Entrevista de Paul Preciado por ocasião do lançamento de seu novo livro: Un apartamento en Urano. Por Ariana Sáenz Espinoza.

Foto: Marie Rouge

Prezadas e prezados leitores e colaboradores do Psicanalistas pela Democracia publicamos hoje, em primeira mão, a entrevista concedida por Paul Preciado, escritor, filósofo e curador à Ariana Sáenz Espinoza, a propósito do lançamento de seu último livro na Argentina intitulado Un apartamento en Urano
Psicanalistas pela Democracia agradece ao nosso colaborador Paulo Henrique Fernandes, professor de Filosofia da Faculdade de Educação da USP e pesquisador do Grupo em Direitos Humanos, Democracia e Memória do Instituto de Estudos Avançados da USP e à Célia de Lourdes Amaral de Almeida do Cursinho Popular Transformação pela tradução do material e por todo o trabalho de negociação para que a entrevistadora Ariana Espinoza e a  fotógrafa Marie Rouge autorizassem  a publicação do material no Brasil e em português, a fim de que os leitores do PPD pudessem ter a entrevista traduzida para o português e a foto que acompanhou sua pub licação originalmente.
Ao Paulo e à Célia, mais uma vez , nossos mais sinceros e fraternos agradecimentos.
E esperamos que nossos leitores aproveitem a leitura!

Psicanalistas pela Democracia (organizadores)

 

“Eu me dei conta de que, quando socialmente você não percebe a violência, é porque a exerce.”

ENTREVISTA DE PAUL PRECIADO POR OCASIÃO DO LANÇAMENTO DO SEU NOVO LIVRO: UN APARTAMENTO EN URANO.

Por Ariana Sáenz Espinoza

Tradução: Célia de Lourdes Amaral de Almeida (Cursinho Popular Transformação); Paulo Henrique Fernandes Silveira (FEUSP e IEA-USP)

 

Ao já lendário Um quarto próprio, de Virgínia Woolf, soma-se e, também, dele se desvia Un apartamento en Urano (Anagrama), novo livro do filósofo e ativista Paul B. Preciado, que chega neste mês (junho) às livrarias argentinas. Trata-se de uma série de artigos que circundam a ideia do trânsito, no sentido mais amplo e complexo do termo, publicados entre 2013 e 2018 no jornal francês Libération, escritos em mais de 20 cidades, coincidindo, não casualmente, com a mudança de nome do seu autor, de Beatriz (Beto) Preciado, ao hoje Paul B. Preciado. Na entrevista com o Suplemento SOY, Preciado reflexiona sobre as condições de sua própria escrita e sobre os problemas que hoje produzem e enfrentam o pensamento, a experiência e a política queer.

No século XIX, quando a homossexualidade foi inventada como crime e enfermidade mental na Europa, o escritor Karl Ulrich foi o primeiro a declarar-se “uranista” e a afirmar os direitos “dos que amam de outra maneira”. Este que hoje conhecemos como Paul B. Preciado se propôs transformar seu corpo e sua subjetividade através da autoadministração de testosterona. Esta travessia, relatada numa série de crônicas publicadas entre 2013 e 2018 no diário Libération, foi publicada em abril em sua versão espanhola que este mês chega à Argentina, num livro dos mais originais dos últimos tempos. Nele encontramos uma multiplicidade de entrecruzamentos que vão interagindo entre si: o mundo de Paul, como diria Virginie Despentes em seu prefácio comovedor, transforma-nos sem violência. Assinadas em mais de vinte cidades distintas, brindam-nos com um olhar radicalmente singular sobre o mundo, a heteronormatividade, o corpo, entre tantos temas atravessados. A escrita destas crônicas e artigos coincide com a mudança de nome do seu autor e com seu embarque, depois do MACBA, na aventura de “documenta 14” através de um projeto apátrida e itinerante chamado “O Parlamento dos Corpos”. Implantada em Atenas e dirigida pelo curador polonês Adam Szymczyk, “documenta 14” é um manifesto da arte contemporânea com uma potência crítica raras vezes vista na Europa, que em plena crise grega desarticula as contradições das políticas econômicas e identitárias do continente. Um apartamento en Urano desenha ou des-desenha – conforme o ponto de vista – uma cartografia do entrecruzamento em direção a um planeta próprio, uma brecha no espaço onde seria possível a liberdade, longe de toda epistemologia binária.

“A ti, que crês que existo, como dizer o que sei com palavras cuja significação é múltipla; palavras, como eu, que mudam quando se olha para elas, cuja voz é alheia?” (“A toi, qui crois que j’existe,/ Comment dire ce que je sais/ Avec des mots dont la signification/ Est multiple ;/ Des mots, comme moi, qui changent,/ Quand on les regarde,/ Dont la voix est étrangère ?”, Jabès, Le livre des questions, t. I). Estes versos do egípcio Edmond Jabès podem ser um dos tantos reflexos de toda a potência poética com a qual o filósofo, ativista e curador de arte Paul B. Preciado consigna e torna pública uma travessia somato-política com a testosterona em direção a algum lugar de Urano.

 

Em que momento de sua atividade filosófica, crítica, e de transição, você empreende a escritura destas crônicas?

O início destas crônicas coincide para mim com um momento, durante o processo de transição, da crise da instituição universidade e da instituição museu, no qual, de repente, decidi que meu trabalho no âmbito universitário já tinha se esgotado. Queria sair daquela forma de produção de conhecimento, em que via meu trabalho de professor como o de uma espécie de produtor semitécnico que proporciona ao aluno um pacote conceitual que, no fundo, não deixa de estar ajustado ao neoliberalismo dentro do capitalismo cognitivo. Para mim, aí esgotou-se, precisamente, a possibilidade de encontrar uma forma de aprendizagem real, a produção de algo genuinamente novo dentro desse formato. Decidi então embarcar em outra coisa, preparar a exposição “documenta 14” e viajar por toda parte. E foi interessante precisamente nesse momento que era paradoxal, porque tinha iniciado a mudança de nome e, no entanto, não tinha o passaporte novo. Eu poderia ter ficado abatido esperando o novo passaporte, mas me pareceu interessante começar a viajar e atravessar fronteiras, justo no momento em que o Estado-nação retém seus documentos e seu passaporte é confiscado. Como uma forma de colocar em crise todo esse sistema. Como um momento no qual, de algum modo, você quer experimentar o que pode acontecer aí, nesse espaço que é um espaço extremamente violento e extremamente normativo, que até esse momento você não tinha percebido. Eu me dei conta de que, quando socialmente você não percebe a violência, é porque a exerce. São teus próprios privilégios que te impedem de vê-la. Você pode chegar à Europa e pensar que isso é ótimo, mas, em quais condições de legalidade, em quais condições econômicas, em quais condições de reconhecimento de gênero, de sexualidade? Esse foi o momento no qual eu comecei a perceber a violência do contexto europeu de outra maneira, mais diretamente, em meu próprio corpo e, talvez, isso também tenha me deixado muito mais atento para estabelecer relações de aliança e de solidariedade.

 

Nesse contexto de escrita, a temporalidade também é outra…

Esta mudança de vida supunha uma carência de tempo para o que eu escrevia habitualmente. A tarefa da filosofia é uma tarefa muito lenta. É, talvez, o que mais me agrada na filosofia, porque, no fundo, ela é totalmente antiprodutiva, está contra os tempos e os ritmos de produção neoliberais. Nesse contexto, de repente, surgiu a possibilidade de escrever crônicas para Libération: quase escrever um diário, porque tem um elemento de diário, mas um diário que é, ao mesmo tempo, geopolítico, somato-político ou anatomopolítico, que vai do corpo até o planeta e retorna. Entrei num rito de escrita – pela minha natureza autista, tudo o que é ritual me encanta –, então, encantava-me essa temporalidade de saber que a cada duas semanas precisava enviar uma crônica. Entre uma e outra viagem, o relógio da escrita marcava o tempo. Há um momento, na transição e na desinstitucionalização que supõe deixar seu gênero e ter outro, de alienação, em que você se torna como uma espécie de estranho para si mesmo, que é criativamente bonito, mas que também pode ser tremendamente assustador. Eu gostava dessa dinâmica de enviar uma crônica de qualquer lugar do mundo para um lugar que, aparentemente, poderia ser muito íntimo, mas que, de repente, está num jornal que você nem vai ler, já que eu nunca vejo minhas crônicas quando elas saem. E isso foi como ter a sensação de me permitir uma grande liberdade e distância e também manter contato. A crônica era como um pássaro francês que se empoleirava nas minhas costas e que me acompanhava. Além disso, eu acredito que há muito poucos casos em que o autor tenha mudado de nome durante a escrita do livro (risos). E isso me parecia um elemento tão absolutamente único neste caso, que eu queria que fosse registrado de alguma forma. A crônica acidentada dessa travessia, no momento em que ela acontece. Eu queria que fosse registrado quando se atravessa essa fronteira, porque essa fronteira produz uma série de mudanças que ninguém poderia imaginar. Evidentemente, se agora eu pensasse sobre essas mudanças e começasse a escrever sobre elas, eu teria outro olhar, o que não é exatamente o que você produz quando atravessa essa fronteira.

 

Você fala de livros como uma cama portátil que leva com você nesta travessia. E em cada crônica você sente a marca da literatura, da poesia. Que espaço abre a experiência da linguagem praticada na literatura?

Para mim, tudo é literatura. O problema é quando deixamos de ver a linguagem como literatura e de repente a linguagem se converte em outra coisa. Então, ela se torna a linguagem violenta da administração ou a linguagem que é norma ou que é insulto, ou na linguagem técnica da ciência. A luta do filósofo é devolver a linguagem ao magma da poesia para mudar o momento em que a linguagem se cristaliza e forma instituições, sociedades, ritos. Durante esse tempo, o que foi realmente fundante ou refundante, foi a experiência da mudança de nome que eu tinha pensado como uma experiência que seria, especialmente, administrativa – um processo jurídico, legal. Eu não tinha imaginado o poder poético dessa mudança. Em princípio, não era um nome que eu tinha escolhido, foi dado a mim em um sonho e eu o recebi no âmbito de um ritual que fiz. A partir daí, a questão foi decidir aceitar esse nome, ou seja, algo que para mim tem a ver com o ato literário como um ato artístico – o ato mais supremo que pode haver, que é nomear. De repente, a loucura absoluta, incoerente, ridícula e, ao mesmo tempo, bonita de dizer: “Bem, vou me chamar Paul”. Um nome que, em princípio, era absolutamente alheio e estranho, mas essa estranheza fez com que, nos primeiros meses, eu estivesse constantemente atento à palavra “p-o-l”. De repente, toda a linguagem se arrepiou. Todas as palavras se eriçaram e eu ouvia “Paul” em todos os lugares. Em política, em polícia, em polar, em pol-aridade, em polé, em polemista, em polaina… em despovoado (desploblado), em tudo. Pareceu-me que este nome estava em todas as palavras e que poderia surgir de todas as palavras. Então, a linguagem por inteiro ganhou vida. Da mesma forma que agora sou incapaz de ver uma pessoa como masculina ou feminina, algo semelhante aconteceu com a linguagem. Qualquer coisa que você nomeie – o livro, o telefone ou o que quer que seja – de repente, você começa a ouvir verdadeiramente a beleza poética dessa palavra como palavra. Acho que esse foi um dos momentos mais extáticos e  transformadores da minha vida. A primeira coisa que se transforma é sua escuta, mas essa escuta faz com que você não possa mais escrever da mesma maneira. Por vezes, eu ria ao escrever as palavras, ao dizer qualquer palavra e ver como soa. É quase como voltar à primeira infância, mas com a consciência que você tem agora. E com outra voz, claro. E isso também é uma coisa incrível, porque mudar de voz é um ato político de ventriloquia brutal.

 

Algumas das suas crônicas referem-se ao xamanismo, ao qual você recorreu durante o processo de escolha de um nome designado como masculino. Qual potencialidade política – eventualmente descolonial – tem o xamanismo no entrecruzamento que empreende sua subjetividade?

Pode-se negar certas técnicas de intervenção na subjetividade que aparecem como normativas, mas ainda precisam de ajuda em alguns casos. Precisamente nesse processo de buscar um nome é que me interessava o tema a qual técnica recorrer. O xamanismo me interessava como uma das técnicas de produção de consciência e de produção de subjetividade. E por ser uma técnica indígena, foi relegada a um lugar inferior e foi negada com a chegada da colonização e das religiões ocidentais. Mas, obviamente, eu não me aproximo do xamanismo por uma perspectiva indigenista. Eu o faço a partir de uma perspectiva fármaco-pornográfica. Poderíamos dizer que eu estabeleço com a testosterona a relação que o xamã estabelece com a planta: em ambos os casos se trata de tecnologias de produção de consciência. O que me interessa é o curto circuito que se pode produzir entre a minha consciência, já totalmente século XXI ocidental, a partir desta subjetividade política que é a minha, e outra tradição, da resistência à normalização colonial. Pode-se pensar que as práticas trans e certas práticas xamânicas indigenistas são, em diferentes contextos, práticas de resistência à normalização da subjetividade. Nesse sentido, pode ser interessante, num dado momento, estabelecer alianças entre ambas. Mas, em nenhum momento eu vi minha xamã como indígena, tinha telefone e whatsapp e estava mais conectada que eu. Eu quase vejo como mais indígena o médico daqui.

Em que sentido?

No sentido de estar atado a uma arqueologia colonial, pois isso sim vejo como uma espécie de indigenismo europeu, para dizer de outra forma. Quando alguém se aproxima do discurso médico, anatômico, percebe que ele funciona com uma visão do corpo do século XV (por exemplo, de Vesalio ou de Ambroise Paré), para pensar a subjetividade sexual do século XXI. Nesse sentido, o xamanismo e a medicina estão numa proximidade incrível, quer dizer que, quando você é trans, supostamente, deve ir ao médico, que lhe dirá: “Você está doente, com disforia de gênero e vamos lhe dar testosterona”, e faz você assinar um papel, o que não deixa de ser um ritual. Você pode fazer exatamente o mesmo com um xamã, não quero exotizar e dizer que as práticas do xamanismo sejam sempre utópicas ou transformadoras por si mesmas.  Existem muitas práticas xamânicas que são absolutamente conservadoras, por exemplo, com relação à figura patriarcal, e são totalmente binárias. Mas interessa-me explorar outras práticas de subjetivação dissidentes, porque, se é necessário superar a epistemologia da diferença sexual, será necessário entre outras coisas reencantar a natureza. Eu reencantaria tudo, não apenas a natureza; acredito que é preciso reencantar a máquina, reencantar o objeto, tudo.

 

O que você quer dizer com reencantar?

Reencantar é reanimar. Acredito que precisamos entrar num tecno-animismo cósmico e que nada mais pode nos salvar. Seria a única coisa que poderia evitar de estarmos nesta relação de destruição sistemática do planeta. Dessa forma, entender que tudo é absolutamente sagrado, tudo, que a linguagem é sagrada, mas é óbvio que os seres vivos são sagrados. Esta mesa na qual estamos sentados, por mais vulgar que pareça, é fruto de uma cooperação histórica incrível e deveríamos honrar essa história toda vez que nos sentamos. E é por isso que eu gosto da performance, eu a vejo o tempo todo, não vejo nada além da performance ao meu redor, o que me interessa é a desnaturalização e desautomatização do gesto. Isso significaria que, cada vez que fizéssemos algo, disséssemos algo, prestássemos atenção na dimensão da coreografia política normalizada e que, de repente, possamos introduzir aí um processo de desintoxicação. Um dia eu falei com um xamã peruano que me dizia que ser trans é impossível, que eu tinha que estar de um lado ou de outro, pois do contrário não poderia tomar ayahuasca nem fumar, já que a planta não saberia como se relacionar comigo. Que a planta não saiba como se relacionar com alguém é muito interessante. Isso é o que me interessava com o processo da testosterona, ou seja, que nem você, nem a planta, nem você, nem a molécula sabem muito bem como estabelecer uma relação mútua, se essa relação não é uma relação de causa e efeito. Porque, mesmo que alguém lhe diga: “você vai tomar tantos miligramas, e é isso”, tanto faz, no dia em que você levanta de manhã e a voz é outra, o efeito é imprevisível. Quer dizer, não estou disposto a aceitar que a transexualidade seja uma doença sexual, certo, mas, também não posso aceitar que seja um processo de simples passagem de um lado para o outro do binário, no qual existem apenas dois gêneros. O que pretende a medicina neoliberal é que ser transexual possa ser um processo administrativo de mudança de sexo garantido juridicamente, dentro da norma binária e heterossexual. Isso não tem nenhum interesse. Não existe discurso anatômico, nem discurso político, nem legal, para dar conta da complexidade do que acontece nesse processo. Essa irrepresentabilidade do processo é precisamente o que me interessa.

 

E dar visibilidade ao que essa contradição propõe, inclusive, dentro da luta feminista.

Claro! A mim me interessa a dimensão política deste processo e, portanto, torná-lo público através da escrita e da palavra. Com todos os problemas que isso gera para a opacidade dos diferentes discursos, porque, no fundo, qualquer discurso de poder (o médico, o legal), até mesmo o discurso branco, heteroliberal na esfera feminista, o que quer é minimizar a potência disruptiva dessa experiência, da qual é impossível dar conta dentro de um sistema binário. Esse é o paradoxo absoluto de um regime que, ao mesmo tempo, oferece a você a possibilidade de fazer uma transição de homem para mulher ou de mulher para homem, mas impede qualquer proliferação da vida fora do binário. O problema é que alguns dos discursos de resistência, como o feminismo liberal, transformaram-se em dispositivos de controle patriarcal e colonial, em discursos de opressão racista, lesbifóbica e transfóbica. A chave de toda luta de libertação política é o desejo de transformar tudo, e esse desejo passa por ser capaz até mesmo de mandar à merda um certo feminismo liberal normativo: à merda os carcereiros do desejo transformador, à merda o feminismo liberal quando se converte em carcereiro! E qualquer lema vindo do feminismo relacionado com a normalização do que significa ser mulher ou ser mãe deve ser entendido como um freio à revolução total.

 

Como impulsionar esse desejo transformador?

Eu estou do lado da desidentificação crítica e não da identidade. Para mim, o mais importante é reconectar com o corpo vivo que somos, não com minha essência feminina, masculina ou mesmo trans… A potência de vida que me habita é a única coisa que me interessa politicamente. No meu caso, esta desidentificação chegou pelas mãos da escrita e da testosterona. Esse processo nunca pode ser um processo individual, um processo solitário; mas sempre acaba sendo como estabelecer uma cumplicidade com alguém e com alguma coisa. Eu sempre digo que tenho com a testosterona a relação que o xamã pode ter com a planta. É o fármaco, evidentemente, no sentido derridariano do termo, isto é, o que o mata, mas que o transforma e que pode também revitalizá-lo totalmente. E, especialmente, o fato de que o que tem a ver com experiência de transição com a testosterona, coloca em primeiro plano algo que o feminismo queria deixar de lado, por toda a tensão entre o construtivismo e o essencialismo. É a questão sobre o corpo vivo. Quando o construtivismo de gênero fala da construção social e cultural da diferença sexual, esquece de dizer que o que se constrói é um corpo, uma ficção política viva. O gênero não é uma ideologia, é parte do corpo, é uma prótese política encarnada feita de linguagem, de instituições, de técnicas sociais ritualizadas, e tudo isso também é tecno-orgânico e tem sua própria vida.

 

Então, você não se afirma como feminista?

Sim, feminista e mais, eu me considero transfeminista, para sublinhar a transformação do sujeito político, e para defender a abolição da diferença sexual como atribuição de um código cultural que permite a um corpo integrar uma comunidade humana. Trata-se de afirmar o corpo e o desejo como lugares centrais de um feminismo cujo sujeito político, certamente, não é apenas a mulher. Pode ser a mulher, em alguns casos, mas não é apenas a mulher. O objetivo de qualquer movimento político, seja o feminismo ou outro, é precisamente a transformação do sujeito que realiza essa emancipação. O movimento operário tem como objetivo, entre outras coisas, transformar o operário, porque, se é para deixá-lo exatamente como está na relação de subordinação à máquina, ao trabalho ou aos meios de produção, então, não vejo para que serve o operaísmo. E com o feminismo é igual: se não serve para transformar o sujeito que o pratica, para que serve?

 

Como você vê o potencial dos movimentos de resistência ao sistema cis-hetero-patriarcal e neoliberal na América Latina e diante do perigo da bolsonarização do continente?

Eu preferiria não falar de “bolsonarização” do continente, porque a criação da palavra já desenha uma cartografia da América Latina que devemos evitar. Prefiro falar de pantransfeminismo planetário, porque permite desenhar outro horizonte de transformação. Mas se falamos de bolsonarização, haveria duas ameaças, uma que tem a ver com essa onda neofascista que em parte é uma tradição que, de forma cíclica, não deixou de estar presente na América Latina. Acredito que nos países da América Latina, como em outros, da Europa oriental, no Estado espanhol ou em Portugal, por exemplo, vivemos em sociedades fascistas, que estão em processo de democratização, que nunca chegaram a ser democratizadas. Quer dizer, nunca conhecemos a democracia. Passamos das ditaduras ao livre mercado, e acreditamos que o livre mercado era a democracia. O liberalismo não é a democracia, mas sim oposto. Pensemos em contextos como o do Chile ou daArgentina, mas também o Estado espanhol, onde o neoliberalismo foi realmente quase como posto à prova nesse momento de transição política dos anos 70. Nesse processo de transição da ditadura ao neoliberalismo, houve um momento em que esse liberalismo pareceu vestir-se de algum modo com as convenções da democracia liberal. O que ocorreu no processo de transição das ditaduras para o livre mercado é que as grandes corporações neocoloniais estabeleceram alianças estratégicas de controle com o patriarcado colonial, para frear a proliferação democratizante das forças dissidentes. Assim foram restabelecidas as oligarquias que já estavam presentes no período colonial, oligarquias de classe, de raça, de sexo e sexualidade e afiançadas pelos novos poderes mercantis. A “bolsonarização” da América Latina no fundo tem que ver, como na Europa, com a incapacidade da esquerda para despatriarcalizar e descolonizar.

 

Despatriarcalizar também a esquerda…

Também tem a ver com o fato de que a própria esquerda tinha um modelo de sujeito político que não deixava de ser um modelo viril, heterossexual, no fundo, um modelo branco também, no fundo, colonial etc. Com o qual, talvez, também o que estamos vendo seja a alternância entre duas formas de patriarcado colonial e, de uma forma subterrânea, também o que vemos é a resistência de um conjunto de coletivos: o zapatismo, os vários indigenismos, os milhões de movimentos de resistência no Brasil, no México, na Argentina… Estamos atentos porque talvez a transformação venha também daí, da transformação da esquerda, do questionamento do Estado-Nação, da crítica do patriarcado. Parece-me que dizer simplesmente “bolsonarização” é não prestar atenção nos detalhes dessa cartografia subterrânea. Estejamos atentos a essa pluralidade de forças, a sua forma de escapar do mapa do poder, a sua negação de demandas de reconhecimento e igualdade: é a multiplicidade desses movimentos de resistência que pode nos salvar. Podem ser movimentos indigenistas na selva peruana, podem ser movimentos trans não-brancos no Brasil… Talvez exista quem pense que o zapatismo fracassou em certo sentido, mas também proliferou de outros modos e vem contaminando outras formas de fazer política e de pensar o político na América Latina. Eu o vejo, nesse sentido, de maneira positiva e creio que devemos evitar os fantasmas de amplificação do neofascismo. Não vamos dar a ele mais poder do que já tem. Pensemos, antes, na enorme potência revolucionária dos movimentos dissidentes. Desejemos essa transformação com toda a imaginação coletiva de que somos capazes e já teremos começado a vencer a batalha contra Bolsonaro.