1984), resolveu colocar à prova as hipóteses de Arendt. A experiência de Milgran, publicada no artigo Behavioral Study of Obedience no Journal of Abnormal and Social Psychology e desenvolvida na Universidade de Yale nos EUA em 1962, ficou bastante conhecida na época e, inclusive, chegou a ganhar prêmios de relevância, apesar de ter sido contestada, algumas vezes, por diferentes pesquisadores. Era mais ou menos assim: tratava-se de um projeto de pesquisa que pagava $ 4,50 por hora para os voluntários desse experimento. Aparentemente, o objetivo era analisar a relação entre memória e aprendizagem no sentido de tentar validar ou não a tese de que, se as pessoas sentissem punidas, elas iriam aprender mais. A justificativa do objetivo era uma farsa, pois, embora os voluntários não soubessem disso, o propósito era, na verdade, verificar a prontidão para obedecer e o efeito de submissão à autoridade, mesmo que isso implicasse prejudicar, sensivelmente, outro ser humano.

Na sua primeira versão, o projeto contou com a participação de quarenta homens entre vinte e cinquenta anos. O método consistia em oferecer um jogo de palavras, um nome e um adjetivo: em meio a 30 palavras, o indivíduo deveria decorar a relação do nome com o adjetivo correspondente, como, por exemplo: céu-azul, homem-forte, e assim por diante. Ao errar o par de palavras, o aluno levava um choque que começava com 15 volts e poderia chegar, gradativamente, a 450 volts. Detalhe: 230 volts já seria suficiente para matar um ser humano.

O experimento era composto por três pessoas: o aluno que receberia a punição ficava na sala ao lado numa simulação de mesa elétrica; apesar de não ser visto pelo voluntário, era possível ouvir seus gritos quando o choque era emitido (na verdade, ele fazia parte do jogo e estava simulando a dor); o voluntário da pesquisa, ocupando o lugar do avaliador responsável pelo dever de desferir o choque; e o instrutor, aquele que representava o lugar da autoridade, incentivando a continuidade de levar o experimento até o fim. Isso significava duas possibilidades: ou o aluno acertaria todas as combinações ou ele poderia levar um choque de até 450 volts.

Os dados demonstram que o voluntário não titubeava em emitir um choque de até 75 volts toda vez que o aluno errava a combinação de palavras. Depois de 75, ele virava para o instrutor, numa espécie de dúvida, e perguntava se deveria seguir, e ele lhe dizia algo do tipo: “é preciso seguir a pesquisa, você não pode parar”. Resumindo, 66% foram até 450 volts, todos até 300 volts. No momento da dúvida, especialmente em função dos apelos por parte do aluno, o instrutor dizia que tanto ele quanto a universidade seriam os responsáveis pelas consequências, numa tentativa de eximir o voluntário pela responsabilidade de seus atos.

A partir dos resultados desse experimento, conclui Milgram: “Com espantosa regularidade, observamos boas pessoas se curvarem às exigências da autoridade e cometerem atos graves e insensíveis”. Na esteira de Arendt, ele tentou provar como pessoas comuns podem agir de forma cruel, desumana, quando submetidas a uma suposta autoridade.

Apesar de essa pesquisa ter sido questionada por vários psicólogos, em 2009 e 2010, a TV Francesa e a TV Suíça, no programa “Jogo da Morte”, resolveram encenar esse experimento, mas agora sob a autoridade dos donos dos canais e da apresentadora. Os dados concernentes ao fato de irem até 450 volts passaram para 81%. Em diferentes contextos, retorna a questão: o que leva esse fascínio pela obediência a fazer com que algumas pessoas sigam ordens capazes de contradizer o bom senso individual?

A incapacidade de pensar e de se responsabilizar por seus atos não produz apenas alienação, podendo desencadear consequências trágicas; para constatar isso, basta um rápido olhar para nossa realidade brasileira. Logo, como obedecer de braços cruzados, com quase DUZENTOS E SETENTA E UM MIL MORTOS? E ainda, respondendo ao estímulo sórdido de um presidente que não se cansa de colocar a vida de outros em risco?

Em 2021, precisaremos de coragem para mantermos não somente a democracia, mas a dignidade humana; nesse caso, haja vista o contexto, devemos fazer isso rebelando-nos, desobedecendo e não naturalizando o absurdo, pois, ao negarmos o sofrimento alheio, de certo modo, atacamos aquilo que nos humaniza. Para os cansados e sem esperança, cabe lembrar que, quando vivemos uma fase de desencorajamento, de falta de confiança em nós mesmos e no outro, é um momento precioso para reencontrar a coragem e colocar um basta nesse projeto de destruição coletiva.

Norton Cezar Dal Follo da Rosa Jr é psicanalista, membro da APPOA e do Instituto APPOA, Doutor em Psicologia Social e Institucional – UFRGS, autor do livro Perversões: o desejo do analista em questão. Curitiba: Editora Appris, 2019.

A propósito, como dizia Jacques Lacan, somos sempre responsáveis por nossos atos, inclusive quando nos omitimos.

1 FLEURY, C. La fin du courage. Paris: Fayard, 2010.

2 ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém: um relatório sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das letras, 1999.