Pelo uso do humor – e da poesia – como estratégia política (ou: não é reproduzindo com indignação as ameaças da ultradireita em nossas redes sociais que construiremos uma verdadeira resistência). Por Tania Rivera.

Pelo uso do humor e da poesia como estratégia política 

(ou: não é reproduzindo com indignação as ameaças da ultradireita em nossas redes sociais que construiremos uma verdadeira resistência)

 

No momento em que soube que Bolsonaro jáera vencedor, estava com minha família e amigos, alguns dos quais tinham se lançado a meu lado na aventura da conversa e da panfletagem nas ruas, nos dias anteriores. Ainda bem. A rede ou teia de aranha materializada naqueles papeizinhos e naquelas palavras, naqueles passos no mundo, por vezes desencontrados, por vezes consonantes, ajudava a conter a queda, a sensação de abismo.

Poucos minutos depois, o que me veio, também como uma espécie de rede de segurança, foi uma piada contada por Freud em seu texto O Humor. Não se trata bem de uma piada, mas de uma história um tanto desconcertante. Um condenado à morte é levado à forca na segunda-feira, e declara ora, a semana está começando bem!.

Freud a toma como exemplo de prazer” humorístico. Sempre achei curioso que tal exemplo fosse tão trágico e terrível. Se nele o psicanalista pode ressaltar algo de grandioso e exaltante, um triunfo narcísico, uma recusa do eu a se deixar tomar pelos traumas do mundo externo, trata-se contudo de nada menos que da própria morte. O mecanismo que faria o condenado colocar-se acima dela, altaneiro, reconhecendo que com seu desaparecimento o mundo não deixaráde girar, parece-me o contrário da posição narcísica, consistindo antes em um despojamento narcísico alcançado apenas por grandes sábios ou místicos. Ou pela afirmação narcísica apesar de tudo e de todos dos grandes loucos. De fato, enunciar que com minha morte a semana começa bem é uma espécie de delírio, pois implica que se subestime a realidade e se tome uma via dissonante, desviante em relação ao que ela convoca como posição frente ao outro, como discurso.

Não entendi bem por quê essa frase me trazia algum conforto, ou antes alguma esperança, naquela noite de domingo, quando não estava em absoluto em disposição de alienar-me da dura realidade que estamos vivendo já há alguns anos, desde que o pacto democrático foi rompido pela cena burlesca do impeachment de Dilma Rousseff. Revoltava-me a constatação de que desde então o tecido simbólico de nossa sociedade se foi esgarçando a ponto de tornar aceitável, para nossas instituições e para parte de nós, que um deputado homenageasse o maior torturador da ditadura militar. Enojava-me perceber que em sua trama foram se produzindo buracos, espaços sem lei, a ponto de pessoas muito próximas, como minha filha e alguns de meus alunos, começarem a ser intimidados e ameaçados na rua por serem identificados como homossexuais, por exemplo.

A frase relatada por Freud não era para mim, de maneira alguma, uma tentativa de fuga ou negação dessa situação; pelo contrário, ela me vinha como uma promessa, uma possibilidade de subversão disso que me oprimia e me colocava dolorosamente na posição de vencida, derrotada. De vítima, condenada por um algoz terrível, pelo próprio pai da horda, cruel. Apenas na manhã seguinte – segunda-feira, justamente! – pude ouvir esta frase no tom adequado: em alta voz, como um brado diante do agressor. A SEMANA ESTÁ COMEÇANDO BEM. Seu tom é de desafio e insubmissão. O que nela éhumorístico éuma certa torção: em vez de declarar o desafio e a insubmissão desde o lugar da vítima diante do algoz, enunciando com ódio que não adianta matá-lo, pois outros se rebelarão, por exemplo, a posição de enunciação da frase recusa a posição de vítima, e faz um giro no discurso mesmo do agressor. Ela traz outras palavras que não aquelas da intolerância e da violência. Ela não é reativa ao discurso da massa – que se fortalece sempre pela injúria e o ódio ao outro, como já mostrava Freud em seu texto – tão terrivelmente atual! – de 1921. Ela se enuncia fora desta lógica, revirando-a loucamente – e politicamente.

Ora o que nos falta, hoje, é estratégia. Estratégia de discurso, estabelecimento de uma posição de enunciação distinta daquela da reação que reforça o discurso do mestre, pois neste já está previsto – e domesticado – o lugar de nossos brados indignados (afinal, falem mal, mas falem de mim, como já dizia a marqueteira sabedoria popular). Invenção de falas que exerçam uma resistência efetiva, aquela da subversão deste discurso. Palavras que não reforcem apenas o laço identificatório entre nós” em oposição a eles. Lógicas simbólicas outras. Um tanto de delírio, talvez. Um tanto de invenção, para revirar a miséria psicológica da massa” de que fala Freud nO Mal estar na Cultura, aquela que é pobre em palavras e pensamentos, fazendo com que alguns slogans se repitam automaticamente, ainda que em tom de oposição indignada.

Para isso, talvez a psicanálise tenha hoje um papel a cumprir na sociedade, uma tarefa histórica. Afinal ela é, por excelência, o discurso que tematiza os reviramentos de discurso, além de visar incitá-los na clínica nossa de todo dia.  

E talvez a arte tenha um lugar fundamental, no desafio da construção e da transmissão de tais dispositivos discursivos. Não é por acaso, de fato, que ela vem sendo vilipendiada pelo discurso da intolerância política e religiosa. O campo das ações poéticas na cultura é aquele que convida ao reposicionamento do agente da enunciação como sujeito, recusando sua redução à posição de assujeitamento à linguagem e aos discursos dominantes. Ele parece perigoso às forças retrógradas porque talvez ele tenha, mesmo, grande poder em suas mãos ou melhor, em nossas mãos.

Tudo isso que escrevi acima parece certamente muito teórico e talvez não vá além de ser considerado interessante” por alguns (e olhe lá). Este texto fracassa, certamente, em sua pretensão de constituir uma proposta de construção de uma estratégia discursiva de resistência. Então, querido leitor, se você teve a pachorra de me acompanhar até aqui, permita-me sugerir algo mais concreto: que tal se antes de passar adiante fake news ou espetaculares ameaças aos nossos amigos de whatsapp, tomássemos um tempinho para embaralhar as palavras que nelas constam, como fazia o dadaísta Tristan Tzara ao recortar todas as palavras de uma matéria de jornal e as misturar em seu chapéu, para depois tirar uma a uma ao acaso e construir assim um poema? Ou que tal se antes de replicar tais textos, vídeos ou áudios, você inserisse no meio dele algumas palavras suas – as palavras que lhe ocorrerem naquele momento, qualquer coisa, ou uma receita de bolo, como fazíamos, quando estudantes, como armadilha para professores que avaliavam nossas provas sem lê-las na íntegra?

As táticas de guerrilha simbólica envolvem possibilidades infinitas, e é claro que antes de usá-las devemos poder triar, preservar e divulgar as informações que merecem este nome, distinguindo-as da propaganda política que lota as redes com palavras e imagens tão contagiantes quanto os slogans subliminares do cinema no regime nazista (mas que, estranhamente, não precisam mais ser invisíveis para serem hipnóticas). O mais importante, talvez, é que o gesto singular de apropriação transformadora das versões da verdade que nos chegam possa aparecer, multiplicando entre nós  alguma centelha. E que estas possam se acender em nossos corpos, na rua e não só na web.  

Ontem eu conversava sobre isso com uma amiga querida, Simone Moschen, e ela evocou uma situação que vivemos há poucos meses na mostra Lugares do Delírio, no Sesc Pompeia, em São Paulo, por ocasião de uma ação ativadora da exposição pela artista Eleonora Fabião. Tratava-se de produzir barquinhos de papel, entre nós, crianças e adultos, em uma mesa, para ir formando no chão uma frotaque depois era espalhada pelo espaço expositivo, no qual já se misturavam de maneira um tanto delirante barcos diversos, de Arthur Bispo do Rosário e de muitos outros. Várias das pequenas embarcações foram se depositando no inusitado lago desenhado por Lina Bo Bardi naquele espaço. Simone tomou nas mãos um deles, e veio me mostrar. Nele havia algo escrito; uma citação de Guimarães Rosa:

 

                                   Todo abismo é navegável a barquinho de papel.

 

Eu acrescentaria, hoje: desde que sejam muitos, os barquinhos, a se multiplicarem, tantos, a ponto de seu movimento conjunto circundar as paredes do abismo e as forçarem a engatar a força centrífuga que nos permitirá escapar.