O impeachment da palavra aos bolsonaros, por Paulo Endo

 

Imagem: Leon Ferrari (Museo Haroldo Conti/Argentina)

 

       No dia em que Lula foi preso estava em frente ao sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo do Campo. Como eu, muitos que estavam ali viram o fim de um ciclo que se iniciava com um metalúrgico no poder e terminava com um miliciano. Ciclo que de certo modo concluía em todas as fases de seu processo-desde o impeachment, passando pela prisão do principal candidato às eleições e findando com a eleição do atual desgoverno- o descrédito às urnas, à constituição e à democracia. Antes e apesar de Sarney, Color, FHC, Itamar Franco jamais vimos, como hoje, tanta monstruosidade cometida por alguém que alcançara a presidência do país no período democrático. Ao longo de poucas décadas testemunhamos também a hesitação das instituições brasileiras que em qualquer lugar do mundo são a tábua de salvação da democracia e são, por isso mesmo, respeitadas e protegidas, revelarem-se claudicantes, demoradas e incertas. Aqui elas tardam e falham e chegam, não raro, após deposição de presidentes; ataques a constituição consumados; morticínios em massa executados de forma explícita e não assumida por governos.

       Qualquer um que resguarde a capacidade de discriminar entre decência e atrocidade; tirania e democracia; solidariedade e indiferença vê, até arder os olhos, que um massacre se encaminha e é realizado todos os dias no país.

       Vimos um processo inteiro de impeachment ser consumado passo a passo com requintes de abusos ilegais e golpistas e serem liderados pelo ex-criminoso e ex-deputado Eduardo Cunha. Nem câmara, nem Supremo Tribunal, nem Procuradoria Geral da República foram céleres para impedir que tal figura nefasta consagrasse o rito. O criminoso, hoje com sua tornozeleira eletrônica, foi impedido de exercer funções públicas e enjaulado, porém goza de liberdade e de uma vida parecida com a que tinha antes da prisão. Não é apenas impunidade é escárnio. Um dos artífices do fim da incipiente e defeituosa democracia brasileira, enfim, não arcará com as consequências do que fez.

       Nenhum poder da República pôde dar fim a esse descalabro. Ao contrário, o parlamento obedecia e negociava enquanto o STF se omitia e hesitava aguardando as “providências internas” do parlamento que jamais vieram, senão
no apagar das luzes. Dilma Roussef, como todas e todos hoje sabemos, foi deposta de seu cargo sucedida por uma figura das mais omissas e deletérias que o Brasil conheceu: Michel Temer. As instituições brasileiras assistiram de camarote, como também promoveram o longo espetáculo dantesco e televisionado no qual um juiz de primeira instância, sobejamente mal intencionado, parcial e suspeito liderou, com requintes de crueldade e excesso de soberba, a condenação sem provas de um ex-presidente após 528 dias de prisão, a morte do irmão, da esposa e do neto.

       Michel Temer surpreendentemente ainda é ouvido pela mídia tradicional brasileira, e a ele ainda se dá vez e voz. Como fez durante o período que ocupou o cargo de presidente, hoje emite frases impressionantemente pusilânimes as quais se dá grande atenção midiática. Como quando foi perguntado sobre a situação política na pandemia e o impeachment: “Nessa pandemia, um processo assim só agravaria tudo ao inflamar a política. Melhor aguentar até o fim”, recomendou o oráculo Michel Temer. (Leia mais em: https://veja.abril.com.br/blog/radar/temer-aprova-congresso-protagonista-mas-sem-impeachment-de-bolsonaro/).

       Ou comentando sobre o possível recuo de bolsonaro diante da crise das vacinas:

“Nunca é tarde demais e é um sinal positivo.”
(https://eldorado.estadao.com.br/audios/programas/jornal-eldorado/bolsonaro-faria-muito-bem-se-dissesse-que-vai-tomar-vacina-e-pedisse-aos-brasileiros-que-fizessem-isso-diz-michel-temer,1160430?utm_source=twitter:newsfeed&utm_medium=social-organic&utm_campaign=redes-sociais:032021:e&utm_content=:::&utm_term=)

       Como e porque a mídia dá espaço a um dos maiores artífices do descalabro que vivemos? E mais, porque divulga frases suas sem qualquer sentido e senso crítico sobre bolsonaro. ‘Vamos aguentar’, ‘é um sinal positivo’. Com que desfaçatez alguém que teve o papel histórico de iniciar o fim do processo democrático brasileiro ainda contribui para proferir mentiras ao lado de quem desgoverna o país? Ao invés de apenas reproduzir a imprensa o que diz Temer, não deveria denunciar? Relembrar seu papel na história recente do país? Indicar todos os direitos que foram retirados durante sua gestão? Não o que ocorre é apenas a reprodução da fala de um ex-presidente.

    Do mesmo modo que sabemos que bolsonaro jamais mudará seus pendores cruéis e assassinos; jamais se preocupará com aqueles que supostamente deveria cuidar e jamais protegerá as brasileiras e brasileiros dos abusos e violações que ele mesmo insufla e comete. A evidência absoluta disso deve ser afirmada e não escamoteada.

       A imprensa tradicional é hoje a principal divulgadora das fake news de bolsonaro quando alardeia:

“Bolsonaro muda tom e sanciona compra de novas vacinas”
(https://www.cnnbrasil.com.br/politica/2021/03/10/bolsonaro-muda-tom-e-diz-que-brasil-tera-400-milhoes-de-doses-de-vacina-em-2021)

       Contudo a divulgação das fake news pela imprensa tradicional vai além quando titula sua matéria:

‘Bolsonaro recua e diz que Forças Armadas estão comprometidas com democracia’ (https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2021/01/21/bolsonaro-recua-e-diz-que-forcas-armadas-estao-comprometidas-com-democracia.htm)

ou
“Bolsonaro recua e nega intenção de comemorar golpe.”
https://istoe.com.br/bolsonaro-recua-e-nega-intencao-de-comemorar-golpe/

       bolsonaro jamais acreditou que as forças armadas deveriam estar comprometidas com a democracia. Disse isso de muitas e diferentes maneiras durante seu mandato como deputado, durante a campanha presidencial e após assumir o desgoverno além de tentar o autogolpe sem pestanejar.( https://piaui.folha.uol.com.br/materia/vou-intervir/). Dar ouvidos e divulgar isso é dar fôlego para a campanha de mentiras deflagrada desde 2019 e acreditar nelas.

       O que no que disse e fez bolsonaro não foi compreendido?

      A imprensa tradicional brasileira- que apoiou o impeachment, sustentou a sucessão de Temer e calou-se durante o primeiro período do governo bolsonaro, também jogou fachos de luz sobre a performance sensacionalista do juiz suspeito e desmoralizado Sergio Moro. Mesmo assim ainda é fundamental para o estancamento da destruição de pessoas, corpos, princípios e das liberdades ainda vigentes. Ainda é fundamental para que ela mesma – a imprensa tradicional – não seja reduzida a pó e obediência se um segundo mandato bolsonaro acontecer.

       Hoje todos sabem qual será a consequência imediata de um eventual segundo mandato bolsonaro: o fim de toda a liberdade no país e a imprensa, obviamente, será a primeira a cair, conforme prometido, sem mesuras, desde o início do mandato pelo líder do desgoverno. Hoje, tornou-se quase vergonhoso dizer-se bolsonarista, mas em 2019  e 2020 não era assim. A suposta polarização comparativa, que jamais existiu entre governos, ainda ocorria nas redes sociais, nas famílias e amigos e nas ruas.

       A imprensa, ainda hoje, noticia os atos cruéis e violentos de bolsonaro; suas falas inapropriadas e sem princípios; suas performances baldias e sem sentido como atos do presidente. É inacreditável que a imprensa que reivindica para si o posto de mais verdadeira, crível e fonte principal de notícias – em oposição às redes sociais- ainda não se dê conta do malefício que provoca quando trata um facínora de presidente.

       Não importa que as urnas o tenham levado a tal posto, ele não honrou as urnas; não importa que a legislação brasileira e seus tribunais sejam incompetentes para retirá-lo de lá, os mortos já se esparramam pelos hospitais, contêineres e logo nas ruas destruindo vidas de pessoas e seus familiares; não importa que as mídias ainda teimem em noticiá-lo como presidente, governante, ele jamais foi digno de assim ser nomeado como tal porque suas ambições ditatoriais e tirânicas são bem outras. Na prática o atual desgoverno é o que assiste, incentiva e permite que centenas de milhares de brasileiras e brasileiros sejam ceifadas de suas vidas. Na prática ele, e os que o acompanham, são potenciais matadores em série de milhões de pessoas que hoje perderam a esperança, o emprego e a vida, sem horizonte para recuperá-los enquanto esse desgoverno viger.

     Denominá-lo presidente é como denominar de líder alguém que saca sua arma deliberadamente e atira contra uma população desarmada, apenas com o intuito de divertir-se com isso e, após o massacre, considera isso seu grande feito. Vimos o ex-bolsonarista Witzel fazendo isso não nauseante cena do helicóptero que atirava contra a população no morro do alemão em agosto do ano passado. (https://jornalggn.com.br/noticia/consideracoes-sobre-witzel-o-genocida-e-o-uso-politico-das-investigacoes-por-luis-nassif/). Não se trata dos 30 mil que ele desejava ter assassinado no passado; são as mais de 300 mil vidas que ele continua devastando e as outras que ele pretende atingir.

       Nomear as coisas como são é parte do ofício do jornalista e hoje mente quem chama bolsonaro de presidente; mente quem lhe dá palco e ouvidos reproduzindo suas falas estapafúrdias e ruidosas; mente quem divulga suas ofensivas e criminosas atitudes como ‘políticas de governo’ e se alia, sem o saber talvez, a parte da população mergulhada em seu hipnotismo mórbido, contribuindo para criar a miragem de que temos um governo e um governante.

      Mesmo que não haja impeachment; mesmo que ele e sua horda não sejam tão cedo responsabilizados; mesmo que o STF não o criminalize é preciso destituí-lo da língua; deixar de admitir que um sujeito assim possa ser denominado presidente; combate-lo desalojando-o do direito de ser denominado governante, presidente, pessoa e cidadão. Estamos diante de uma monstruosidade incapaz de ceder uma vírgula em sua linguagem chula, violenta e vazia; em seus espetáculos patéticos de galhofa e escárnio e para quem 300mil mortos não significam absolutamente nada.

       É tempo de bolsonaro decair da linguagem. É preciso fazer apeá-lo da língua e ser denominado pelo que sempre quis ser e continua querendo: uma criatura que defende os piores crimes contra a humanidade; que obstaculiza todas as tentativas para salvar vidas e que pisa sobre os cadáveres sobre os quais ainda choram as famílias brasileiras. Isso contudo, também sabemos, é pouco e ele ambiciona muito mais. Ele ainda é aquele que apoia a tortura e quer vê-la se alastrar; que ataca os direitos humanos e todas e todos que estão sob sua guarida: indígenas, negros, mulheres e toda a comunidade LGBTQIA+ que sempre foram por ele atacadas com ódio, desprezo e violência. É o que se retira do grupo de nações que trabalham para a construção de um mundo, que ainda não se soergueu da moralmente da segunda guerra mundial.

       A palavra presidente, governante, líder, são impróprias, inadequadas, indigentes para nomeá-lo e a imprensa, ao insistir nisso, peca contra todas as brasileiras e brasileiros.

       Em nome da vida, que se preserva, dos que lutam por ela e das pessoas que não querem morrer e nem obedecer já é a hora de nomear os bolsonaros pelo que são: uma horda que fez do Brasil o quintal de suas crueldades. Insistir em designá-lo presidente é fomentar, gerar e manter uma fake news que os ainda lúcidos, há muito tempo, não creem mais e denunciam todos os dias. Não temos presidente, não temos governo! É preciso ter coragem para rebatizar o que invadiu o governo para destruir a vida de pessoas.

       Sem o impeachment parlamentar, paralisado por uma maioria de congressistas que assiste e estuda como tirar vantagem do caos, nos resta apeá-lo da língua, não reconhecê-lo e desautorizá-lo a falar como presidente do Brasil. Genocida, criminoso, assassino, monstruosidade… Escolha-se qualquer qualificação, todas serão melhores e mais apropriadas que a de presidente.

 

Paulo Cesar Endo
Psicanalista, pesquisador e professor Livre-Docente da Universidade de São Paulo
Pós-graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades (FFLCH-Diversitas)
Coordenador do Grupo de Pesquisa em Direitos Humanos, Democracia, Política e Memória do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP)
Instituto de Psicologia(IPUSP)

Psychoanalyst, researcher and associated professor at University of São Paulo
Post Graduate Programm on Humanities, Rights and Other Legitimacies
Head of the Research Team on Human Rights, Democracy, Politics and Memory  (Advanced Studies Institute)
Institute of Psychology