“A rede globo flutua entre a permissividade e a crueldade para vender seus programas ou ela apenas encarna os princípios do posso tudo e ninguém pode comigo?” Por Paulo Endo

Pragmatismo Político | Reprodução

Paulo Endo especial para Psicanalistas pela Democracia

Os episódios envolvendo o ator José Mayer e os participantes do programa BBB não são desconexos. Eles são efeito e produto da mesma lógica da maior emissora de televisão brasileira. Beneficiária de concessão pública mal fiscalizada e oligopolista, há mais de 50 anos, o conglomerado influencia eleições, determina rumos de governos e depõe presidentes (https://www.cartacapital.com.br/sociedade/radio-e-tv-no-brasil-uma-terra-sem-lei-8055.html). O domínio é quase absoluto. Chega à quase totalidade dos lares brasileiros.

Não fosse o fenômeno das mídias sociais e livres, nascidas há poucos anos, não haveria acesso algum do grande público àquilo que esse conglomerado quer ocultar, escamotear e maquiar. E são muitas coisas.

Hoje esse domínio se complexificou e o associativismo midiático alcançou todos os grande veículos de comunicação, incluindo os grandes jornais diários e revistas semanais. O domínio sobre a circulação e ocultação de informações, portanto, é gigantesco.

O recente episódios envolvendo o assédio sexual praticados pelo ator José Mayer (galã assíduo das novelas da emissora) jamais viriam a público não fosse uma mulher, que há oito meses se sentia aviltada com as abordagens do ator, se dispor a publicizar cenas que são ao mesmo tempo pessoalmente custosas, humilhantes e descaradas.

Muitos dizem que é apenas a ponta do iceberg, outros tentavam obscurecer o fato indicando que, nesse caso, tudo não passava de uma brincadeira entre colegas certamente, aquelas brincadeiras em que só um ri ; outros ainda preferem silenciar e deixar tudo como está e como sempre foi. ‘O Zé é meu amigo. Gosto dele.’

Bom, todo o episódio é mais ou menos conhecido e fato é que a emissora só se manifestou, na prática, depois que atrizes, poucos atores, mídias sociais e o público da própria emissora se manifestaram explicitamente contra o assédio relatado em detalhes pela figurinista e funcionária da emissora.

Mas não é impossível que logo tudo o mais seja esquecido e abafado. A emissora trabalha para isso. Retira o protagonista, de novelas e assédios  do ar, aconselha-o a assumir a responsabilidade sozinho e sai com uma série de manifestações sobre a ética e os bons costumes defendidos pela emissora. Com isso esperavam que tudo se acalmaria em semanas.

Quase deu para passar em branco, tudo se encaminhava nessa direção. Mas, dessa vez, não deu.

Não foi por acaso que mal passada uma semana outro caso, envolvendo participantes do programa BBB vem à tona em rede nacional, mostrando um assédio e ameaça perigosos flagrado diante das câmeras. Traça-se uma linha contínua, não são dois episódios distintos.

Após o episódio vivido pela figurinista Susllem Tonani o público global já estava meio desconfiado, após reconhecer atrizes conhecidas em manifestações e protestos contra o ocorrido. Os telespectadores testemunharam a letargia e hesitação da emissora no caso José Mayer e, dessa vez, reage nas redes sociais e no disque denúncia exigindo providências. O caso foi parar na polícia que, por sua vez, não pôde ficar indiferente.

O colunista de entretenimento Stycer publica então em sua coluna que a Globo foi covarde. Mas precisaria ser corajosa? Ou simplesmente ética, respeitosa, capaz de proteger atrizes, funcionários e elenco de temporários que participam de seus programas?

O apresentador Tiago Leifert repete o que mandam e se embanana em, ao menos, duas ocasiões de maneira vexatória.

A primeira, conforme reproduziu Stycer em sua coluna na Folha de São Paulo intitulada Globo foi covarde ao deixar responsabilidade na mão de Emilly. Após fazer menção à cena de assédio observa Stycer:

“Em seguida, Leifert  deu a dica de que a Globo lavaria as mãos no caso.”

 ‘O comportamento do casal nos preocupa. E a gente sabe que preocupa muito vocês também. E as atitudes do Marcos ontem à noite também nos preocupam’.

 E continua o colunista:

“Depois de mostrar todas as cenas, uma mais chocante que a outra, Leifert leu o seguinte texto:”

 ‘O BBB é um jogo, é um programa de entretenimento que espelha a vida real. O que nós vimos hoje acontece no mundo real, porém sem as câmeras. Uma discussão como a que aconteceu hoje pode levar a uma agressão física. E isso não é admissível nem no programa nem na vida real. O Big Brother tá preparado para interferir e proteger os participantes. Mesmo assim, hoje, no início da noite, conversamos separadamente com Emilly e Marcos. Dissemos a eles que o comportamento do casal nos preocupa. E preocupa vocês. Conversamos primeiro com Marcos, que foi alertado sobre o seu comportamento e sobre as regras do programa. Depois, a gente falou com a Emilly e reforçou o que é óbvio: ela pode e deve procurar a produção do programa a qualquer momento.’

“O que se depreende deste discurso oficial: 1. A Globo não considera que ocorreu agressão. 2. A emissora não acha que Marcos infringiu qualquer regra do programa. 3. A Globo entende que cabe a Emilly dizer se foi agredida, ou não.

Por tudo isso, considero que a Globo foi covarde ao deixar a responsabilidade de qualquer atitude nas mãos de Emilly.”

Em sua coluna no UOL no dia seguinte após a expulsão de Marcos Chaves observa o colunista:

“Na prática, a decisão só foi tomada porque a Delegacia Especial de Atendimento à Mulher se envolveu no caso nesta segunda-feira (10). A delegada Viviane da Costa solicitou as imagens à Globo e concluiu haver ‘indícios de agressão’.”

Os mecanismos de ocultação são imensos. Em psicanálise chamamos de alucinação negativa a experiência em que o ver e o querer ver se superpõem e se anulam. Percepção e representação não se esclarecem. Mas se embaçam e se confundem.

Afinal o que vimos, de um lugar distanciado e onividente, foi uma brincadeira, uma briguinha de namorados ou uma violência e coação que depende inteiramente da força física e da autorização institucional para ocorrer?

O que vimos? O que queremos ver? E o que, quando cúmplices da rede globo, queremos ocultar e camuflar junto com ela?

Depois dos episódios que colocaram a rede globo mais próxima da cumplicidade do que da proteção à mulher, diante de crimes praticados entre seus muros, a emissora tenta ainda se autopromover forjando discursos que evidenciam o flagrante do cinismo e ocultam a convicção da emissora de que nada fará enquanto não reclamarem, não gritarem e enquanto a polícia não bater em sua porta.

Se podem derrubar presidentes eleitos, qual o mal em deixar algumas mulheres serem assediadas, seja no interior de em seus estúdios, seja em rede nacional?

A expulsão do machista Marcos Chaves agora é usado pela Globo para saltar do lugar de cúmplice para o de justiceira, tentando com isso responsabilizar o participante por todos os acontecimentos com os quais, no fundo, a emissora dissemina, incentiva e faz prosperar transformando violência real em entretenimento.

Mas é claro, nem só de Globo vivem as crueldades televisivas. Os participantes do reality topam, aceitam, assinam e fazem fila para passar por isso.

Como sempre não há bandidos e mocinhos mas uma forma estruturada de crueldade consentida e violência travestida de entretenimento na qual muitos estão envolvidos, inclusive os que assistem e dão ibope a esses programas passivamente.

Boa parte da sociedade brasileira atual precisa de crueldade, bebe nela, torce para que sejam impunes violência cometidas uns contra outros, consentem em mortes, assassinatos e injustiças que ocorrem dezenas de milhares de vezes por ano no país; apoiam a tortura, a escravidão e, por vezes, convidam facínoras para ministrarem palestras em seus clubes privados.

O BBB e todos os acontecimentos que ocorrem lá dentro são um balão de ensaio, um cativeiro de luxo vendido para milhões que se cansaram de ver as crueldades e violência de mentirinha das novelas da globo, mas que, depois, se assustam ao ver o garanhão da novela das oito saltando para a realidade e os bonequinhos, teleguiados e cativos, dos reality shows, ameaçarem e colocarem em risco pessoas de verdade.

Nada ali é por acaso. Flertar com a violência e a crueldade de verdade é o que a Globo pratica ao omitir informações e, paradoxalmente, exibir e fechar os olhos para as violências da vida real.

Vamos combinar, todo mundo de olho no tríplex do Guarujá e no sítio de Atibaia, mas há muito todos conhecem a mansão dos Marinho em Paraty, cujo projeto arquitetônico premiado circula pelo mundo afora, e cuja edificação viola flagrantemente a legislação ambiental e se apropria de área pública a praia de Santa Rita  e a incorpora ao seu patrimônio privado.

Apesar da luta do Instituto Chico Mendes (ICMbio) até hoje ninguém conseguiu tirá-los de lá ou, ao menos, obrigá-los a cumprir a legislação ambiental. É a Globo, são os Marinho, então pode.

José Mayer e Marcos Chaves reproduziram e mimetizaram o que a Globo pensa que é, e fizeram suas próprias reinvenções subjetivas: sou da Globo, estou na Globo, portanto, posso tudo. Foram seduzidos pelo vírus identitários que confere e representa o poder discricionário, hoje tão em voga no país. Somos juízes, deputados, presidentes, ministros, globais, portanto podemos tudo. Muitos sem o apoio do conglomerado já teriam virado pó. Quer convencer de que fora da globo o mundo não existe. E o que propõe é uma cultura narcísica ensimesmada e perigosa.

A empresa aprendeu a atrair para o seu centro de entretenimento o atraso ético que propõe na cena política, atentando contra a democracia e a defendendo quando convém. Tudo em nome da sua própria preservação e todos que a mantém e trabalham para ela e por ela, devem estudar na mesma cartilha.

Nas últimas semanas, atores, atrizes e funcionários da emissora e seu público cativo estão descobrindo que podem e devem interferir na programação, no conteúdo e no hábito de ocultar verdades e sustentar inverdades, e que a manutenção de tais hábitos pode machucar seriamente pessoas e alimentar a cultura do medo e da coação.

Recentemente uma ex-participante do reality show volta a levantar a lebre sobre acontecimentos que a envolveram e levaram à expulsão de outro participante do reality em uma das edições do programa. Ele foi acusado de estupro, mas a acusação não prosperou. Parece ser, portanto, um hábito que a emissora repete ao colocar dentro da casa figuras com envolvidas em suspeitas e fatos graves cometidos.

Funcionários, telespectadores, atrizes e atores globais começam, talvez, a perceber que mesmo os que alimentam o sistema globo podem, sem aviso, serem tratados como as personagens cativos de um reality show perverso e serem publicamente usados, desrespeitados e depois expurgados do mundo dos globais.

O galã pode ser convertido no sapo assediador sexual e o brother num perigoso Caim, traidor dos irmãos que brincavam juntos numa casa de faz de conta. A Globo sempre poderá jogar a responsabilidade sobre os personagens e indivíduos que ela inventa e sustenta. Porém, mesmo sendo seu telespectador, ao que parece, o povo não é bobo.

A Globo dissemina seus valores de homem-branco-Vieira Souto há várias décadas e há gerações. Essa disseminação autoriza violências que a emissora sustenta e das quais se isenta.

A Globo não pode tudo, mas quando pensa que pode desastres acontecem. Mas algo indica que até mesmo os globais começam a perceber isso. Vamos torcer para não ser tarde demais.