Oração fúnebre. Por Edson Luiz André De Sousa.

ORAÇÃO FÚNEBRE

ESTE TEXTO É UM POUCO LONGO PORQUE UMA ORAÇÃO FÚNEBRE PRECISA SER LONGA. UMA ORAÇÃO FÚNEBRE NA VERDADE NUNCA SERÁ LONGA O SUFICIENTE.  PRECISAMOS TER TEMPO PARA A MEMÓRIA.  APRESENTO  ABAIXO UM FRAGMENTO  DA SERIE  “POEMAS DA CATÁSTROFE DO NOSSO TEMPO”  DE ALBERTO PUCHEU, POETA E PROFESSOR DA UFRJ.  ESPERO QUE  TENHAM TEMPO PARA LÊ-LO.  A IMAGEM É DO TRABALHO  ‘STRAIGHT” (RETO) DE AI WEIWEI. NO FUNDO DA IMAGEM  VEMOS UMA LISTA DE MORTOS NO TERREMOTO DA CHINA EM SICHUAN EM 2008 E QUE AI WEIWEI FOI BUSCAR COM A AJUDA DA COMUNIDADE. UM MEMORIAL!!!

Querido Pucheu, teu poema não pode acabar porque a catástrofe do nosso tempo não acabou e não vai acabar tão logo. Pelo menos esta tragédia que tens apontado com precisão, urgência e com o fôlego de um trabalhador da construção civil que diariamente constrói as casas para os outros em troca das migalhas para comer. Teu poema de hoje é uma oração fúnebre fundamental, os vivos e os mortos, os mortos vivos e os vivos mortos. Precisamos lembrar seus nomes, agora e sempre. Por isto teu poema não pode parar. Compor estas listas que serão grandes, serão assustadoramente grandes como a ferocidade mortífera deste desgoverno apoiada por tanta gente ainda. É como cavar seu próprio túmulo diante do tirano, sob o jugo do tirano. Hoje voltarei a reler o Discurso da Servidão Voluntária, leitura obrigatória para este tempo de catástrofe. La Boetie falava que até o animal resiste a ser capturado, e nós?  Lembrei imediatamente ao ler teu poema do trabalho Straight (Reto) do Ai Wei Wei, que vi na exposição Raiz em São Paulo. Ele recolhe 164 toneladas de vergalhões retorcidos  dos escombros de escolas chinesas do terremoto de Sichuam onde 60 mil pessoas morreram em 2008. O terremoto é da natureza, mas a precariedade das construções foi responsabilidade do governo ( que sabiam destes riscos) , da negligência com que construíram estes prédios, o ocultamento dos dados das mortes. Ai WeiWei desentorce vergalhão por vergalhão como resposta a esta catástrofe. Tuas palavras em teus poemas chegam para mim como este ato do artista chinês. Emocionei-me ao ler teu poema  porque pensei também em algumas noticias de pessoas próximas também hospitalizadas. Mas estes anônimos que morrem merecem uma palavra, um lugar na memória. Continuaremos juntos por muito tempo construindo estes poemas para a catástrofe do nosso tempo. A vida ressurge mesmo em uma oração fúnebre. Este é um dos atos de humanidade mais fundamentais.  Obrigado por tua vigilância diária ao que não podemos esquecer.

 

Segue um fragmento da serie Poemas para a catástrofe do nosso tempo de Alberto Pucheu

agora, só resta falar com os mortos… e com os vivos dos mortos… talvez, agora, tenha acabado o “Poema para a catástrofe de nosso tempo”; difícil saber o rumo de um poema-livro in progress, mas acho que se ele aumentar será por dentro. acho que esse é o fim, uma fala com os mortos… e com os vivos dos mortos.

Como quem busca um mínimo
vestígio dos mortos, uma linha
que nos possibilite algum modo
de convívio, ainda que mínimo
e desigual, um horizonte qualquer
de memória, uma contemporaneidade,
um caminho que nos leve até eles
ou os traga até nós, de todo modo,
que não os permita ir completamente
embora, que não nos permita ficar
para sempre sem suas histórias,
sem seus afetos, sem o que
pensaram, sem o que sonharam,
sem o em nome de que e contra
o que lutaram, sem seus testemunhos,
procuro, sem as encontrar, listas
com seus nomes, levando-me a crer
que eles são a cada vez anonimizados,
desprezados, relegados imediatamente
ao esquecimento. Há milhares de nomes
que deveriam estar disponíveis
em algum lugar para sabermos
quem são os mortos diretos e indiretos
pelo vírus e, sobretudo, pelo presidente
que se aproveita do vírus para matar,
mas, além de não sabermos seus nomes,
não sabemos, tampouco, e menos ainda,
os nomes dos subnotificados, daqueles
que passam por fora dos dados
oficiais, daqueles que o governo
não testa e que, mesmo se os testasse,
esconderia os resultados de todos nós.
Pesquisadores dizem que, aqui, se sabe
apenas algo em torno de 8% dos casos
de contágio e de morte pelo covid-19.
Com sua política de extermínio,
o governo não fabrica apenas
os modos de matar, mas, agindo
segundo uma lógica da desaparição,
faz de tudo para apagar
a memória dos que morrem,
seus nomes, seus sobrenomes,
suas histórias, algo de suas vidas,
seus vestígios… Temos notícias
de pessoas que, como poucas
outras na história, nem podem ser
veladas por quem mais as ama,
nenhuma irmã, nenhum irmão,
nenhum pai, nenhuma mãe,
nenhum filho, nenhuma filha,
nenhum amigo, nenhuma amiga,
nenhum ou nenhuma amante
pode derramar suas últimas lágrimas
diante dos corpos nem as pode enterrar,
delas, dessas pessoas sem rituais
fúnebres, quase nada sabemos
senão, quando muito, suas inclusões
nas estatísticas, e, quanto à maioria,
nem nas estatísticas elas cabem.
Chega-nos a notícia de que um tio
da minha companheira morreu,
de que o pai de uma amiga morreu
e, assim por diante, as notícias
vão chegando, de pessoas que
seguem para a vala do esquecimento
público, para a vala da ignorância
política, para a perda dos laços
sociais que há muito, induzidos,
vamos vivendo. O tio falecido
da minha companheira, que morava
em Duque de Caxias, cujo índice
de mortalidade já é o dobro do da Itália,
chamava-se Barbosa, nem sabemos
exatamente o nome completo dele,
ele se chamava alguma coisa Barbosa,
José Barbosa Salles, descubro, agora,
o pai da minha amiga se chamava
Seu Tuninho, ou Antônio Luiz Pereira,
descubro igualmente agora,
eles foram as duas primeiras pessoas
próximas, bem próximas, que faleceram.
Seja nos navios negreiros, no genocídio
colonial de escravos negros e indígenas,
nos desaparecidos da ditadura
militar, nos assassinados pela polícia,
pela milícia, pelo narcotráfico, em todos
que acabam nas valas comuns,
no cemitério de escravos,
no cemitério de indigentes,
no cemitério de subversivos,
no cemitério de homicídios,
essas vidas perdidas, largadas
e não veladas foram sempre vidas
não contabilizadas. Do cozimento
em vida dos escravos aos micro-ondas
do tráfico passando pelos fornos
incineradores de corpos nas usinas
de cana-de-açúcar usadas pela ditadura,
com essas e todas as outras técnicas
conhecidas de desaparecimento
que nossa história cruelmente
foi capaz de produzir, poderia dizer
que, para nós, digo, para mim
e para você, tanto os desaparecidos
quanto os relegados – em vida e em morte –
ao esquecimento são aqueles
que diariamente nos fazem falta.