Luto impedido, luto negado – violência e trauma ontem e hoje. Por Elaine Rosner Silveira.

Luto impedido, luto negado – violência e trauma ontem e hoje

Texto originalmente publicado no livro “Por que uma clínica do Testemunho?” (Instituto APPOA)

Elaine Rosner Silveira[1]

 

Segundo dados de um estudo (FALCÃO, 2015), o maior número de mortes violentas no País em 2015 ocorreu na população masculina, jovem e negra, entre 16 e 28 anos da região nordeste, com números semelhantes aos de uma guerra. Esse estudo foi utilizado para analisar os índices de assassinatos de jovens pela Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado em 2015, que concluiu que entre as causas desta situação estão, de um lado, a pobreza, a falta de condições e de oportunidades da juventude pobre, negra e de periferia e, de outro, a cooptação de parte desses jovens vulneráveis pelas organizações criminosas. Além disso, há uma série de mortes causadas pela própria polícia, que não são investigadas nem punidas.

Essa realidade parece vir se acentuando em diferentes partes do País. Uma reportagem recente (XAVIER, 2017) noticia que no Brasil ocorrem cerca de 60 mil homicídios por ano – uma das maiores taxas de violência, em números absolutos, entre todos os países do mundo. Aponta a necessidade de adoção de políticas de prevenção, para além da repressão policial, de investigação e esclarecimento dos crimes. Indica, além disso, que nas grandes cidades as pessoas têm medo de testemunhar, pois impera a lei do silêncio– o que dificulta o trabalho de investigação e da Justiça.

Na escuta em serviço público de saúde mental, a partir do laço transferencial, observo que parte dessa violência é oriunda da própria polícia, que algumas vezes é referida como corrupta e protetora de criminosos, assim como aquela que chega nas casas “com o pé na porta”, como dizem os moradores. Há relatos sobre policiais que incentivam a briga e matança entre os grupos rivais de tráfico, e outros policiais que são usuários e dependentes de drogas. E quem mora de um lado da vila não pode atravessar para o outro lado, considerado domínio de outra facção, ficando impedido de circular. Há também histórias de toque de recolher, a partir do qual é proibido sair de casa, de tiroteios à noite e em plena luz do dia, de marcas de bala nos muros e paredes das casas, de desaparecimento de familiares cujos corpos jamais são encontrados. A violência direta, porém, não vem só da polícia: há uma importante violência também entre os pares, moradores destas comunidades. As narrativas referem que esta pode acontecer devido às disputas entre grupos de tráfico ou por mulheres, enganos (alvo errado), discussões e vinganças.

Neste serviço também se recebem muitas pessoas, principalmente mulheres, nestas situações com sofrimento por perdas violentas de filhos, netos, irmãos, maridos assassinados.Esta dor muitas vezes não tem escoamento, fica calada e escondida, muitas vezes reprimida até pelos familiares próximos, seja por medo, ameaças ou simplesmente porque nestas comunidades muitas vezes estes acontecimentos violentos são naturalizados e banalizados.

A incidência e repetição da violência nestas populações de periferia, tanto por parte da polícia que é representante do Estado, quanto entre os membros das comunidades faz pensar nas causas que a determinam. Paulo Endo (2005) destaca que a incidência da violência nas grandes cidades é maior onde há mais desigualdade e injustiça social, elas se reproduzem mutuamente. Em São Paulo, região estudada por Endo, as zonas onde há menores notas socioeconômicas e menor inclusão social apresentam os maiores índices de morte por homicídio. São regiões onde há ausência do Estado e privação ou precariedade de bens e serviços de todos os tipos – falta de saneamento básico, desmoronamentos, enchentes, falta de política habitacional, de serviços de saúde e de educação, etc. A cidade e os dispositivos públicos praticam violência cotidiana com estes cidadãos pela exclusão do acesso a estes bens mínimos – trata-se de contextos violentos e que produzem violência. As políticas públicas da cidade são voltadas para atender interesses de elites minoritárias (especulação imobiliária e outros) e não à população mais ampla. A cidade vai empurrando para a periferia parte da população e criando os espaços elitizados e os espaços deteriorados e segregados, com investimentos urbanísticos injustos e desiguais,  é a privatização do público. Nestas regiões desprovidas de recursos, pratica-se a violência de modo cotidiano e corriqueiro, com graves violações de direitos humanos.

Ainda segundo Endo (2005), alguns policiais estão ligados ao crime e agem de forma corrupta, arbitrária e truculenta, torturando, assassinando e espancando. Nesses contextos de comunidades segregadas, a violência interpessoal pode ser utilizada como meio de resolução de conflitos, bem como a realização da “justiça com as próprias mãos”, a “lei do mais forte”, os crimes passionais, etc. A população pobre é abandonada ao crime organizado, ficando refém dele e excluída dos benefícios de uma grande metrópole.

Endo (2005) refere estudos que apontam que a manutenção dessas desigualdades sociais tem a ver com a nossa herança colonial de privilegiamento do interesse de poucos, assim como o passado de escravidão e marginalização do negro após a abolição.Ou seja, pode-se pensar que a violência do Estado não se dá apenas de forma direta na ação policial repressiva e aterrorizante mas também de forma indireta, pela omissão em garantir o direito a condições básicas de vida digna a esta parcela da população.

 

LUTO EM SUSPENSO

 

Chamou-me a atenção, no serviço em que trabalho, o silenciamento das pessoas a respeito destas violências vivenciadas. E no lugar do que é silenciado aparece uma variedade de sintomas tais como: insônia, crises de angústia (ou transtorno do pânico como refere a medicina), actings-out, fobia de sair sozinho na rua ou de ficar sozinho em casa, depressão, somatizações, impossibilidade de realizar as atividades costumeiras em casa ou no trabalho, o que gera necessidade de afastamento do trabalho por doença, etc. Quando a dor não tem lugar de reconhecimento na cultura e esses sintomas não recebem tratamento, o luto em suspenso pode transformar-se numa melancolia sem fim. Uma senhora cujo marido foi morto após uma discussão em jogo de futebol, contou que suas colegas de trabalho lhe diziam “é tão comum perder marido ou filho desta forma, tantas já perderam…”, tentando naturalizar o ocorrido e fazê-la parar de sofrer, propondo que esquecesse o que acontecera. Uma mulher que teve o sobrinho assassinado, cujo envolvimento com o tráfico foi descoberto após a morte, diz “é melhor não falar disso”, abandonando o tratamento. Em outro caso de envolvimento com o tráfico, o velório e o enterro foram feitos às pressas pela família, que avisou poucas pessoas e não comentou mais oassunto da morte/assassinato do jovem nem mesmo dentro de casa.

O receio de que as pessoas digam “ele mereceu, se envolveu com o que é errado” também está presente entre os familiares, como se morrer assassinado fosse o corolário esperado e merecido dessa “escolha” de vida. Dessa forma,aquela morte torna-se objeto de vergonha, um assunto indizível e, portanto, não simbolizável. Às vezes a família do morto é ameaçada de ser eliminada caso avise a polícia:são muitos os agravantes que tornam essas situações uma verdadeira vivência de terror e que deixam esta população em grande desamparo, insegurança, constantemente ameaçados de serem vítimas de violência ou morte e sem proteção do Estado. Essas mulheres que procuram os serviços de saúde silenciam a perda de seu ente querido, não encontram lugar para seu luto a não ser em seu corpo e nos sintomas que acabam desvelando o que ao mesmo tempo tentam ocultar – o sofrimento pela dor do luto não reconhecido nem simbolizado.

Alencar(2011), que atendeu mulheres em luto em um serviço de saúde, aborda como em situações de morte por violência o luto não é elaborado e torna-se sintoma porque o familiar perdido não foi significado como uma perda. Seja por ser da periferia, negro, pobre, vinculado ao tráfico ou usuário de drogas, a vida que foi assassinada é muitas vezes considerada destituída de valor e por isso a perda não é reconhecida, é negada, e o luto é impedido. Ou, ainda, esta vida pode não ser considerada de valor por ter sido negada a investigação pela segurança pública, ou pela indiferença das instituições públicas da saúde e outras que atendem os familiares. Nas palavras dirigidas aos familiares, muitas vezes estes não recebem destas instituições o reconhecimento de que ali há uma perda a ser lamentada e chorada. Se esta realidade social e institucional considera que não há objeto perdido, o luto não encontra lugar nos laços sociais e este que morreu não é tomado como semelhante, lugar de reconhecimento e identificação. “Nas análises de Freud está a identificação entre os irmãos como elemento constituinte da civilização. E a identificação se estabelece pelo objeto perdido. Todos perderam, o luto é uma experiência que se faz em laço e possibilita laços compartilhados” (Ibidem, 2011, p. 99). Para haver luto, a morte precisa se constituir como ausência e ser reconhecida como falta; todo e qualquer luto necessita de um reconhecimento no e do espaço público. Se ninguém testemunha a perda sofrida porque as pessoas mortas são consideradas vidas sem valor ou porque a violẽncia não pode ser nomeada, o luto não tem lugar nos laços sociais e é guardado em segredo, vivido no desamparo e na solidão. E a dor não reconhecida pode gerar um trauma. Segundo Rouanet (2006, apud ALENCAR, 2011), o trauma é uma ferida que se associa à vivência de humilhação, e Freud deixou claro em Estudos sobre a histeriaque a humilhação é uma variedade de trauma psíquico. No caso das mulheres atendidas nos serviços de saúde, a naturalização da violência e o sentimento de vergonha, desmoralização e humilhação são encontrados nos sujeitos e nos laços sociais na comunidade, que acaba por considerar que não há perda a ser lamentada ou chorada.

A morte, qualquer que seja, por si só já é um real intolerável que pede simbolização. Freud ([1915]1996), no artigo Reflexões para os tempos de guerra e morte, refere que as pessoas amadas são um patrimônio íntimo ou “um fragmento’’ de nosso próprio ego. Considero que esta formulação de Freud está intimamente ligada ao que Jean Allouch (2004)vai trabalhar de que o luto não é só a perda de alguém ou de um objeto, e sim perda de algo do objeto que é também do sujeito, de um ‘pedaço de si’, no sentido de um traço. A perda de pessoas amadas é vivida como perda no próprio eu e no narcisismo. Nos casos citados, se o objeto perdido não é valorizado, também o sujeito que perdeu esta parte de si passa a se considerar sem valor. No livro A Erótica do Luto no Tempo da Morte Seca,Jean Allouch (2004) faz várias críticas ao texto Luto e Melancoliade Freud, que apresenta o luto como algo individual, uma operação de si para si, não levando em conta o contexto histórico onde ele se processa e a influência deste contexto na própria elaboração do luto. Diferente de Freud que considera terminado o trabalho de luto quando é encontrado o “objeto substitutivo” que preencha a perda, Allouch considera que o trabalho de luto é a inscrição de uma perda, e não a substituição de um objeto. Assim, ele aproxima o luto da castração, da constituição de uma falta simbólica.Allouch (2004) vai retomar as formulações de Lacan no Seminário O Desejo e sua Interpretação, onde ele diz que o luto é a abertura de um furo no real, sendo assim da ordem da privação e que faz-se apelo ao simbólico e ao imaginário para encontrar significantes e tentar elaborar-se. Como não existe falta no real, ela só é apreendida pelo simbólico. As palavras, os rituais funerários, a lápide, o obituário, entre outros, são recursos para o recobrimento deste real que é a morte. O luto não é uma operação de si para si: precisa exposição, precisa ser público, segundo Allouch (2004). Para este autor, Freud não articulou sua versão de luto à função do público e à função do rito, abordou apenas o luto psíquico como se substituísse ou fosse o mesmo que o luto social. Os ritos funerários e a memória do morto têm função semelhante ao trabalho do luto para Lacan: o rito faz coincidir o furo real e o furo simbólico (ALLOUCH, 2004). O trabalho de luto é simbólico, traço a traço, retomando as lembranças e o imaginário ligados ao morto.

Nestas situações onde por vergonha, humilhação, medo, culpa, desproteção do Estado ou naturalização da violência as pessoas acabam não falando de suas experiências ligadas ao morto ou à situação da morte, elas não conseguem localizar, nomear ou circunscrever a falta e há uma patologização do luto, que permanece não simbolizado. Além disso, este indizível também mantém o ocorrido no registro do traumático. O trauma é um real não simbolizado que, ao não ser inscritível na fala, ressurge em sintomas, acting-outs, e na compulsão à repetição, que tanto pode se fazer presente no sujeito como ser  transmitido à filiação.

 

VIOLÊNCIA  QUE TRAUMATIZA

 

Endo (2005) aborda o percurso dos artigos de Freud quanto ao tema do trauma. No início de sua obra, o enfoque estava no agente externo do trauma, no adulto sedutor e incestuoso, na cena real como causa das neuroses. Ele refere que no texto de 1895 Projeto para uma psicologia científica,aparece uma segunda teorização do trauma, predominante até hoje na psicanálise, que acentua o papel traumatogênico do psiquismo em detrimento da realidade exterior. O enfoque passa a ser a criança incestuosa, suas fantasias e desejos inconscientes no complexo de Édipo, as dinâmicas intrapsíquicas capazes de gerar as psiconeuroses. Passa a não mais se preocupar com o papel da realidade exterior nas perturbações psíquicas, mas sim com o fracasso das defesas e o desequilíbrio interno nas neuroses. A partir de 1919, Freud retoma o fator traumatogênico externo através do tema da neurose traumática e das neuroses de guerra, agora sob a luz da segunda tópica (id, ego, superego) e da segunda teoria pulsional (pulsões de vida e morte), refletindo sobre o impacto da intensidade do choque externo sobre o psiquismo ou o impacto da violência.

Então, a partir de 1919, Freud retoma a ideia do trauma devido a causas externas intensas, abruptas e inesperadas,podendo este ocorrer em qualquer momento da vida, não somente na infância. Em Introdução à psicanálise e as neuroses de guerra,Freud ([1919]1996)considera que as neuroses de guerra são neuroses traumáticas que ocorrem em tempos de paz e após experiências assustadoras ou graves acidentes nos quais se faz presente a proximidade da morte. Nas neuroses traumáticas e de guerra o ego tem medo e defende-se de um perigo que o ameaça.Em Mais além do princípio do prazer, Freud ([1920]1996)refere que ocorre um trauma quando há inundação do aparelho psíquico por grandes massas de excitação devido ao susto pela surpresa ou falta de disposição à angústia, e este excesso rompe a proteção da defesa. Na neurose traumática há compulsão a repetir os acontecimentos do passado desprazerosos, o que gera angústia, por isso a repetição está mais além do princípio do prazer e a serviço da pulsão de morte, pois o que não consegue ser elaborado psiquicamente repete-se destrutivamente em ato. Mas o objetivo dessa repetição é tentar dominar as excitações excessivas e defender-se delas, isto é, ligar psiquicamente as quantidades de excitações invasoras e proporcionar-lhes descarga. Na reação de defesa contra a invasão desse excesso de estímulos, o aparelho anímico forma uma intensa contracarga a partir do empobrecimento de todos os demais sistemas psíquicos, resultando em extensa paralisia ou diminuição do resto da função psíquica. Isso acontece com muitas das mulheres atendidas na saúde, que não conseguem realizar nada do que costumavam fazer antes da perda traumática devido a esta limitação psíquica.

A pulsão erótica preserva e une, e a pulsão de morte é destrutiva e agressiva, conforme o texto Por que a guerra? deFreud ([1933] 1996).A vida surge da ação entre ambas, que não operam isoladamente, mas estão sempre combinadas. Ele considera que tudo que favorece os vínculos emocionais entre os homens atua contra a guerra e os instintos agressivos, sejam estes vínculos relativos a um objeto amado ou de identificação. Para Freud (ibidem), quanto mais houver evolução da cultura no sentido da civilização, mais haverá fortalecimento do intelectoe internalização das consequências e perigos dos impulsos agressivos, deslocando e limitando os impulsos pulsionais.

A questão é que quando há excesso de pulsões destrutivas, como as de violência, de exclusão, de risco de morte, de medo e silenciamento, se desfazem os laços eróticos que ligam, e aí se dá uma exposição dos sujeitos e das comunidades a algo da ordem do traumático, produzindo as neuroses traumáticas que atingem as populações da periferia e que chegam aos serviços públicos de saúde.

Essas regiões da periferia, marcadas pela desregulação e desproteção, passam a ser espaços potencialmente traumatizantes, que tornam o sujeito exposto e vulnerável a arbítrios e abusos de toda ordem. Endo (2005) e Viñar (1992;2011) abordam esta concepção do traumático oriundo da exclusão ou da marginalização. Endo (2005) enfatiza que viver cotidianamente com a vida em risco, exposta à morte, impõe uma convivência com o traumático. Nessa situação, ocorre isolamento, apoio à ação policial dura e permissividade ao desrespeito dos direitos civis. A população, assustada, não vê outra forma de combater a violência a não ser agressivamente, e assim as violências se cotidianizam e banalizam – tanto no campo privado e subjetivo, como nos grupos e coletividades. O autor refere que a morte violenta é sempre traumática, não só para aquele que foi atingido diretamente como também para um grande número de pessoas que gravitam em torno do acontecimento: familiares, amigos, vizinhos, comunidade. Diante de tal acontecimento, muitas vezes não há nenhuma palavra nem reação, mas o mutismo, a ininteligibilidade, o anseio pela resposta imediata de vingança, a descrença nas instituições públicas, o receio da própria vulnerabilidade e da repetição da violência. Estas pessoas muitas vezes, não reconhecem a gravidade do golpe sofrido e passam a se isolar, ao não compartilhar o horror elas mantêm-se numa aparente indiferença e neutralidade. Segundo Endo (2005), nessa experiência traumática, aquele que passou pelo choque pode passar a ser aquele que choca, repetindo compulsivamente o trauma. Em contextos traumáticos, a preocupação com a própria sobrevivência – “salvar a própria pele” – em vez de solidariedade e identificação com a dor do outro pode gerar uma convivência acusatória e superegóica, uma desconfiança generalizada.

Viñar (1992; 2011) analisa diferentes situações histórico-políticas e compara o trauma decorrente da violência produzida pela marginalização e exclusão do laço social com o trauma perpetrado pelas violências das ditaduras, das experiências totalitárias e das guerras. Para ele, em ambas as situações o terror emudece e isola a vítima em sua dor e seu silêncio. Considera que há um genocídio frio e às vezes imperceptível na exclusão que é tratado com indiferença ou com uma ‘distração cortês’: “el horror gélido de la marginación y la exclusión, que privan al sujeto de su derecho a tener derechos[7](VIÑAR, 2011, p. 61). Para o autor, o trauma da violência política e o trauma por exclusão não são enfermidades do aparato psíquico de um indivíduo, mas sim enfermidades do laço social, pois em ambas as situações as pessoas herdam a humilhação e a vergonha dos ascendentes manchados pelo terror político ou pela vivência da miséria e não acesso a direitos básicos. Nessas situações, o social sofre antes que o indivíduo, o laço social está doente antes que o sujeito, gerando ao mesmo tempo um desamparo pessoal.

Refere que a impunidade e o silenciamento impostos na ditadura sufocaram a memória pública em alguns casos durante décadas na América Latina. Para o autor, o trauma da violênciapolítica deve assumir seu estatuto de ato político e não de enfermidade, e o processo terapêutico se dá ao longo da história da humanidade. Como as Madres de la Plaza de Mayo que socializaram publicamente seus lutos e dores em prol da transmissão desta memória traumática, contra a memória oficial da ditadura que não reconhecia os assassinatos, desaparecimentos e torturas que realizou. Demorou décadas destas manifestações para que elas deixassem de ser consideradas loucas e se revertesse o mandato de silêncio da ditadura, tal como acontece também em outros traumas políticos – “el horror del trauma crece en la oscuridad del secreto y la impunidad…” (VIÑAR, 2011, p. 65).Por isso, o autor assinala a importância dos movimentos de direitos humanos, de justiça e condenação aos crimes de lesa-humanidade, que denunciam e nomeiam o terror. Para Viñar (1992), no terror há também evitamento e denegação por parte do próprio sujeito que, para não se aterrorizar com as feridas que esconde de si mesmo, não reconhece o próprio trauma. O indizível do terror e da vergonha é que faz trauma, deixando marcas na subjetividade. O terror subjetivo é vivido na humilhação e no entorpecimento, na lógica do aniquilamento, diferente da lógica da reflexão. Onão-inscritível do traumático gera compulsão à repetição no sujeito e nos seus descendentes que herdam esses traumas.

No Brasil, a ausência de julgamento e a impunidade em relação aos crimes cometidos durante a ditadura teria forjado uma espécie de licença para os abusos, torturas e assassinatos cometidos por agentes do poder público, segundo Kehl (2010), e seria ao mesmo tempo uma das causas dessa violência generalizada na sociedade contemporânea. Assim repete-se a barbárie e o encontro com o gozo da pulsão de morte. A autora afirma que em nosso país o “esquecimento” do intolerável da tortura produz a naturalização da violência como grave sintoma social. Sua idéia de sintoma social vai ao encontro da idéia de laço social doente de Viñar, já citado, que consente com indiferença ou sem oposição que aconteçam esses crimes de lesa-humanidade ontem e hoje.

Se  concordamos, como propõe Kehl (2010), que o sujeito não é um indivíduo isolado porque pertence a um campo simbólico que é coletivo, podemos considerar que os traumas que emergiram sob a égide do colonialismo e da escravidão, da ditadura – na forma de perseguição, desaparecimentos, assassinatos e torturas – e os gerados pela violência atual nas comunidades marginalizadas, encontrariam sua elaboração também pela inscrição no coletivo de um reconhecimento desta violência de ontem e de hoje. Inscrição que inclui a nomeação da violência como crime, sua investigação e julgamento, a cobrança da responsabilidade do Estado na proteção de seus cidadãos, o suprimento dos direitos básicos e o oferecimento de condições dignas de vida para a população.

Nesse sentido, Endo, Viñar, Kehl e Alencar enfatizam a importância da elaboração subjetiva  e coletiva do trauma e do luto, a construção de um lugar de inscrição não somente individual, mas também na comunidade, na sociedade e na cultura. Então, como escapar à banalização, ao silêncio, à esquiva e à fascinação? Viñar (2011) propõe que a cura do trauma se dá pelo retorno da vítima a sua condição de sujeito, de ser falante, de cidadão, pelo resgate da palavra e restituição da memória. Só nos humanizamos através de pertença a uma cultura e pela continuidade ou ruptura com a tradição, recebendo e reconhecendo as dores e alegrias de nossos ancestrais e transmitindo aos descendentes. Por isso, enfatiza a importância de socializar lutos e dores, tornar representável e transmissível a memória individual e coletiva, realizando a inscrição na cultura e na história. Da mesma forma, Endo (2005) indica como saída tirar os sujeitos do emudecimento estéril, do confinamento da violência e da dor, do descaso e do encerramento na subjetividade privada para que se realize o debate público que alerte sobre o desrespeito ou violação aos direitos humanos. Cessar o pacto íntimo com a violação e a vergonha de ter sido vítima dela, passar do silêncio e do ato para a fala, visando metabolizar o excesso no trauma vivido.Ao se reconhecerem e singularizarem os mortos vítimas da violência, retoma-se a importância e dignidade deles para cada um e para seus filhos, e a ideia de serem cidadãos de direitos e também de uma cidade justa e solidária, a possibilidade de identificação entre os pares. Para o autor, o trabalho nas instituições com vítimas da violência pode e deve assumir um sentido igualmente íntimo e público, ambos necessários à perlaboração da dor e da experiência de vulnerabilidade que constituem a violência traumática. Construir mecanismos de reconhecimento público e social que admitam o sofrimento gerado pelas violências e contribuam assim na sublimação individual e coletiva da pulsão de morte.

Em suma, a negação do luto e o trauma vividos nestas situações violentas de ontem e de hoje não podem ser reduzidos a uma questão subjetiva ou uma patologia individual: o laço social doente e esgarçado que admite as atrocidades também produz isso. Por essa razão, a abordagem para a elaboração dessas situações violentas deve favorecer a circulação de significantes, o reconhecimento das violências e a inscrição no campo do Outro (ROSA, 2010), fazer existir e inscrever um lugar para o que estava encoberto, denegado ou invisível para a sociedade, e para o Estado. Reconhecer a história de indivíduos e famílias, que é também a história coletiva de cidades e países em uma determinada época e lugar, possibilita marcar a responsabilidade coletiva e remendar o tecido social rompido. Não deixar esquecer nem negar o passado e o presente violentos é imprescindível para poder construir um futuro onde estes não se repitam.

 

REFERÊNCIAS:

ALENCAR, Sandra. A experiência do luto em situação de violência: entre duas mortes.Tese de Doutorado – PUC/SP.  São Paulo, 2011.

ALLOUCH, Jean. Erótica do luto no tempo da morte seca. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2004.

ENDO, Paulo. Violência no coração da cidade. Um estudo psicanalítico. São Paulo: Escuta/FAPESP, 2005.

FALCÃO, André. Homicídio é a principal causa da morte de jovens no país.Disponível em: http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2015/09/09/homicidio-e-a-principal-causa-da-morte-de-jovens-no-paisAcesso em: 19/03/2017.

FREUD, Sigmund. Reflexões para os tempos de guerra e morte [1915]. In: _____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. XIV.

FREUD, Sigmund. Considerações de atualidade sobre a guerra e a morte [1915]. In: _____. Obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Editora Delta, 1956, vol. VII.

FREUD, Sigmund. Introdução à psicanálise e a neurose de guerra[1919]. In: _____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Mais além do princípio do prazer [1920]. In: _____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Por que a guerra? (1933). In: _____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol XXII.

KEHL, Maria Rita. Tortura e sintoma social. In: TELES, E.; SAFATLE, V. O que resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010. Disponível em: http://nucleodememoria.vrac.puc-rio.br/system/files/acervo-livre/cg0114/videocg0114003.pdf

ROSA, Miriam Debieux et al. A elaboração coletiva do trauma: a clínica do traumático. In: SCOTTI, Sergio et al. Escrita e psicanálise II.Curitiba: Ed. CRV, 2010.

VIÑAR, Marcelo. “O terror, o lugar do psicanalista”. In: VIÑAR, Maren & Marcelo. Exílio e Tortura. São Paulo: Ed. Escuta, 1992.

VIÑAR, Marcelo. “El enigma del traumatismo extremo. Notas sobre el trauma e la exclusión. Su impacto en la subjetividad”. Revista Uruguaya de Psicoanálisis, Uruguay, nº113, p. 55-66, Dez 2011.

XAVIER, M.; HUBLER, J. e CELENTE, R. Homicídios que assustam o RS.Correio do Povo, Porto Alegre, p. 8, 19 de março 2017.

[1]Psicóloga e psicanalista, Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA) e Instituto APPOA, Doutora em Educação (UFRGS).

[2]          ALENCAR, Sandra. A experiência do luto em situação de violência: entre duas mortes.Tese de Doutorado – PUC/SP.  São Paulo, 2011.

[3]          ALLOUCH, Jean. Erótica do luto no tempo da morte seca. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2004.

 

[4]           FREUD, Sigmund. Introdução à psicanálise e às neuroses de guerra (1919). In: FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. XVII.

[5]          FREUD, Sigmund. Mais além do princípio do prazer (1920). In: FREUD, Sigmund.Obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Editora Delta, 1956, vol. V.

[6]           FREUD, Sigmund. Por que a guerra? (1933). In: FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol XXII.

[7]Tradução livre: “o horror gélido da marginalização e da exclusão, que privam ao sujeito de seu direito a ter direitos”

[Revisor 11]Sugest縊: ponto final.

[Revisor 12]N縊h�necessidade de retic麩cias.

[Revisor 13]Sugest縊: usar dois pontos(��

[LIVRO CLÍ4]N縊seria o ato violento que gerou a morte (e consequentemente o luto) que precisa ser reconhecido no 穃bito p炻lico?

[Unknown A5]A frase não está clara, reformular

[Unknown A6]Isso não é necessariamente uma salvaguarda à violência.

[Revisor 17]Fiquei com uma quest縊quanto ao tempo do traum疸ico. Ao longo do texto surge a id駟a do trauma como decorr麩cia do processo de elabora鈬o (ou falta de condi鋏es para uma elabora鈬o), decorrendo da�登trauma� A partir dessa refer麩cia do Paulo Endo, fica expl兤ita a ideia de que a morte �sempre da ordem do traum疸ico.

[Unknown A8]Estas frases parecem soltas do texto.