No último domingo uma ação-inscrição pequena, simples, interpretava o negacionismo e revelava o que foi solapado pelo enaltecimento dos assassinados pelas forças de segurança no Brasil.  Um transeunte circulando pela Avenida Cruzeiro do Sul em São Paulo, ou atento, olhando pela janela do metrô em movimento, ao passar em frente ao Parque da Juventude no Carandiru, veria uma dezena de jovens dispondo sacos plásticos de lixo na grama.

Eram poucos, serão sempre poucos os que lembrarão dos 111. Exterminados, nem mortos, nem vivos; fantasmas do justiçamento ilegal no país, zumbis da mortandade inconclusa. Suas memórias negadas revelam o desejo de repetir, sobre os mesmos corpos, as mesmas atrocidades e, sobre as mesmas atrocidades, a mesma negação no circuito que imanta desejos ambíguos sobre a vida dos outros e nos impõe perguntas sobre nossas próprias vidas. Queremos e teremos de viver com assassinos contumazes em liberdade? Com aqueles que ameaçam a vida dos outros e as nossas? Que zombam de qualquer ética e praticam a imoralidade dos mesmos imorais que supostamente os apoiam?

O caso dos acusados do massacre do Carandiru são hoje objeto da pilhéria jurídica. Num sistema que vem tropeçando em seus cadarços, afirmando e negando perigosamente o que ora é justo, ora é injusto, abre-se lentamente o fosso que logo será intransponível, entre o legal e o justo.

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Foto: Hugo Brek

Pouco a pouco, mas consistentemente, vamos concluindo: não será o sistema jurídico que manterá, nem salvará, nem defenderá a democracia. Ao contrário, são alguns de nossos juízes, promotores e egrégios ministros que permitem descalabros eleitorais, políticos e sociais e empurram a prática do direito para o descrédito. São altos representantes da lei que cometem o arbítrio, com fala douta e eloquente, e minam as esperanças de um julgamento justo. Promotores que defendem a impunidade (LINK) desembargadores que libertam criminosos conhecidos e condenados (LINK); ministros que ratificam a anistia a torturadores (LINK).

Hoje são os supostos ‘transgressores’ e ‘vândalos’ os novos intérpretes da democracia. São os que protestaram contra morte do jovem Matheus Freitas, assassinado a queima roupa por um policial militar na Escola Estadual Tancredo Neves; são os jovens presos, arbitrariamente, enquanto caminhavam para participar da passeata dos 100 mil contra o governo Temer; são os alvejados, e irreversivelmente mutilados, como Deborah Fabri, hoje cega de um dos olhos, atingida por estilhaços de uma bomba lançada pela PM em agosto último, enquanto protestava pacificamente contra um governo ilegítimo. São eles os que veem com maior clareza o Brasil em risco e, por isso, lutam e expõem seus corpos sem abrigo no presente, para manifestar idéias, posições e senso de justiça para o futuro.

Os jovens ativistas da Anistia, empenhados e pacíficos, estavam ali, num domingo de manhã, trabalhando para que o esqueleto do carcomido estado democrático de direito brasileiro não vá para a lata do lixo. Lugar para onde, depois do ato, foram destinados os homens-lixo, que amorfos relembravam que ali, ocorreu o maior massacre cometido no sistema prisional brasileiro. Hoje, transformado em parque que exalta a juventude (Parque da Juventude) no estado e no país que mais ofende, coíbe, aprisiona, machuca e mata seus jovens pobres.

Um ato necessário e representativo num parque que segrega e oculta a memória dos que ali pereceram e de seus familiares, tornando-se mais uma obra ignorante, um anti-memorial, edificado sobre um cemitério denegado.

Valeu rapaziada da Anistia Internacional!