Enquanto isso. Por Fernando Vilela e Sílvia Nogueira de Carvalho.

ENQUANTO ISSO

FERNANDO VILELA [1]

UM

No dia cinco de setembro de 1973 os militares entraram em casa e um soldadinho imbecil leu uma lista com os nossos nomes. Levaram todas nós presas – disse minha mãe enquanto eu a ajudava a digitar seu depoimento em 2007. Meus pais viviam em uma comunidade. Eram várias mulheres, meu pai – padre dominicano recém saído da ordem – e minha mãe, grávida de sete meses.

 

A casa térrea na rua Doutor Virgílio de Carvalho Pinto, em Pinheiros, era comprida. Guardo a memória de um corredor interminável que levava até os quartos.


– Peguem suas bolsas e vamos embora! – disse o milico empertigado. Tia Beta foi até o quarto pegar a bolsa e viu meu pai:

 

– Paulo! Pule a janela e dê o fora! Seu nome não está na lista. Fuja e avise os dominicanos. Minha mãe me contou essa história quando eu tinha 7 ou 8 anos. Imaginei todas as tias algemadas entrando no camburão em fila e meu pai, vestido de padre, de hábito branco, correndo pelo quintal dos fundos, pulando os muros dos vizinhos, um após outro, como um atleta olímpico, um herói, meu pai, que logo colocou a boca no trombone e libertou todas aquelas mulheres. Mas isto aconteceu depois de algumas semanas em que ficaram presas na OBAN, a conhecida Operação Bandeirantes, sofrendo e assistindo torturas – pau de arara, choques, afogamentos – comandadas por Carlos Alberto Brilhante Ustra, oficial assassino adorado pelo atual presidente.

 

Assim que nasci, os livrinhos vermelhos do Mao foram enterrados no quintal daquela casa, dezenas. Nunca mais foram encontrados. Agora estão aqui, dentro desses livros de ferro.

 

DOIS

Maio de 1993. 21 anos. Sentado na poltrona do consultório com uma dor de garganta crônica, recebi estímulos rítmicos de Dr. Rubens na perna direita e entrei em um processo de regressão. Me lembrei das piores faringites que tive, com 18 anos, com 13 anos, com 10, 7, 6, 3, até me encontrar lá no silêncio escuro protegido e agonizante rompido pelo girar da chave, seguido pelo ranger metálico da porta da cela se abrindo. Fui levado pelo braço, pelo delicado carcereiro, me contou minha mãe. Nas trevas líquidas, senti o ritmo do caminhar. 20 passos, virou à esquerda, mais 20 passos, até o fim do corredor. Odor de charuto. Medo. Ele nos esperava.

 

TRÊS

As memórias familiares mais dolorosas da ditadura, das torturas, muitas vezes se tornaram épicos heroicos, narrados pela minha mãe e minhas tias nas mesas do lanchinho da tarde em casa. Café com leite, pão com manteiga, bolo de fubá, com os amigos da escola. Cadeira do dragão, fugas, nomes falsos, engambelação de milicos. Histórias pareciam quase filmes que misturavam os gêneros drama, terror e comédia.

 

QUATRO

Enquanto isso, nome dessa exposição, nasceu de uma conversa no ateliê com Charles Cosac tomando suco com bolo. Se fosse em minha casa te ofereceria um cigarro ou um calmante, me disse. Sentados no chão, olhamos as dezenas de desenhos espalhados enquanto lhe dizia que o disparador das narrativas foi um poema de Garcia Lorca. Pranto para Ignacio Sánchez Mejías, que me colocou dentro das touradas de Goya, de Picasso, das touradas internas, dualidades intermináveis.

 

Esta poesia, ode a seu amigo Ignacio, um conhecido toureiro espanhol morto na arena a las cinco en punto de la tarde.

en las esquinas, grupos de silencio

a las cinco de la tarde

y el toro, solo corazon arriba!

a las cinco de la tarde

eran la cinco de la tarde en todos los relojes!

 

Nesta estrofe imaginei tudo o que poderia estar acontecendo no planeta naquele exato instante da chifrada fatal.

 

Às cinco em ponto da tarde.

 

Visualizei duas narrativas naquela década acontecendo simultaneamente:

 

A tourada de Ignacio Sánchez Mejías e o bombardeio da pequena cidade de Guernica. Ronco dos motores dos aviões no alto e bombas, pontos negros no espaço, despencam silenciosas, enquanto a população e os animais, porcos, vacas, olham para o céu.


Nesse mesmo instante o público da arena observa em silêncio o enorme touro, negro como a noite, possuído, riscar uma linha reta no círculo e explodir no seu alvo, no exato momento em que as bombas tocam o chão de Guernica.


y el toro, solo corazón arriba!

 

 

CINCO

A fantasia do encontro desses dois acontecimentos me fez, durante alguns anos desenhar, além delas, outras sequências narrativas simultâneas e colocá-las ali, lado a lado. Em dezembro de 2016 o bombardeio de Alepo, na Síria, aconteceu quando passava férias na praia das Cigarras, em São Sebastião. Neste dia, impactado pelas fotos do jornal do dia risquei com carvão os modernos caças no primeiro plano, bombas explodindo e fumaça subindo ao fundo. De tarde, na praia calma registrei um pai e seu filho brincando no mar com uma enorme boia azul. 

 

SEIS

No momento em que entrei nesta sala oval, sua parede curva me pediu que as imagens fossem montadas em uma só linha, como num rolo de filme que enrola seus fotogramas sobrepostos, cortados e emendados sem a lógica da construção sequencial, assim como é o nosso pensamento, que flutua, permeado por nossa memória, o tempo todo.

 

SETE

Dirigindo um carro, paramos num semáforo. Observamos os passos lentos de um mendigo atravessar a rua, depois fechamos o foco no executivo, óculos escuros, aos gritos no celular, sacudindo o braço. O devaneio de alguns segundos é o suficiente para nos levar ao beijo quente debaixo da ducha na noite anterior, que é rompido pela dor da fotografia da manchete na capa do jornal, deitado no banco do passageiro, com corpos resgatados sem vida da lama. A buzina atrás avisa que o sinal ficou verde. Engatamos a primeira e voltamos para o presente. O presente é todo o deslocamento vivido naquele minuto enquanto a roda gira, enquanto isso.

 

São Paulo, 8 de fevereiro de 2019.

 

 

ENQUANTO ISSO… TEMPORALIDADE DA VIDA PSÍQUICA E SEUS PODERES [2]

 

SÍLVIA NOGUEIRA DE CARvalho[3]

 

No atual momento anticivilizatório que nos coube viver, o presente escrito comenta a exposição individual de Fernando Vilela (Enquanto isso, 2018) ao tratar da temporalidade e da disjunção entre os tempos longos dos processos de elaboração psíquica e os tempos curtos da destrutividade.

 

 

Olho antes de tudo a beleza da circularidade do espaço expositivo em que se amalgamam as novas séries de 75 desenhos e 5 escritos de Fernando Vilela. São secos e molhados: carvão e grafite, óleo e nanquim. Noto que essa circularidade é recortada por sua conhecida Coleção 1968-1973 (2014) e, desta vez, olho essa nova-velha instalação como se ela fosse uma âncora oxidada da qual me valho para dizer: depois de muita vida – portanto, muita luta – houve um mar que atravessamos. Assim me refiro à determinada exposição apresentada por Vilela em 2014, O mar que atravessamos, composta por fotografias, gravuras, livros de artista e vídeo, numa diversidade formativa que construía e desconstruía sentidos e culminava nesses “livros de aço” [4] se reapresentam em Enquanto isso (2018).

 

Coleção 1968-1973 em Enquanto isso

 

 

Segundo soube, na biblioteca Mario de Andrade os 110 “livros de aço” permaneceram dispostos pelo chão e por suas bancadas na forma encontrada pelos trabalhadores que os carregaram, forma que foi simplesmente validada pelo artista. Esse detalhe insiste em me dizer do caráter público de um trabalho que atravessa a experiência traumática da violência de Estado, especialmente a praticada durante a ditadura civil-militar brasileira, e memorializa a presença do outro, sua determinante alteridade nos complexos processos de simbolização através dos quais procuramos abordar nossa desnaturada humanidade.

 

Esses distópicos antilivros – que não se reproduzem nem se imprimem –, a um só tempo contêm e encerram, ou seja, guardam em seu interior ora manuais políticos, ora testemunhos de ativistas, ora silentes folhas em branco, rememorando corpos humanos e culturais violentados sob radical mal-estar. Os livros de aço foram forjados um a um, artesanalmente, com todo esforço envolvido nos atos de cortar, dobrar o aço, fechar, soldar, oxidar… foram feitos assim no atrito, na briga, feitos para durar, nesse aço corten comum a Richard Serra e a Amílcar de Castro, matéria que, tal como em nosso aparelho de memória, não deteriora nem desfaz seus traços. Atentos à densa aparência desses livros, surpreende que resultem razoavelmente leves em seu peso, que sejam portanto facilmente transferíveis, transportáveis. Mas essa leveza seria talvez a condição de possibilidade para que tocassem o sublime e a sublimação.

 

Sublime é essa espantosa experiência estética contraposta ao belo. Sublime é receber uma indenização que nos é devida por péssimos tratos nos primórdios de nossa vida social e destiná-la à construção de um trabalho de arte aberto ao comum. Sublime é a sabedoria de filtrar o obsceno para transmitir – ou seja, transformar –  as histórias e a História para as gerações nascentes.

 

Sublimação é a alquímica figura medieval que efetua a passagem direta de uma matéria sólida para um estado gasoso, sem a intermediação do estado líquido, feito quando transmutamos climas densos em enigmáticas brumas aconchegantes.

 

 

Vilela, F. Noturnas, 2014

 

Em psicanálise, sublimação é a destinação de nossa insistente pulsação corporal a uma forma de satisfação não abjeta, no encontro criador de um objeto cultural substitutivo.

 

Gosto de compor uma figura da sublimação entre duas cenas que assisti: na primeira cena, um menino pequeno quer dominar o corpo de um outro e anseia enfiar-lhe o dedo dentro do olho; ele é contido pelas palavras que lhe dirijo (“Dá vontade… pode querer, não pode fazer”), ele se contém. Na segunda cena, ficciono esse menino como cineasta e ele é Buñuel rasgando nossos globos oculares em seu Cão andaluz. Na passagem do tempo o impulso se fez arte. A sublimação é assim um trabalho sexual por sua origem e pela natureza de sua energia libidinal ao mesmo tempo que um trabalho não sexual se pensarmos na satisfação obtida e no objeto que a satisfaz (Fuks, 2016, p. 26). Sublimação é ainda a possível resultante do embate entre nossas pulsões de vida e de morte, um destino que promove a vida e a civilidade em conjunto com o erotismo, por sua força de atração e de ligação, em oposição ao movimento desligado rumo à morte (Birman, 2008, p. 20).

 

Pois bem: os livros de aço não nos ferem. Sua crueza é sem crueldade. Memorializam sem monumentalizar a violência, sem nos enredar em sua grandiosidade. São capazes de figurar e de deixar lembrar sem nos retraumatizar, capazes assim de eventualmente transfigurar marcas de sólidos horrores dessubjetivantes em abertura fugaz a humanizantes encontros. Esses livros-âncora assim me fisgam, enquanto psicanalista, por sua combativa resistência.

 

Mas eis que o obturador da máquina do mundo ficou aberto e, enquanto o tempo escorria devagar nessa pulsante e refinada erótica da elaboração psíquica, enquanto nos ocupávamos dessas formações sublimatórias, outros destinos pulsionais nos espreitavam no estouro da horda da vida política, particularmente o retorno sintomático de vorazes autoritarismos represados. Em ritmo vertiginoso, próprio das formas da destrutividade, a indiferença brasileira frente à desigualdade social foi insidiosamente reinvestida e tornada repúdio ao diferente, identificado como inimigo matável, a ser destruído pelo ódio que lhe é dirigido.

 

Por isso hoje leio este novo trabalho de Vilela como convite a olhar o que fez água, a considerar o estado líquido das coisas e a atentar para o que escorre com o tempo, o café, o sangue, o sêmen, a tinta, o sol.