Furos na memória – por Edson Luiz André de Sousa

 

Regina José Galindo, artista da Guatemala, concebeu em 2017 um vídeo com o título A Sombra. Na imagem deste trabalho vemos um tanque de guerra perseguindo a artista  em fuga, sempre com o tanque no seu encalço.  Esta é uma imagem possível do que estamos vivendo em nosso país nesta pandemia, com a diferença de que o tanque que nos persegue está literalmente nos esmagando. A pandemia que enfrentamos é dupla: do vírus que impõe suas lógicas de contágio e a da política que dissemina ainda mais  o contágio com suas lógicas de poder.  Padecemos da sombra de um apagamento da história que faz com que tenhamos que repetir indefinidamente as violências que marcam uma herança de desigualdade social com séculos de escravidão.  Somos um país com pouquíssimos memoriais. Os traumas seguem vivos por baixo da pele, pois ainda não encontraram um lugar de reconhecimento pelo Estado brasileiro. Não fosse assim, seria impensável elegermos alguém que enaltece um torturador e desdenha os traumas que sofremos no Brasil durante os 21 anos da ditadura civil-militar.

A pandemia escancarou de forma assustadora inúmeras feridas de nossa história e o roteiro deste filme trágico mais uma vez se repete: são sempre os mais vulneráveis que engrossam as estatísticas. Além de serem os que menos têm acesso aos serviços de saúde, são também os mais expostos à contaminação pelas condições de trabalho e transporte. Hoje já temos varias pesquisas mostrando este triste cenário. Estamos perdendo uma chance única de redesenharmos o mapa deste país diante de um vírus que é invisível no seu contágio, mas parece escolher a dedo os que serão condenados a morrer. Não acredito que poderemos sair deste cenário mais solidários sem uma política de Estado que construa caminhos para uma conciliação nacional, como aconteceu na África do Sul a partir da eleição de Nelson Mandela.  Uma conciliação não se faz com esquecimento e enterrando o passado. Ao contrário, é o trabalho de ler as cinzas lá onde estiverem, nomear e narrar estas feridas que teremos alguma chance de abrir novos futuros, como foi, por exemplo, o importante  trabalho da Comissão Nacional da Verdade aqui no Brasil.  Foi este também o princípio que norteou a invenção da psicanálise: abrir espaço de narrativas do trauma para poder interromper seu poder destrutivo e inaugurar outros horizontes de vida possíveis.

Temos visto inúmeras manifestações de solidariedade, articulações populares para fazer frente aos desafios deste tempo, movimentos estes que abrem espaços de esperança. Contudo tais gestos serão sempre insuficientes diante de uma lógica de vida que reatualiza a todo o momento os privilégios de poucos e que , como sabemos , são mantidos a ferro e fogo. A maquinaria da informação com as fake news que infectaram tantas consciências tem colocado, assustadoramente, até mesmo verdades científicas irrefutáveis em suspensão. Os espíritos estão armados e o slogan de uma arma na mão triunfou nas urnas. Curiosamente, o vírus adquiriu também o estatuto de arma, quando um toque de mão,  assim como um rosto sem máscara, tem o poder de  propagar a contaminação.

Sonhamos com um país melhor para se viver, onde a vida de todos deveria ser um valor inegociável. Contudo, dificilmente nos aproximaremos desta experiência se não nos conectarmos com nossos traumas, reconhecermos e nomearmos nossas vitimas,  abrindo assim espaços de respeito, tolerância e solidariedade.  Sem esta costura de um trabalho com a memória que nos constitui não acredito que, depois da pandemia, estes valores estarão garantidos.  Destaco como um analisador deste tempo as cruzes derrubadas em Copacabana na manifestação proposta pela ONG Rio da Paz em 11 de junho deste ano. Mesmo uma homenagem aos mortos pela pandemia foi vandalizada diante de um ato que deveria ser unânime, independente de posição política. O ritual fúnebre, o luto, o respeito aos mortos é um princípio civilizatório fundante da humanidade. Por sorte, entrou em cena nossa Antígona, na figura do taxista Marcio Silva, que recolocou as cruzes no lugar. Na areia de Copacabana, temos um pequeno mapa do Brasil com dois contornos possíveis:  destruição e reconstrução. Qual deles escolheremos?

Precisamos abrir urgentemente espaços para a esperança. Nosso pessimismo não precisa implicar paralisia mas sim um compromisso maior de interromper as repetições da história.  Como escreveu o escritor surrealista Pierre Naville em 1928 “é preciso organizar o pessimismo”.  Talvez um pessimismo crítico, que acione um dever de memória possa finalmente nos acordar.