Capitólios, capitães, contaminações: uma mãe, uma filha e todas as mentiras. Por Edson Luiz André de Sousa

Helena Duke tem 18 anos e mora em Charlton, Massachussets. Sua mãe a proíbe de ir à manifestação do Black Lives Matter, preocupada, aparentemente com a violência. Mente para filha que está indo a uma consulta médica, e vai participar da manifestação insuflada por Donald Trump, que invadiu o Capitólio, em uma ameaça escancarada a democracia. A filha leva um susto ao ver a mãe, Therese Duke na televisão, envolvida em uma briga ao tentar arrancar o celular de uma policial , sendo então agredida com um soco. Curiosamente esta cena acontece na praça que foi nomeada “Black Lives Matter”, na frente do congresso em Washington. Indignada, a filha reage à imagem que vê comentando as cenas filmadas que circulavam pela internet.

“Oi, mãe. Lembra de quando você me proibiu de ir aos protestos do Black Lives Matter porque poderia ter violência? Essa aí não é você?”, escreveu Helena. Acrescenta ainda o seguinte comentário: “É muito hipócrita da parte dela me expulsar de casa por participar de protestos pacíficos e no fim participar disso, que claramente era um ataque violento ao Capitólio, e ainda acabar brigando com uma policial”.

Esta mãe, é uma marca do tempo de perigo que vivemos, pois evidencia com seu ato a palavra deteriorada, implodida, enfraquecida. A paixão pela violência como uma recusa a linguagem. Estamos testemunhando diariamente com indignação, figuras públicas em cargos de poder mentindo descaradamente, falando os maiores absurdos, dizendo e negando logo depois o que disseram. São milhares de pessoas aturdidas que ouvem este ruído perverso oferecendo-se em sacrifício por uma causa que nem sempre sabem exatamente qual é.

Estamos vivendo uma situação desesperadora. Mais de 210 mil mortes no Brasil vitimas da pandemia, mais de mil mortes diárias nos últimos dias, milhões de infectados e muita gente continua nas ruas sem mascaras, sem os cuidados básicos de proteção, fazendo a festa para o vírus, uma festa para a morte. Manaus, o pulmão do Brasil e do mundo, sem oxigênio nos hospitais escancarando um país estrangulado, asfixiado por uma necropolítica cruel. As vacinas chegando a conta gotas, fruto de uma negligência criminosa, pois nesta pandemia vacina significa vida. No dia 11 de janeiro, em meio a discussão sobre a segurança para os milhares de estudantes inscritos para a prova do Enem, morre vitima da covid, justamente o general que coordena o exame do Enem. Quando nem mesmo o real da morte faz marca na condução destas diretrizes estamos efetivamente sem rumo, ou melhor, rumando para o pior.

Nos 750 dias no governo, o capitão fez 2329 declarações falsas ou distorcidas É admirável o trabalho de uma equipe de jornalistas checando todas elas e mostrando com argumentos as inconsistências. Fazem inclusive um index por temas e datas. O trabalho de desmontar a maquinaria das fake news é hoje fundamental para a saúde pública e para nossa sobrevivência. Segue o link do site com este trabalho, um documento para a história do Brasil.

https://www.aosfatos.org/todas-as-declara%C3%A7%C3%B5es-de-bolsonaro/

Estamos em maus lençóis como diz o ditado. Difícil dormir em paz. Vamos precisar juntar forças e recuperar minimamente uma confiança na palavra. Absurdo ter que lembrar que a vida deveria ser nosso bem maior. No Brasil, neste momento, ainda estamos longe disto.