“O derretimento da candidatura Doria” Por Paulo Endo

Arte: Os Gêmeos

Atacar pessoas pobres, miseráveis e indefesas em praça pública com violência armada despropositada; impedi-los de ir e vir pela cidade internando-os compulsoriamente; tentar confundir a opinião pública justificando a extrema violência como uma caçada às drogas dá ibope? Demitir publicamente uma mulher, visivelmente constrangida, diante das câmeras de TV como feito de sua gestão na prefeitura de São Paulo dá ibope? (LINK). Fantasiar-se de pobre e trabalhador e propalar aos quatro ventos que é o cara que acorda cedo e dorme tarde, como se fosse o único no país, ao mesmo tempo em que chama manifestantes e trabalhadores de vagabundos dá ibope? Abraçar um grupo como o MBL, grupo que apoiou Eduardo Cunha e se aproxima ideologicamente de Bolsonaro; que age com violência diante de manifestações artísticas; coíbe a liberdade de pessoas, estudantes e trabalhadores com truculência em escolas e museus e não tem um projeto decente para o país dá ibope?

Parece que não.

Oito meses após uma gestão que ninguém vê, numa cidade muito piorada desde o início de seu mandato (LINK), o prefeito hoje é criticado pelas mídias mais conservadoras do país, supostamente suas apoiadoras, e assunto de chacotas e piadas em programas de humor no mesmo momento em que Doria, o Junior, amarga queda drástica nas intenções de voto para presidente.

A queda é abissal e indica que vender ficções de curtíssimo prazo não coincide com as fantasias da população brasileira, aquela genérica e abstrata das pesquisas de opinião.

Se, entretanto, nos deslocarmos para as pessoas concretas atingidas pela gestão violenta de João Doria é preciso lembrar que num dos dias mais frios na capital paulista funcionários da prefeitura acordaram homens e mulheres em situação de rua – pasme-se – com jatos de água. O frio chegava à 7,9o. Dias antes um morador de rua havia ido a óbito na região de pinheiros devido às baixas temperaturas.(LINK)

Diz Daniela Batista de Oliveira, uma das pessoas atingidas:

“É uma humilhação isso aí, e no maior frio. A gente estava dormindo e chegaram jogando água. Eles molham todo mundo, não estão nem aí. Depois quem morre é a gente, e não eles, que têm as casas e os empregos deles.”

Crueldade, gozo sádico, uso e agenciamento espetacular de fantasias de destruição da classe que o prefeito representa pipocam nas ações autorizadas por ele e colocam cidadãos paulistanos em risco.

Em setembro a Guarda Civil Metropolitana entra atirando balas de borracha e bombas de gás nos equipamentos da própria prefeitura ferindo vários usuários e atingindo, inclusive, funcionários da própria prefeitura. (LINK).

A marca da gestão Doria não é a cidade linda, mas a cidade na berlinda, ‘limpa’ dos pobres, violentada pela gestão que deveria zelar por todos, hipócrita ao posar de bom moço e praticar desinibidamente ofensas e acusações a adversários políticos como sua principal plataforma. (LINK). Gestão que foi incapaz, sequer, de suprir seus próprios eleitores com serviços básicos, como semáforos, que desde o início do ano permanecem sem funcionamento adequado numa das cidades com o pior tráfico de veículo do mundo, incluindo aí as áreas abastadas da cidade. A cidade caminha para o caos.

Sob seu comando se escancaram práticas de extrema violência travestidas de bom mocismo, propaganda e argumentação pífia. Essa é a marca de seu governo: ausência de projetos, degradação da cidade a olhos vistos e violência explícita autorizada contra os pobres. Bate de manhã para levar cobertor à noite e é recebido com gritos de “assassino” pela população agredida.

Sua avaliação entre a população mais pobre sofreu queda, imediatamente após as ações ultra violentas na cracolândia, vergonhosa e inesquecível intervenção ao modo PSDB de governar que remonta as práticas mais discricionárias de fascismos conhecidos e assumidos (LINK). Essa ação já pode ser colocada ao lado do Massacre de Eldorado de Carajás e do Massacre do Carandiru pela violência imposta e a impunidade que a acompanha. Assistir policiais machucando pessoas sem reação, algumas deitadas, e derrubar prédios em cima de moradores, apesar de espetacular, também não parece ter muitos adeptos.

Mas não para por aí. Em junho desse ano a prefeitura corta o auxílio ao atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica apesar do aumento do números de casos de mulheres agredidas na cidade. (LINK).

Ex-trabalhadores da Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura tem denunciado o sucateamento do programa e da Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, cujas instalações foram precarizadas e o atendimento idem. No mesmo vórtice, antes, a ex-secretária de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo Patricia Bezerra pede demissão em maio desse ano, após a ação ‘escandalosa’ da prefeitura na região da Cracolândia.

Tiros, bombas e sangue não angariam votos. Hipocrisia, bom mocismo cínico e incompetência também não. Apoiar-se em impropérios lançados contra lideranças reconhecidas com o objetivo de manter o pescoço fora da água tampouco.

Em recente aparição o prefeito aparece em vídeo apoiando a ação violenta de grupelhos que defendiam a moral e bons costumes em frente ao Museu de Arte Moderna de São Paulo (LINK). Entre os manifestante s, Alexandre Frota, ex-ator de filmes pornográficos que qualquer criança acessa pelo google sem dificuldades.

Doria começa a derreter como margarina fora da geladeira. Se quer sobreviver, melhor permanecer na geladeira, quem sabe assim vive um pouco na pele o que é ser acordado com jatos d’àgua numa temperatura de 7,9o.C.