Um resto que nos u(r)na, um gesto que nos mova. Lisiane Leffa, Marcella Milano, Ana Céris dos Santos, Samantha Medeiros, Itanara Giuliano

Deslocamento. Reprodução da internet.

Ele tinha um olhar violento. Vi os corpos de duas mulheres diminuírem com a intensidade do seu olhar.  Um décimo de segundo é o tempo que leva para o olho fechar e abrir novamente. A cada piscada involuntária um suspiro precipitado de alívio enchia o peito das duas mulheres. Ele encarava um casal de namoradas que aguardavam o ônibus para ir para casa. Uma das mulheres percebeu esse olhar e o homem em um prazer perverso  se alimentou do medo estampado no rosto dela. O homem as perseguiu durante uma boa parte do caminho e agora, não mais no ponto de ônibus, mas na rua deserta eram quatro : as duas namoradas, o homem e o medo.

O que permite um olhar invadir um corpo?

 

“Desde o final do primeiro turno, o ódio tomou mais corpo. Mais corpos.” ¹ Os resultados das urnas mergulharam o país em um sentimento de horror, intensificação de angústias e de medo frente à expressão radical de forças que defendem a violência como medida para resolver suas diferenças.

Ouvi uma história nesta semana. Um casal de namoradas decidiu cruzar um caminho diferente do que fazem normalmente. Explorar novos territórios. A monotonia havia esgotado seu desejo de caminhar pelos mesmos lugares, pelas mesmas casas, pelas mesmas cores de sempre. Resistir, apesar do medo era uma tentativa, após tantos relatos pós-eleição. De mãos dadas, como normalmente estão, o casal de namoradas foi abordado por um grupo de homens, que mantinham uma pose altiva frente a elas. Para seguirem seu percurso, precisavam passar por eles. Enquanto tentavam passar, o grupo de homens gritava, dizendo que elas não poderiam ser namoradas. Em sua atitude, percebia-se uma certa ânsia para que elas os ouvissem. Então, naquele momento, as palavras afrontosas ecoaram alto: “Quando vocês experimentarem um de verdade, não vão mais precisar de um de borracha”, disse um deles, aos risos. As duas mulheres que tentavam permanecer em silêncio, para evitar dificuldades maiores, agora estavam atravessadas pelos sentimentos de impotência e de humilhação.

Em O Mal-Estar na Cultura, Freud (1930) aponta para a difícil conciliação das forças opostas que incidem em um campo comum, e indica que a inscrição de um traço civilizatório depende do pacto entre as diferenças de forças.

Disto, perguntamos: qual gesto poderia inscrever um acordo entre nossas diferenças?

Deslocar-se na Caixa Preta é o convite da exposição artística Caixa Preta localizada na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. Ela faz menção aos acidentes aeronáuticos, destacando a caixa primordial, fonte de informações, elemento sobrevivente dos desastres, onde contém os registros de tudo o que se passou durante um determinado voo. A exposição reúne algumas caixas a serem localizadas e abertas: a caixa do suicídio, a notícia do desastre como caixa dentro das caixas televisivas, o poema como caixa, os detalhes nas paredes, o som, a caixa de som, caixas à espera de contato. Cada trabalho apresenta-se como uma caixa singular, inscrita em um campo comum, a grande caixa, um andar em caixas (por abrir) no museu. As interferências de sons que se misturam em algumas das instalações televisivas provocam um certo ruído na escuta, borrando o sentido preciso das informações faladas. Na TV, as vozes se misturam com sons do acidente.

Podemos imaginar a urna eletrônica como uma grande caixa preta, portadora dos registros individuais. Na máquina de votação, estão inscritas nossas intenções, os números em forma de opinião eleitoral.

Após o primeiro turno, abrem-se os votos. Transitamos com as caixas abertas. Do voto individual, o efeito coletivo. Acompanhamos nosso desastre. A pergunta insiste: qual gesto poderia inscrever um acordo entre nossas diferenças?

#juntassomosgigantes. Reprodução da internet.

Em uma Caixa-Preta, localizada ao lado da caixa que contém William Bonner e Renata Vasconcellos no museu, é possível escutar uma direção, na voz de Marília Garcia que assume o seguinte gesto, poema-áudio² Estrelas descem à terra (do que falamos quando falamos de uma hélice)  :

 

quando vi a hélice

na semana passada

me lembrei de uma pergunta

que um amigo tinha me feito

na véspera da viagem

ele se referia a um poema em que eu contava

que não tinha conseguido embarcar num voo

porque meu passaporte estava quase vencido

ele fez a seguinte pergunta:

será que eu não estaria falando na verdade

sobre a impossibilidade de deslocar?

ao escrever   eu estava sempre preocupada

com o deslocamento

tentava pensar nele não só como tema

mas como procedimento

ao escrever é possível pensar

em termos geográficos:

a gente constrói uma cartografia

e pouco a pouco   vai desenhando e

descrevendo   linhas

formas curvas montanhas acidentes

caminhos e superfícies

(GARCIA, M. 2017. p. 76-77)

em seguida

cortei a maior parte das ocorrências

da palavra “deslocamento”

mas a pergunta dele estava feita:

o que era de fato

deslocar

na linguagem?

será que eu estava deslocando

ou só falando em deslocar?

será que eu estava paralisada

como no dia da hélice

só repetindo sem parar

a necessidade de deslocar?

neste momento que vivemos

de espaços abertos e infinitos

em que o mundo está cheio de linhas cruzadas

e cabos submarinos que se deslocam

                                        e ondas que atravessam

dos pontos mais distantes –

além dos raios                      muitos raios coloridos

transparentes e invisíveis

e dados sendo transmitidos                com sons

e imagens

           e a poeira se dispersando por todo canto

 uma poeira cinza e colante

– nesse momento de superfícies abertas

como lidar com a impossibilidade

de sair do lugar?

seria mesmo o mundo

plano? ou em vez disso

uma superfície acidentada

cheia de barreiras

muros   comportas  fronteiras

e linhas demarcadas         que podem conter

o fluxo?

(GARCIA, M. 2017.p. 78-79)

 

Qual gesto poderia inscrever um acordo entre nossas diferenças, de modo que nossas diferenças possam deslocar, possam sair do lugar?

O voto é individual.

O efeito do voto é coletivo.

A vida é importante.

Mãos dadas.

Vamos tentar?

    #_ _ _  _ _ _.

 

 

 

Nota

¹ Ilana Katz, citada em O ódio deitou no meu divã, de Eliane Brum.

² Trecho transcrito do poema Estrelas descem à terra (do que falamos quando falamos de uma hélice)  do livro Câmera Lenta, de Marília Garcia.

Referências

BRUM, Eliane. O ódio deitou no meu divã. Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/10/politica/1539207771_563062.html?id_externo_rsoc=FB_CC . Acesso em 11 de outubro de 2018.

FREUD, Sigmund. (1930). O Mal-Estar na Cultura. Trad. Renato Zwick. Porto Alegre, RS: L&PM, 2010.

GARCIA, Marília. Estrelas descem à terra (do que falamos quando falamos de uma hélice). In:__ Câmera Lenta. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

LUCAS, Juan. El rizoma de Gilles Deleuze y Félix Guattari. Disponível em: https://revistaliterariamonolito.com/ensayo-el-rizoma-de-gilles-deleuze-y-felix-guattari-por-juan-lucas/ . Acesso em 16 de outubro de 2018.

SOUZA, Bernardo José de; STERZI, Eduardo; BRENNER, Fernanda; STIGGER, Veronica. (curadoria). Caixa Preta. Exposição artística na Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS, 2018.

#juntassomosgigantes. Foto: reprodução internet. Disponível em https://deskgram.net/explore/tags/JuntasSomosGigantes . Acesso 17 de outubro de 2018.

 

Lisiane Leffa: trabalha em um campo interdisciplinar de reflexão acerca da relação sujeito e cultura, articulando-se com a Psicanálise, nas expressões clínicas, artísticas, políticas e literárias. Mestranda PPG Psicanálise: Clínica e Cultura/UFRGS e consultório particular.

Marcella Milano: graduanda em Psicologia (UniRitter), bolsista no projeto de extensão projeto “Virgínias: máscaras da deformação” (UniRitter) e estagiária em Psicologia Clínica (Instituto Wilfred Bion); pesquisadora autônoma de operadores psicanalíticos, políticos e artísticos.

Ana Céris dos Santos: formanda em Psicologia (UniRitter),  militante de movimentos comunitários. Mãe e amante da liberdade.

Samantha Medeiros: formanda em Psicologia (UniRitter) e bolsista voluntária no projeto de extensão  “Virgínias: máscaras da deformação” (UniRitter). Pesquisadora autônoma dos conceitos de gênero, sexualidade e política.

Itanara Giuliano: graduanda em Psicologia (UniRitter) e bolsista voluntária no projeto de extensão  “Virgínias: máscaras da deformação” (UniRitter). Pesquisadora autônoma dos atravessamentos institucionais nos processos de subjetivação da construção do feminino, loucura, lesbianidade e feminismos.