A vida que não vale a pena ser vivida: os texanos, os milicianos e nós – Paulo Endo – especial para Psicanalistas pela Democracia

 

Cerca de 1200 mortos por dia subnotificados por uma pandemia que não encontra obstáculos para avançar;

Com variações são cerca de 50000 mortos por homicídio anualmente;

Anualmente mais de 1,5 milhão de mulheres são espancadas ou estranguladas no país (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47365503);

Em torno de 66 mil estupros notificados ocorrem no país todos os anos. São 180 por dia, Uma vítima a cada 11 minutos.( https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/09/brasil-registra-mais-de-180-estupros-por-dia-numero-e-o-maior-desde-2009.shtml?origin=uol);

Incontáveis torturados diuturnamente, dentro nos locais de detenção esparramados pelo país. (https://duckduckgo.com/?t=ffab&q=endo+tortura+lua+nova&atb=v221-1&ia=web);

Quando a quintessência da crueldade e do imbecilismo chegou ao poder em 2019,  antes já tínhamos esses 30 por cento de eleitores apoiando e praticando abertamente as violações que o candidato eleito profere, incita e executa.

Mas hoje, no Brasil, o tamanho do problema chega a sua real dimensão.  Há os muitos que vivem no Brasil incitando, perpetrando e se omitindo diante das mais abusivas práticas de violência, crueldades e violações. Desprezam as lutas pela igualdade, ignoram ou odeiam os movimentos pela democracia, e conclamam um futuro sem história. Para eles o país está sempre começando do zero e sua principal tarefa é atentar contra tudo o que os antecede. Seu negacionismo é sua melhor estratégia para convencer a horda de proclamadores da ignorância que seu tempo é agora, e tudo o que não se assemelha à sua própria imagem no espelho não existe. E, quando existe e é percebido, tem de ser eliminado. São esses os que não arredam pé do apoio a bolsonaro. A indecência do candidato os excita, anima e os exaspera.

Para 30 por cento dos eleitores e eleitoras brasileiras é plausível defender a violência acima de tudo e os bolsonaros acima de todos. Esse perigo imenso, que não era claro para quase ninguém antes das eleições presidenciais continuará tensionando o futuro político do país, após a passagem desastrosa do atual presidente pelo poder.

A dinâmica abrangente indicada sucessivamente pelos números é uma peça vital para que consideremos a tarefa gigantesca que se aponta para o futuro, no qual teremos de demover milhões de brasileiras e brasileiros de convicções que são, na verdade, obscenas.

Hoje sabemos melhor do que ontem que para milhões a tortura não é, de modo algum, intolerável; o racismo é admissível; a misoginia que leva ao estupro, à violência doméstica e ao feminicídio não deve ser combatida com rigor; que às polícias deve ser garantido o seu quinhão de aniquilar vidas ao invés de preservá-las, etc. Elas e eles estarão de arma em punho para defender a barbárie, o imbecilismo e a guerra civil entre concidadãos.

Foram muitas as demonstrações disso em frente ao palácio do planalto.

Antes da recente hecatombe política acontecer no país nos perguntávamos e buscávamos respostas – alguns todos os dias -, para as perguntas: -Porque o número de mortes por homicídio não cede no Brasil após o fim da ditadura civil-militar? Porque se tornou uma doença endêmica o despreparo e o discricionarismo cometido pelas forças de segurança brasileiras contra as brasileiras e brasileiros? Porque ainda temos de ter receio de golpes contra a livre expressão, contra o direito de ir e vir, contra o direito de não ser machucado, ferido e torturado pelas forças de segurança pública? Porque é iminente, para a maioria das cidadãs e cidadãos, a possibilidade de ser violentado no espaço público? Muitos ensaiaram respostas  e boa parte dessas respostas apontam caminhos que não foram suficientes.

Porém tais perguntas tem sido reveladas hoje por um sucedâneo estatístico, prévio à qualquer estratégia de mudança.  Vivemos num país onde a vida pouco importa porque 30 por cento das brasileiras e brasileiros acreditam e atuam cotidianamente para que algumas  vidas sejam perenemente denegadas, apagadas, esquecidas.

No conjunto, portanto, podemos constatar sem dificuldade que a vida vale muito pouco no Brasil para milhões de brasileiras e brasileiros. Todas as vidas, qualquer vida. Viver é difícil num país que dá as costas aos seus mortos e atenta contra seus vivos.

A obscenidade que mimetizou jaires e donalds os coloca exatamente no mesmo lugar histórico, exatamente no mesmo ponto abissal onde tudo se arruína. Mortes a granel nos países cujos líderes se consideram acima da vida, dos direitos humanos e da democracia. Líderes que se consumam e se embebedam de poder para arrancar das pessoas fragilizadas, vulneráveis e pauperizadas o que lhes resta de sobrevida, porque sempre haverá alguma vantagem a tirar quando se transformam cidadãs e cidadãos em carcaças largadas à míngua.

Ao se colocarem nesse patamar mórbido, obcecado e indecente esses pseudo governantes decidiram que ao esparramarem dor, ódio e morte como política de governo recrutariam milhões. E os episódios recentes das duas maiores nações americanas demonstraram que eles tem razão.

Junto a eles estão os milhões de emissárias e emissários da morte no planeta. Sua auto inseminação, fraca e amedrontada, agora os atiça para a linha de frente para destruir executar todas as barreiras institucionais que protegiam corpos e psiquismos. Milicianos no Brasil, texanos no EUA. (https://internacional.estadao.com.br/noticias/nytiw,o-preco-de-atravessar-a-fronteira-dos-eua,70002409084; https://www.acheiusa.com/Noticia/texanos-cacam-imigrantes-indocumentados-na-fronteira-12542/; https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1905200009.htm )

Sair à caça de mexicanos que tentam atravessar a fronteira é um esporte consagrado nas fazendas texanas e se tornou diversão garantida amedrontar, humilhar, cruelizar e matar imigrantes ilegais indefesos e apavorados.

Kleber Mendonça ironiza isso, de modo aterrorizante, quase literal em Bacurau. Essa justaposição de métodos de cruelização e gozo, exportáveis para lugares muito mais permissivos e indiferentes às vidas de seus cidadãos do que os EUA, revela-se liminarmente como o lugar onde o pensamento soçobra.

Em Bacurau assistimos o ponto exato no qual o pensamento sem a ação que lhe seria correspondente se converte, quase imediatamente, em  vidas exterminadas, invadidas e derrotadas.

Porque, num país onde milhares são lançados aos lobos todos os dias não se admite um enorme parque de caça humana assumindo-se a dimensão divertida e lucrativa do gozo como pulsão de morte?

Acaso isso já não ocorre ‘informalmente’? Então porque não institucionalizar o que na prática já se tornou factível? Aqui lembremos do pacto entre o político facínora e o líder da gangue dos caçadores de humanos em Bacurau.

Ao justapor o que já acontece como prática corriqueira nas fazendas texanas ou nas periferias brasileiras, a ficção do gozo permitido e institucionalizado de Bacurau chama a atenção para uma comunidade cidadã, que decide não mais viver sob o terror, o pânico e o degredo mas que, para chegar a isso paga o preço do assassinato de suas crianças; do descrédito em relação à sua história e da pusilanimidade diante de violências passadas toleradas.

A pequena comunidade de Bacurau não reage imediatamente. Foi preciso a humilhação, a miséria, o assassinato e a ameaça iminente do extermínio para que houvesse insurreição. Nesse sentido Bacurau é pessimista.

Alguns se lembrarão das análises de Everett Hughes na década de 60 do século passado, em que analisava a dinâmica social nazista na qual boas pessoas toleravam e apoiavam o trabalho sujo (good people, dity work). Em mútua  implicação, as pessoas boas se constituem socialmente enquanto boas porque outras pessoas fazem o trabalho sujo, o que lhes permite permanecer usufruindo do prestígio de circular em áreas e situações socialmente aceitas e valorizadas, enquanto outras exercem o papel que lhes cabe, fazendo passar a boiada, na calada da noite. Para Hughes essa correlação seria frequentemente indiscernível e vivida socialmente como banal.

Esse estreitamento é tão definidor que o regime ambivalente moral das boas pessoas lhes  permitiria condenar publicamente os trabalhadores sujos, enquanto, secretamente, os apoiam ou se omitem ante suas ações.

Discordam da morte de milhares alvejados por arma de fogo, mas apoiam o porte de armas; defendem direitos iguais, mas se beneficiam da corrosão dos direitos trabalhistas; consideram-se defensores dos direitos humanos mas sorriem ao ver em ação a polícia que mata; são profissionais da saúde mas apoiam o presidente que mais defenestrou os saberes científicos, médicos, biomédicos, psicológicos e atua para arrasar com o campo da pesquisa no país.

A proposição de Hughes fala de algo que corria em segredo e sorrateiramente  antes de 1933, enquanto a máquina nazista ascendia e, depois, tomou conta de todo o estado alemão.

Entre o manifesto da defesa dos direitos fundamentais, da sociedade igualitária, etc há o latente do assassinato massivo de cidadãos pobres, pretos e periféricos; a tortura e a erradicação de presos nos locais de detenção; a indiferença em relação à violência contra a mulher; a rédea solta para o empresariado atuar degradando a massa de trabalhadores pobres, via ataque aos direitos trabalhistas e previdenciários; a autorização crassa para o extermínio de comunidades e populações indígenas, etc

Ao bom cidadão caberia uma certa surpresa e contrariedade diante desses fatos conhecidos, a fim de permanecer no seio dos grupos consagrados às boas pessoas, mas é só.  E é essa articulação da inação dos bons travestida de perplexidade que autoriza que o contrário aconteça.

A promoção da assimetria aqui é absoluta e o desejo de uma sociedade assimétrica, inspira os ideais de jaires e donalds. De um lado brancos, ricos e armados, de outro, o resto. Isso que parecia impossível e mesmo inimaginável, ganhou ares de notoriedade ao ser executado pelos atuais presidentes de Brasil e EUA e atiçou os ânimos daqueles que com eles sempre estiveram.

Com eles se tornou possível ser uma boa cidadã ou cidadão americano ou brasileira/o enquanto se trabalha e se defende publicamente a institucionalização governamental do trabalho sujo. Mas sob o amparo de presidentes da república o trabalho sujo se converte então em trabalho limpo.

A maior lavagem moral ocorre pela via dos exemplos dados por donalds e jaires.

Eles conclamam: ‘Juntem-se a nós e escolham entre serem matadores ou matáveis; predadores ou presas; texanos ou mexicanos.’

O que se tornou patente e inegável no Brasil é que 30 por cento do eleitorado brasileiro aceita, considera e não condena tal convite. Antes facínoras calados, agora são apoiadores do presidente e fazem fila para assegurar os ganhos de apoiarem publicamente o trabalho sujo e, ao mesmo tempo, se decepcionam quando esse apoio não gera ganho privado algum e, felizmente, em alguns casos, tem gerado cadeia. Nesse momento gritam: “Onde está nosso presidente?” “Presidente reaja!?” Onde está os ganhos prometidos pela mimetização que tais sujeitos consagram? Nesse momento o presidente faz boca de siri, mas não hesita em continuar a cometer estragos, agora em silêncio.

 O atual presidente prometia que o trabalho sujo seria lavado, ele se esmerou em alavancar sua lavanderia, mas se tornou duvidoso após as ações da PF prendendo e investigando líderes em atos antidemocráticos e anticonstitucionais.

Más pessoas fazendo o trabalho sujo pública e abertamente tem encontrado reação, ainda que tardia, das instituições brasileiras. Em alguns casos a mera punição acovardará a onda de bolsoboys e bolsogirls, que acham que vieram para ficar, porém muitos outros aguardam o ressuscitar de seu líder e estarão prontos para apoiar seu eventual sucessor. Alguns, como Dória, Moro e Witzel, já se posicionavam na fila.

Os prováveis órfãos de bolsonaro serão sempre os potenciais eleitores de qualquer atrocidade. Sua orfandade está acima de regulações e acordos, e seu desespero os leva à regredirem ante a ilusão da onipotência sustentada pela violência. Eles são e serão os que se oferecem ao açoite, desde que possam, episodicamente, açoitar outros estabelecendo laços masoquistas que suturam a enorme distância entre eles e seu mestre algoz.

Se organizam de modo rápido, impulsivo e impensado e são capazes de ações capazes de fazer corar nazistas, porém, podem ser agenciados por interesses deliberados, planejados e ambições de poder de longo prazo.

Todos vimos isso acontecer ao menos nos últimos 5 anos e esquecer essa experiência pode nos lançar à letargia e à catástrofe.

Hoje sabemos que milhões de homens e mulheres sustentam e sustentarão episódios dantescos como os que estamos vivendo. Mas também sabemos que seu apagamento da cena pública é vital, para que tal chamado massivo não seja emitido com a regularidade e contundência.

Os movimentos pela democracia limparam temporariamente as ruas dessa convocação, as instituições públicas se apoiaram neles e realizaram parte do papel que lhes cabe, outras iniciativas estão a caminho, no entanto, nesse momento em que seu líder silencia para manter-se no poder e se reagrupar, eles se reorganizam, diante de um possível novo silêncio dos movimentos pela democracia.

Contra esse silêncio não haverá vacina e é fundamental lembrarmos que agora que os gritos cessaram abriu-se o espaço à palavra e à ação que a significa e lhe confere sentido duradouro, como mil vezes repetiu Hannah Arendt. Antes que os ruídos do silêncio nos ensurdeçam a ponto de não podermos nos escutar é preciso executar o fim do atual governo, hoje à míngua, mas atuante e diuturnamente nocivo.

Sob a tinta fresca das pequenas vitórias há ainda a família inteira dos bolsonaro no poder ofertando ao centrão, que constitui a rapinagem que compõe a câmara dos deputados, o que ainda lhes resta de vantagens e benesses. Deputados vendilhões, bolsonaros, ministros obscenos custam muito caro aos cidadãos e cidadãs que pagam seus salários e benefícios para que eles odeiem essas mesmas cidadãs e cidadãos e não desistam de atacá-los.

A luta é perpétua no Brasil, muitos sabemos, mas hoje não há nenhuma batalha que possa ser dada como vencida.

 

Imagem: Bacurau (2019)