Um canto à liberdade. Por Abrão Slavutzky

               Miguel de Cervantes comeu o pão que o Diabo amassou, pois  morreu com seis dentes. Na verdade, o escritor perdeu bem mais que os dentes, ele perdeu duas vezes a liberdade. Foi preso em Argel e depois em Sevilla, ambas injustamente. Tinha então o autor de Dom Quixote de La Mancha vivência pessoal da prisão para escrever sobre a liberdade: “A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos que nos deram os céus; com ela não podem se igualar os tesouros que encerra a terra, nem o mar encobre”. Canto pela liberdade, pois aprendi cedo na vida o amor à liberdade. Daqui a poucos dias os judeus festejarão o Pessach, palavra que significa passagem, passagem da escravidão para a liberdade. Essa festa vem sendo comemorada há uns três mil anos. Por outro lado, o Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão dos negros.

O canto da liberdade está no desejo da autonomia, dos laços amorosos e o prazer de  pensar. Escrevo agora seguindo Hilel, um sábio talmúdico, chamado de sábio dos sábios. São dele as três perguntas que já tem dois mil anos: “Se não for por mim, quem será por mim?/ Se for apenas por mim, o que será de mim?/ Se não for agora, quando?”. Essas três perguntas já estão integradas à cultura. O escritor russo Máximo Gorki escreveu: “Essas perguntas acompanharam minha vida, elas foram um firme apoio no meu caminho, que não foi fácil nem suave”. Recentemente o filme Infiltrado na Klan, dirigido pelo  diretor norte-americano Spike Lee, fez referência às três perguntas. Ocorre na cena em que o líder negro Stokely Carmichael, que foi líder do Poder Negro na década de 1960 nos Estados Unidos, dá uma conferência. Cita as três perguntas como um estímulo à luta dos negros pela liberdade e os seus direitos civis.

São perguntas para todos, e em psicanálise serviriam como questões a serem desenvolvidas até para avaliar uma análise. Das perguntas desejo pensar hoje a última: “Se não for agora, quando?”. O tempo está presente sempre, até mesmo no inconsciente, que tem um tempo que não passa. Nele o passado, o presente e o futuro se integram e não se diferenciam. Ao escrever sobre o tempo, uma pergunta se impõe ao completar um ano da prisão de Lula: se não for liberto agora, quando será?

Liberdade rima no pensamento com a possibilidade de perguntar. As crianças perguntam, os que não têm certezas perguntam. Por que mesmo a prisão? Dizem que Lula é ladrão e corrupto. A Justiça virou e revirou sua vida e a de sua família ao avesso e o que encontraram? Dono do triplex construído pela OAS sem escritura ou registro de imóveis. Como assim é o dono do triplex se ele foi vendido pela construtora?

A teoria para justificar a prisão de Lula foi a Teoria do Domínio do Fato. É fácil ler sobre ela, pois se encontra na internet. Vale a pena perder uns minutos para entender que é uma teoria perigosa. Nunca foi usada no Brasil até o mensalão, e depois agora, na operação Lava Jato. Não se precisa de provas, segundo a Teoria do Domínio do Fato, para se prender e condenar. O nome da teoria já esclarece que se resume a reunir indícios, fazer suposições, para condenar. Felizmente, há poucos dias foi lançado um manifesto assinado por 464 juristas conhecidos pedindo a liberdade de Lula.

Os juízes que condenaram Lula serão julgados pela História, porque se afastaram da Justiça. Foram injustos e sem Justiça não há paz na sociedade. Quem venceu as últimas eleições, foi o elogio da metralhadora, o elogio da guerra, da injustiça, de uma verdadeira loucura. Os povos adoecem como ocorreu com a Alemanha, Itália, Chile, Argentina e agora nosso Brasil. Um dia vamos recuperar o norte perdido .

Lula nasceu um nordestino pobre, operário, líder sindical e um Presidente que inovou ao construir uma maior distribuição de renda. Entretanto, um certo capitalismo ambiciona cada vez mais lucros não importando o preço social. Desconfio que sou ou somos ingênuos rebeldes, seguidores de Cervantes, Dom Quixote e Sancho Pança. Desenvolvemos as paixões positivas como escreveu Espinosa. Com paciência construímos novas parcerias a caminho de uma democracia com alegria. Um sonho sim, mas sonhar, imaginar, são passos que elevam e até emocionam.