Marielle virou semente e está crescendo em nós. Por Jaquelina Maria Imbrizi

Título: “Marielle virou semente e está crescendo em nós”.

Por Jaquelina Maria Imbrizi

Epígrafe:

“A Marielle perguntou

Eu também vou perguntar:

Quantos mais têm que morrer

Para essa guerra acabar?”

O grito de guerra, ou palavra de ordem, que abre o presente texto se refere às vozes que ecoaram nos quatro cantos do Brasil, e em algumas cidades do mundo, em 14 de março de 2019, data em que se completou um ano do brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes[1]. A palavra de ordem refere-se a uma fala e uma luta da ativista de direitos humanos que se posicionou energicamente contra a intervenção militar nas favelas do Rio de Janeiro. Ela denunciava os efeitos mais cruéis das ações policiais: a morte de jovens negros, pobres e moradores das favelas cariocas, principalmente as do Complexo da Maré, local onde Marielle nasceu e cresceu. Trata-se aqui de uma vereadora que traz intrinsecamente em sua plataforma política suas origens, experiências e trajetória de vida: nascida das classes populares, sofreu no corpo e na carne as agruras das desigualdades sociais e raciais brasileiras.

O atual deputado federal Marcelo Freixo conta que conheceu Marielle ainda muito jovem em um evento de formatura na escola que a irmã da vereadora, que foi aluna de Freixo, frequentou. Marielle logo se interessou pelas lutas contra a desigualdade social que pautam a trajetória política de Freixo, foi sua assessora durante anos e eleita vereadora da cidade do Rio de Janeiro no pleito municipal de 2016, com 46.502 votos, para a legislatura 2017-2020. Foi a segunda mulher mais votada para a vereança no Brasil naquele ano. Ela coordenou a Comissão de Direitos Humanos na Câmara de Vereadores. Vinha se destacando por um mandato inovador, aberto à participação popular e com vistas à luta pelos direitos das mulheres negras e contra a morte de jovens negros cariocas, pautada por conversas frequentes com mães que perderam seus filhos em consequência da violência do Estado. Foi “relatora da comissão do Conselho criado para fiscalizar operações policiais após o início da intervenção do Exército na segurança pública do Rio” (Anistia Internacional, 2018). Atuava também no desenvolvimento de políticas de apoio aos familiares de policiais militares mortos em serviço. Essas ações lhe renderam duas pechas: a primeira, de que defenderia bandido, o que já revelava muito da posição de muitos brasileiros que acham que “bandido bom é bandido morto” e não merece cuidados ou qualquer tipo de defesa; e a segunda, de que estaria de conluio com os policiais militares e milicianos. Não importava a direção em que combatesse, sempre de modo irrefreável, recebia críticas pesadas de seus adversários, fossem os fanáticos, fossem os conservadores.

Ao contrário de Marcelo Freixo, que vem se destacando no enfrentamento às milícias no Rio de Janeiro – criou em 2008 e coordenou a CPI cujo “relatório final pediu o indiciamento de 225 políticos, policiais, agentes penitenciários, bombeiros e civis” (FREIXO, 2019a) e há mais de dez anos sofre ameaças a ponto de ter policiais destacados para garantir sua segurança –, Marielle não estava envolvida diretamente com essa comissão, não sofria ameaças. Ainda assim, segundo informações que emergiram dias antes do aniversário de sua morte, dois ex-policiais militares com comprovado envolvimento com as milícias foram presos, acusados de matar a vereadora. A prisão dos supostos executores não invalida a questão que não quer calar: “Quem mandou matar Marielle?”. Os dois presos têm ligações com a família do atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, a ponto de morarem no mesmo condomínio e exibirem fotos nas redes sociais em momentos de confraternização. Atualmente, o ex-secretário Fabrício Queiroz, que trabalhou no gabinete de Flávio Bolsonaro – um dos filhos do presidente –, está desaparecido e seria o principal elo para desvelar os mandantes do crime. Assim, nas redes sociais o que aparece é um novo modo de formular a questão: “Quem mandou o vizinho de Bolsonaro matar Marielle?”.

Outro dos filhos do presidente, Carlos Bolsonaro, postou no Twitter, no dia 14 de abril, a seguinte frase: “Ninguém conhecia quem era Marielle Franco antes de ela ter sido assassinada”. A crítica à lógica que pauta o discurso de Carlos é bem importante para a construção da argumentação deste texto, em que convido o leitor ao exercício da reflexão crítica e compartilhada. Podemos enumerar três questões para reflexão:

Em primeiro lugar, ao desvalorizar a trajetória pregressa da vereadora, o filho do presidente aponta o assassinato violento como responsável pelo aumento vertiginoso do interesse da população pela memória de Marielle, confirmado pela quantidade de atos pedindo justiça organizados para a data em que se completaram 365 dias de seu assassinato sem indícios palpáveis de resolução do caso.

Sim, eu também não sabia da existência de Marielle antes de sua morte, mas depois da notícia de seu assassinato brutal e da profunda tristeza daí advinda, fui me deparando com as ideias e os ideais que pautavam sua carreira política: um projeto de sociedade mais igualitário que visava garantir o direito à mobilidade na cidade para todos e todas sem exceção, a luta contra as mortes bárbaras de adolescentes, o posicionamento explícito e contrário à intervenção policial nas favelas do Rio de Janeiro. Tudo isso desembocou no fato de que Marielle vem se transformando num símbolo da luta por um Brasil menos desigual. Ela também se transformou em ícone do repúdio às raízes escravocratas que ainda dão sustentação ao nosso racismo estrutural. Freixo, em entrevista ao canal GloboNews em 14 de março de 2019, explicita seu susto e a forma como foi surpreendido ao se direcionar ao velório que aconteceria na Câmara de Vereadores, situada na região da Candelária, e ver milhares de pessoas participando da cerimônia de despedida e homenagem à vereadora. A surpresa está no fato de que Marielle se agigantou e houve um crescimento vertiginoso do reconhecimento por sua coragem de defender pautas que colocaram em risco sua própria vida e, mais do que isso, de que sua voz dissonante enfrentando o status quo está sendo escutada. Assim, Marcelo Freixo classifica o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes como crime político, pois o interesse dos assassinos era o de exterminar o projeto de sociedade que a vereadora representava. Para o parlamentar, hoje é o mundo que não quer perder ativistas políticas como as muitas Marielles que têm a coragem de lutar pela instauração de sociedades igualitárias.

Em segundo lugar e não menos importante, nenhuma pessoa, conhecida ou não, merece a morte por meio de um assassinato brutal. Deveríamos nos estarrecer, nos indignar com o assassinato de qualquer um, pois todos, sem exceção, pertencemos à comunidade humana (BERTOL, 2019). Não devemos naturalizar a violência armada e a violência estrutural relacionada à violação de direitos e, sim, devemos considerar cada um como sujeito de seu desejo: independentemente da classe social de origem, independentemente de etnia e cor da pele, independentemente de gênero e orientação sexual, independentemente da região em que mora.

Portanto, a autora aqui se posiciona contra a lógica da afirmação de Carlos Bolsonaro e afirma: nenhuma vida, conhecida ou não, merece um assassinato brutal e toda morte é “passível de luto” (BUTLER, 2015a) e deve ser punida de acordo com as leis criadas historicamente pelos homens. O que significa que a dor inerente ao luto, ao ser elaborada, pode ser transformada em luta coletiva, não precisa ser reduzida a uma experiência privada, vivida isoladamente e pautada no silêncio mortífero. O fato de ser uma pessoa conhecida antes ou depois de sua morte não altera o fato brutal do crime que precisa ser esclarecido – e que se faça justiça colocando os mandantes na prisão. O mais contraditório aqui é o fato de que o combate da vereadora também estava associado à luta pelo direito das mães de chorarem, darem visibilidade e buscarem justiça para a morte violenta de seus filhos. Como afirma Butler (2015a), algumas vidas são consideradas descartáveis no capitalismo contemporâneo e, em decorrência, muitas vezes não são passíveis de luto. No Brasil também, diante dos altos índices de violência contra nossos jovens, negros e periféricos, já existem muitos movimentos sociais criados e compostos por mães que perderam seus filhos em razão da violência do Estado. Para muitas dessas mães, os direitos que estão sendo negados são o de velar o corpo, o de ter informações sobre a causa mortis, o de ter acesso a esclarecimentos para que a justiça seja feita e, após tomadas as devidas providências, para que a punição seja perpetrada. Mais do que isso, que construamos instituições fortes e fruto do pacto social entre os homens, para que possamos barrar a violência desenfreada contra alvos certeiros.

O Atlas da Violência de 2016 ajuda na identificação de uma violência direcionada a uma população específica: diariamente mais de 171 pessoas são assassinadas no Brasil; por ano são 62.517 pessoas e, destas, 33.590 são jovens. Entre os jovens, é a população negra que mais sofre, sendo sua taxa de homicídios 2,5 vezes superior à de não negros (IPEA, 2018). Segundo Bertol (2019), “apesar de serem as principais vítimas dessa violência, os adolescentes e jovens e sua impunidade são apontados como um dos principais culpados por ela”. Em vez da culpa, a psicanalista afirma a importância do conceito de responsabilidade social, desenvolvido pela filósofa Judith Butler (2015b), que visa articular a reciprocidade entre os adolescentes considerados violentos e as condições oferecidas pela sociedade para sua formação. Ou seja, é no laço social que construímos nossas relações de submissão ou não às leis baseadas em noções de direitos e deveres e que pautam pactos sociais construídos historicamente. Qual o pacto social (PELLEGRINO, 1983) que estamos propondo às nossas crianças, aos nossos adolescentes e jovens que vivem em situação de vulnerabilidade social?

Em terceiro lugar, há que se assinalar que a injúria relacionada ao assassinato violento de qualquer pessoa é ampliada e aprofundada quando nos deparamos com o fato de que Marielle ocupava um cargo público e foi ali colocada como resultado de eleições democráticas, o que transforma a violência de seu assassinato em um crime contra a humanidade. Acresce-se a isso o fato de que a luta da vereadora era contra a violência direcionada aos jovens negros,oque parte da sociedade tenta ocultar. Sem falar no dado agravante de que o assassinato de Marielle põe em questão outra mazela da sociedade brasileira: é o país das Américas que mais mata ativistas de direitos humanos. No caso específico do Rio de Janeiro, qualquer pessoa que se coloque como barreira para o poder dos milicianos é alvo de exterminadores implacáveis. Cabe lembrar o assassinato, em 2011, de Patrícia Acioli, juíza carioca que teve o carro metralhado na porta de sua casa por milicianos que estavam sendo julgados por ela. No caso dos ativistas, podemos citar Chico Mendes e sua luta ambiental, em 1988, e tantos outros representantes de movimentos sociais que morreram por causa de seus embates a favor de um projeto inclusivo e igualitário de sociedade. O intuito deste texto é o de não naturalizar e, mais do que isso, é o de denunciar essas mortes e a violência que cresce alucinadamente em nosso país, agora quase legitimada por um governo de extrema direita que incita o ódio em suas práticas e em seus discursos. No momento em que termino as últimas linhas deste texto, há a notícia de uma família metralhada com 80 tiros por militares na cidade do Rio de Janeiro.

Aos poucos, a morte de Marielle vai desvelando mais e mais a mulher que dizia não admitir ser interrompida, que não seria silenciada, nem ela nem a violência desenfreada contra uma população específica da qual seu corpo, mente e afetos eram partes intrínsecas, na medida em que ela também era negra, nascida na periferia, mulher, socióloga, ativista pelos direitos humanos, bissexual e casada com uma mulher. Como diz Laymert Garcia dos Santos (2019), Marielle representava em sua própria pele “um feixe de lutas”. Uma das lutas mais importantes talvez seja o embate contra uma violência invisibilizada, um estarrecimento diante dos 62.000 homicídios anuais, marca de um Brasil que parece estar em guerra civil contra sua própria população, pois mata mais do que países que estão em guerra declarada.

Portanto, a fala de Carlos Bolsonaro tenta silenciar Marielle mais uma vez e visa encobrir o que a interseccionalidade de suas lutas representava e há de representar. Em vez disso, no lugar do silenciamento, o que constatamos é que os esforços da vereadora estão sendo reconhecidos em todas as partes do mundo. As placas de rua com seu nome colocadas em espaços públicos, as homenagens em universidades dando seu nome a auditórios e o reconhecimento de sua trajetória política espalham-se pelos quatro cantos do planeta.

Este texto se posiciona a favor da democracia e contra a barbárie e visa também construir uma narrativa que reflita sobre o legado de Marielle Franco e sobre quais seriam as nossas estratégias para elaborar coletivamente o luto pela morte de uma ativista de direitos humanos que representava um projeto de sociedade abolicionista e, por isso, pautado no princípio de que desigualdades sociais e econômicas são incompatíveis com ideais libertários. Nesse bojo de princípios, todas as vidas são passíveis de luto e o assassinato brutal de Marielle deixa em seu rastro a nossa responsabilidade ética com os jovens em luta pela vida e com a construção de uma sociedade democrática. Essa responsabilidade pode ser produzida a partir e em decorrência da forma como nos posicionamos diante da interpelação da morte.

A morte nos interpela de várias formas, representa simbolicamente a nossa finitude e nos coloca frente a frente com o desamparo e a angústia, pois, como nos indica Freud, a morte não pode ser representada em nosso inconsciente. No que se refere ao processo de socialização nas sociedades ocidentais, que impõe a cada um o fruir de uma felicidade compulsória e onde a morte e a fragilidade humana ficam escamoteadas e acantonadas, o que resta é a cristalização do medo e da angústia. Diante dessa interpelação, há diferentes modos de posicionamento subjetivo ante a injúria da morte e aqui vamos citar duas vias: a que traz o silenciamento mortífero que pode produzir a melancolia e a outra que pode levar à incorporação de características da pessoa, que alimenta e impulsiona o sujeito a encarnar seus ideais, lhe dá forças para se levantar e ir à luta e abraçar a vida.

Em seu texto de 1917, Freud diferencia o luto da melancolia. O luto é um tempo de elaboração da perda sofrida. Essa ideia destaca o reconhecimento de que com a morte houve a perda do objeto de amor. Essa perda cava, corta um pedaço de si. Na melancolia, há o assujeitamento do sujeito à dor, há a ênfase no sofrimento e nas angústias advindas da perda de um amor. Todas as nossas moções destrutivas são conduzidas ao objeto perdido e, muitas vezes, o ódio é direcionado ao próprio sujeito em sofrimento, que perde pouco a pouco a autoconfiança. Assim, cada vez mais há o risco de o sujeito responder à interpelação da morte aproximando-se de uma posição subjetiva melancólica diante das agruras da vida.

No caso da morte de Marielle, há o risco de o sujeito reagir de forma a perder os ideais que se relacionam a um projeto de sociedade. O inesperado de sua morte abrupta, assassinada enquanto voltava de uma atividade de trabalho, impacta quase todos. Revela mandatos de silenciamento sobre a desigualdade social, propondo um lugar de apassivamento que dispara um constrangimento que produz angústias inenarráveis nas pessoas.

Como contraponto, há um modo de interpelação que a injúria da morte provoca nos sujeitos que pode nos levar a deixar mais claros os motivos de nossa luta. Levamos, assim, junto aos nossos passos o legado de amor que a pessoa deixou em seus rastros. Freud sustenta que, no processo de elaboração do luto, há um momento em que incorporamos características da pessoa que desapareceu. Nesse sentido, o post que circulou nas redes sociais “Marielle virou semente” é valioso, pois elaborar o luto diante da perda da vereadora é reavivar a memória dos ideais que pautaram sua trajetória. A maior declaração de amor que podemos fazer a ela é agirmos de modo a continuar perseguindo a construção de uma sociedade igualitária e abolicionista, afirmando que cuidaremos das vidas negras e periféricas e combateremos as forças que corroboram as políticas de extermínio em nosso país.

O mais inusitado nesse ciclo elaborativo é o fato de que, na maioria das vezes, saímos fortalecidos da empreitada porque o sujeito, ao incorporar características do ente que morreu, mantém vivo o laço que aprendeu a tecer com a pessoa que desapareceu do seu  cotidiano. Por mais que não tenhamos convivido diretamente com Marielle, sentimos sua força no ar, como o legado da imagem que fica e fecha este texto: a vereadora cercada por policiais e câmeras fotográficas por todos os lados. Que força e que coragem ela nos transmite nesse caminhar altivo de quem sabe muito bem pelo que, para quem, para onde e por que vale a pena lutar. A alegria e o sorriso largo de Marielle podem operar como antídoto contra afetos melancólicos. Pois a alegria e a esperança por ela transmitidas são revolucionárias. Eliane Brum (2019) assinala que Marielle “ousava rir, e ria muito, como fazem as mulheres que sabem que rir é um ato de transgressão, já que chorar é o que se espera de nós”. Transgredir, em tempos sombrios, é um modo de alimentar a esperança que está relacionada com o amor, o amor fatipor toda a humanidade. Cada vez mais nos aproximamos da ideia de que a luta tem uma dimensão de cura, pois, ao compartilharmos ideais e bens comuns em um coletivo, nós ficamos menos sozinhos e com-vivemos com a esperança de um futuro melhor para todos e todas. Como já nos ensinava Lulu Santos na letra de uma canção nos idos anos 1980: “Mas o seu amor me cura de uma loucura qualquer”.

Contudo, cabe aqui assinalar que as possibilidades de elaboração do luto dependem de características subjetivas, mas também dos suportes sociais, culturais e institucionais a que temos acesso e/ou que podemos construir com vistas ao bem comum. A organização de atos públicos que convidam à ocupação da cidade e aos gritos de guerra para desopilar o espírito e o corpo é um suporte fundamental para a elaboração coletiva e política do luto.

Assim, é possível sustentar a ideia de que o evento do dia 14 de março de 2019, que ocorreu em várias capitais do Brasil e na cidade de São Paulo foi intitulado “Justiça por Marielle: Vidas Negras e Periféricas Importam”, foi um momento basilar para o processo de elaboração do luto de modo a fortalecer as moções de vida e de forma a não nos deixar nos submetermos aos ditames de um governo de extrema direita.Em São Paulo, oato aconteceu em um espaço públicoeo ponto de encontro foi marcado na Praça Oswaldo Cruz, às 17 horas. Após falas de vários líderes, os participantes seguiram em caminhada até o final da Avenida Paulista, tendo como ritual de encerramento a leitura do manifesto “Justiça por Marielle”, feita por parlamentares mulheres, muitas delas participantes da Bancada Ativista, mandato coletivo do PSOL na Assembleia Legislativa, vigente de 2019 a 2022.

Portanto, a importância de um ato público em memória de Marielle e Anderson é possibilitar a elaboração coletiva do luto que, longe de propor o esquecimento, recolhe o grito de Marielle e reaviva a memória dos ideais que pautaram sua luta. O luto não é individual, é social e político, e o processo psíquico de sua elaboração também. Participar de um ato organizado por grupos que pautam diferentes lutas políticas – tais como mulheres do PSOL, MST, MTST, líderes de movimentos sociais e religiosos etc. – possibilita a elaboração coletiva do luto. Quem somos nós depois da morte de Marielle? Como o ato público nos ajuda a nos posicionarmos diante da morte? Qual a importância de um ato organizado por vários movimentos sociais?

A organização do ato incluiu momentos distintos, com aula pública, falas de lideranças de movimentos populares e partidárias e a presença de uma líder religiosa de matriz africana. Analisemos a importância desse acontecimento no ato. A proposta dessa liderança era que todos e todas falassem em uníssono “Marielle, boa viagem”, num ritual que nos reposiciona diante da morte, a finitude compreendida como passagem para outro lugar, como uma viagem. Mas para que essa transposição aconteça é necessário dar liberdade à pessoa que morreu. A elaboração do luto aqui atinge a conotação de que os que ficaram precisam deixar que a pessoa vá e complete seu ciclo. O sofrimento pode ser transformado em fala coletiva e, a cada afirmação da líder religiosa, todos e todas os que participavam eram convidados a entoar: “Marielle, boa viagem!”. Elaborar o luto é também inventar palavras e ritos para a partilha de valores que importam e pode significar deixar que Marielle complete sua viagem, que é também a jornada de todos nós, com liberdade e leveza. A fala em uníssono, o partilhar das vozes e da mesma mensagem também nos convidava a sair do choro e do sofrimento passivos e a entrar em uma entoação ativa das vozes ecoando no coletivo, deixar Marielle ir com a clareza de que só assim é possível deixá-la ficar – ela e tudo o que ela representou. É aquilo que fica de Marielle que nos move, nós incorporamos seu legado. Nós somos fortes, somos muitas e muitos. Assim, nosso luto, elaborado no coletivo, transforma-se em luta. Não deixaremos a extrema direita nos dominar, levantemo-nos contra as forças conservadoras.

“Marielle, boa viagem!”

Escrevo este texto ainda afetada pela experiência de participar da caminhada; por ainda sentir o arranhão que o grito de guerra deixou em minha garganta; por ter deixado meus rastros na rua ocupada em um ato em memória de Marielle Franco e Anderson Gomes. Ato que já explicitava em seu título a violência do Estado contra vidas específicas: jovens, negros, indígenas, contra os quais a morte parece estar autorizada, quase que naturalizada, na sociedade capitalista contemporânea. Mais do que isso, percebi que, ali sentada no meio-fio já molhado pela chuva que caía insistentemente, eu estava participando de um ato político que velada ou explicitamente visava à elaboração coletiva do luto. Assim, ao mesmo tempo que participava calorosamente de uma atividade política, eu sentia a falta gélida de um coletivo, um maior número de pessoas que se incorporasse à luta e quisesse fazer a diferença, mostrar sua marca e expressar sua indignação contra a violência que corrói nossa sociedade. Nunca fomos tão violentos: o Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, com 726 mil pessoas, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. Talvez a especificidade do nosso país seja oferecer condições insalubres em seus presídios compostos em sua maioria de homens negros, o que escancara a relação perversa entre etnia e pobreza. Há uma política de extermínio em ação em nosso país, queiramos ou não enxergá-la e enfrentá-la.

A minha primeira pergunta depois de ter participado do ato em memória de Marielle e Anderson era, diante da beleza do que ouvia, via e sentia entranhado em minha própria pele: como não conseguimos fechar as duas vias da Avenida Paulista diante de um evento tão importante para nossa memória coletiva e para juntar forças para resistir à barbárie cotidiana? Como se, com a presença de um grande público, pudéssemos desacelerar uma das avenidas mais movimentadas da América Latina e, quiçá, esse gesto nos autorizasse a dar o próximo passo sem tanto medo. Um movimento simbólico para que o medo da nossa própria morte não pudesse paralisar o devir de nossa atividade política, aquela que depende da elaboração da dor e do trauma diante da morte por violência extrema. Talvez nós, como coletivo, não tenhamos reduzido o ritmo alucinante da Avenida Paulista por causa de certa melancolia diante dos crimes violentos ou até por certa adesão de algumas pessoas ao discurso do medo e da necessidade de segurança que a morte violenta da vereadora pode vir a reafirmar. Como não pedir para tocar Raul Seixas: “Eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”?

Nesse caso, a impressão que fica é a de que, ao não fecharmos a Avenida Paulista em um momento tão importante politicamente, isso demonstra certo silenciamento mortífero que acaba por corroborar a violência desenfreada. Quase uma melancolização de parte da população. Em lugar disso, para aqueles que conseguiram tirar o traseiro da poltrona confortável do espaço fechado de suas casas, a rua transformou-se em palco para o grito contido há tanto tempo e o ativismo político transformou-se em antídoto para o não enlouquecimento diante do crescimento das forças conservadoras de extrema direita em nosso país. É possível criar outras narrativas nas quais o amor, a convivência com a diferença, a luta pela equidade social e econômica sejam pontos comuns para a construção de uma sociedade democrática. Como nos alerta João Guimarães Rosa: “Qualquer amor é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”.

Jaquelina Maria Imbrizi

Professora Associada da Universidade Federal de São Paulo, campus Baixada Santista. Membro dos Laboratórios de Psicanálise da Unifesp Baixada Santista e Psicanálise, Sociedade e Política da Universidade de São Paulo.

 

 

Referências bibliográficas:

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SANTOS, Lulu (1989). Tudo bem. Letra disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=EgLscRzFHoE>. Acesso em abr. 2019.

[1]Ato público “Justiça por Marielle: Vidas Negras e Periféricas Importam”, organizado por várias entidades, como mulheres do PSOL, MST, MTST. Evento disponível em: <https://www.facebook.com/events/2254054498142281/>.

No dia 14 de março de 2019, completou-se um ano do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.No Brasil e no mundo, o nome dela foi lembrado em luta. Marielle Franco representa a história de centenas de mulheres negras e de um povo que sofre uma injustiça persistente e secular. Enquanto nossas vozes clamarem por justiça, nós nos organizaremos e lutaremos. Por isso essa data sempre será de ação e de braços erguidos. Marielle e Anderson, presentes!