O mal-estar da vacinação, por Vera Rodrigues

O mal-estar da vacinação
     O que poderia ser motivo de celebração, após um ano duríssimo e de muitas perdas, tem se tornado objeto de disputas internas, também no campo da esquerda.
     Os deslocamentos que vêm sendo operados são tamanhos que, ao invés da luta por vacinação em massa e por quebra de patentes, instalou-se o que o infectologista Paulo Lotufo chamou de “lavajatismo das vacinas”.
     Somos o pior país do mundo na gestão de pandemia, de acordo com o estudo do Lowy Institute, da Austrália, que analisou 98 países. Temos uma política institucional de propagação do vírus, conforme conclui a pesquisa coordenada por Deisy Ventura, junto à Faculdade de Saúde Pública da USP e à Conectas Direitos Humanos.
     Ao mesmo tempo, o SUS acumula décadas de experiência nos Planos nacionais de imunização, com priorizações definidas a partir de critérios epidemiológicos que sempre funcionaram. E, apesar de toda a política de desmonte da saúde pública – o que abrange a militarização do ministério da Saúde, do SUS e também a asfixia de investimentos em pesquisas, a desvalorização das universidades e da ciência – pesquisadores, cientistas, instituições como Fiocruz e Butantan conseguem desempenhar uma função crucial nessa pandemia.
     Após rejeitar contratos com laboratórios, boicotar a própria ideia de vacinação, defender e produzir, com recursos públicos, medicamentos ineficazes à Covid e trabalhar abertamente a favor da contaminação de um número cada vez maior de pessoas, o governo federal leva a cabo uma política de vacinação em migalhas.
     Com esse cenário, é espantoso que as discussões estejam focadas nos critérios para vacinas que atendem 3% da população, a ponto de uma parlamentar do PSOL ter apresentado projeto de lei, sem consultoria da área da saúde, para reinventar a roda das prioridades, deixando a população acima de 60 anos em décimo primeiro lugar, quando quase 80% dos óbitos ocorrem nessa faixa etária.
     À exceção de trabalhadores da saúde e de cemitérios – critério utilizado pela cidade do Rio – o raciocínio que pretende hierarquizar profissões é, a meu ver, profundamente equivocado. Como se determina que garis são menos importantes que professores ou motoristas de ônibus, por exemplo? Se todas as profissões são equivalentes, todas são prioritárias. Se todo mundo é prioritário, ninguém é. O recorte – que não precisaria ser feito, caso tivéssemos vacinas suficientes – tem que seguir o rastro da palavra morte. Para evitar a escalada de óbitos, as pessoas acima de 60 anos (13% da população), sejam aposentadas ou não, precisariam estar imunizadas. Que não tenhamos vacinas sequer para cobrir esses 13% é um escárnio que comprova a política genocida.
     Não bastasse a falta de uma política nacional para vacinação e para a contenção da pandemia, descobre-se um movimento reacionário de desvalorização de profissionais da saúde, com foco na psicologia, conforme escancarou um artigo de Marcelo Coelho na FSP, que a psicanalista Maria Sílvia Borghese acertadamente qualificou como leviano e irresponsável.
     O estereótipo que ele e outros fazem da área – dada a repercussão do artigo – é vexatório. Desde o início da pandemia, essa foi uma das primeiras categorias a se organizar em rede, para atendimento voluntário e permanece trabalhando intensamente com casos graves inclusive, dado o esgarçamento do tecido social, os lutos sem rituais, o sofrimento psíquico impingido pelo cenário que descrevi no início desse texto. Eleger essa categoria como a “fura-fila” das vacinas e a vilã do genocídio revela, mais que ignorância, desprezo pelo campo da saúde mental.
     Não é por acaso que profissionais de saúde constam das prioridades do mundo, numa campanha de vacinação. Na Europa, alguns países chamaram também os aposentados. Trata-se da força de trabalho que sustenta os cuidados necessários à sobrevivência física e psíquica das populações. Aqui, é numericamente irrisória a quantidade de profissionais de saúde, acima de 60 anos, que foram convocados a se vacinar. Mesmo assim, muitos(as) estão na ativa, desde o início da pandemia, e têm tido impacto, no seu trabalho permanente.
     Graças a uma luta política histórica contra a hegemonia médica, com consequências bem analisadas por Foucault, Basaglia dentre outros, a OMS reconheceu e equiparou nesse campo da saúde outras profissões para além de médicos e paramédicos (nutricionistas, biólogos, professores(as) de educação física, dentistas, assistentes sociais, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, farmacêuticos, veterinários e também psicólogos/as).      Muda-se o conceito de saúde, ampliando a noção de ausência de doença para o estado de bem-estar físico, mental e social. Trata-se de uma conquista importante, um divisor de águas que não pode correr risco de retrocesso.
     Que a psicologia esteja sob ataque, com a falsa alegação de que o atendimento online dispensa a necessidade de vacinas é bastante sintomático dos tempos que vivemos. Por essa lógica, várias outras profissões, inclusive parte dos médicos, tb dispensariam essa necessidade. É esse o caminho que se pretende seguir?
     É igualmente falso que todas e todas estejam “no conforto do seu lar” e que é tranquilo o atendimento online. Não é. É uma adaptação árdua, que precisou ser feita para evitar contágios. E nem todos/as possuem a privacidade imprescindível a um atendimento. Além disso, existe a necessidade, como também apontou M. Sílvia Borghese, de atendimentos presenciais e não se trata de um “trabalho cosmético”, bem ao contrário.
     Além do deslocamento das questões principais (vacinação em massa e quebra de patentes) essa discussão que despreza o campo da saúde mental é um dos maiores retrocessos políticos que presencio, em décadas de profissão.         Só poderia ter espaço num governo genocida e fascista.