É isso uma política pública de combate à violência contra mulher? Por Betty Fuks.

Chegam às raias do patético as elucubrações da ministra Damares Silva sobre a violência à mulher. No afã de atribuir à teoria de gênero o ônus da crueldade dirigida ao sexo feminino, Damares revela seu desprezo por toda e qualquer teoria que possa orientá-la na  função ministerial de promover,  entre outras coisas,  políticas públicas de proteção e emancipação da mulher.

Parece que faz parte do show da ministra mostrar-se simplória diante de um problema tão complexo e com isso coíbe veladamente a expansão do pensamento e   criação de  estratégias eficazes ao combate à violência contra a mulher.  Misoginia e feminicídio datam da fundação das primeiras sociedades humanas e não deveriam sofrer análises ao sabor do discurso ideológico ao qual se abraça.

O  terror da Inquisição medieval determinou o assassinato de milhares hereges, entre eles muitas mulheres. Damares, que se diz  “terrivelmente cristã”, deveria saber, com todo o respeito, que  na aurora da Idade Moderna o papa Inocêncio VIII ordenou a escrita de O martelo das feiticeiras–  tratado de técnicas de torturas de como extrair confissões da mulheres sobre “bruxarias” e condená-las à fogueira. O livro descreve a mulher como  “ser de menor fé”,  pela simples razão de que a etmologia da palavra feminan (feminino)  vem de fidem (fé)  e minus (menos).

Há de se convir que nesse período meninos sequer sonhavam em se achar iguais às meninas! Demorariam séculos para surgir o fantasma que assombra Damares: os Estudos de gênero. Antes destes, Freud causou  escândalo revelando a importância da sexualidade infantil na formação da subjetividade. Quanto ao  antifeminismo,  sua tese  de que o horror ao sexo da mulher, percebido pelo menino na primeira infância, constitui sua raiz, adveio de observações clínicas. Baseado em estudos antropológicos sobre sentimentos de estranheza do homem primitivo diante da diferença sexual da mulher, cunhou a expressão “narcisismo das pequenas diferenças” para designar a hostilidade que nos vínculos sociais acontece em função da incapacidade humana em suportar o estrangeiro.

Mas a ministra não quer saber de Psicanálise, de Antropologia ou outros estudos que possam orientá-la em sua política de combate à  prática ancestral de violência à mulher. O que aconteceria  caso parasse para pensar se existe uma relação entre o caso da jovem Isabela, morta recentemente em São Paulo, após o namorado, perseguido pela ideia de traição, atear  fogo em seu corpo; e a história de  Joana D’arc,  queimada viva  no século XV sob a alegação de traição à Igreja?  Será que Damares continuaria afirmando, conforme o fez no Dia Internacional das Mulheres, que  “enquanto meninos acharem que são meninas” a violência de gênero irá persistir, “já que, (se) a menina é igual, ela aguenta apanhar?” (O Globo, 9.3.2019, p.27).

Infelizmente sim. Sua missão não lhe permite pensar e exige banir das escolas e do Ministério informações científicas. Demagoga,  e  pouco afetada à  percepção e vivência dos jovens do século XXI,  promete “elevar a mulher para o patamar de ser especial,  pleno e extraordinário”!   Para que isso? Acaso não lhe ocorre que as mulheres possam desejar simplesmente o direito de se tornar mulher?

Ilustro esse  desejo através dos fragmentos de um poema escrito por uma menina de 13 anos,  cuja consciência ética permite a ela  dizer  não à alienação. Milla, minha neta,  reata-nos a um fio muito antigo da historia das mulheres: “Odeio o dia das mulheres (…) pois parece caridade. Odeio o dia da mulher pois ganho rosas quando queria respeito. Odeio o dia das mulheres pois no segundo que acaba já sou descriminada. Odeio o dia da mulher pois aprendi em matemática que 1 sobre 365 não é nada”.

 

Betty B. Fuks.  Psicanalista.

Março de 2019