Sobre o horizonte da subjetividade e da política em nossa época: Édipo em Colono e a função do desmentido – por Andrea M. C. Guerra

Se a tragédia de Édipo rei é uma obra exemplar, os analistas devem conhecer também este para além do drama que a tragédia de Édipo em Colona realiza (Lacan, 1985, p. 264).

 

O mito

O mito grego de Édipo, escrito pelo tragediógrafo Sófocles entre 441 a.C. e 401 a. C., ficou conhecido através das três peças da Trilogia Tebana: Édipo rei, Édipo em Colono e Antígona (Sófocles, 2001). A leitura das peças ou mesmo sua encenação mostram sua riqueza trágica, invocada como exemplar por Aristóteles (2008) na Poética. Talvez não ao acaso, a última peça produzida foi a segunda na trilogia, Édipo em Colono, escrita por Sófocles para se defender da acusação de senilidade feita pelo próprio filho e da qual saiu inocentado.

Curiosamente os psicanalistas se detiveram na primeira e na terceira peça, assim como muitos filósofos, sendo Édipo em Colono considerada, face aos recursos helenistas, uma peça com menos recursos literários, menos reviravoltas ou peripécias, mais melodramática que exatamente trágica e com uma dificuldade maior quanto ao movimento do reconhecimento em seu interior. Espetacular, vale-se, ao contrário das outras duas, de recursos externos e performáticos, como efeitos visuais e acústicos, e não termina num desastre, mas, sim, numa reconciliação do herói com os deuses através da redenção pelo sofrimento e do retorno à terra mãe, através de seu desaparecimento (Kury, 2001).

Numa proposta avessa à exortação de Édipo em Colono como exaltação do sofrimento expiatório, cujo fim poderíamos tomar como apoteótico e libertador, propomos tomar Édipo em Colono como paradigma da subjetividade de nossa época ao sustentar uma posição de desmentido face ao gozo interditado do qual usufrui, sem tomar para si o assentimento ou a responsabilidade pública pelas consequências de seu desfrute.

O desmentido

Édipo-rei ao longo da obra freudiana, mas especialmente da transmissão de J. Lacan, pode ser tomado sob três figuras: o complexo, o mito e o homem. Lacan elaborou ao longo de 25 seminários – salvo no Mais, Ainda (Lacan, 1982) – uma miríade de funcionalidades ao Édipo para a psicanálise num caminho em que ele comparece de maneira cada vez mais rarefeita. Na (des)construção que faz do complexo freudiano, ressalta sua operação minimal com o ‘reduzir-se aos olhos’ pela via da castração; do mito de Sófocles, ele o reduz à sua estrutura lógica; e do homem Édipo caminha até sua redução ao dito, Ledit. São sete modalizações, entre fórmulas algébricas e quaternários, e ao menos doze funcionalidades para o complexo do Édipo no interior desses seminários.

Elas estruturam essa operação de redução, indicando, a cada passo, que o mito, no final das contas, é uma construção secundária que serve ao recobrimento da falta originária com a qual cada ser falante precisa se haver para se humanizar, gozar de seu corpo e usufruir da vida coletiva. “Não há de verdadeiro senão a castração” (Lacan, 1977, p. 109). O que se detém do real é decantado, então, como castração pela via do mito edípico.

Por que nos determos em Édipo em Colono?

“Escolhi Édipo em Colona porque o efeito de tensão resulta, neste caso, da inversão operada pela segunda tragédia de Édipo no plano do reconhecimento da responsabilidade induzida pela primeira tragédia, Édipo rei. Essa inversão entre uma tragédia e outra equivale a um desmentido, feito pelo mesmo personagem, da acusação dirigida contra ele vinte anos antes” (Ricoeur, 2006, p. 93, grifo nosso).

Segundo Aristóteles (2008), toda tragédia se sustenta na ação, que pode ser simples ou complexa, quando for acompanhada de reconhecimento, de peripécias ou de ambos os movimentos. Em Édipo, combinam-se as duas categorias conjuntas: a da peripécia (peripeteia) – inversão da ação no sentido contrário – através da qual se realiza o reconhecimento (anagnorisis) – passagem da ignorância para o conhecimento, no sentido da amizade ou do ódio entre aqueles cujo destino é a felicidade ou a infelicidade. Essa forma de reconhecimento produz compaixão ou temor e conduz ao ser-feliz ou ao ser-infeliz.

O que gostaria de destacar, entretanto, numa atualização do valor da peça para o horizonte da subjetividade de nossa época, reside no intervalo entre Édipo-rei e Édipo em Colono. Com esse hiato, se completa o circuito do desmentido na segunda peça, o que o deixa não evidente, fora da cena. O desmentido é um mecanismo com múltiplas variações no texto freudiano (Drawin e Moreira, 2018), ainda que sempre diga respeito a recusar algo de que se tem a verificação, substituindo-se essa parte da realidade recusada por um objeto que a reafirma de maneira deslocada, produzindo uma cisão subjetiva.

O fetichismo seria seu ápice, mesmo que, em Freud, a recusa apareça relacionada a outras figuras, inclusive à neurose e à divisão constitutiva de todo ser falante. Verleugnung em alemão, a recusa da realidade no desmentido tem um grau de potência radical pela via da instituição desse objeto externo – fetiche – no lugar da realidade recusada, o que permite o escape face ao horror provocado pela falha do Outro que se constata (Fuks, 2016). Há, assim, no desmentido a afirmação de uma realidade insuportável e a subsequente recusa dessa parte da realidade. Uma primeira operação de inscrição da experiência (Warnehmungszeiche ou signo de percepção) é, então, seguida de um bloqueio de sua retranscrição (Unbewusstsein ou traço inconsciente) como memória conceitual no inconsciente, seguindo Freud (1995) na Carta 52. Há, então, a vivência do desmentido, pois a percepção não ganha registro inconsciente (Rabinovitch, 2001).

O entre duas peças é importante pois, nessa passagem, o objeto central do gozo parricida e incestuoso, que provoca horror e tensão, gerando angústia e a busca pelo saber, se desloca e desaparece, depois de sabido. O ato no qual culmina a primeira peça é exatamente o castigo que Édipo rei se impõe arrancando violentamente seus olhos ao se saber culpado. E o que subjaz na segunda peça, como seu anverso, é o gozo obsceno, deslocado da figura do herói, que assumirá, então, sua infelicidade.

Esse excedente de gozo, porém, não é contingente ao agir, ele é necessário. ” ‘No começo’ da lei há um certo fora-da-lei, um certo real da violência que coincide com o próprio ato de instauração da lei […], desmentido desse avesso da lei” (Zizek, 1992, p. 65). Longe de ser apenas uma espécie de redenção libertadora da verdade, Édipo em Colono é o sintoma de como Édipo-Rei traiu a verdade de sua própria descoberta. Por isso, seu gozo resta obsceno e sua face, semblante. “O efeito de verdade não é semblante. Está aí o Édipo para nos ensinar, se vocês me permitem, que ele é sangue vivo. Só que, vejam, o sangue vivo não refuta o semblante, ele o colore, torna-o re-semblante, propaga-o. Um pouquinho de serragem e o circo recomeça” (Lacan, 2009).

Um assentimento à responsabilidade íntima?

Como Édipo, no fim de seus dias, nos traz à luz os efeitos políticos e inconscientes do desmentido, atualizando a experiência de mundo em nossa época? O que a Grécia do século I a. C. teria a ver com nosso horizonte do século XXI d.C.? Trabalharemos dois aspectos dessa questão: o da elaboração íntima do herói e o da responsabilização política por seus atos.

Na primeira perspectiva, a dimensão do agir no herói grego atravessa o final da primeira peça no ato de cegar-se ao se saber parricida e incestuoso, restando Édipo reduzido ao olhar. “Não é neste objeto que vemos Édipo reduzido não a sofrer a castração, mas antes, eu diria, a ser a própria castração?” (Lacan, 1992, p. 114). A continuidade do agir ocorreria em Édipo em Colono sob a passagem da infelicidade sofrida à infelicidade assumida, que implicaria um percurso de resistência do herói, ao avaliar retrospectivamente seus próprios atos.

“Essa infelicidade ganha a dimensão do próprio agir, enquanto suportado de um modo responsável” (Ricoeur, 2006, p. 94). Demonstra-se um agir íntimo que consiste em avaliar os próprios atos, mesmo estando o herói dominado pelas forças sobrenaturais que governam os destinos humanos. O saber (mathein) é justamente o que lhe permite reconhecer-se, fazendo do sofrer um agir. Essa operação íntima, na clínica, seria da ordem de um assentimento inconsciente ao gozo?

Aqui, entretanto, deparamo-nos com uma diferença importante: o agir voluntário (dedrakota) e o agir sofrido, imposto (peponthota). “Meus atos, que inspiram esse temor de mim, eu não os cometi voluntariamente (dedrakota), eu os sofri (peponthota) (Sófocles, 2001, p. 267). Ou “se eu tivesse agido em plena consciência (phronon), nem mesmo assim eu teria sido culpado [kakos]” (Sófocles, 2001, p. 271). Na posição de sagrado-inocente, Édipo adentra na solidão do fim de seus dias sob a imposição de um destino.

Como considerar a assunção subjetiva desse agir em relação à pólis? Haveria uma tensão entre o imperativo do sofrimento, lei íntima, e a lei do Estado, lei pública, como em Antígona? Ou estaríamos face ao horror de um sujeito cujo gozo é desmentido no nível do reconhecimento de seu gozo e de seu correlato na pólis? Como relacionar a experiência do agir íntimo com a tomada de posição pública do herói, sempre submetido a uma ordem alienante? Constatada a dimensão do agir íntimo, vejamos a segunda perspectiva de sua dimensão pública.

Um desmentido na pólis?

Édipo (Sófocles, 2001), em sua defesa, ao pedir asilo a Teseu em Colono, nos arredores de Atenas, afirma que não desejou aquilo de que gozou. Foram acidentes, oferendas, frutos de maldições… “Carrego uma desgraça, estrangeiro, sim, carrego-a a contragosto [hekon]; que a divindade saiba disso, nada disso foi desejado”. Ou ainda: “nada fiz […] eu matei, eu tirei a vida, mas sem saber [anous] o que fazia”. Ou também: “sou inocente diante da lei, pois fiz tudo sem premeditação” (p. 135); “ah! infeliz de mim! – sem qualquer culpa minha” (p. 159). Não era essa sua vontade (akon): desposar sua mãe, assassinar seu pai. Ele se faz perdoar, sem se implicar: “Os deuses conduziram tudo” (p. 158).

Ainda que essa seja a tônica desta peça: o destino e sua assunção derradeira, parece-nos que, em paralaxe, abre-se um outro horizonte. De um lado, em suas últimas palavras, Édipo em Colono fala que “enquanto estiver entre os vivos, [deverá] suportar seus males” (Sófocles, 2001, p. 176), na assunção íntima de seu destino. Por outro lado, porém, é sempre a maldição sem culpa ou a desresponsabilização, o que reverbera como seu afeto na cena pública: “em mim não acharias sequer um pecado que me infamasse e me fizesse merecer a acusação de provocar todos os outros que por acaso cometi contra mim mesmo e contra meus parentes sem me aperceber” (Sófocles, 2001, p. 160). Como pensar essa contradição entre a experiência (Erfhärung) tão rica na esfera íntima e a vivência (Erlebnis) do desmentido fragmentada em seus atos na esfera pública? Seria Édipo em Colono o paradigma de um laço perverso que fundamenta o pacto civilizatório na atualidade?

Entre a busca pela verdade face ao não saber de Édipo Rei e o desmentido de seus atos após constatada sua autoria criminosa em Édipo em Colono, escrevera-se a castração. Édipo no final da primeira peça, arranca seus olhos e isso lhe permite ver além, torna-se clarividente. Em Colono, ao lado de Antígona e Ismene, suas filhas, face à Teseu, senhor nas terras de Atenas que o abrigarão, denega seus atos, mantém sua inocência, pragueja contra seus dois filhos varões que poderiam ter intercedido por ele em Tebas e amaldiçoa Polinices, o mais velho (Sófocles, 2001, p. 176).

O final da segunda peça é o desaparecimento do corpo de Édipo, após banhado e vestido pelas filhas no ritual fúnebre de um corpo vivo que arde. Antígona e Ismene realizam o ritual em um corpo ainda vivo, cuja lápide nunca foi escrita. O local de seu túmulo permanecerá oculto para todo o sempre. Apenas Teseu saberá sua localização e perpetuará seu segredo. Sugado talvez pela terra mãe, após um estrondoso trovão que anuncia seu fim, esse herói não ganha uma marca do início e do fim de seus dias. Sua morte singular e única não humaniza todas as outras, realizando o universal do valor de uma vida.

Como pensar os efeitos clínicos e políticos desse intervalo entre as duas peças, no qual cego, errante e desterrado, Édipo denega seus próprios atos, após tomar ciência deles? O que seria o reconhecimento aqui, seja numa perspectiva íntima, clínica, seja numa perspectiva política, citadina? Seu túmulo não localizável e sua lápide não escrita atualizariam o obstáculo da retranscrição de seu nome como gozo que não encontra uma borda?

Édipo termina seus dias sem sua inscrição simbólica na série geracional que o antecede: Labdaco, Laio e Édipo. Essa autonomia de um nome que se escreve a si mesmo, às expensas do Outro, autofundado numa morte viva que o perpetua indica um modo muito contemporâneo de pertencimento. Não há como saldo a dívida simbólica que engaja o gozo individual com o pacto coletivo, tornando a civilização um acontecimento de muitos. As consequências desse paradigma, temos testemunhado em nossa época sob a forma dos mais acirrados ódios desvelados: misoginia, racismo, homofobia … numa série interminável de negação e eliminação da diferença.

O horizonte de nossa época

Segundo Ricoeur (2006), há uma complicação na admissão do reconhecimento trazida pela segunda peça, pois o desmentido não aboliria a iniciativa pessoal do herói. “A transformação do agir no sofrer se mantém no sentido do agir” (p. 95). Haveria, nessa perspectiva, o peso do que se fez, na forma de um suportar sua infelicidade, a ponto de Ricoeur falar em um arrependimento do agente.

O que o texto de Sófocles revela, entretanto, em Édipo Colono é exatamente o herói como referente de um amo que goza e usufrui do que se dispõe a ele, irrestritamente e orientado pela narrativa de uma força maior – Até, o destino grego imposto pelos deuses. O que se desvela na trama e tomamos como paradigma de nossa época, é menos a inconsistência do pai ou do interdito, e mais a revelação de seu gozo obsceno e desmentido agora sem anteparos. Deus, na pré-modernidade ou as narrativas racionais emancipatórias, na modernidade, não ocultam mais o movimento fagócito do gozo mortífero de tudo domar, de tudo ocupar, de tudo consumir, inclusive criando-se leis e discursos que, pelo avesso, legitimam essa voracidade, tornando-a lícita.

Vemos o gozo perverso do homem e isso não se esconde mais sob nenhum anteparo. Não há mais véu. Nenhuma filosofia medieval para nos falar de amor, nenhuma ilusão de razão e progresso, nenhuma emancipação deitada sobre o ideal de homem, branco e europeu nos seduz. Nenhuma razoabilidade equaciona o imponderável. Temos que nos haver com o gozo desmedido e desmentido de uma época na qual nem mesmo a ameaça devastadora de morte sobre populações inteiras por um vírus faz parar. Experiências coletivas e simbólicas de rituais fúnebres, que reinscreveriam a humanidade de todos no velar do corpo de cada um, são atacadas em uma obscenidade que choca.

Vivemos juntos e os modos de transmissão e filiação contemporâneos, atravessados por esse fundo gozoso, monetarizado e algoritmizado, desvela a torpeza de qualquer referente universal domesticador. Aliás, se o universal emancipado europeu foi a ficção que sustentou a exploração do antigo, mas intitulado Novo Mundo, como pensar os modos de transmissão sobre esse fundo desmentido? Afirmar em concílios seculares que os indígenas não tinham alma levanta o véu da voracidade moderna europeia em colonizar corpos, pensamentos, poderes e riquezas naturais (Quijano, 2012). Os diferentes epistemicídios a que mulheres, negros, indígenas e orientais foram submetidos não nos deixa mais crer na boa fé ou no esclarecimento iluminista do conquistador (Grosfoguel, 2016). A extinção de etnias indígenas inteiras e os conflitos de terra em diferentes países (Krenak, 2019) são o real sem borda que testemunham esse gozo.

Como dever fidelidade, nesse contexto, a uma origem? Como crer em uma verdade, atravessada por esse real de um gozo devastador e desmentido? Como encontrar um modelo de redenção e pacificação em um herói que, depois de matar o pai e desposar a mãe, se mostra, enfim, arrependido? Como crer numa lei que absolve e idolatra esse herói e pacifica-se num final luminoso? Édipo em Colono é uma das chaves para constatação e desmontagem desse plano de fundo, cuja cena de mundo – tão atual –, se sustenta no desmentido.

A decantação do paradigma do desmentido na lógica contemporânea

O desmentido entre esses dois modos de agir – inconsciente de seus atos e experiente de suas faltas – mantém o herói como paradigma da lógica contemporânea do modo de transmissão de um nome, implicando o sujeito de maneira denegatória: não sou reconhecido na desmedida de meu gozo singular. Decantemos essa frase:

. 1º. aspecto: O não da frase negativa acima, segundo Freud (1996, p. 275), implica um reconhecimento inconsciente pela negação. Aqui, aplicada ao desmentido, refere-se a uma terceira retranscrição no nível da consciência que deixa o sujeito diante da vivência de um gozo que não ganha inscrição inconsciente, mas resta, no corpo, reverberando como intensidade e, na consciência, como representação de palavra, ligada ao ego (Vorbewusstsein, pré-consciente).

. 2º. aspecto: Na desmedida indica um corpo ou um campo sem borda, seja ele singular ou público, íntimo ou universal, que deixa de ter a função de limite, de interdito no sentido de um ponto de onde sujeito e civilização poderiam se mirar e equacionar um laço possível. “É o que Édipo em Colona nos mostra – o drama essencial do destino, a absoluta ausência de caridade, de fraternidade, do que quer que seja que se refira aos chamados sentimentos humanos” (Lacan, 1985, p. 290).

.3º. aspecto: Meu gozo singular toma a centralidade da cena trágica, sem implicar o outro afetado. O afeto solipsista retorna como gozo autista sobre o próprio sujeito. E se o afeto político aflora e pede asilo ao Outro, isso é feito ao relegá-lo a um lugar curto-circuitado de aquiescer à própria demanda, na qualidade de objeto. O desconhecimento da alteridade e sua diferença coisifica o Outro, reduzindo-o ao estatuto de um objeto da demanda.

.4º aspecto: Considerando que esses três aspectos se somam na trama central da peça à figura de Édipo com a faixa sobre os olhos arrancados, como quarto aspecto soma-se, em seu agir, uma encenação performática que corre silenciosamente sob o texto da tragédia. Há um efeito visual que introduz o horror e incita a piedade, um recurso acústico que introduz trovões, sempre sob o fundo dramático dos crimes a ele impostos.

O desmentido age no pacto civilizatório com seu efeito de recusa da realidade invocando estratégias novas, face às quais cada sujeito, afetado inconsciente e pulsionalmente por ela, precisará se posicionar entre os demais. Não é simples nem fácil assumir uma posição face ao horror do gozo, pois dele também, e em alguma medida, cada sujeito participa: como amo ou como escravo. Tomar partido engaja, então, a responsabilidade pelo próprio gozo, um a um, no horizonte do modo como ele se articula e se apresenta em nosso tempo histórico. Ao mesmo tempo, implica em tomar parte em um corpo político que ratifica ou retifica a escrita da pulsão de morte que incide de maneira perversa no horizonte de nossa época.

Com esse horizonte – saber do gozo obsceno e desmentido -, fica mais fácil entender, em um extremo, o poder das fake news ao reafirmar o desmentido e produzir um alívio momentâneo e alienante face ao horror do gozo que recusa reconhecer. E, no outro extremo, compreender e testemunhar o vigor dos movimentos sociais e militantes ao denunciar a farsa do desmentido e exigir a recomposição política de suas respostas. Nós sabemos. Admitir e operar com esse saber ou recusar e se desimplicar dele são as pontas de uma série de posições éticas e políticas em jogo no cenário atual. Entre elas, o medo ou a covardia dos que lavam suas mãos.

Recolher os efeitos do desmentido no laço social contemporâneo

Quais seriam as consequências desse paradigma sobre os processos de transmissão e filiação se os transpusermos para pensar nossa contemporaneidade? O legado direto de Édipo em Colono é o ódio entre os irmãos Eteócles e Polinices e a autorização pelo desejo às filhas Antígona e Ismene.

Poderíamos pensar, no plano dos filhos homens, esse efeito do afeto de ódio que aparece na maldição a Polinices – “filho sem pai […] leva as maldições que chamo contra ti” (Sófocles, 2001, p. 176) – como o que escapa à lei e segue sem regulação, conduzindo senão à morte os filhos varões, como efeito do desmentido do pai? Cessa vosso encargo e inicia vossa recompensa (Sófocles, 2001, p.187) são, na outra via, as palavras de Édipo às filhas mulheres que o acompanham. Essas filhas que tudo reconhecem e suportam, especialmente Antígona que o acompanha cego, estariam em qual posição?

Ódio, ira, culpa, devoção, crença, interesse, luta, alienação, vários movimentos políticos e afetos singulares que os enlaçam. Há diferença no que se transmite a partir do desmentido. Não seriam esses múltiplos afetos as vias de enlace da pulsão no plano da vida pública? Não seriam pontos de estofo quanto ao gozo em que uma escolha forçada se realiza para cada um, tecendo a trama coletiva de um tempo histórico? Não estaríamos às voltas hoje com o compromisso de construir uma nova lógica para enfrentamento desse gozo, agora sabido e revelado?

Operação de síntese

Para concluir e desenhar o trabalho que temos pela frente, reúno os cinco aspectos centrais do que Édipo em Colono nos lega:

1.O trabalho íntimo e singular com o inconsciente possui efeitos transformadores;

2.Incluir o Outro no trabalho inconsciente implica em reconhecê-lo nas diferentes figuras de alteridade e diferença que pode encarnar;

3.Reconhecer a Outridade engaja a dívida simbólica e o pacto social, posicionando-nos na pólis;

4.No horizonte de nossa época descortina-se um saber sobre a posição estrutural e histórica de um gozo desmentido e obsceno que nos desregula;

5.Tomar posição face a ele exige trabalho com a pulsão e com a linguagem;

6.Esse trabalho nos engaja, singular e coletivamente, a partir da subtração que podemos operar sobre o legado desse obstáculo à simbolização e à responsabilização.

Muito a fazer, não!?

Referências Bibliográficas:

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Imagem: Antígona, de Sófocles