Deslocamentos e desenhos: a ação de desenhar como resistência. Agulha nº 12. Elias de Andrade

Espectadores, 1961 Londrina - PR. Haruo Ohara / Acervo Instituto Moreira Salles.

Ensaio visual —————- 16 12 2017

Título: Deslocamentos e desenhos: a ação de desenhar como resistência

Palavras-chave: desenho, deslocamento e resistência.

Resumo: Deslocar-se de um local para outro e novos apalpamentos de se colocar nesses locais, tanto daquele que deixamos quanto daquele a que chegamos.

 

O seminário “Agulhas para desativar bombas”, foi intenso. Em alguns momentos reveladores de consciência sobre algo que não havia parado para pensar e inconsciente sobre o que ainda não estou apto para tomada de consciência, talvez nunca esteja. Foram muitos disparadores, mas destaco dois que, como fagulhas para entendimento despertaram um tipo de reflexão que é difícil de se perder. Os quais foram, quando se falou do ócio como utopia e entendo como resistência frente ao caos da sociedade do desempenho que Byung-Chul Han fala, sobre o indivíduo que necessita ter o melhor desempenho para sua satisfação, sendo assim internaliza-se a cobrança em uma sociedade que o trabalho é prezado como um troféu. Destaco esse ponto  pois vem diretamente de encontro com questões de mudanças, de trânsitos, de retornar a uma instituição. E outro momento foi na última aula quando o professor Edson nos fez ouvir e ver uma música de Itamar Assumpção. Era dia 20 de novembro.

          Apresento um ensaio visual sobre desenho e suas tensões, assim como ambiguidades entre mudanças de cidades que perpassam tanto o sujeito caminhante quanto o que ele desenha. Os trabalhos apresentados são entendidos como um meio de dialogar sobre resistência e experiência, que são construídas no decorrer de um certo tempo. O trabalho manual é tido como meio para o desenho que encontra influências e se desdobra tanto na cidade quanto no ateliê como forma de insistência e resistência sobre o mesmo suporte, neste caso, o papel.

palete (convert-video-online.com)

O deslocamento é de Londrina-PR para Porto Alegre-RS e, no princípio, de rotina em uma cidade maior que a anterior. Quando a mudança já está certa e próxima de sua data definitiva, mesmo o definitivo tendo suas variações, como a espera por algo longínquo e certeiro, percebi que ocorreu uma nostalgia antecipatória – talvez um não pertencimento – do que não será mais presente como até o momento foi. Nesse intervalo, desenhos de observação de coisas da casa foram feitos, não semelhante a um inventário, mas uma forma de estar em contato, procurando experiências imediatas com coisas que sempre estavam por perto. Começo por objetos e plantas do jardim da frente, lugar onde foi construído certo refúgio e filtro do que vem da rua, a grade também como filtro que muito limita e protege, talvez uma falsa proteção, necessária a uma cidade que mais individualiza que integra. O jardim com várias plantas e um pé de romã muito antigo, assim como o pingo de ouro. Capim guiné e arruda não faltam.

Ao chegar ao novo local, várias mudanças para além do próprio deslocamento. Ocorreu de começar novas aproximações com o desconhecido e também a busca de relações entre o passado de um lugar que se tornou distante e novas formas de se relacionar com o processo de criação em um lugar novo. Casa, universidade, ateliê da instituição e a cidade. O desenho de observação de coisas necessárias e instantâneas para a sobrevivência foram as primeiras tentativas de apalpar o que sempre esteve presente em outro local; muda-se de casa, mas não se muda de si por completo. Ou não muda-se de si?

O sujeito que desenha transita entre locais, na resistência e insistência de seguir adiante. Mesmo que seja em estado de espera há providências sendo tomadas que acarretam a finalização do trabalho. O final do trabalho não é uma conclusão, mas sim um enunciado de uma determinada experiência. A afirmação do eu desfaz-se ou traduz-se no desenrolar dos trabalhos, pois o começo com a realização de autorretratos, antes do sentimento de não pertencimento, talvez afirme um local ainda desconhecido de como colocar-se no mundo. Todas essas ações são de colocar as mãos sobre o indeterminado. Ao mover-se talvez determinemos algo ou pelo menos há alguma ação. Com o olhar para objetos específicos, há a identificação do sujeito que se traduz para estar quase ausente de modo figurativo, mas ainda está presente a potência dele no que está representado. A escada vazia traz influências da cadeira vazia de Van Gogh e de Gauguin. Entendo a resistência como meio de desenho que se desdobra no decorrer dos dias, como enfrentamento e encontro com os materiais e ferramentas. Na ampliação do campo de experiências por parte do sujeito que cria, as chances de encontro com o inusitado, carregado de tensão, que gera interpretações variadas e talvez confusas, as quais vejo como potência, tornar-se mais propício. Talvez haja conexões entre o sujeito que desenha, os materiais, ferramentas utilizadas e objeto observado em que o trabalho manual e repetitivo poderá gerar dissonâncias numa frequência constante que parece invariável. A insistência como meio de trabalho, como se lançar ao inusitado pelo cansaço.

Passado, presente e futuro delimitam linhas tênues de aparecimento e desaparecimento. Por que, ao mudar de cidade, muda-se o sujeito? É uma pergunta que me faço ao estar em outra cidade, rememorando a nostalgia antecipatória ocorrida antes de sair de casa. Tento entender que, para os trabalhos, as linhas do tempo são virtuais e podem ressoar e atualizar a qualquer momento. Todavia, o que está ao redor influencia diretamente o meu processo de criação. Segundo John Dewey: “A carreira e o destino de um ser vivo estão ligados a seus intercâmbios com o meio, não externamente, mas sim de uma maneira mais íntima.” (DEWEY, 2010. p. 75). As trocas com o meio são de via dupla: tanto o sujeito se movimenta de modo incisivo sobre a realidade quanto a realidade e todas suas especificidades movimentam-se sobre o sujeito. São diálogos que transformam tanto o artista quanto o mínimo do que está ao seu redor.

A experiência do desenho é uma coisa que entendo como ver e escrever sobre o mundo, a partir do que posso me movimentar. O movimento do corpo é para os lados, em círculos crescentes e decrescentes e também de modo vertical, como subir e descer de uma árvore. Aliás, subir em uma árvore sempre me trouxe sentimentos de risco, de ultrapassar limites para além dos territórios, ultrapassar limites de si. O desenho como experiência é algo de se arriscar, talvez semelhante a esse modo de subir em árvores, assim como o texto que começa quando começamos a tentá-lo, sem a necessidade de conclusão.

Tentar é uma coisa pequena que pode chegar ao grande. Beckett, em seu romance Molloy, fala de insistências pequenas sobre coisas próximas e vulgares para se chegar ao que é maior; por exemplo, quando o personagem coloca a camisa de várias formas diferentes. “Ocupar-se das pequenas coisas é chegar às grandes, com o tempo” (BECKETT, 2014, p. 231). Entendo que o desenho e a escrita talvez sejam meios muito semelhantes de olhar, estar e incidir sobre o mundo; são meios que começam com a vontade de arriscar-se sobre determinado campo. A experiência como fazer que se acumula e se faz a partir do desgaste. Ao entrar em um rio para não voltar mais, a menos que haja a troca ou entendimento dos cargos, o personagem de ‘A terceira margem do rio’ de Guimarães Rosa, providencia-se no vai vem de um mesmo curso contínuo no mesmo local.

Os desenhos são carregados do passado, da vontade de tentar e do próprio fazer, começar um risco pode ser pela vontade de imagens, mas começar um risco no papel é entender que, a partir daquilo, não tem mais volta, sendo assim existem circular e retornar à mesma coisa. A repetição desses caminhos revela a diferença nos traços que se confundem como sendo a mesma coisa.

Elias de Andrade. 2017.
Elias de Andrade. 2017.
Elias de Andrade. 2017
Elias de Andrade. 2017
Elias de Andrade. 2017

 

Caixas de cachorros são desenhos de vontades de guardar alguma coisa da casa que ficará para trás. Entendo como um sentimento de saudade antecipatória e a vontade de continuar onde se está, pois, quando se sabe da mudança, o sentimento de pertencimento começa a se esvair. Talvez semelhante a fumaça que desaparece ou o orvalho secando nas primeiras horas do dia. Algo como procurar o que ainda não existe, o futuro antecipado no presente. Ao desenhar, o que foi apreendido encontra-se em partes com o presente e o futuro que aponta vontades de ser e de guardar.

A mudança realmente existe. Realidade me faz pensar a diferença com existência. Entendo, de modo simples, a realidade como o que acontece e a existência como o que existe. O que acontece é sobre o existir, já este último pode estar isolado da realidade construída por aquilo que acreditamos acreditar. Mudar para outra cidade é um passo no precipício, é um risco de lápis 7H sobre um papel firme. A realidade sobre a existência, como forças opostas, nenhuma anulando a outra. Não há retorno sem marcas geradas pelos movimentos. Há riscos e apagamentos de resistência sobre um mesmo local. Mas a resistência que busco é sobre a existência, a partir do cansaço físico de repetições manuais, de traços sobre um papel firme colado em uma parede. Desenhar e apagar com outro desenho e outros traços são movimentos de repetição que se desdobram lentamente e que se diferenciam no gesto de parecer igual, pois a ação de resistir e insistir sobre quase o mesmo local são deslocamentos pela insistência.

A realidade de resistir, de persistir, está no fazer e na aceitação de que algo acontece no embate com o material que se manifesta de algum modo, seja semelhante ou idêntico, mas estabelece relações e diálogos com o seu redor e também com o sujeito que pensa, talvez de modo ingênuo, sobre impor suas vontades. As potências estão nas coisas envolvidas, na pergunta sobre o que os envolvidos querem. Quem desenha são os materiais, as ferramentas usadas, o que está ao redor como influências diretas e a determinação do sujeito que direciona de acordo com esses elementos os traços no papel. O diálogo é estabelecer relações e concessões acerca das especificidades dos envolvidos.

Quando Benjamin diferencia a narrativa da informação, em seu texto O Narrador,  ele situa a narrativa como um trabalho quase manual de articular as palavras e a experiência da vida nos entrelaçamentos entre as frases. Falar de si é partir de suas relações do que está por perto, pois o redor é o que me faz ser o que sou, arriscar-me no chão, assim como esperar, sempre esperar alguma coisa, como alguns personagens de Beckett. São meios de contatos que proporcionam o entendimento de um pequeno mundo que pode muito bem deslocar-se para fora do quintal de casa. Escolher insistir, mesmo que seja como espera ou mínimos movimentos, é um meio de se posicionar frente à fluidez da era da informação, que Benjamin define sem a necessidade de interpretação. A informação necessita de fechar-se em formas exatas, sem a possibilidade de expansão, ela não cria, mas apenas reproduz sem a necessidade de reflexão e criação. Já a narrativa aponta brechas para a interpretação. Sendo assim, entendo o desenho como um fazer narrativo. Não como contar uma história, mas um fazer que libere tensões ambíguas de entrecruzamentos. Apesar da espera ser uma insistência, escolho para esses trabalhos a resistência de retornar ao mesmo local e traçar sobre o papel preenchimentos, apagamentos sobre esse pequeno mundo de diálogos.

Cadeira na sala. Elias de Andrade. 2017.

 

A cadeira de Gauguin. 1888. 90,5 x 72,7cm. Óleo sobre tela. Museu Van Gogh.

 

 

A cadeira de Van Gogh. 1888. 90,5 x 72,7cm. Óleo sobre tela. National Gallery.

Subir em cadeiras desloca o corpo para cima do chão, desloca a função desse objeto tão certo para o descanso, tão certo para os privilégios de algumas profissões. Objetos em tamanhos reais, para deslocar o que está fora para dentro e o que está dentro, como potências de mudanças, para outros locais e outras interpretações. Sair do chão, procurar outras funções, ou mesmo função nenhuma, para objetos corriqueiros fazem parte da insistência sobre a mesma coisa que ocorre na repetição dos traços no desenho. Assim como empilhar bancos para ocupação do espaço, pois pode ser para guardá-los ou para sua disposição, como o simples empilhar para se chegar o mais alto possível. Suspender-se do chão, mesmo que seja somente um degrau a mais, semelhante a olhar o que está atrás do muro, pois assim ganha-se altura suficiente para o olhar ultrapassar o horizonte entre o muro e o céu. Pode ser a cadeira, o palete, a escada, eles, assim como os materiais e ferramentas de desenho, estão para o diálogo. A referência para essa passagem do homem olhar do outro lado associa-se a uma fotografia de Haruo Ohara, fotógrafo de Londrina. Nessa foto, vejo a vontade que há em saber o que está do outro do lado, o muro como barreira, como estímulo e também como divisor. Assim como falo que desenhar e escrever é a partir do movimento, de posicionamento, transpor esse muro também é um princípio de movimento.

Espectadores, 1961 Londrina – PR. Haruo Ohara / Acervo Instituto Moreira Salles.

Para o registro do processo, usei a fotografia, com disparos constantes, como meio para criar diálogos com interlocutores, tanto o sujeito que cria quanto o aparelho que registra, como também um suposto observador que seria a própria fotografia como um olhar, em diagonal, atrás do artista. Olhar para o processo de trabalho não é o registro imparcial dele, mas são posições tomadas que influenciarão o decorrer do processo. Não necessariamente sobre esse trabalho, mas apontamentos para outros olhares e desenhos.

Esse texto tentou movimentar-se em paralelo com as imagens e também como criador de imagens. Ele pretendeu indicar outros acontecimentos que fazem parte do processo de criação e que se fundam nas experiências calcadas dia após dia. Apresento esses trabalhos: imagens, vídeo e o texto como imagens em potências que tentam se relacionar em um campo horizontal de entrecruzamentos e transmutações.

21 09 2017. Grafite sobre papel. Elias de Andrade. 2017

 

06 10 2017. Grafite sobre papel. Elias de Andrade. 2017

 

16 11 17. Grafite, óleo em bastão e nanquim sobre papel. Elias de Andrade. 2017.

 

 

 

 

 

 

Elias de Andrade é artista visual.

Trabalho apresentado originalmente no seminário Agulhas para desativar bombas: utopias artísticas e políticas da imagem , realizado em dezembro de 2017, pelo Laboratório de Pesquisa em Psicanálise Arte Política (LAPPAP/UFRGS) e PPG Psicanálise: Clínica e Cultura/UFRGS.

 

 

Referências

BECKETT, Samuel. Molloy. 2ªed – São Paulo: Editora Globo, 2014.

BENJAMIN, Walter. O Narrador. In: _____ Magia e Técnica, Arte e Política – ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas, volume I, 2ª edição, São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.

DEWEY, John. Arte como experiência. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. 2ªed. Petrópolis, RJ: vozes, 2017.