‘Um torturador na história da psicanálise: notas preliminares sobre a atualidade do sintoma apolítico’, por Marília Etienne Arreguy

Um torturador na história da psicanálise: notas preliminares sobre a atualidade do sintoma apolítico1

Por Marília Etienne Arreguy2

 

Trazer à tona o caso Amílcar Lobo hoje, e aqui na Espanha, é importante pois reabre a discussão sobre a atualidade do sintoma apolítico na história da psicanálise e de suas instituições. Trata-se de um caso muito particular. A literatura pertinente, publicada no Brasil, França e Espanha, apresenta dados históricos detalhados sobre diversas imbricações da corajosa denúncia, em 1973, de Helena Besserman Vianna (1994, 1997, 1998) da Sociedade de Psicanálise do Rio de Janeiro – SPRJ – ao jornal A voz operária do partido comunista, e publicada pela primeira vez na revista argentina Questionamos, dirigida, à época, também por uma psicanalista: Marie Langer.

Helena, sob a pena de ser banida da Sociedade, denunciou o caso do candidato a psicanalista Amílcar Lobo, médico em formação na SPRJ, que também atuava nos porões da ditadura militar – antes, durante e depois – das sessões de tortura a presos políticos, evitando que morressem para se dar continuidade à investigação coercitiva. Amílcar Lobo foi convocado como médico do exército lotado no Pelotão de Investigações Criminais do DOI-CODI em 1970, no auge da repressão política. Ele já estava inscrito na formação psicanalítica desde 1968. Seu irônico codinome junto à equipe de verdugos era Dr. Carneiro. Um lobo vestido de carneiro. Em seus relatos e de seus familiares na Comissão da Verdade, composta por juristas, psicanalistas e membros da sociedade brasileira com fins de trazer à tona a memória da ditadura, cujo relatório final foi exposto em 2015, Lobo foi colocado como vítima, na voz de sua filha e viúva. Ele também se colocou como vítima3, quando vivo, pois declarava-se inocente, alegando que havia obedecido a ordens superiores: o que pode ser descrito como uma pérola da banalidade do mal, seguindo a mesma lógica da análise de Hannah Arendt, sobre o julgamento de Eichmann em Jerusalém. Lobo também acentuou a culpa da Sociedade devido à indefinição quanto à sua demanda de formação como psicanalista.

Após explodir a primeira denúncia na Argentina, outras se sucederam. Lobo se desligou da SPRJ em 1973, para a investigação do seu caso, quando já era impossível ao presidente da SPRJ e também seu analista, Leão Cabernite, continuar acobertando o fato. Foi afastado do exército em 1974, mas surpreendentemente reintegrado à Sociedade no ano de 1976. Não conseguiu nenhum analista-didata que o atendesse, o que conota a perversão institucional, pois foi mantido por anos em formação, mesmo assim, apesar de tudo. Entretanto, qual mistério maior que a intenção da SPRJ em acobertá-lo? Kupermann (1989/2014) enfatiza a reprodução micropolítica de uma sociedade autoritária e ditatorial no seio da formação psicanalítica, onde nada se podia dizer, onde a suposta “neutralidade” clínica era a desculpa para a maioria sucumbir ao silêncio da época de chumbo. A SPRJ o manteve praticamente em “banho-maria”, em análise com Galina Schneider, que não era didata, levando Lobo a interromper sua análise apenas em 1980, já que nunca mais conseguira um analista-didata.

Esse também foi o ano em que Hélio Pellegrino e Eduardo Mascarenhas, membros da SPRJ, vieram a levantar novamente a denúncia contra Lobo e, principalmente, contra a SPRJ que o acobertava, em artigo intitulado “Os barões da psicanálise”, publicado no Jornal do Brasil. Na mesma época, no processo de reabertura democrática, a torturada Inês Etienne Romeu, recém-anistiada à época, e única sobrevivente da Casa da Morte – casa em Petrópolis onde “Dr. Carneiro” a “atendeu” – trouxe o caso novamente à baila. Tornara-se impossível manter o silêncio perverso e apolítico sobre o caso. Diga-se de passagem: Inês é prima de primeiro grau de meu pai. Em torno de 1982, ela nos visitou e contou a toda família as atrocidades que viveu. Seu relato reverbera na história da família e, ainda mais, como heroína da resistência na memória brasileira de gauche.

O caso desse ‘torturador na história da psicanálise’ teve e tem repercussões em diferentes âmbitos. Numa primeira camada, a mais evidente, da perversão humana sórdida, trata-se de um médico em formação psicanalítica contribuindo diretamente para a tortura. Numa segunda camada, talvez ainda mais grave, acentuada por Kupermann (1996; 2014), está a anuência da Sociedade Psicanalítica não só com a ação mas também com continuidade da formação psicanalítica do médico-torturador por anos, inclusive encobrindo seus atos perante a International Psychoanalitical Association. A terceira camada, mais sutil mas não menos importante, está ligada às reverberações inconscientes do autoritarismo e suas expressões pulsionais não só na história, mas no presente, através do sintoma apolítico que muitos psicanalistas e muitas sociedades ainda sofrem (diga-se de passagem: ao qual estamos sempre sujeitos).

Moreira et al. (2014) acentuaram esse caráter apolítico da suposta neutralidade do analista de Amílcar Lobo, Leão Cabernite, que conseguiu obter a chancela de Serge Lebovici, então presidente da IPA, ao alegar que as denúncias contra Lobo eram caluniosas. Estranhamente, um Leão (analista didata) defendendo um Caneiro (médico-torturador candidato a analista): fábula de uma perversão instituída, conforme a gramática inconsciente – entre leões, lobos e carneiros – analisada por Kupermann (1996; 2014). O sintoma apolítico também se pronunciava no silêncio de outros membros da sociedade psicanalítica, na medida em que nada se podia dizer sob a pena de uma sanção. Ora, Helena Bessermann Vianna não só foi investigada quanto punida pela SPRJ, além de ter corrido risco de vida por ameaçar os verdugos do Exército. Pellegrino e Mascarenhas foram expulsos da Sociedade. Assim, o aparato de tortura e a perversão na psicanálise eram abafados enquanto os denunciadores perseguidos.

O que nos interessa rever, portanto, principalmente dessa história? Ora, se a pulsão circula por espirais regressivos que paradoxalmente tendem a se mover adiante, necessariamente temos que nos haver com os erros do passado e rediscutir a dúvida sobre a possível convergência entre psicanálise e política. Afinal, quantas situações bizarras, semelhantes e/ou divergentes, em diferentes graus, ocorreram e ocorrem constantemente no vivo do processo de institucionalização da psicanálise e, evidentemente, em cada sujeito orientado pela psicanálise, em cada grupo e na sociedade em geral? É evidente que o sintoma apolítico, além de representar uma clivagem do ethos coletivo, retorna do recalcado nas dimensões do desmentido, do silêncio e de uma perversão banalizada na intensificação das práticas determinadas pelas pulsões parciais, emergentes no cenário coletivo atual. Dou exemplos precisos. Em relação à clivagem enquanto psicopatologia do social, vimos atualmente o “inferno” do ódio eclodir em redes sociais de todo planeta, estimulado principalmente pela política invasiva de Facebook, Twitter, etc, gerando divisões severas em inúmeros países ao redor do globo. Esse fenômeno da liberação de um ódio sintomático, de algum modo, gerou uma divisão de toda a sociedade entre “conservadores”, “progressistas” e “isentos”. Nenhum grande problema, caso se tratasse de um mecanismo promotor de debates francos e honestos.

Ocorre que essa liberação catártica das diferenças nas redes foi acompanhada de um processo político pensado e amplamente explorado por certos setores da sociedade civil – por exemplo os think tanks –, assim como financiado por supremacistas brancos4, promovendo a manipulação de eleições e referenduns por todo o planeta. Todos conhecem o escândalo da ligação entre as empresas Cambridge Analytica e o gigantesco roubo de dados no Facebook. Informações públicas e privadas de cidadãos do mundo inteiro foram manipulados e usados via invasão de contas da setorização de “persuasíveis”5, visando o envio de fake news a esses sujeitos mapeados como altamente influenciáveis. Tratava-se de bombardear milhões de pessoas cujo conhecimento político era restrito, preconceituoso ou simplesmente crentes e conservadores, notícias falsas extremamente comprometedoras a respeito dos adversários políticos de esquerda (minorias étnicas, Queer Theory, coletivos feministas, defensores de direitos humanos e sociais, etc). Toda essa armação criminosa gerou um revigoramento da extrema-direita em diversos países (Brexit, eleição de Trump, Bolsonaro, etc)6, já que diversas eleições foram injustamente forjadas com financiamento escuso, mentiras, uso de algoritmos sofisticados, de dados proibidos, o que conota a desigualdade de condições dos competidores bem como a desonestidade inédita dos produtores, cognitivistas e marketeiros envolvidos nas fraudes.

Um dos eixos da estratégia ultra-conservadora era gerar o caos e a anomia social, suscitando a perplexidade e ódio contra os oponentes. Dou destaque para a eleição do atual presidente brasileiro, que continua usando a estratégia da inversão da verdade, do choque e da desestabilização cultural. Ele pronunciou, abertamente, inúmeros impropérios, como: “Não te estupro porque você é feia (referindo-se a uma deputada)”; “Tem que matar uns 30 mil” (referindo-se aos “comunistas”); “Índio não tem que viver no jardim zoológico” (referindo-se ao modo de vida de nossos povos ancestrais já tão castigados por genocídios; “Preferiria que meu filho morresse do que fosse gay”, etc, etc, etc. Para não deixar de exemplificar uma falsa-notícia de alto impacto: imagens editadas e espalhadas de modo viral por robôs, com feministas arrancando a roupa, enfiando o crucifixo na vagina e absurdos do gênero, que acabaram por desqualificar o movimento feminista e sua postura “ele não”, contra Bolsonaro. Outra notícia-falsa foi a mentira altamente aceita de que o antigo ministro da Educação, Fernando Haddad, concorrente à presidência, havia distribuído “mamadeiras de piroca” (em que o bico teria o formato de pênis) para as crianças nas escolas.

Mas, o mais grave foram as declarações laudatórias acerca da tortura, inclusive desmentindo a existência da Ditadura Civil Militar no Brasil de 1964 a 1984. A declaração mais peremptória de seu apreço à tortura foi quando homenageou o General Brilhante Ustra, torturador de Dilma Roussef, no momento da votação do Impeachment de nossa presidenta eleita, destituída por um golpe jurídico-parlamentar conchavado durante anos pelo por parlamentares das ditas bancadas do boi, da bíblia e da bala. Embora a luta de resistência ainda seja forte, a cultura brasileira passou a sofrer novamente com o terror do retorno do recalcado da tortura. No momento da posse do atual presidente, ele expôs o livro do torturador Ustra e, durante toda a companha presidencial, usou o gesto da mão em forma de arma para dizer que iam acabar com os “comunistas”, “esquerdistas”, considerados “bandidos defensores de bandidos”. Produziu-se, assim, a distorção de que defensores de direitos humanos, são defensores de bandidos, logo são bandidos, construindo o pior silogismo falso da história do pensamento conservador brasileiro.

Os ataques constantes por parte dos adeptos das políticas conservadores e/ou neoliberais, apoiados por boa parte da sociedade civil (cerca de 20% do eleitorado) geraram um medo devastador naqueles que foram visados como subversivos e esquerdopatas pela hipocrisia da nova narrativa hegemônica de ultradireita. O outro, o diferente, passou a dever ser eliminado. O conjunto dessas afirmações e ameaças, por sua vez, voltou a produzir certo silêncio, conivente em alguns, paranoide em outros. E a psicanálise, evidentemente, se dividiu nesse mesmo espectro. Mas o que a psicanálise ou os psicanalistas têm a dizer sobre isso tudo? Chegamos aqui no cerne de nosso argumento.

Independente do contexto brasileiro, o sintoma apolítico reverbera partout, inclusive na psicanálise, haja vista a condição universal do inconsciente. Essa clivagem perversamente induzida fez reviver o temor de novos totalitarismos e acabou por afetar a macropolítica no mundo todo. Ressurgiu então a velha discussão presente no campo da psicanálise: seria possível a um psicanalista se envolver explicitamente em política? Até que ponto a neutralidade e o silêncio seria um sinal de que nos acovardamos e cedemos de nosso desejo? Em questões políticas graves, a neutralidade não seria a roupagem da conivência?

No Brasil, várias sociedades se manifestaram contra inúmeros desmandos e decretos que levaram a graves perdas de direitos desde a eleição de Jair Messias Bolsonaro. Devemos dar o devido destaque para o coletivo Psicanalistas pela Democracia7, envolvendo diversas sociedades, no Brasil e em Paris, no intuito de revelar ao mundo o horror que os brasileiros vêm passando. Deveriam se calar?

Mas a necessidade de os psicanalistas falarem em nome próprio e em nome da psicanálise que os constitui, também surgiu em outros contextos. No mundo todo, recentemente, desde a eclosão do movimento Me Too, vimos uma enorme onda de disputas e dissenções em relação a denúncias ligadas à violência sexual contra as mulheres, que atingiram produtores de cinema de Hollywood, partidos políticos, universidades e, inclusive, psicanalistas. O que fazer quando o sujeito violento é o colega ao lado? Como adotar uma postura ética sem que essa ética se transforme em uma ética de Antígona? Não pretendo aqui entrar nos detalhes do calor de discussões explicitadas em corredores, mídias sociais e até na mídia oficial. Ademais não se pode falar do que não se sabe, de modo que seria impossível imputar a obrigação de denunciar para quem não está no vivo de uma situação de violência. O que sabemos é que alguns setores da psicanálise “torcem o nariz” quando algum corajoso de plantão assume suas posições e denuncia situações de violência na política ou na própria psicanálise.

Na França, em 2018 e 2019, os psicanalistas que se assumiram como gilets jaunes, logo, contra o governo, foram bastante criticados por “misturar” psicanálise com política. Mas seria possível viver enquanto psicanalista sem falar das mazelas que acometem a sociedade? Pessoalmente, no momento em que vivemos o “golpe branco” de 2016 no Brasil, eu mesma tive a necessidade de falar e contestar publicamente o absurdo político que vivíamos. Naquele momento, por medo, ponderei sobre ser preferível perder a condição de psicanalista do que viver como um “morto-vivo” apolítico (ARREGUY,2017). Afinal, o sintoma apolítico está sempre presente no campo psicanalítico. Daí a atualidade da história de um torturador imbricada com a história da psicanálise. E para combater a repetição compulsiva dos erros do passado, cabe àqueles que escutam, em determinadas situações, jamais calar.

 

 

1 Texto apresentado no Colóquio Internacional da Fondation Européenne pour la Psychanalyse, intitulado El psicoanálisis: historia y actualidad, realizado em novembro de 2019 no Ateneo de Madrid, organizado por Cristina Jarque, e apresentado na versão espanhola, não publicada, com financiamento parcial da CAPES (diárias) e autofinanciamento de passagem.

2 Psicanalista; Professora Associada do Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense; Professora-convidada na École Doctorale de Recherches en Psychanalyse et Psychopathologie – Université Paris Diderot. E-mail : mariliaetienne@id.uff.br

3 Vide o relato do próprio, publicado no final da década de 80: Lobo, A. (1989). A hora do lobo, a hora do carneiro. Petrópolis: Vozes.

4 Vide artigo publicado por Lee Fang no The Intercept Brasil em 11/08/2017, revelando toda a imbricação entre as
estratégias da extrema direita com a nova juventude política mundial, os think tanks (cerca de 450 espalhados no mundo), e financiados pelos bilionários conservadores, os Irmãos Kock: https://theintercept.com/2017/08/11/esfera-deinfluencia-como-os-libertarios-americanos-estao-reinventando-a-politica-latino-americana/ (acesso em 11/10/2019).

5 Ver o documentário original da Netflix (dirigido por Karim Amer e Jehane Nouaim, 2019): Privacidade Hackeada.

6 Idem nota 4.

7 Vide dados sobre o coletivo Psicanalistas Unidos pela Democracia – PUD, cuja constituição está descrita em
http://tecmered.com/psicanalistas-unidos-pela-democracia-uma-promessa-possivel/ ; Ver também o coletivo
Psicanalistas pela Democracia: https://psicanalisedemocracia.com.br/ .

Referências Bibliográficas

ARREGUY, M. E.. Receitas pseudopedagógicas para infantilizar a cultura. Estudos de Psicanálise. Belo
Horizonte , n. 47, p. 25-33, jul. 2017. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S0100-34372017000100003&lng=pt&nrm=iso> . (acesso em 11 out. 2019).
COIMBRA, C. (1995). Guardiães da ordem. Rio de Janeiro: Oficina do Autor.
Emiliano, José. “O lobo, o carneiro e a psicanálise”. Carta capital. 12 de fevereiro de 2014. Disponível
em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-lobo-o-carneiro-e-a-psicanalise-169/ (acesso em
8/10/19)
KUPERMANN, D. (2014). Transferências cruzadas: uma história da psicanálise e suas instituições (2a ed. rev.)
São Paulo: Escuta. Texto original publicado em 1996 (Editora Revan).
MOREIRA, L. E. V; BULAMAH, L. C.; KUPERMANN, D. Entre barões e porões: Amílcar Lobo e a
Psicanálise do Rio de Janeiro durante a ditadura militar. Analytica, São João Del Rey, v. 3, n. 4, p. 173-
200, janeiro/junho de 2014. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S2316-51972014000100009 (acesso em 8/10/19)
VIANNA, H. B. (1994). Não conte a ninguém… Rio de Janeiro: Imago.
________, H. B. (1997). Politique de la psychanalyse face à la dictature et à la torture. N’en parlez à personne. Paris: L’Harmattan.
________, H. B. (1998). No se lo cuente a nadie. Buenos Aires: Polemos.