Notas sobre a aderência à propaganda antidemocrática. Nathália Meneghine dos S. Rodrigues

Theodor Adorno, no texto ‘A Personalidade Autoritária’ (1950), formula a questão “Quem é o consumidor da propaganda fascista?”, e se propõe a encontrar respostas também na subjetividade humana, que possam dar conta de respondê-la.

Em o “Discurso Sobre a Servidão Voluntária”, Etienne de La Boétie diz que há três tipos de tiranos: o que chega ao poder pelo direito da guerra, o que nasce rei, e aquele a quem o povo deu o Estado (eleito). No entanto, adverte que, apesar da diversidade de meios para se chegar ao poder, a forma de governar é sempre a mesma: sua única lei é a sua vontade.

Vivendo sob a administração de um Governo Federal que demonstra desprezo pelas relações democráticas, o Brasil se depara com cerca de 30% da sua população (segundo pesquisas), aderida ao discurso de seu representante máximo, por isso, ficamos nós também buscando explicações para tal aderência.

Afinal, por que cerca de 30% de brasileiros apoiam a escalada da tirania?

Nesta difícil tarefa, vamos primeiro pela trilha do filósofo alemão, e admitir com ele que as condições econômicas e subjetivas são fatores determinantes na prontidão de aderência das pessoas frente ao discurso antidemocrático. Ainda que comportando contradições, como é o caso de trabalhadores de famílias vulneráveis que defendem discursos de supressão de seus próprios direitos, ou de pessoas privilegiadas socialmente que se engajam em causas em prol das classes populares.

As condições sociais de um país irão demarcar aquilo que é tomado como patológico ou como tendência. Como aceitável ou como execrável. Ou seja, interesses econômicos são forças que favorecem ou rechaçam a propaganda antidemocrática, pois a tendência é sempre maior de aceitar políticas que não parecem prejudicar economicamente quem detém os poderes, custe o que custar (até a liberdade). A propaganda veiculada sempre oferece a garantia de uma melhor ‘sorte’.

Adorno não deixa de fora a relevância das questões de identificação ideológica com um determinado grupo, que provocam uma adesão irrestrita das pessoas a um discurso, até mesmo à revelia da racionalidade, e tornando necessária a supressão de qualquer oposição à ideologia eleita.

Aqui, trata-se de tomar a ideologia como a organização de opiniões, atitudes e valores.

A irracionalidade como tendência nestes grupos provoca a hostilidade sem limites, tanto faz contra uma ou contra várias minorias, e precede ainda, de qualquer experiência de contato, o lema é: “não conheço, não me interessa conhecer, quero apenas que desapareça, porque pensa diferente do meu grupo”. Tem por padrão repetir as opiniões do líder do grupo, sem qualquer questionamento.

Portanto, estão delimitados os fatores situacionais que provocam maior ou menor aderência ao discurso antidemocrático: condição econômica e afiliação a grupos sociais por identificação de interesses.

No entanto, como já anunciado, os fatores subjetivos ocupam lugar relevante em cena, para nos ajudar no rastro dos motivos para a inscrição na propaganda autoritária. Sobretudo, os fenômenos de massa: “O fascismo precisa ter uma base de massas, a fim de ser bem sucedido como movimento político”, diz Adorno. Para isso, o apelo para a aderência ao discurso autoritário funciona muito através da cooperação ativa de uma significativa parcela da população. Busca-se favorecer a poucos, com o apoio de muitos, às custas da maioria.

O próprio autor introduz a teoria freudiana, no que diz respeito a Psicologia das Massas. E é em Freud que conseguimos caminhar mais nesse entendimento, sobretudo sobre a intensidade da receptividade a líderes autoritários e do flagrante destaque a irracionalidade. Freud é taxativo: “As massas nunca tiveram a sede de verdade”.

Em “Psicologia das Massas e Análise do Eu” (1921), ele discorre sobre as características de uma massa organizada e destaca a função do líder do rebanho.

Não faltam exemplos atuais para ilustrarmos o comportamento que um indivíduo passa a apresentar quando se une a outros, a partir da ascensão de um líder idealizado. Comportamentos esses pautados pela selvagem combinação de sentimento de onipotência, suspensão da racionalidade, intolerância, aversão ao progresso, desinibição, e sede de obediência a um fascinante “pastor”.

O fascínio está também colocado do lado do líder: é ele que primeiro se mostra fanático por uma idéia e, a partir disso, desperta a crença cordeira da massa em sua missão messiânica. A crítica é silenciada. Afetos são elevados, dando a certeza (delirante) de poderes ilimitados.

Freud chama atenção para o processo de constituição libidinal de uma massa: os indivíduos colocam um único objeto no lugar de seu ideal do Eu, identificam-se uns com os outros a partir disso, e o líder domina o Eu no lugar do ideal do Eu.

O líder também faz uso da estratégia de fazer-se parecer com seus adoradores, de caneta bic à café no copo de requeijão, passando por toda sorte de ludibriação, no intuito de favorecer sua influência, sem, no entanto, colocar-se em simetria. Ele é a Lei.

Favorece a aderência do indivíduo na massa, a atrativa oferta de suspensão das inibições individuais. A massa usufruiu do aval para uma certa liberação dos escrúpulos. Em razão do número, se acha invencível e irrepreensível, e acredita que como massa não há a possibilidade de responsabilizações individuais.

Destacamos aqui, um fragmento do discurso de posse do eleito presidente Jair Bolsonaro, quando ele prometeu “libertar o Brasil do politicamente correto”. Isso, diz desta suspensão do que fazia barra ao discurso autoritário, abrindo caminho para a permissividade da exclusão das diferenças. E, para a expressão desvelada do ódio avassalador.

Podemos ainda arriscar incluir alguma observação sobre o campo da ética. Se a ética implica, necessariamente, em considerar a presença da alteridade, não há possibilidade de posição ética de dentro de um discurso tirano. A defesa que se faz é apenas dos próprios privilégios, sem espaço para o contraditório. Inclusive, de dentro da própria massa, é sustentada uma regra de homogeneidade.

A crença num líder messiânico, suficientemente conservador para não provocar nenhuma mobilidade social, que oferece com convicção o conforto de calar as dúvidas e eliminar as diferenças (com uso de força), junto de uma permissividade das paixões (ignorância e ódio), sem nenhum preço de responsabilidade a se pagar, acaba por ser demasiadamente sedutora para uma parcela da população.

No entanto, os fascinados pela tirania, não distinguem a tempo, que há sim uma conta alta a se pagar. Como já avisado aqui, o autoritarismo funciona sobre o sacrifício de muitos para o privilégio de poucos.

Em última instância, todos estão apenas a serviço de alimentar o poder do líder, não há regozijo nem mesmo para seus cúmplices, que também são descartados, quando – cedo ou tarde- acabam por entrar na série paranoica do tirano, que só suporta sua própria imagem.

A propaganda autoritária é tão sedutora para alguns, quanto destrutiva para todos.