As ruas mataram, comeram (devoraram) e broxaram o pobre e decaído jair – Por Paulo Endo

29M Fora Bolsonaro - São Paulo (foto de Denise Mamede)

As ruas mataram, comeram (devoraram) e broxaram o pobre e decaído jair
Especial Psicanalistas pela Democracia, por Paulo Endo

As ruas brasileiras foram magnânimas como há muito tempo não se via desde o advento das torcidas. Podem e devem ainda ir muito além. Uma mistura de festa, celebração e sentido de urgência.
Ninguém queria estar nas ruas sob uma pandemia, isso é óbvio e ululante, e chega a ser ofensivo os que tiram coelhos da cartola para dizer que é descuido, ingenuidade, erro da esquerda mobilizar pessoas para irem às ruas. Ainda bem que nos Bolívia, Chile, Argentina, Paraguai, Colômbia e EUA ninguém leva a sério esse palavrório que às expensas de apresentar grandes novidades, circulam estéreis no vazio. Nesse ponto se assemelham ao discurso do que ocupa a presidência em simetria especular.

Vamos às ruas de qualquer jeito versus não vamos às ruas de jeito nenhum. Muitos matizes e numerais entre o 8 ou 80.
É o sentido de urgência que move as pessoas a voltarem para as ruas e correrem risco. O receio muito concreto de que caso um facínora permaneça no poder, seja de que maneira for, o Brasil estará condenado por muitos anos ou décadas a um novo ciclo de destruição democrática, como ocorreu durante 20 anos a partir de 1964. É uma preocupação com o futuro, com as novas gerações, com os filhos, netos e os que irão nascer.
Nosso ciclo de recrudescimento ditatorial já é longo. Ele já irá  fazer seu 5o. aniversário desde que se iniciou em 2016. Se chegar até as próximas eleições serão 6 anos seguidos de destruição e ameaças à institucionalidade democrática.
Chega a ser piada aconselhar os movimentos sociais a aprimorar suas estratégias digitais ao invés de ocupar as ruas. Toda e qualquer pessoa que vai às ruas corre risco, hoje e sempre. Vimos o que aconteceu ontem no Recife, com os que perderam os olhos no Chile, com os perseguidos e torturados na Colômbia, com os exilados da Bolívia, etc e nada disso foi provocado pelo vírus.
Quem vai às ruas sabe que representa a resistência a algo, a alguém e empunha a palavra para reivindicar o direito de ser ouvido. Faz isso como estratégia anti-hegemônica movendo seu corpo e espírito numa dinâmica que é ditada quando os atos estão acontecendo e, por isso, o que irá acontecer ali e suas consequências são imprevisíveis em boa parte.

As ruas são as páginas onde os que não tem voz performam sua eloquência coletiva. Jamais deixarão de ser fundamentais em qualquer cenário político e a decisão de ocupá-la é, em última instância, pessoal e intransferível. Mas quando estamos lá compreendemos, uma e outra vez, que nos movemos como uma pequena parte de um movimento que nos ultrapassa completamente e ainda assim é também nosso.
Não se deve delegar esse poder de dizer, gritar, cantar aos que ocupam o lugar egrégio seja nas mídias mainstream, seja nas redes digitais, seja nas instituições formais de saber e poder. A rua não é o lugar de exercer a representação, mas o pleno lugar onde a indignação, a dor e a esperança ensaiam suas possibilidades de dizer-se.

Foram nas ruas que ontem centenas de milhares de pessoas, muito inseguras e preocupadas com a pandemia, foram exigir vacina para todes, democracia para todes e o fim do ciclo da violência que o atual governo trabalha para perpetuar.
A política é a possibilidade de sustentar paradoxos. Vida e morte estão hoje presentes em tudo que fazemos. Mas certamente não será a ortodoxia de idas ao supermercado com máscara e distanciamento, ou nossa mudança de hábitos de não mais abraçar pessoas que queremos bem que irão evitar que o país mergulhe no precipício das sombras de um tirano que não pretende, de modo algum, arredar o pé de onde se encontra hoje.

Ontem, contudo, o descabido jairzinho sentiu o peso de que seu destino pode estar sendo traçado, porém ele certamente será o último a reconhecer isso, primando pela ignorância que tanto o inspira e aos muitos que o seguem. Só faltava dizer, após ver e enormidade do que viu, que tem “aquilo roxo”.