O destino das universidades. Por Florestan Fernandes (digitado por Paulo Henrique Fernandes Silveira)

O destino das universidades    

Florestan Fernandes

junho de 1959, Suplemento literário do Estado de São Paulo

Texto digitado por Paulo Henrique Fernandes Silveira

 

Pensa-se, em regra, que as universidades representam o produto puro e simples da atividade criadora dos grupos de especialistas que nelas trabalham cooperativamente. Isso é verdadeiro, mas em parte. O que dá grandeza às universidades não é o que se faz dentro delas – é o que se faz com o que elas produzem. São variados e numerosos os exemplos que demonstram como universidades pobres, mas aparelhadas e já obsoletas no preenchimento de suas funções educacionais, conseguem manter intercâmbio frutífero com o meio intelectual ambiente, graças ao apoio e à compreensão que este proporciona à “inteligência universitária”.

Entre nós ainda prevalece uma orientação que não permite falar na existência de “intercâmbio” entre as universidades e os círculos intelectuais extra-universitários. Predominam avaliações restritivas, que alimentam representações deformadas inclusive do que é positivo na produção intelectual do que os “universitários” conseguem fazer. Há o jornalista brilhante, que desfaz do “universitário” porque acredita que as universidades só abrigam professores interessados nos proventos resultantes do tempo integral. Há o industrial inteligente, que descrê do “universitário”, porque lhe parece serem seus estudos destituídos de significa&ccedi l;ão “prática”. Há o sacerdote piedoso, que combate o “universitário” por estar convicto de que seu ensino contamina as consciências. Há o profissional liberal, universitário por preparação, que subestima o “universitário”, por causa de aspirações de carreira frustradas ou em virtude de experiências próprias com um ensino superior cheio de deficiências e suscetível de enormes aperfeiçoamentos elementares. E por aí afora…

Trata-se de um coro altamente negativo, que favorece a incompreensão e estimula o retraimento. Onde surgem avaliações positivas, vêm com o caráter de exceções que confirmam a regra. São mantidas por círculos intelectuais que encaram as universidades de uma perspectiva deformada, como ocorre nas cidades que defendem a instalação de instituições universitárias como evidências “civilizatórias” e de “progresso”. Ou exprimem estados de opinião de círculos intelectuais que desejam manter alguma espécie de tutelagem sobre a organização e o desenvolvimento das universidades.

Situação tão anômala cria, naturalmente, sentimentos pouco estimulantes nos setores universitários. A ausência de intercâmbio, na atividade intelectual, deteriora e corrompe o que é bom, já que ela constitui a própria condição de todo juízo crítico e dos resultados positivos a que ele leva. Doutro lado, a ausência de intercâmbio oferece ambiente propício ao florescimento do que e daninho, pois fomenta a ignorância dos frutos da incompetência ou da semicompetência. No geral, a ausência de intercâmbio gera ou mantém o isolamento dos diferentes setores do pensamento. Compele a inteligência para a improdutividade e para padrões deficientes de apreciação do labor intelectual e de se seus produtos. Os próprios “universitários” acabam se contaminando com os hábitos intelectuais, associados à avaliação deformada de seus padrões de trabalho e do seu teor produtivo. Comprazem-se com o isolamento, com os juízos críticos de grupos fechados, tornando-se complacentes com os membros de sua grei e intolerantes no julgamento dos “estranhos”. Em suma, o isolamento suscita um clima de insegurança, tendências compensatórias de autoglorificação e hábitos impróprios de trabalho intelectual, no seio mesmo das universidades. Dificulta a cooperação entre as instituições que se deveriam completar e destrói pela base toda comunicação que poderia corrigir, internamente, os efeitos destrutivos ou deformadores das relações insatisfatórias com o meio intelectual inclusivo.

Que isso aconteça em um país que faz sacrifícios desmedidos para possuir “universidades” e que precisa delas para acelerar seu desenvolvimento, é um paradoxo. Contudo, um paradoxo explicável, que nasce das contingências da vida intelectual em uma sociedade em transição para a era do pensamento científico e da tecnologia moderna. O que importa assinalar, do ponto de vista prático, é que não sairemos da atual situação sem mudanças radicais de mentalidade – não só dos “universitários”, mas dos que podem absorver os produtos de seu trabalho ou contribuir para o alargamento das esferas de influência dos serviços de ensino e de pesquisa das universidades.

Daí a nossa convicção de que a primeira batalha por verdadeiras universidades deverá ser ganha, em nosso país, fora dos chamados círculos acadêmicos. Enquanto o homem médio brasileiro for incapaz de compreender e de estimar seus centros universitários, estes não terão destino certo. Poderão prosperar, faltando-lhes, porém, os estímulos que assegurem vitalidade e poder criador às instituições desse gênero. O próprio esforço de ajustar os serviços universitários às necessidades coletivas perde em interesse e sem utilidade, por carecer de direção, de alvos cooperativos de alcance grupal e de consciência criadora animada de influxos histórico-cultu rais. Um exemplo recente sugere o acerto destas afirmações. Professores e alunos de nossa Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras empenharam-se em resguardar essa instituição de deterioração que está ameaçando a organização e o rendimento de seus serviços de ensino ou de pesquisa. O sucesso obtido pelo movimento, que alcançou enorme repercussão no noticiário dos jornais, do rádio e da televisão, foi igual à zero, porque o grande interessado manteve-se ausente: os leigos acompanharam os debates, mas não participaram deles com disposições idênticas, de exigir para São Paulo instituições material e humanamente equipadas para as funções do ensino universitário.

Esse é o busílis da questão. As instituições sociais não se mantêm nem prosperam através de suas forças ou recursos exclusivos. Elas lançam suas raízes e extraem seu vigor de elementos invisíveis, com frequência exteriores a seus quadros organizatórios. Os sociólogos chamam esses elementos, que garantem a continuidade das instituições e preservam ou aumentam sua eficácia, de “controles reativos” ou indiretos. Eles não podem ser fomentados artificialmente; podemos importar as técnicas e os conhecimentos, que permitam organizar universidades comparáveis aos modelos europeus ou norte-americanos imitados. As atitudes e as avaliações concernentes a tais empreendim entos precisam “crescer” através da experiência. Resta-nos, portanto, longo caminho a percorrer, para inserir as universidades no horizonte intelectual do homem comum. Enquanto isso não suceder, as universidades não nos pertencerão realmente. Os próprios homens não lutarão por elas, acima de seus interesses imediatos.

Semelhante conclusão nada tem de melancólica. Se as universidades são indispensáveis no mundo moderno, nossa crescente participação no uso e no domínio dos recursos da civilização tecnológica e industrial irá proporcionar o enriquecimento de experiências coletivas, que nos faltam para construirmos uma imagem adequada da natureza e das funções das universidades nos cosmos material e moral da sociedade brasileira. Em contraste com os países velhos, não possuímos as expectativas formadas, que asseguram estabilidade e respeitabilidade às instituições universitárias. Contudo, temos a vantagem de começar do nada com os produtos finais de suas tentativas de resolver os problemas intelectuais, inerentes ao aparecimento das universidades e à sua expansão na era em que vivemos. Nossas universidades apontam para o futuro, exigindo dos que nelas trabalham (ou dos que a julgam), bastante audácia e imaginação para concebê-las no presente em função das necessidades intelectuais, “especulativas” ou “práticas”, que elas terão de satisfazer com o progressivo desenvolvimento da sociedade brasileira.