As mãos. Por Edson Luiz André de Sousa.

“Mas perto não se fica a quem não se conhece as mãos”

Manoel Ricardo de Lima (As Mãos, Editora 7 Letras, 2003)

Bolsonaro pronunciamento – Aplauso

NA SEXTA FEIRA, DIA 24 DE ABRIL, MAIS UM CAPÍTULO DE HORROR PARA A HISTÓRIA DO BRASIL. Muitos já devem ter visto, ouvido, reagido ao pronunciamento do “presidente”. Chamou-me a atenção um detalhe no final do pronunciamento que me parece muito relevante: OS APLAUSOS!!!

Antoni Muntadas, artista catalão, concebeu em 1999 , uma vídeo/ instalação intitulada Aplausos. Neste trabalho Muntadas dispõe 3 telas de projeção. Em duas projeta cenas de pessoas aplaudindo efusivamente e na tela central cenas de violência. A tensão da imagem é chocante e perturbadora, talvez porque seja algo muito verdadeiro. Como é possível aplaudir o horror? A cena desta sexta-feira foi patética. Vejam que na imagem do pronunciamento, há papéis adesivos no chão indicando o lugar de cada um, como se faz no teatro. Todos ali cúmplices de um discurso e submissos a loucura do chefe. Evidenciam de forma brutal o que Etiénne de la Boetie descreveu no seculo XVI, como o Discurso da Servidão Voluntária. Havia vários ruídos na cena, a mensagem em libras traduzindo o intraduzível, o silêncio dos coadjuvantes emprestando sua imagem à fala desconexa e cínica, a inquietude de alguns gestos escancaradamente visíveis.

No final da fala surgem os aplausos. Vejam que Guedes, com máscara, talvez para esconder sua vergonha e não para se proteger do vírus, hesita em bater palmas. Timidamente, bate duas palmas e logo esconde as mãos no bolso. Lembrei tanto de Estamira neste momento. (Filme de Marcos Prado). Sua voz me representa em situações como esta, pois denuncia o cinismo, a podridão do poder, os “espertos ao contrário” como ela diz”. Neste documentário encontro uma das representações mais efetivas e verdadeiras do que é uma fala INDIGNADA. Anoto um fragmento do que diz Estamira, que poderia ser a legenda para a cena: “A culpa é do hipócrita, mentiroso, esperto ao contrário que joga a pedra e esconde a mão”.

Fico pensando na verdade, não nestes cúmplices ali no pronunciamento, mas nas pessoas que silenciosamente ainda aplaudem estes horrores. Nosso silêncio também é uma forma de cumplicidade. Nisto Martin Luther King foi preciso ao dizer “O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons.”

A cena está aí de forma contundente e a história vai nos dizer quem aplaudiu, quem continua aplaudindo, quem joga a pedra e esconde a mão, como lembrou Estamira. Prefiro seguir a indicação de Manoel Ricardo de Lima que abre este breve texto.

Vejam estes 8 segundos de aplauso que copiei abaixo.

 

Video Antoni Muntadas Aplausos (1999)

Estamira