Os vaga-lumes e os tempos de desvario – por Leonardo Beni Tkacz

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Os vaga-lumes e os tempos de desvario

 Leonardo Beni Tkacz

 

No sábado, 01/05/21, dia do trabalho, passei por uma experiência que me instigou a escrever esse artigo. Faço caminhadas frequentes pelos arredores de onde moro. Nesse trajeto, passo por dois símbolos distintos da cidade de São Paulo, separados por um trecho de avenida. De um lado, localiza-se o Comando do 2º Exército; de outro, um dos principais patrimônios arquitetônicos da pólis, o ginásio do Ibirapuera/conjunto esportivo Constâncio Vaz Guimarães.
Foi nesse trecho de avenida que a experiência se deu.
Ao retornar da caminhada, ainda um pouco distante desse trecho de avenida, deparei-me com uma carreata enfeitada com bandeiras do Brasil e seus ocupantes vestidos com a cor verde-amarelo. Embora paradoxal, esses signos já se tornaram “pertencentes” à massa pró-governo.
Mas por que no dia do trabalho?
Não demorou muito, a carreata foi ocupando os dois lados desse trecho de avenida. Logo pensei, “Essa ocupação me impedirá de seguir?”. O fato era que a passagem se estreitava, os manifestantes ocupavam as calçadas e permaneciam junto a seus veículos.
Aproximei-me. Dei uma pausa. Neste instante, do carro de som, escuto o mestre de cerimonias dizer: “Hoje estamos aqui para homenagear o nosso presidente Jair Messias Bolsonaro e para invocar o artigo 5º da Constituição Brasileira que nos garante o ir e vir do cidadão de bem deste país”. Em seguida, ele lê um trecho da bíblia. Decido seguir, o que implica certa transgressão no itinerário. Sigo pela única passagem possível que é caminhar pelo meio da avenida, em cima dos vestígios do que fora uma faixa amarela.
Passo pelo carro de som. O mestre de cerimônias me olha de soslaio. Após a leitura bíblica, o hino nacional é entoado. Continuo minha caminhada na direção contrária ao que parecia um “altar”. Os manifestantes perfilados, em “posição patriótica”, cantam as estrofes. Enquanto eles cantam, eu caminho. Intuo olhares pouco acolhedores. Sigo em frente solitariamente, trajando camiseta cinza e shorts preto. Um alento: o sol ressurge ao final do trecho de avenida, trazendo-me a memória a leitura recente do livro de Georges Didi-Huberman Sobrevivência dos Vaga-Lumes (1).

Didi-Huberman retoma a imagem poético-ecológica do vaga-lume utilizada pelo poeta e cineasta Pier Paolo Pasolini (1922-1975). Uma imagem de resistência na escuridão deixada pelas ruínas do fascismo histórico na Itália. A obra encaminha a seguinte questão: Como manter os lampejos do desejo e da cultura para que sobrevivam os vaga-lumes? Uma breve volta ao início do século XX na Itália.

 

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Em “M, O Filho do Século”, o historiador Antonio Scurati conta como Benito Mussolini após fundar o movimento sangrento Fasci di Combatimento (Grupos Italianos de Combate) em 1919, transformou-o em partido, Partido Nacional Fascista em 1925. Vale lembrar que a Itália fora destruída e humilhada pela derrota na Primeira Grande Guerra, os ex-combatentes retornavam sem rumo, o país assolado numa grave crise econômica, as famílias destroçadas pela guerra.
Nesse cenário, Mussolini vai ocupando o lugar do “líder salvador”.
Freud nos lembra em Psicologia das massas e análise do Eu (1921), que um “líder salvador”, como foi Mussolini, encarna o Ideal do Eu de uma massa identificada, neste caso, com a ideia de que pertencem a uma supremacia italiana. Para sustentar tal ideal, Mussolini estruturou uma forte organização de milicianos, um verdadeiro exército marginal, que por suas ações cruéis e violentas quase dizimou seus adversários políticos, com a cegueira conivente do império e da igreja.
Já constituído como Partido Nacional Fascista, Musssolini faz o seguinte discurso em 07 de outubro 1924: “Tentemos evitar o alarmismo na população, tentemos nos apresentar sob nosso aspecto guerreiro, mas somente capaz da crueldade necessária, da crueldade do cirurgião. Não vamos exacerbar os nervos já abalados da população: no fundo, o povo fará o que nós quisermos que faça…”.
Nessa lógica de poder, ainda que distantes no tempo histórico, a contemporaneidade política nos aproxima dos discursos totalitários, colocando as democracias em risco. Nesse sentido, poderia surgir uma questão: O que se repete no mal-estar atual da democracia brasileira?

Retomo a experiência do início do artigo.

O mestre de cerimonias propõe a justaposição entre o nacionalismo e a religião, convocando os “cidadãos de bem” a compor uma massa identificada com o seguinte ideal do eu: “Brasil acima de todos, e Deus acima de tudo”. Não há abertura para discordâncias, não há renúncias pulsionais; mas sim se instala um mal-estar na democracia brasileira, para dizer o mínimo.
Em minha história familiar, escutei a seguinte enunciação: “nunca devemos nos ajoelhar diante das imagens (santos/cruz)”. Uma enunciação que procurava claramente assegurar a religião da qual pertencíamos. Contudo, essa enunciação foi percorrendo, num tempo de análise, alguns deslocamentos discursivos, de modo a que pudesse mudar o ângulo de onde a olhava. Por conseguinte, destituía-se o lugar de subserviência às imagens.
Dessa forma, como nos lembra Lacan, “A verdade tem estrutura de ficção”, o que permite operar furos a qualquer discurso que se propõe detentor da verdade, como os discursos totalitários.
Assim nunca imaginei que um vaga-lume pudesse trajar camiseta cinza e shorts preto em plena luz do dia, subvertendo a cor verde-amarelo, “coisificada” a um Ideal do Eu contemporâneo.

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Pensando bem, talvez tenha sido um ato involuntário a fim de oferecer sobrevida aos vaga-lumes em tempos de desvario.
Didi-Huberman afirma: “Os vaga-lumes, depende apenas de nós não vê-los desaparecerem. Ora, para isso, nós mesmos devemos assumir a liberdade do movimento, a retirada que não seja fechamento sobre si, a força diagonal, a faculdade de fazer aparecer parcelas de humanidade, o desejo indestrutível”.

 

Nota:
(1) Agradeço aos colegas APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre), Éneas de
Souza, Lucia Serrano Pereira, Robson Pereira, pela proposta de leitura do livro de
Georges Didi-Huberman Sobrevivência dos Vaga-Lumes.