F(agulhas) intensas.* Agulha nº 15. Carla Cervera Sei.

Coletivo Os Espacialistas.

Não sei como romper o círculo, o circuito, como parar a máquina
mas sei que às vezes ele se rompe
a brecha surge
o inconsciente se abre, num tropeço,
perdemos o passo
mudamos a rota
novos mapas
derivas
f(agulhas) intensas que anunciam o imprevisto.

 

Coletivo Os Espacialistas.

Em sua função de corte, a utopia propõe desvelar, abrir, criar abismos, escavar, despedaçar, revelar estruturas cansadas, mornas e caducas do viver. Aberturas que possibilitam o surgimento tanto do sujeito como do novo, do insólito e do inesperado, próprios da experiência de vida. A utopia como corte propicia a abertura para uma dimensão de reflexão crítica introduzindo na vida uma zona de imaginação, de desequilíbrio, de suspensão. Como nos diz Edson Sousa, o corte abre espaços de descontinuidade, aciona pequenas rotações no olhar, propondo “uma nova forma de redesenhar os espaços contaminados pelo excesso de convicto” (Sousa, 2007, p.14).

 

QUANDO CÍRCULOS SE ROMPEM:

Coletivo Os Espacialistas.

 

Em Fevereiro de 2015, realizei um estágio na Escola Experimental de Bonneuil-sur-Marne, escola fundada pela psicanalista Maud Mannoni, onde conheci, dentre várias crianças e adolescentes, Moby, uma jovem que me fazia pensar em baleias, talvez pelo seu canto que parecia ser sua língua. Logo que ingressei na escola como estagiária estrangeira, ela veio se aproximando de mansinho, entoando sua melodia própria, pegando minhas mãos e fazendo o gesto de bater palmas com elas enquanto balançava o corpo parecendo dançar ao som de sua melodia.  Algumas vezes eu me sentia convocada a cantar para ela enquanto ela batia palmas e balançava seu corpo em sua dança suave. Outras vezes ficava ouvindo-a entoar seu baleiês enquanto pegava minhas mãos e fazia o gesto de bater palmas.

Eu me perguntava sobre esse gesto: o que Moby queria dizer com seu canto, com sua aproximação? Gesto repetido com cada novo estagiário que ingressava em Bonneuil.

Durante minha pesquisa de mestrado, ao buscar material sobre Bonneuil, encontrei o relato de dois estagiários que escreveram sobre o encontro com Moby. Em sua dissertação de mestrado, Neto (2012) que esteve em Bonneuil dois anos antes de mim, conviveu com Moby em uma das casas de acolhimento próximas à escola. Nesta casa moravam dois adultos, sendo um deles Augusto e algumas crianças, entre elas, Moby. Foi em um dia após a aula, em que um dos adultos saiu com as crianças para fazer as compras para o jantar deixando Augusto e Moby em casa que algo interessante se deu. Augusto propôs que Moby o ajudasse nos afazeres da cozinha ao que ela não esboçou nenhuma reação e continuou andando em círculos em volta da mesa da sala. Ele então foi para cozinha e começou a retirar os pratos do armário cantando, distraidamente, uma canção dos Beatles, quando, para sua surpresa, escutou uma voz forte que vinha da sala e o acompanhava no mesmo ritmo da música que ele cantava. E diz ele, sobre esse momento, essa primeira aproximação, esse encontro:

Algo extremamente importante acabara de acontecer, nas miudezas do cotidiano, no momento em que menos esperávamos: presenciava ali a potência do imprevisto, do acontecimento; passava a fazer sentido, neste momento, a aposta num ‘lugar de vida’(NETO. 2012. p. 41).

A música operou um corte no trajeto circular que Moby fazia. Esse grão de areia inesperado provocou um desvio em sua  rota.

Um outro escrito, de Romina Mirás (2014), uma argentina que esteve em Bonneuil oito anos antes de mim, nos conta do seu encontro com Moby. Ela estava lá quando a menina começou a frequentar a escola de Bonneuil. Com 10 anos de idade Moby já havia passado por diversas internações e instituições, era muito agressiva, não falava e passava o tempo todo no jardim atirando pedrinhas no chão. A estagiária passa a acompanhá-la durante todo o tempo por três meses e não percebe nenhuma alteração em Moby. Dessa forma, numa manhã, acompanhando-a no seu repetitivo movimento de jogar pedrinhas no jardim, conta-lhe sobre sua decisão de não mais acompanhá-la e que talvez fosse melhor que ela ficasse sozinha ou escolhesse outra pessoa para seguir com ela. Disse ainda que gostaria de cantar uma canção de despedida.

Sé que hay en tus ojos con solo mirar
Que estas cansado de andar y de andar
Y caminar girando siempre en un lugar

                                                                                   Sé que las ventanas se pueden abrir
Cambiar el aire depende de ti
Te ayudara vale la pena una vez más

                                                                                                                                                                                                           (Compositores: Diego Torres / Gerardo Horacio Lopez Von Linden / Roberto Fidel Ernesto Sorokin)

Canta, então, a música de Diego Torres, Color Esperanza, em sua língua natal, o espanhol, que diz assim: “se que hay en tus ojos com solo mirar, que estas cansado de andar y de andar, girando siempre em el mismo lugar” (Mirás. 2014. p. 69). Repete quatro vezes o refrão e, na última vez, percebe um movimento diferente na menina, que começa a bater palmas acompanhando o ritmo da música. Nos encontros que se seguiram, ela parecia incorporar novos pequenos movimentos como um esboço de dançar ao ritmo da canção e pronunciar algumas palavras.

Que surpresa a minha ao reconhecer as marcas musicais propostas por esta estagiária inscritas em Moby, que permaneciam depois de tantos anos. E como parecia fazer mais sentido aquele repetido movimento a cada novo estagiário que chegava, de se aproximar pegando as mãos, batendo palmas e entoando seu canto.

O que terá possibilitado a Moby sair de seu aprisionante círculo de silêncio e repetitivos movimentos nesse encontro com Romina? O anúncio da separação- um corte, enunciado pela estagiária? A melodia de uma outra língua? A música cantada pela estagiária, cuja letra falava à Moby, apesar desta não falar espanhol?

E o que será que Moby busca no encontro com os novos estagiários que chegam? Um novo corte que possibilite novas experiências? Ou apenas a repetição do encontro com a estagiária?

“A utopia está tanto nos pequenos atos que podem revolucionar o dia de qualquer um de nós, quanto nos grandes movimentos sociais que a história já conheceu” (Sousa, 2005).

O documentário “No intenso agora”, de João Moreira Salles, lançado em 2017,  discute, a partir de um episódio autobiográfico, três eventos políticos ocorridos em 1968 e seu entorno: a revolução cultural chinesa, o maio francês e a invasão soviética que pôs fim à Primavera de Praga.

O episódio biográfico, do qual o autor partiu, foi o encontro com o filme caseiro de uma viagem que sua mãe fez à China, bem como um diário que esta escreveu sobre a viagem. Ele encontra nesse material uma mãe que até então ele não conhecia. Uma mulher alegre. Diz ele: “Ela cai no meio da Revolução Cultural chinesa e, ao invés de se horrorizar, se comove. Ela foi feliz na China. Eu não conhecia essa mãe. Eu conhecia uma mãe mais triste, incapaz desse movimento em direção ao mundo, e principalmente em direção ao seu contrário absoluto, sem negar mas aceitando, encontrando beleza”.

A partir do encontro com esse material, Moreira Salles começa a pensar em maio de 68, e produz uma primorosa montagem de imagens cobrindo todo arco narrativo dos acontecimentos vividos naquela época, inciando com a jornada heróica dos estudantes e trabalhadores e terminando na dissipação do movimento e na retomada do controle das ruas por parte do general De Gaulle.

O filme nasce dessa tentativa de falar da intensidade, de sua dissipação, e de como se consegue sobreviver ao fim dela.Como sobreviver a um momento tão intenso, de paixão e seguir encontrando razões para manter a alegria da vida? O que eu vi, nas imagens do filme de Moreira Salles, foi a vida me olhando na intensidade e alegria vividas a partir de um corte, do rompimento do ciclo-círculo.

 

Fagulhas intensas de alegria e esperança dominaram os jovens que foram para as ruas em Maio de 68

 

Daniel Con-Bendit

 

 

Sua câmera mostra a intensidade do vivido, a alegria dos jovens, a felicidade dos atores políticos, a força, a união, a esperança, o desejo de mudança. Disto, ressalto a entrevista que  Daniel Cohn-Bendit, líder estudantil do movimento, deu à Sartre:

Sartre diz pra ele, “Isso tudo é extraordinário, tem uma situação potencialmente revolucionária aqui. Agora, onde vocês querem chegar?”. E o Cohn-Bendit responde que não tem projeto, que o que vale é a espontaneidade, que tem que ser caótico, que tem que dar um choque elétrico no sistema, e isso em si já é o valor.

Sartre e Cohn-Bendit.

Diz também que “ainda que os protestos não perdurem, eles terão constituído uma espécie de experimento que rompe com o funcionamento normal da sociedade, um experimento que mostrará que, ainda que por um instante, tudo pode ser diferente do que é. “Isso será prova suficiente de que algo assim pode existir”.

Romper com o funcionamento normal da sociedade e mostrar, ainda que por um instante, uma fagulha de tempo e intensidade, em que tudo pode ser diferente.

Mas qual o projeto?

Não há um projeto quando não se trata de uma utopia projetista. Trata-se da condição utópica do inominável, do não saber o que quero, mas saber que desejo. Utopia iconoclasta acionando algo que ainda não sabemos, um vazio, um não lugar, uma brecha que põe os atores políticos, os sujeitos em intenso movimento desejante na construção de um novo mapa, ainda não desenhado.

Sabemos que o sistema não foi vencido por esses jovens e trabalhadores. Eles não conseguiram derrubar o regime, implantar novas formas de produção ou novas relações, mas as marcas que maio de 68 deixou foram profundas, como o movimento das mulheres, dos imigrantes, de liberdade sexual, uma abertura das instituições que eram muito aristocráticas e fechadas, para falar de alguns efeitos que ainda hoje nos alcançam. Dias tão intensos e tão carregados de esperança e sentido conseguem, com sua potência, com sua fagulha de luz, seguir iluminando o futuro. Surtos de rebelião que oferecem alguma direção, mesmo depois que os acontecimentos ficaram distantes no tempo. Somos herdeiros dessa fagulha intensa que acendeu e movimentou, produziu alegria e esperança. Tanta intensidade vivida em tão pouco tempo. Maio de 68 durou apenas três semanas.

Como não pensar nas nossas manifestações de 2013 e nas Ocupações dos estudantes em 2016? Junho foi o momento em que milhões tomaram a palavra e saíram às ruas, mostrando um país unido, contra a classe política e por direitos. O país foi tomado por manifestações de rua, assembleias para preparar os protestos, um debate público efervescente e uma solidariedade inédita para enfrentar a violência do Estado.

 

Fagulhas intensas de alegria e esperança invadiram os jovens que foram para as ruas em 2013

Imagem da internet.
Imagem recuperada da internet.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Imagem recuperada da internet.
Imagem recuperada da internet.

 

 

 

 

 

 

 

Também os secundaristas brasileiros, herdeiros de junho, ocuparam suas escolas num cotidiano embriagante de autodeterminação, de comunidade e de autoformação.

 

Fagulhas intensas de alegria e esperança contagiaram os jovens que ocuparam as escolas em 2016.

 

Imagem recuperada da internet
Imagem recuperada da internet
Imagem recuperada da internet
Imagem recuperada da internet

 

 

Penso em Spinosa e a sua Ética dos afetos. Diz ele: “somente a alegria é válida, apenas a alegria permanece e nos aproxima. A paixão triste, ao contrário, é sempre impotência – é o momento em que estamos separados ao máximo de nossa potência de agir, altamente alienados, entregues aos fantasmas da superstição e às mistificações do tirano” (Deleuze, p. 41).

 

 

 

 

Como chegar ao máximo de paixões alegres?

 Maio de 1968, na França, assim como junho de 2013, no Brasil, permanecem eventos insondáveis, inexplicáveis. Lá, o período ainda é chamado de “os acontecimentos” e, aqui, simplesmente de “as manifestações”.

Ninguém sabe dizer ao certo por que aconteceram, nem conseguem reduzir seu significado a uma explicação simples. O que interessa na utopia é o que ainda não foi possível de ser enunciado. Resta para  mim, uma questão: Por que suportamos por tão pouco tempo a quebra, o corte, a intensidade que irrompe e a potência da alegria? E suportamos por tanto tempo o peso do mesmo?

maio de 68 durou apenas 3 semanas ou 21 dias

– as manifestações de 2013 duraram um mês, ou 30 dias

– as ocupações, em média 6 meses ou 180 dias

– o nazismo durou 12 anos ou 4.380 dias

– e a ditadura brasileira durou 21 anos ou 7.665 dias

 

E se sustentássemos a intensidade, a alegria, o imprevisto, o inominável por mais tempo?

 

 

 

Bibliografia:

DELEUZE, G. Espinoza e os signos. Rés editora limitada.

MIRÁS, Romina. Conceptualización de los efectos psíquicos que produce la estadía en la Escuela Experimental de Bonneuil sur Marne. Diss. 2014. (online)

NETO, Augusto de Bragança Alves. A Experiência de Bonneuil: vivendo na encruzilhada. Dissertação de mestrado. 2012. (online)

SOUSA, Edson, Luiz André de. Uma invenção da utopia. São Paulo: Lumme Editor, 2007.

SOUSA, Edson Luiz André de. Ainda há esperança?. Revista Concinnitas, Rio de Janeiro, ano 6, volume 1, número 8, 2005. p.187-188

 

Carla Cervera Sei é psicanalista. Mestra em Psicanálise: Clínica e Cultura (UFRGS/2018).

 

* Trabalho apresentado originalmente no seminário Agulhas para desativar bombas: utopias artísticas e políticas da imagem realizado em dezembro de 2017 pelo Laboratório de Pesquisa em Psicanálise Arte e Política (LAPPAP/UFRGS)  e pelo PPG Psicanálise: Clínica e Cultura (UFRGS) em Porto Alegre, RS.