Considerações sobre a servidão voluntária e identificação com o agressor e sob o impacto do filme Tigre Branco (contém spoilers!). Por Jaquelina Imbrizi & Julia Bartsch.

“A vida no capitalismo tardio é um contínuo rito de iniciação. Todos têm que mostrar que se identificam integralmente com o poder de quem não cessam de receber pancadas.” (Horkheimer & Adorno, 1985, p.144)

 

Somente uma “recepção dispersa” (Horkheimer & Adorno, 1985) dos telespectadores ao assistirem filmes indianos poderia desencadear o juízo de que se trata de uma produção cinematográfica sobre as castas e que nada se refere à desigualdade social inerente à forma de organização capitalista. E, talvez, seja essa a técnica utilizada por algumas dessas produções: a de provocar certo distanciamento no telespectador frente ao que será apresentado por meio de um estilo tragicômico que convida o sujeito para que ele possa rir da sua própria desgraça.

Trata-se do  filme “Tigre Branco” (The White Tiger no título original), dirigido por Ramin Bahrani (2021), no qual a história é contada pelo protagonista que utiliza um estilo narrativo que oscila entre o afastamento – o filme se passa em país de costumes diferentes dos padrões ocidentais – e o avizinhamento presente no fato de que o narrador encara o telespectador, em algumas cenas, e faz perguntas direcionadas a quem o está assistindo. O filme chega para falar de uma Índia que também fala de nós. Em um determinado ponto da narrativa, Balran (Adarsh Gourav em seu primeiro papel principal) pergunta “No seu país também é assim?”. Arriscamos dizer que a resposta é sim.

A história é contada da perspectiva do servo e serviçal e, assim, para os telespectadores ele ocupa o lugar de protagonista e narrador de sua própria história e em retrospectiva apresenta sua trajetória de vida, invocando a anuência do espectador. Balran surge na tela vestido de Marajá, está encolhido no fundo do carro, sentado no banco traseiro, e inebriado com a ilusão de compartilhar aquele momento com seus patrões. Na cena, trata-se de um casal que ocupa os bancos dianteiros de um automóvel dirigido por uma mulher. A vestimenta e as expressões faciais de Balran fazem lembrar a de um bobo da corte, mas para o telespectador, que ainda não foi apresentado às personagens, parece mais uma fotografia de um cenário divertido e arriscado envolvendo carro, estradas desertas e mal iluminadas na madrugada, uso excessivo de álcool acompanhado de conversas e risos que causam desatenção em quem está dirigindo e perigos – que podem ser antecipados pelo telespectador – a todos que estão dentro e fora do automóvel de luxo. A cena incomoda, justamente porque Balran está vestido com trajes alegóricos de nobreza e não se enquadra nos padrões estéticos de um protagonista, o descuido com os dentes, a diminuta constituição física, uma expressão apreensiva no olhar, a roupa mal-ajambrada, pois é só mais tarde no desenrolar da trama é que saberemos que aqueles trajes são figurinos para uma festa (“à fantasia”?) e estão longe de produzir a ascensão socioeconômica almejada. Já o casal de patrões está dentro do que se espera dos parâmetros estabelecidos para protagonistas do cinema ocidental, as vestimentas, o verniz civilizatório e a “aparente” horizontalidade no convívio com os serviçais. Nesse momento, a nossa personagem principal está fascinada por tudo que vê e demonstra certa ingenuidade diante das maldades do mundo e das humilhações que sofre dos patrões. Um acidente acontece e é quando Balran alerta o espectador: “Não podemos começar um filme assim”. O protagonista parece anunciar: Isso é uma ficção… mas nem tanto.

O cenário retrocede até a pequena cidade onde Balran nasceu, até uma escola em precárias condições, sem carteiras e cadeiras adequadas para estudantes e sem os materiais didáticos necessários, no qual está o nosso protagonista-criança acompanhado de seus colegas de turma. O nosso narrador parece ser o único capaz de aprender, pois em comparação com seus colegas ele responde acertadamente todas as perguntas formuladas pelo inspetor da escola. É nesse contexto de precariedade que ele recebe uma mensagem do professor, dizeres que se fixarão em sua mente: “Você é um Tigre Branco”. A referência ao animal é muito forte em sua cultura por ser raro, ferino, astuto e, ao mesmo tempo, estar presente na natureza e associado ao fato de que é um único animal a nascer em sua geração. Para incorporá-lo, Balran precisa romper com quem tenta lhe manter estagnado no mesmo lugar, perpetuando valores e costumes tradicionais com os quais ele já não se identifica. A avó, como uma espécie de líder do clã, não lhe permite estudar e tenta lhe ditar o percurso de sua vida. O pai, que morre tísico, representa o que ele virá a ser se não romper com aquele lugar. O homem que extorque o vilarejo, acompanhado de seu filho, faz uma visita ao território onde sua comunidade vive. Então, Balran entende que precisará se submeter a uma outra figura de poder. Talvez a cena mais irônica do filme seja o momento no qual o protagonista afirma, falando diretamente para os espectadores, que já que ser serviçal é irremediável, ele pelo menos pode escolher o seu senhor. Ou seja, é ele quem define quem será o seu patrão e por meio de mentiras sobre sua ascendência, mesmo sendo de casta baixa em contraposição a casta alta, consegue o emprego de segundo motorista do patrão escolhido. Balran será serviçal deste filho e para isto, declarará ao extorsor que o considera como se fosse um pai a quem ele deve servir. Para tomar a direção de sua vida, ele aprende a dirigir. E é assim que Balran se torna motorista de Ashok (interpretado pelo ator Rajkummar Rao), que chamaremos de filho-patrão para diferenciá-lo do pai-patrão.

Mas, aí está a grande questão,  o chefe selecionado é filho de um déspota que é o proprietário da casa, do carro e dos negócios. Já o patrão-filho está escondido em pele de cordeiro e é, aparentemente, “mais democrático e mais acessível” do que o pai-patrão, pois ele foi praticamente criado nos Estados Unidos da América, como a sua bela esposa. Pinky (interpretada por Priyanka Chopra) é alegadamente livre, aparenta ser uma mulher moderna e profissional liberal, completamente cooptada pelos valores consumistas estadunidenses. A ironia está no fato de que como esposa do filho-patrão é forçada a acompanhar o companheiro que deseja continuar os negócios do pai-patrão em terras indianas. As contradições desse naipe vão se aprofundando no desenrolar da trama.

Na terra de Bollywood, vemos transcorrer um formato cinematográfico que tenta agradar ao paladar ocidental. Depois, entendemos que há uma razão para isso: agradar os que estão em posição de poder é o que Balran acaba por fazer para sair do galinheiro, analogia utilizada no filme, que revela que em um país com tantas divisões e castas, as oposições na vida se reduzem a ser o dominador ou o dominado. E os dominados, assim como as galinhas num galinheiro, mesmo que lhes deixem as portas do galinheiro abertas, seguem presos às condições de opressão. Mais do que isso, ele afirma em alto e bom tom que, para um pobre vencer na vida, restam apenas duas opções bifurcadas e não excludentes: ele precisa cometer um crime e enveredar para a carreira política. Aqui está o componente cômico, quando já “venceu na vida”, ele escreveu em um e-mail para o premier da China afirmando que a época de ouro dos Estados Unidos já está ultrapassada, agora é a vez da Índia e da China. É a vez dele, um indiano que vive todas as intempéries atribuídas aos nascidos para serem serviçais, pois Balran não é uma galinha. Ele é o Tigre Branco, como lhe foi transmitido por seu professor.

A partir desta disposição de vencer na vida a todo custo, Balran imagina poder chegar a ser um deles. Não no sentido hierárquico, mas na direção de reproduzir a mesma racionalidade instrumental própria aos dominadores. Elimina os obstáculos que podem atravancar o seu caminho para a ascensão social, se distancia dos que deveriam ser seus iguais e os transforma em inimigos. Diante do edifício fálico onde vive Ashok, ele deve permanecer subserviente, pernoitando no subsolo de um estacionamento onde estão outros motoristas, sem vista para o mundo lá fora. Balran se isola, daqueles que poderiam ser seus pares, recebe chacota e é hostilizado também por eles. Mas prefere as agressões do pai-patrão a ser só mais um no galinheiro, como forma de garantir o aniquilamento de quem ele deveria ser. Ainda resta o alento na companhia do filho-patrão e sua esposa que o tratam com um verniz de respeito e gostam de ouvi-lo contar sobre sua cultura (na maioria das vezes, Balran está mentindo e inventa histórias estapafúrdias para alimentar a curiosidade do casal-patrão sobre a “cultura exótica” indiana).

Balran transita pela cidade em momentos em que não está prestando os seus serviços para os patrões, essa é a única forma de ocupar seu tempo livre já que não ficamos sabendo da vida amorosa do nosso protagonista, sabemos que ele demonstra inibição quando nas rodas de conversa com outros motoristas o assunto são as mulheres como objetos e que ele não aceita a proposta de casamento com a noiva escolhida por sua avó. Tem admiração pela esposa do filho-patrão e a olha com desejo, mas não passa disso. Ele observa a cidade com asco e com prazer. Aponta a decrepitude ao seu redor sem deixar de fazer parte dela. Defeca em área aberta diante de um outro como se estivesse diante de um espelho que lhe mostra que quem não joga o jogo dos oprimidos e opressores ocupará o lugar de resto na cidade e no mundo, a única liberdade possível é a de morar em um lixão ou na rua. Sorri com seus dentes tão apodrecidos quanto é tudo o que ele rejeita, sem deixar de saber, para seu desespero, que também é parte da engrenagem que se movimenta para manter tudo como está. Outra ironia na trama instala-se quando Balran compra uma pasta de dente que lhe prometia dentes alvos cujo vendedor sequer tinha aprendido a escová-los, a crueldade ao descobrir que até os hábitos de higiene lhe foram extorquidos pela opressão que experimentou em sua infância e durante sua vida. Há a intenção de provocar angústia no telespectador que já antecipa o fato de que ele não poderá mudar a realidade que se escancara em sua própria boca na inutilidade da pasta dentifrícia. Teria que ir além. E para subverter seu destino social predeterminado, teria que se corromper e se transformar no tigre branco que o entorpece quando encontra o animal frente a frente, preso em uma jaula, ao visitar o zoológico com o sobrinho. Um caso à parte é a história do menino que a avó envia, sem consultá-lo, para viver sob seus cuidados, já que Balran suspendeu o envio de um bom bocado de seu salário para a comunidade da qual fazia parte e a punição é a de que ele cuide, então, da criança que o acompanhará com olhos atentos até a última cena no filme.

A racionalidade instrumental é incorporada por Balran e ele introjeta todas as distorções do mundo capitalista ocidental. Seu discurso assemelha-se ao de um coachlembrando que é preciso superar muitos obstáculos para ser um vencedor. Parece-nos que ele quase perde a razão ao se dar conta do tamanho das desigualdades social e econômica que o separa de seus patrões e às humilhações a que ele precisa se submeter para poder continuar ali… ou sair dali. Ou é apenas uma confusão mental que acomete alguém que não suporta mais perceber os paradoxos emitidos nas duplas mensagens que recebe: o apartamento suntuoso do filho-patrão e o seu colchão no chão de um estacionamento, ter que dormir em um espaço insalubre e sem ventilação coberto por uma tela azul para espantar as moscas e baratas; o salário que mesmo irrisório precisa ser enviado para a avó ao mesmo tempo em que há a sensação de que pelo menos ele tem um emprego considerado qualificado por sua comunidade. Outra mensagem subliminar que ele sabe ler é a de que os carros de luxo abrigados no estacionamento valem mais do que a vida de qualquer motorista que precisa pernoitar por ali, contam mais do que a sua própria vida.

Voltemos ao acidente não revelado no começo do filme. O carro é dirigido por Pinky, que em momento de desatenção, atropela e mata uma criança. Balran é forçado pelo pai-patrão a assinar um documento assumindo-se como culpado. Assim, ele é corrompido e se corrompe já que ele não tem escolhas. O pai-patrão lhe lembra, mais uma vez, qual é o seu lugar. Restava a ele esperar o momento certo para, dentro da linguagem ocidental capitalista, ascender socialmente, ou permanecer onde está como uma galinha.

Há uma sutileza no filme que é a de que o pai-patrão o humilha e faz e desfaz para colocá-lo no lugar de servo, por sua vez o filho-patrão forja uma relação de amizade e o trata com respeito, com exceção de algumas chacotas referidas ao seu desconhecimento de informática. Do pai-patrão a humilhação é física e psíquica e do filho-patrão a humilhação é no campo da cultura. É no episódio no qual ele tem que assumir um crime que não cometeu que ele compreende que a diferença entre o pai-patrão, o filho-patrão e sua esposa não existem, são todos do mesmo calibre da arma que visa amansá-lo e matá-lo de forma lenta. Ele compreende amargamente que quando se comete um erro a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, apesar de o casal demonstrar incômodo com a situação implantada, o filho-patrão e a sua esposa não têm forças para resistir e tirar Balran do imbróglio em que o colocaram. Pinky volta para os statesporque não quer mais compactuar com a injustiça que precisou aceitar para salvar a sua pele. Antes de embarcar, a bela moça deixa com o nosso protagonista um envelope com dinheiro como forma de dirimir um pouco a sua culpa, pois tem para onde se refugiar e retorna para o paraíso onde supostamente não há humilhações explícitas aos empregados domésticos, desde que estes não ameacem as suas fronteiras e quando dentro de seu território se contentem com os trabalhos menos qualificados a troco de um salário de fome. O tragicômico é acompanharmos os cálculos do nosso protagonista que conta o dinheiro doado e tenta traduzir em números a injustiça sofrida. A relação entre valor de uso e o valor de troca é incompatível, inumerável e incontável, mas ele insiste em fazer os cálculos injustos próprios ao capitalismo tardio. Aqui, acompanhamos a confusão mental de Balran, um pensamento que vai e volta tentando compreender que Pinky é uma mulher boa, pois lhe deixou um pouco de dinheiro, mas trata-se de uma quantia muito menor do que poderia ter deixado já que ela é uma mulher rica. A cena seria risível se não fosse trágica neste momento na vida de Balran, pois ele continua ameaçado por um crime que não cometeu e Pinky está em liberdade na terra prometida do consumo irrestrito e excessivo para alguns privilegiados.

O estado de confusão mental, representado na tentativa de calcular o incalculável, é agravado por conta da decepção que ele sente diante do patrão-filho (mudemos a terminologia em substituição a filho-patrão) que fica raivoso quando descobre que foi Balran quem conduziu sua esposa até o aeroporto. Cheio de ódio, Ashok deixa cair sua máscara de “patrão democrático” e humilha o nosso protagonista se utilizando de violência física. O patrão-filho sabe ser violento quando seu narcisismo é ferido. Essa decepção não será sem consequências, a brecha aberta pela suposta amizade com o patrão-filho se fecha abruptamente e um gesto violento será arquitetado por Balran como resposta à humilhação sofrida e ao mínimo de reciprocidade existente anteriormente que, nesse momento, ele percebe estar aniquilada. Balran cuida do patrão-filho para que ele se recupere da desilusão amorosa, mas não mais como antes, como naquele tempo em que havia brechas na relação estabelecida entre o chefe, escolhido com tanto esmero, e ele. Ou seja, nada produz tanto desnorteamento quanto o ato de humilhação advém de quem acreditávamos que nutria amor por nós, não é? Balran ajuda Ashok a superar o sofrimento – derivado da saudade que ele sente da esposa que ousou pedir o divórcio – mas sempre com a intenção de ganhar sua confiança e ascender na carreira. Esforço em vão, recuperado do sofrimento por ter sido abandonado, o patrão-filho se distancia progressivamente do serviçal e deixa antever que cada vez mais sua imagem se confunde com a do pai-patrão. Ou seja, Ashok também trabalha ilicitamente para garantir os bens e propriedades de seu pai.

Num determinado momento, Balran dirige o carro para o patrão-filho e toma conhecimento de subornos feitos em imensas quantias de dinheiro que são colocados em uma valise que fica no banco traseiro do carro. O curioso é que quem não escapava desse esquema de propinas era a candidata ‘grande socialista’, mulher política que em sua infância representava a promessa de escola para todas as crianças da Índia e que, muitos anos depois, sustentava-se pelo mesmo discurso sem alterações na dinâmica social, com instituições escolares cada vez mais esfaceladas e com o trabalho do professor cada vez mais precarizado. E o exercício de uma forma de política que defende os pobres como parte da manutenção dessa estrutura? Portanto, para que a falsa socialista existisse enquanto defensora dos mais miseráveis, era necessário que os paupérrimos continuassem existindo. E ela mesmo se valia dessa ‘troca de favores’ entre os grandes poderosos. Não havia mais esperança. Se Balran quisesse mudar seu destino, teria que se apropriar, ele também, da matéria-prima das negociações do mundo dos dominadores.

Ashok, o filho-patrão, afaga Balran com a mesma mão que lhe bate. O documento assinado para assumir a culpa do acidente tinha uma cláusula verbal: “Se você contar a verdade a alguém, sabemos onde mora sua família”. E então Balran realiza sua segunda ruptura. Mata o patrão-filho, apodera-se de uma grande quantia e sabe que sua família original, a que lhe faz lembrar de sua procedência, será morta. Ele reconhece que esse é o preço. Expia qualquer culpa – se é que podemos afirmar em termos tão judaico-cristãos ao fazermos referência a um lugar rico em tantos outros deuses -, lembrando que a morte da criança atropelada sequer foi reclamada. Ao assassinar o patrão-filho, ‘nosso tigre” sela a encruzilhada bifurcada em apenas duas possibilidades que ele sabia bem quais eram como marca do destino social inexorável aos pobres. Entre seguir a carreira política e cometer um crime, ele escolhe a segunda opção, no caso, um latrocínio. Foge com a mala cheia de dinheiro e na companhia do pequeno sobrinho que o olha com fascínio e admiração.

A imagem desse novo Balran é a imitação de um ideal de Eu presente nos homens vencedores na competição para o progresso e na posição do dominador. Ele repara os dentes, usa o cabelo à moda de jovens empreendedores, forma seu próprio clã, uma troupe de motoristas de táxis submissos a ele, mas em moldes de relação dominador-dominado tidas ‘muito mais civilizadas’, talvez haja aqui uma referência velada à uberização do trabalho. Agora, ele é o novo Ashok. Abandona a expressão ingênua e infantil em seu rosto por um semblante altivo, ferino e desafiador.

Mas fica uma pergunta no ar: Porque ele mata o patrão-filho que titubeia em relação a colocá-lo no lugar de servo? Porque o patrão-filho é o seu alvo e não o pai-patrão, poderíamos falar aqui em identificação com o agressor?

A identificação com o agressor é um conceito forjado por Sándor Ferenczi (2011, p.117) para refletir sobre as consequências dos tempos do trauma, que em contexto de abuso sexual, revela a confusão de línguas entre a ternura e o lúdico na criança e o sexual e o erótico no adulto, que invade de excessos incontornáveis à psíque do infante que responde com uma típica confusão mental. Com poucas referências para lidar com a situação, a criança desenvolve a culpa por não ter recursos para resistir à investida erótica e o medo intenso sem poder prever as consequências de se negar a se submeter às “demonstrações de afeto” de um adulto, cuja percepção do ato violento e da imagem associada ao agressor são eliminadas de sua mente e talvez compreendidas em um tempo a posteriori. Como se o pensamento fosse: “Se ele me ama, ele não pode fazer mal a mim”. Quando o infante recupera forças para falar do acontecido para as figuras parentais que representam o cuidado, são estas que não conseguem escutá-lo e que não reconhecem o seu sofrimento, o que pode soar como um desmentido à dor da criança. Nas palavras do psicanalista:

“As crianças sentem-se física e moralmente sem defesa, sua personalidade é ainda frágil demais para poder protestar, mesmo em pensamento contra a força e a autoridade esmagadora dos adultos que as emudecem, podendo até fazê-las perder a consciência. Mas esse medo quando atinge o seu ponto culminante, obriga-as a submeter-se automaticamente à vontade do agressor, a adivinhar o menor dos seus desejos, a obedecer esquecendo-se de si mesmas, e a identificar-se totalmente com o agressor. Por identificação, digamos, por introjeção do agressor, este desaparece enquanto realidade exterior e torna-se intrapsíquico; mas o que é intrapsíquico vai ser submetido, num estado próximo do sonho – como é o transe traumático -, ao processo primário, ou seja, o que é intrapsíquico pode, segundo o princípio do prazer, ser modelado e transformado de maneira alucinatória, positiva ou negativa.”

 

O abuso e a violência experimentados por Balran se referem aos efeitos da desigualdade social, um acontecimento traumático relacionado às precárias condições de vida e às opressões presentes nas relações entre humanos e naturalizadas por todo um grupo de parentes consanguíneos. Balran não tem a quem se queixar, a quem “prestar queixa”. O trauma da humilhação social se refere a uma “modalidade de angústia disparada pelo impacto traumático da desigualdade de classes” (Gonçalves-filho, 1998). Portanto, o transe traumático produz confusão mental, Balran é a personagem que vive momentos confusionais apresentados no filme nos movimentos repetitivos dos pensamentos em sua mente, o ápice desse ciclo vicioso está no cálculo do dinheiro, pouco ou muito, deixado pela esposa do patrão-filho que o transporta para um transe traumático.

Portanto, o filme Tigre Branco é um produto da Indústria Cultural e repete de forma monótona também aquilo que é próprio ao seu modo sistemático de funcionamento, todas as suas plataformas transmitem a mesmice em novas roupagens, os valores vinculados às figuras femininas parecem ser um exemplo típico e essas personagens são: a avó-tirana;  as mulheres objetificadas, seja a noiva que lhe é imposta para o casamento, seja as parceiras sexuais que estão no imaginário dos colegas motoristas; Pinky que compactua com a farsa para proteger  o nome da família rica e o abandona; a representante política que se utiliza dos ideais comunistas para manter as situações de opressão – cabe aqui reiterar a velha crítica generalista aos representantes da esquerda repetida à exaustão pela Indústria Cultural. Assim, o filme deixa no telespectador um gosto amargo na boca, a sensação tão bem delineada por Horkheimer e Adorno (1985) que é aquela relacionada à nossa impotência diante do mundo, pois o ser humano é risível mesmo e está sempre a postos para receber a próxima bofetada dos opressores. Trata-se da nossa servidão voluntária que, segundo Birman (2017, pgs.28-29) está associada ao nosso desamparo primordial que pode nos levar a seguir qualquer líder que possa sinalizar com a possibilidade de tamponá-lo. Trata-se de uma modalidade de subjetivação na qual o sujeito se submete a um senhor para fugir do horror do desamparo. Muitas vezes, esse tamponamento pode estar associado a um pacto masoquista que é uma:

“(…) aliança do sujeito contra o desamparo, que encontra eco num outro que se acredita autossuficiente e que se alimenta do terror do outro em relação ao desamparo, pois acredita assim poder dominar a sua condição de desamparo. Como se sabe, eco é ego, e é sempre o ego que está em pauta nos dois pólos da relação masoquista. Pelo e com o ego, ambos os parceiros da cena obscena evitam a dispersão promovida pelo desamparo. Essa é a razão pela qual o outro do pacto masoquista é sempre uma figura perversa, que se acredita acima do bem e do mal, isto é, supõe poder triunfar da sua condição de desamparo. Constitui-se, assim, a experiência do assujeitamento, em que a servidão se constrói nas suas várias modalidades, entre as figuras do senhor e do servo”. 

 

No que se refere às forças políticas, cabe assinalar que elas se transformam em pura violência no filme, pura pulsão de destruição, a cena da morte do patrão-filho é cruel, há um giro no pacto masoquista no qual Balran, finalmente, ocupa o lugar do perverso. O filme coreano Parasita (2018) é um bom exemplo disso, cuja única revolta se dá pela violência. No caso do filme Tigre Branco, o servo se transformou em déspota por meio da violência e irá perpetuar a violência, talvez como parte da transmissão e do legado que ele deixará para o pequeno sobrinho.

No roteiro há críticas mordazes ao capitalismo e ao comunismo e este é um componente reiterado por produções cinematográficas na contemporaneidade, reafirmando a falta de alternativas que nos direcionam para a sensação de impotência e para uma posição de assujeitamento frente a um futuro distópico. A questão que fica para nós é a de que a ideologia transmitida sistematicamente pela Indústria Cultural ainda continua omitindo valores e modos de agir que são importantes para a construção de uma terceira via, aquela do comum (o Como-Um) e que podem estar relacionadas às figuras femininas que também são acolhedoras e que representam o colo materno no qual ainda possamos debruçar e amparar o nosso des-amparo e o nosso desalento, como na posição de uma mãe benevolente presente no texto de Ferenczi (2011, página, 115): O paciente sem consciência é afetivamente, em seu transe, como uma criança que não é mais sensível ao raciocínio, mas, no máximo, à benevolência materna”.

A Indústria Cultural continua a encobrir aquilo que a Índia ainda representa como alternativa ao mundo cão capitalista, com as suas comunidades, sua medicina natural e  espiritualidade dos iogues. Não esqueçamos que é o país que pôde ofertar a luta pela paz encampada por um líder como Mahatma Gandhi (e cuja estátua, não por acaso, é notada pelo protagonista minutos antes do acidente já mencionado)Portanto, sigamos atentos e atentas para uma crítica ao capitalismo presente nas produções cinematográficas contemporâneas, que ao demonstrar seus paradoxos e a dimensão sociopolítica do sofrimento (Rosa, 2016) daí advindo, produzem nos telespectadores certo estado confusional, próximo a um transe traumático, que pode impedi-los de enxergar, criar e inventar alternativas com vistas às lutas políticas menos violentas e mais solidárias.

Em tempo, ao invés de nos transformarmos em Tigres Brancos, talvez seja um alento a imagem de nos transformarmos em bichos-preguiça.

Referências Bibliográficas:

Bahrani, Ramin. “Tigre Branco” (The White Tiger no título original), 2021

Birman, Joel. A servidão. Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

Ferenczi, Sándor. Confusão de língua entre os adultos e a criança. Obras Completas. Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

Gonçalves-Filho, J. M. Humilhação Social – Um Problema Político em Psicologia. Psicol. USP vol.9 n.2 São Paulo, 1998.

Horkheimer, Max  & Adorno, Theodor. A Indústria Cultural: o esclarecimento como mistificação das massas. In Dialética do Esclarecimento. São Paulo: Zahar, 1985.

 Joon-ho, Bong. Parasita. 2019.

Rosa, Miriam Debieux. A clínica psicanalítica em face da dimensão sociopolítica do sofrimento. São Paulo: Fapesp/Pulsional, 2016.

 

Sobre as autoras:

Jaquelina Imbrizi é professora associada II da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp – Campus Baixada Santista e membro do Laboratório de Psicanálise, Sociedade e Política (PSOPOL).

Julia Bartsch é psicanalista, mestranda do programa de pós-graduação do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo – IPUSP e membro do Laboratório de Psicanálise, Sociedade e Política (PSOPOL)