“O Dia em que o Morro descer e não for Carnaval” Por Nayra Ganhito

Policial: "Já não funciona mais ! "

Título em referência ao samba de Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro. Ouça a interpretação de Wilson das Neves e Emicida em: https://youtu.be/qNknjPo72ss. Leia a letra em: https://www.letras.mus.br/wilson-das-neves/1281422/


Publicado originalmente em Boletim Sedes Sapientiae.

Existe no samba uma dignidade difícil de exprimir. Uma elegância ou elevação peculiares, sensível por exemplo na figura dos velhos sambistas, na cadência do andar, em suas vestes, ou tudo isso combinado. Elegância nos mínimos gestos ou de gestos mínimos. Nada mais distante da euforia do que a alegria do samba que, cantando o agora, inclui a tristeza e a dor mas, antecipando o momento da saída, propicia o trabalho do luto condensando presente, passado e um futuro possível: “Amanhã vai ser outro dia” 1.

Este registro do samba, entre a tristeza e a alegria em sua peculiar temporalidade, é evidenciado na canção de Caetano Veloso, Desde que o samba é samba, uma das que entoou na recente festa-ato pelas Diretas já no Rio de Janeiro:

A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba é assim (…)
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece
No quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora

Ou ainda:

O samba é o pai do prazer
O samba é o filho da dor
O grande poder transformador

Foi em meio aos últimos acontecimentos do país, os quais acompanhamos aos sobressaltos, ora estarrecidos, ora indignados – quase nunca esperançosos -, que fui surpreendida por este samba, O dia em que o morro descer e não for carnaval. Precisamente na semana em que denúncias de corrupção expunham finalmente o poder velho, aquilo que há de mais opressivo e perverso. No entanto, o que poderiam ser “boas novas” nos deixou em geral atônitos, confusos e desconfiados. Na versão em que Wilson da Neves, o veterano, contracena com o tão contemporâneo rapper Emicida, este samba me fez sorrir em meio ao caos, e a luta, que parecia tão desigual, se não ganhou um equilíbrio, ganhou ao menos um alento para prosseguir.

A letra do samba projeta um momento de insurreição no qual “o morro”, a imagem do povo empurrado para “fora”, desceria – para tomar a cidade, já que não é carnaval. Um dia futuro, condicional: se o morro descer e não for carnaval, nos versos:

o tema do enredo vai ser a cidade partida
no dia em que o couro comer na avenida
se o morro descer e não for carnaval

Trata-se portanto de uma virtualidade revolucionária, um devir – “a (r)evolução já vai ser de guerrilha”. Não há qualquer indicação acerca do que seria ou deveria ser após o momento da insurreição, uma ordem ou regime prévio, imaginável, desejável, que o morro impusesse à cidade partida. O samba se limita a por em cena o momento do levante, usando, de maneira antropofágica, palavras e imagens de uma história/memória compartilhada de lutas políticas e revoluções do século XX, bem ao modo dos sambas enredos, nos quais de enredo narrativo há afinal muito pouco e o que predomina é a linguagem poética e seus processos primários.

O dia em que o morro descer e não for carnaval
ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu
vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil
(é a guerra civil)

No samba, melodia e ritmo são inseparáveis da letra, modificando sensivelmente o significado desta última. Neste caso, vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil, o conteúdo de potencial violência vem mediado pela malemolência do ritmo, sem por isso renunciar ao seu caráter de provoca-ação e radicalidade. Os elementos sensíveis da música “carregam” as palavras e frases de uma ironia que ultrapassa o desejo de revanche, o ressentimento e outra paixões tristes tais como o medo, operando uma transformação sublimatória cujo potencial ético e político consiste em uma resistência em outro registro, a celebração da vida em que a alegria trabalha a dor e a impotência. Lembra o mecanismo do humor freudiano, “sempre rebelde e nunca resignado”, o “processo social” que não prescinde da alteridade cúmplice da “terceira pessoa” cujo contágio é o que possibilita a liberação da tensão no grupo e que se oferece como modelo geral dos processos sublimatórios.

Uso a palavra insurreição em lugar de revolução propositalmente, inspirada na leitura de Crise e insurreição, do Comitê Invisível, coletivo internacional que editou esse pequeno livro simultaneamente em 8 idiomas e nos 4 continentes em 2016 2.

As insurreições chegaram, mas não a revolução. Raramente veremos, como nos últimos anos, num lapso de tempo tão condensado, tantas sedes do poder oficial tomadas de assalto, desde a Grécia até a Islândia. Ocupar praças bem no centro das cidades e aí montar barracas, e aí erguer barricadas, refeitórios ou tendas, e aí reunir assembleias, tudo isso em breve se tornará um reflexo político básico, como ontem foi a greve. (p.12)

Trata-se de uma crítica à ideia da revolução que permeia a história e o imaginário das esquerdas, que empresta ao porvir uma forma mais ou menos delineada, um modelo de luta, de governo e de sociedade. Ao contrário, aqui a ênfase recai, afirmadamente, sobre um devir-revolucionário mais destitutivo do que instituinte.

As insurreições que explodem no planeta desde 2008 não seriam revoltas separadas em espaços nacionais herméticos, como nos levaria a crer a gestão calculada das percepções pela notícia em tempo real, mas comunicam-se entre si de forma imperceptível, em onda, e concernem ao insuportável das formas de vida atuais: “Por todo lado se vê a mesma inquietação, o mesmo pânico, ao qual respondem os mesmos sobressaltos de dignidade, e não de indignação.” (p.15)

Dignidade, e não indignação. Há várias passagens de (auto)ironia ácida que deploram, no discurso das esquerdas, o tom de denúncia, ressentimento ou lamúria paralisantes e seu “efeito de repulsa quase generalizado”. “A indignação é o máximo da intensidade política à qual pode chegar o indivíduo atomizado (…), ele pensa que tem direitos, o infeliz! Se já vimos multidões coléricas fazer revoluções, nunca vimos massas indignadas fazer outra coisa que não protestar de forma impotente.” (pp. 67 e 73). A dignidade a ser conquistada passaria por outros afetos e um outro espírito: a convicção interna em cada um se dá no encontro sensível com outros, as insurreições são da ordem do acontecimento e movidas pela cólera e a alegria. “Quando se diz que “o povo” está nas ruas, não se trata de um povo que existia previamente, pelo contrário, trata-se do povo que previamente faltava. Não é “o povo” que produz o levante, é o levante que produz seu povo, suscitando a experiência e a inteligência comuns, o tecido humano e a linguagem da vida real, que havia desaparecido.”(p. 51)

Assim, podemos ler nos versos

Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga
nem autoridade que compre essa briga
ninguém sabe a força desse pessoal

uma afirmação de autonomia não apenas quanto a governos e poderes opressores instalados, mas também às ambições de cooptar, doutrinar, domesticar enfim, aqueles cuja mera existência faz resistência enquanto subjetividades e modos de vida que não se adaptam facilmente a qualquer ideologia imposta de fora. Imaginem a nova pobreza que seria um morro inteiro falando como militantes engessados ao invés de fazer samba e sonhar-fazer sua própria (r)evolução.

Festa e austeridade

Da roda de samba ao Carnaval, o samba é inscrito no registro da festa, esta suspensão do tempo sucessório que organiza o trabalho, bem como dos interditos e separações que o possibilitam. No tempo da festa as transgressões estão franqueadas por um período limitado e ritualizado, regido por uma economia de gasto e excesso; no entanto, está prevista no calendário e compõe a vida do mundo do trabalho. Na modernidade, com a Revolução Industrial e a imposição da equação tempo é dinheiro, o tempo da festa foi sendo cada vez mais restrito, e podemos dizer, ao lado de Freud em O mal-estar na civilização, que o preço disto é um plus de recalque que terá como consequência um incremento da violência devido à não satisfação de exigências pulsionais.

“Não pense na crise, trabalhe”, disse Michel Temer em um de seus primeiros discursos como presidente, frase que tornou-se uma espécie de lema de governo. Nas políticas de austeridade que caracterizam o neoliberalismo, o trabalho – em condições cada vez piores de alienação e precarização – passa de virtude a ser cultivada ao estatuto de um imperativo em nome da sobrevivência de cada um e da sociedade: todo o registro do desejo é deslegitimizado em favor do campo da necessidade. É sintomático que entre nós as reações às manifestações de rua por parte das forças conservadoras abordem menos seu conteúdo, a causa do protesto, a legitimidade de suas reivindicações, e mais venham colocadas em termos de gastos: pergunta-se se as pessoas ali não trabalham, se têm tempo para manifestar-se devem ser vagabundas, ou ainda: de onde vem o dinheiro?

No entanto, se podemos considerar a emergência de respostas de ultra-direita nos EUA, Europa e também na América Latina como um sinal de declínio da hegemonia neoliberal, isto significa também que não estamos conseguindo encontrar uma alternativa potente. “Ao adotar a gestão da crise como técnica de governo, o capital não se limitou a substituir o culto do progresso pela chantagem da catástrofe, ele quis reservar para si a inteligência estratégica do presente, a visão de conjunto sobre as operações em curso. É isso que é importante disputar com ele.”(p.19).

Sem querer hierarquizar as duas formas de luta, podemos assinalar a sequência temporal e as diferenças entre o ato duramente reprimido em Brasília em 24/5 último e a festa-ato pelas Diretas do Rio de Janeiro, 28/5. O primeiro, mais preparado, organizado por entidades tradicionais como sindicatos e partidos, embora não exclusivamente, marchou diretamente em direção ao Congresso na forma de passeata e carros-palanques. O segundo se deu no Rio, o chamado não continha muito mais informações do que o lema Diretas-já e o anúncio da presença de músicos e artistas; em sua estratégia ética e estética funcionou como um convite de parte da sociedade civil para qualquer um dessa mesma sociedade e assim pôde reunir uma multidão que foi aderindo espontaneamente ao acontecimento. A forma show/festa do ato não deu margem ou justificativa para a presença policial e ao que a mídia tem chamado de “confrontos”.

Para quem tem participado das manifestações dos últimos tempos, isto pode lembrar o contraste entre o tédio ou a histeria ao redor dos palanques comparado à experiência de acompanhar os vários e diferenciados grupos civis cujo ritmo dos tambores e cantos de guerra vibram em tom de potência afirmativa e lúdica, contagiando e elevando as subjetividades na marcha e na luta.

Seria demais afirmarmos que a austeridade só pode ser confrontada levando-se em conta formas e discursos que escapem à sua lógica? Que a via macropolítica não dá conta do problema, já que modos de subjetivação e seus valores estão imediatamente implicados? “Talvez aí esteja a razão do fracasso, sem isso incompreensível, de todos os “movimentos contra a austeridade” que, nas condições atuais, deveriam se propagar como fogo (…) É que a questão da austeridade não é colocada no terreno em que de fato se situa: aquele de um brutal desacordo ético, um desacordo sobre o que é viver, o que é viver bem. (…) É preciso assumir o verdadeiro desafio do conflito: certa ideia protestante de felicidade – ser trabalhador, parcimonioso, honesto, diligente, casto, modesto, discreto – que se pretende impor (…) O que é necessário opor aos planos de austeridade é uma outra ideia de vida, que consista, por exemplo, em partilhar em vez de economizar, em conversar em vez de calar, em lutar em vez de sofrer, em celebrar as vitórias em vez de invalidá-las, em se aproximar em vez de manter distância. “E neste ponto lembramos a disputa em torno de corações e mentes das populações mais periféricas pelos evangélicos e pelas esquerdas, com franca vantagem para os primeiros.”(pp. 60-62)

Estas questões se impõem com urgência em nossa cidade, cuja gestão atual revela, nas dimensões supostamente estéticas da “cidade linda”, os contornos éticos das forças hegemônicas em jogo. Da campanha às ações precipitadas de um mandato que apenas começou, Dória encarna aquele que positivamente propõe uma política de fim de festa. Do apagamento dos grafites pelo cinza, com a criminilização dos artistas de rua com direito a programa de delação – os Guardiões da cidade -, passando pela (mal sucedida) tentativa de restringir no espaço e no tempo os Blocos de Carnaval e a Virada Cultural, pelo desmanche geral na área da Cultura, dos quais destacaremos aqui, só pra dar samba, o fim do Clube do Choro, na Mooca, e a extinção da programação do Samba na Escada na Biblioteca Mario de Andrade, a mesma que passou a ser fechada durante a noite (“Já tem samba nos botecos”, declarou seu secretário), o prefeito parece dizer: “Festa, somente por trás dos muros dos condomínios, a rua é este não-lugar que nada mais é que o percurso a ser vencido pelos automóveis até o verdadeiro locus aonde a vida pode e deve acontecer, para aqueles a quem ela é reservada de direito.” Daí a obsessão pela ideia de “limpeza” e de ordem escandalosamente excludentes do “lixo humano” que insiste em co-habitar o mesmo espaço. A velocidade das medidas postas em ação, marca presente em seu slogan de campanha – Acelera!, a exemplo do mandato Temer, desempenha um papel crucial, senão estratégia calculada para gerar perplexidade e confusão, visando neutralizar qualquer esforço de organizar uma oposição.

No entanto, a imagem cuidadosamente divulgada do cara boa praça, trabalhador incansável que doa seu precioso tempo-conhecimento de empresário-gestor em benefício da cidade é uma máscara que cai rapidamente, revelando sua face sinistra. O incremento de acidentes e mortes na Marginal seria o exemplo mais sombrio, não fosse a ação brutalmente violenta – em termos concretos e simbólicos – sobre a Cracolândia em plena Virada Cultural, cuja mote principal era a ocupação e integração de várias populações em pontos centrais da cidade através da mediação da fruição artística e cultural. Uma única varrida fez o desastre de inúmeras vidas, de moradores de rua a profissionais de saúde e assistência e de todo um quarteirão de prédios de valor histórico. Tudo em nome dos prédios envidraçados, de mansões-mausoléus e de Romero Brito! Definitivamente, a estética não é um campo separado da ética.

Num vídeo que circulou bastante nas redes, um crackeiro de rua, verdadeiro Tirésias da Cracolândia, declarava mais ou menos o seguinte: “Sr. Prefeito, sr. Perfeito, o seu problema estético está muito aquém do problema ético, que é a gente ter uma estética dessas no meio de uma cidade rica como São Paulo (…) O senhor tem um poder muito grande na sua mão, quanto maior o seu poder, maior a sua responsabilidade, consigo e com os outros. Então eu peço a sua ajuda para nós podermos conseguir, não uma saída, mas um caminho digno” 3 .

Por fim, afirmemos com o Comitê Invisível: “Não há mais que um campo de batalha histórico e as forças que aí se movem. Nossa margem de ação é infinita, a vida histórica nos estende a mão. (…) Nesta Terra nunca haverá paz; abandonar a ideia de paz é a única paz verdadeira.” (p.45)

Ao menos, enquanto o samba não chegar. Caetano Veloso:

O samba ainda vai nascer
O samba ainda não chegou
O samba não vai morrer
Veja o dia ainda não raiou (..)
O verdadeiro poder transformador

 


Nayra Ganhito é psiquiatra e psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise, da equipe editorial deste Boletim e professora do curso Psicopatologia Psicanalítica e Clínica Contemporânea do Instituto Sedes Sapientiae


[1] Apesar de você. Chico Buarque, 1978.
[2] Versão PDF disponível em: https://we.riseup.net/assets/262783/AosNossosAmigos2014.pdf
[3] Trata-se do Cadu – Carlos Eduardo Maranhão -, figura central na resistência contra a violência sofrida pelos usuários de drogas na região central de São Paulo, morto em 07/06/2017 em circunstâncias pouco claras no contexto de uma internação na cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Devo à colega Soraia Bento a imagem do Tirésias, que ganharia ainda mais significado com o trágico acontecimento de sua morte.